Notas iniciais
*As marcas e lugares são criações minhas. Não existem realmente em L.A. Boa leitura!

– Capítulo 1 –

– MENINA, O SONHO ACABOU.

Raquel o olhava incrédula, aquilo não era possível, não podia processar aquelas palavras. Estava nervosa, confusa e... Faminta.

– Mas seu John – choramingou – O senhor é o único padeiro em toda L.A. que vende essa delicia da minha terra. Além do mais, EU PRECISO DE AÇUCAR!!

A bebida de ontem, antes reconfortante, agora não passava de uma tremenda dor de cabeça e mal estar. Estava surpresa por não ter tido maiores problemas já que não tinha idade para beber, o que considerou um insulto, sendo tachada de mais velha. Raquel acordara deitada em sua cama sem saber como conseguira voltar até Jena lhe contar que um gentil garçom a havia acompanhado até em casa enquanto ela babava em seu braço. Teve que buscar forças de onde não tinha para levantar da cama e decidiu que hoje dar-se-ia uma folga e tomaria café-da-manhã na padaria.

– Menina, eu já lhe disse. Acabou. Já compraram todos.

– Como você pôde vender todos os sonhos para esses californianos e não para sua conterrânea?!

– Eles chegaram primeiro. – revirou os olhos. Senhor John era um brasileiro que viera morar na Califórnia há alguns anos e acabou instalando uma padaria aqui. Na verdade seu nome é João, mas ele disse que preferiu “traduzi-lo” para melhor se misturar entre os americanos. Assim, ele abriu a “John’s Bakery” e atende todos os seus clientes com um inglês cheio de sotaques. A mudança de nome do senhor John fez Raquel pensar em mudar o seu também. Rachel talvez soasse melhor para a futura estrela de Hollywood, chegou a ensaiar o nome algumas vezes no espelho como se entregasse um Oscar a si mesma, mas logo concluiu que “Raquel” era muito mais ela. – Olha querida, porque você não escolhe outra coisa da vitrine?

– Tudo bem... – Raquel suspirou – Me dá dois desses bolinhos aqui então.

Saiu da padaria devorando um dos bolinhos em direção ao bar onde fora ontem. Não estava interessada em beber novamente, mas queria agradecer ao garçom que a ajudara. Agora se lembrava de algumas coisas e tinha quase certeza de que o nome do rapaz era Marvin ou Melvin. Quem sabe Marvel? Sabia que ele era um pouco mais alto que ela e com uma cara de “bom moço”.

Caminhar pelas ruas de uma cidade quase desconhecida era assustador e reconfortante. Assustava-se porque se sentia um pouco perdida, mas por um lado relaxava por ser uma completa desconhecida também. Isso lhe dava margem para criar uma nova Raquel, uma nova imagem de si mesma, sem os olhares julgadores das pessoas.

O engraçado que mesmo se sentindo um peixe-fora-da-água, era um peixe que poderia se acostumar com aquilo, perder suas guelras e, quem sabe, ganhar asas.

Entrou no bar, menos melancólico agora em plena luz do dia, e foi em direção ao balcão para que pudesse perguntar a alguém sobre o menino-garçom.

– Desculpa Raquel, mas é melhor ficar longe do álcool até daqui alguns anos. Pelo o que você bebeu ontem pensei que estaria de cama. – Era o próprio que acabara de sair da dispensa.

– Marvin!

– Jonathan...

– Quem?

– Eu. Meu nome é Jonathan.

– Você não se parec... Ah, deixa pra lá. Aceita um bolinho? – Estendeu o saquinho de papel, Jonathan aceitou meio sem jeito. – Eu vim aqui agradecer por ter me levado pra casa ontem. Além do mais... Como sabia onde eu morava?

– Você falou muito ontem. – respondeu depois de abocanhar um pedaço.

– Tipo o que...?

– Sobre você, de onde era... E, como veio parar aqui...

– Ahn... – Raquel sentia-se tonta de novo, sabia que tinha falando muito ontem, mas não podia acreditar que tinha confiado a um estranho a sua historia de vinda. Sentia-se boba, porque agora achava sua historia boba, insensata e inconsequente. Como ela poderia ter se iludido ao ponto de achar que seria fácil assim? Que ao chegar a Los Angeles um diretor iria chama-la para um mega filme porque ela era “perfeita para o papel”. Sentia que estava prestes a chorar, e isso não ajudava nem um pouco.

– Ei, aposto que vai ser uma ótima atriz.

Raquel suspendeu os olhos, parecia uma criança, mas ela pouco se importava.

– Sério?

– Claro.

