Por trás das câmeras
23 Desculpe o meu carisma
Notas iniciais
Quando já estou no quarteirão da minha casa, os pensamentos que cortam o meu coração são substituídos pela doce imagem da minha cama. Estou morta depois de um dia de gravação e uma noite de bebedeira. Completamente esgotada, mas sei que não vou poder capotar no segundo em que vejo uma pessoa parada no meu portão, e a reconheço.
Jooheon está lá, com uma embalagem em mãos e me fazendo ter uma confusão mental. Fico encarando-o, procurando uma explicação para sua presença em seus olhos, mas eles não me dizem nada que eu já não saiba: que ele está levemente alcoolizado. Então pergunto o óbvio.
“Como você chegou aqui antes de mim?” Isso realmente está me tirando do sério. Não notei sua presença em nenhum momento, não fiz paradas e andei razoavelmente rápido. Ele ri, como se esperasse por essa pergunta.
“Eu vim de táxi.” Incha o peito para responder e sei que espera reconhecimento pela sua inteligência.
“Como assim você vem de táxi para a minha casa e nem me oferece carona?! Que absurdo!” Apenas finjo estar indignada, mas na real não me importo (sou uma pessoa estranha que gosta de andar).
“Aaah, até parece que você iria aceitar minha oferta!” Dou de ombros, sem negar. “E você não vai me convidar para entrar? Aish, você é uma péssima anfitriã.” A indignação também fingida dele faz um sorriso surgir nos meus lábios (ele fica tão fofo assim, não consigo controlar minha reação).
“Não posso ser uma péssima anfitriã quando nem ao menos estou tentando ser uma. Você é um intruso, não uma visita.”
Desvio dele para abrir o portão e depois a porta, mas, em vez de fechá-la quando passo, a deixo escancarada, e esse é o meu convite. Claro que ele o aceita e adentra minha residência logo depois que o faço. Tiro a jaqueta, pois não há a necessidade de utilizá-la em ambientes fechados, e noto a forma descarada que os olhos dele seguem as minhas curvas. Os meninos passaram a noite fazendo isso, sei que as vezes é um ato meio inconsciente e até mulheres o fazem, mas o fato de ser Jooheon praticando-o, não qualquer outro, me anima.
“Pode retirar o casaco, se quiser.” Falo quando acho que o tempo de apreciação ao meu corpo foi suficiente. Ele acorda da sua transe e, meio envergonhado, tira o casaco. “Bom, agora você parece mais confortável. Não que eu esteja querendo ser uma boa anfitriã. Você ainda é um intruso.” Faço questão de ser chata, mas com um sorriso nos lábios. “Mas então, a que devo a honra da sua invasão?”
No momento em que pergunto, sei que a visita não é tão despretensiosa quanto penso. Jooheon está visivelmente tímido, noto que chega a corar, e não pára de encarar o pacote pequeno em suas mãos, que aperta como se guardasse o bem mais valioso do universo. Minha curiosidade é despertada e eu passo a realmente querer saber o que é tão importante para ele.
“Eu... Er... Eu vim te trazer o teu presente de aniversário.” O leve tom avermelhado fica mais forte e penso que suas orelhas vão explodir, de tão quentes que estão. “Sabe, você me deu um, e eu não te dei nada. Você fez aniversário quase no mesmo dia...” O interrompo com um riso. Não pretendo debochar, mas é incontrolável. Sinto-me feliz ao ponto que não consigo segurar uma risada leve e feliz. Em vez de ficar com raiva, ele parece mais confiante, e finalmente consegue me olhar, com um pequeno sorriso nos lábios.
“Você sabe que não precisava, certo?” Aproximo-me para pegar o pacote e, no momento em que coloco a mão nele, Jooheon não tira a dele. Olho para as nossas mãos juntas e é a minha vez de ficar tímida.
“Mas eu realmente queria te dar algo. Você fez tanto por nós, realmente trabalhou duro, e pensei que essa seria uma boa forma de retribui-la. Só demorei porque tive que encomendar pela Internet...” Relutante, ele tira a mão do pacote, deixando-o aos meus cuidados.
Sinto-me nervosa. Isso é algo que ele considerou, realmente pensou sobre, ao ponto de ir procurar na Internet. É um presente escolhido a dedo, de Jooheon para mim, e pensar no que poderia ser faz meu coração acelerar ao ponto de estufar meu peito e me deixar sem ar. Rasgo a embalagem, desesperada para descobrir o que ela esconde, e acabo entrando uma pequena iluminaria do Batman, daquelas que reproduzem o Bat Signal no teto. Fico olhando, sem esboçar qualquer sentimento, já que eu sempre quis uma dessas e, se me deixar ter a reação que quero ter, vou sair gritando e pulando pela casa.
“Sei que é algo pequeno e sem graça, mas pensei que, quando você ficar com medo do escuro, pode chamar o Batman para te proteger...” Mais uma vez, o interrompo com um riso alto, leve e solto. Antes que raciocine o que é certo ou errado, apenas solto o presente em cima da mesa e o envolvo em um abraço, escondendo meu rosto entre seu pescoço e meu próprio braço. Como consequência, acabo absorvendo todo o seu cheiro (que é delicioso, vale mencionar).
“Eu já te disse que não sou nenhuma personagem de dorama para precisar ser protegida.” Falo contra a sua pele, com a voz meio abafada, e o sinto tremer de leve contra o meu corpo. Os braços dele envolvem minha cintura, suas mãos tocam delicadamente a pele que a blusa não consegue cobrir, e é a minha vez de tremer.
“Mas você não parece ter desgostado.” Consigo ouvir a satisfação na sua voz, o que me faz sorrir. Levanto minha cabeça para observá-lo e noto o sorriso bobo e gigante em seus lábios, o que faz com que seus olhos fiquem minúsculos e as covinhas apareçam (lê-se: olhem como o Jooheon está lindo). Meu coração pára por um segundo por conta do tiro que levou, mas logo volta a bater tão forte que penso ser capaz de gravar uma música com a percussão que cria (sem exageros).
“Eu adorei, Jooheon. Para falar a verdade, acho que foi um dos presentes mais legais que já ganhei na vida. Simples, delicado, mas perfeito. E, vindo de você, ele se torna mais especial ainda.” Sou honesta no que eu falo e espero conseguir transparecer isso.
Ele me encara, provavelmente sem resposta, e eu mesma, apesar de ter milhares de coisas que eu gostaria de dizer (como, por exemplo, "eu estou completamente apaixonada por você"), não sinto nenhuma urgência em quebrar o silêncio. Quero apenas observá-lo, sorver cada detalhe do seu rosto, dos seus lábios em formato de coração, que estão tão próximos... Sei que hoje foi meu último dia de trabalho na Starship, então eu deveria estar livre de qualquer obrigação perante os meninos, principalmente quando não tem nenhum lixo humano para encher meu saco, mas não estou pelo simples fato de eu ser uma profissional e eles, idols. Mas esse pensamento não persiste, simplesmente não consigo me concentrar nele, não quando eu e Jooheon estamos compartilhando o mesmo ar, próximos demais. Isso cala a minha consciência. Eu o quero e seu olhar me diz que o sentimento é recíproco.
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