No meio da tarde, Cynthia e Edward estavam entediados e com fome, depois de tanto tempo presos naquele apartamento, olhando um para cara do outro, então ele foi até a geladeira e olhou lá dentro.

— Não tem nada aqui? Como vocês sobreviviam?

— Pedíamos comida – Cynthia esclareceu de má vontade.

— Acho melhor fazermos isso, porque temos muito tempo pela frente. O que quer comer? – Ela deu de ombros, com desdém. – Então, eu escolho.

Enquanto, Edward fazia o pedido ao telefone, Cynthia relembrou como tudo começou, com os dias que Julie chegava em casa, reclamando das exorbitantes quantias de dinheiro de origens obscuras das contas que administrava, mas, no banco, ninguém fazia perguntas.

— Como alguém pode ganhar tanto dinheiro e a gente aqui nessa dureza? – Julie indagava, irritada com a injustiça. – Está na cara que esse dinheiro é no mínimo ilegal.

Foi na boate Cherry em que Cynthia trabalhava, onde seu colega Ramon cogitou a possibilidade do golpe.

— Como alguém pode ter tanto dinheiro e a gente aqui nessa dureza? –questionou, irritado, depois que um cara com um terno feito sob medida, usando um relógio que valia um ano de trabalho deles o destratou, quando ele derrubou algumas gotas da sua bebida no balcão.

— Julie diz essa frase sempre – Cynthia relembrou, sorrindo, quando secava um copo.

— Julie é a sua namorada que trabalha naquele grande banco? – Ramon perguntou, interessado.

— Ela trabalha com grandes contas, que mobilizam milhões e diz que é tanto dinheiro, que eles nem percebe se os números caiem ou sobem alguns milhares.

— Eu só precisava desse pouquinho esquecido para melhorar a minha vida. E se alguém pudesse tirar só umas migalhas de cada conta, seria muito dinheiro para nós, mas nada para eles.

— Não, isso é impossível, eles têm um sistema de segurança intransponível.

— Sua namorada tem acesso à senha de segurança? – Ramon continuar a pensar, enquanto trabalhavam.

— Mas, somente com a senha dela não se pode movimentar as contas.

— Contudo, pode nos ajudar a entrar no sistema, eu conheço um cara que sabe como fazer isso. Ele é mágico!

—Você só pode estar brincando, não é, Ramon? — Ela ficou assustada.

— Não, não estou. Podemos sair dessa dureza.

— Cometendo um crime?

— Se fizermos tudo direitinho, vai demorar um bom tempo para eles perceberem o sumiço do dinheiro, então, estaremos bem longe. Se você conseguir a senha da sua namorada, eu consigo o cara que pode trazer o dinheiro para a gente.

Como muita dificuldade, usando vários subterfúgios, Cynthia conseguiu a senha da namorada, sem que ela percebesse, e a entregou a Ramon, algum tempo depois ele a comunicou que a operação estava em andamento. O dinheiro era retirado aos poucos, migalhas diante do montante total, e mandado para várias contas em diversos países. Porém, o que eles menos esperavam aconteceu, Julie descobriu o desvio do dinheiro, contou para o chefe, quis denunciar o roubo e, por causa disso, foi demitida, por isso, tiveram que assustá-la, fingir que ela estava sendo perseguida pelos verdadeiros criminosos, para que não fosse a polícia, sem saber que a sua própria namorada estava envolvida no golpe. Aquela história de uma mansão no meio do nada e o tal estudo comportamental faziam parte do um louco plano bolado por Julie para que desaparecesse para sempre e assumisse uma nova identidade, mesmo relutante com a ideia, Cynthia aceitou participar, arrumaram o dinheiro para bancar aquela farsa, pois por enquanto ela não poderia usar o dinheiro desviado.

— A comida vai chegar daqui a pouco – Edward informou, tirando-a dos seus devaneios.

— Não acredito que Julie volte para casa de novo – Cynthia falou alto algo que estava na sua cabeça. – Acho que ela me deixou.

Ramon não conseguia sair da frente do edifício de Cynthia, sem entender o que ela poderia estar fazendo com aquele cara, não podia acreditar que ela os houvesse traído desse jeito, foi quando recebeu um telefonema, na tela apareceu o rosto sorridente de Marcos, ele recusou a ligação. Alguns minutos depois, houve mais uma tentativa, dessa vez aceitou, a contragosto.

— Ramon! Você vai demorar a chegar em casa?! — Marcos parecia aflito.

— Eu não sei, estou resolvendo um problema agora – Ramon se esquivou, sem paciência para cobranças e ceninhas de ciúmes tão comum na relação entre os dois.

— Ramon, você precisar vir para casa agora!

— Marcos, eu falei que estou ocupado – retrucou, irritado.

— Estou falando sério, você precisa vir, pois é uma questão de vida ou morte – Marcos parecia realmente preocupado, Ramon sabia que deveria ser algo realmente importante, para Marcos agir dessa maneira, pois aquela não era uma atitude típica dele, por isso sem hesitar, voltou para casa.

Depois que saiu do supermercado, Julie largou o carrinho de compras no estacionamento, pois não era sua intenção levar nada, apenas a pequena mala que fez. Queria desaparecer o mais rápido possível, depois do tal de Sam ou Edward entrou em cena, porque há muito tempo parou de acreditar na namorada. Primeiro, começou com uma leve suspeita, logo após que descobriu o desvio de dinheiro das contas do banco, mesmo sendo pequenas somas, quase imperceptível, contudo ela notou que havia algo errado, mas suas denúncias foram em vão, até que ser demitida. Nessa época, observou que Cynthia estava mais agitada, cheia de segredos, dando e recebendo telefonemas misteriosos, entretanto, acho que ela estava tendo um caso. E, um dia, por um pequeno descuido, descobriu algumas mensagens abertas no seu e-mail, com um codinome Vega e conversas truncadas e sem sentidos, com muitos números. Por sempre ter tido uma boa memória, observou que alguns daqueles números eram conhecidos, batiam com as quantias desviadas da conta do banco. Perdida, sentindo-se traída, foi procurar a única pessoa que confiava no mundo sua amiga de infância, Loretta. As duas cresceram juntas, moravam no mesmo prédio decadente da periferia, era para a casa dela que Julie fugia e se escondia, quando o seu pai bêbado queria surrá-la ou abusar dela, sempre acobertada pela mãe da amiga, sua grande protetora. Após seu pai morreu em um estranho e suspeito acidente e sua mãe casou-se de novo, sendo assim, Julie e Loretta se separaram, quando a primeira foi morar em um bairro melhor, passou frequentar boas escolas, ter outro tipo de vida, mas nunca perderam contato, completamente. Foi em uma conversa corriqueira que Julie descobriu o talento em informática do filho da amiga, havia sido ele que descobriu toda a trama e, agora, após ela consegui os números e as senhas das contas no computador de sua casa, começou a desviar o dinheiro das contas de Cynthia e seu comparsas.