– Obrigada, Marvin.

Depois daquela manhã, Raquel ganhara um amigo. Apesar de nunca chama-lo pelo nome certo, eles pareciam inseparáveis. Jonathan trabalhava todas as terças, quintas e domingos no turno de manhã e a noite naquele bar e Raquel sempre ia na hora do almoço lhe fazer companhia, depois eles saiam para dar uma volta pela cidade. Jonathan ensinou o que pôde e prometeu que a levaria para ver de perto o letreiro de Hollywood. Enquanto isso, Raquel foi a procura de um emprego para manter-se enquanto corria atrás de audições.

Fazia quase quatro semanas que estava ali, o tempo voa de jatinho. Conseguira um emprego em uma livraria, o que era seu sonho secreto de infância. Trabalhar em uma livraria só pra poder ler todos os livros das estantes. E como Raquel é o tipo de pessoa que leva os sonhos muito a sério, sempre que podia comprava alguns livros com o desconto que tinha na loja.

Tinha vendido algumas peças de roupa suas, inclusive calças, em brechós porque emagrecera muito. Mesmo assim continuava com seu biótipo brasileiro o que disfarçava a perda de gordura pelas suas pernas grossas. A livraria tinha um uniforme muito fofo que lhe dava até orgulho de usar: um vestido preto com uma saia de pregas, um avental cor-de-menta com o logotipo da loja e o seu crachá preso como um broche. Além disso, Raquel usava laços diversos em seu cabelo bagunçado e tênis com meias de bolinhas. Mais profissional, impossível.

Graças ao seu visual descontraído e sua idade, sempre era procurada pelos adolescentes e crianças para ajudar a encontrar livros, preços e até algumas dicas, o que lhe garantia pontos com sua chefa.

– Ei, moça! – Uma menina loira, magrela e bastante bronzeada chamou Raquel com um aceno.

– Sim?

– Onde ficam as revistas? Só encontrei essas daqui da frente...

– Ah, sim. Temos uma sessão maior no andar de cima. Vem, eu te levo lá.

Subiram as escadas e percorreram alguns corredores até chegarem a um lugar cheio de prateleiras abarrotadas de revistas de todos os temas: Música, Gastronomia, Ciência, Política, Artes...

A garota percorreu a sala em direção as revistas de Moda e Entretenimento. Raquel ficou meio sem jeito em um canto tentando não incomoda-la. Passou o olho em algumas revistas e, mesmo depois de quase quatro semanas, achou engraçado tudo estar escrito em inglês.

A menina quebrou o silêncio.

– Tenho uma audição amanhã... Não faço ideia do que vestir, pensei que alguma dessas revistas ajudaria. Não tem nada do tipo “Como se vestir em uma audição mega importante”?

Raquel só ouviu a palavra “audição”.

– Uma audição? Você é atriz?

– Eu? Ah, não. Quer dizer, sou modelo. Amanhã farei uma audição para um comercial da Blent e quero estar maravilhosa e indispensável.

– Como sabe que vai ter audições? – Raquel sabia que não deveria ser tão invasiva com suas clientes, mas não podia evitar. Era a informação da sua vida.

– Ah, minha querida! É uma coisa complicada, você precisa de contatos. Alguém da área que te diga, um agente talvez. Mas nesse caso, eles divulgaram panfletos pela cidade. – Ela estendeu um papel colorido meio amassado.

AUDIÇÃO PARA COMERCIAL DA BLENT

PARA ATORES E MODELOS

PRÉ-REQUISITOS: MULHERES DE 16-20 ANOS

TEL: 438-5523

Raquel nem terminou de ler o panfleto, não podia acreditar. Aquilo circulara pela cidade bem embaixo do seu nariz. Quantas oportunidades dessas passaram sem ela notar? Bem, agora ela tinha uma chance.

– Blent é uma marca de shampoo, certo? – Virou-se para a loira – Não acha que o que realmente importa é o seu cabelo?

– Isso! Oh meu deus, é verdade! Obrigada, moç... – Ela parou para ler meu crachá — Rachel.

Depois saiu em disparada pela porta em direção ao salão mais próximo esquecendo completamente do folheto na mão de Raquel.

– É Raquel. Também conhecida como “nova estrela do comercial Blent”. – murmurou rindo feito boba.

Sabia que as propagandas de shampoo eram bem toscas, mas não podia se dar o luxo de ficar escolhendo as oportunidades. Analisou melhor o panfleto, a audição era amanhã à tarde. Ela mal podia esperar!

Não! A Blent que mal podia esperar por ela.

Notas finais
Valeu por ler!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.