Por trás daquela farsa

3 Histórias de fantasma


Sam entrou no seu quarto um tanto antiquado com móveis pesados e escuros, porém, pelo menos era confortável, abriu o botão do colarinho, sentindo-se sufocado. Pensou nas estranhas pessoas com quem teria que conviver nesses próximos dias, um grupinho bastante esquisito, mas até que aquela tal de Alicia era muito gostosa, se ela desse mole, bem que poderia dar uns bons amassos nela, mas por enquanto manteria o jeito de cara certinho, até entender, exatamente, qual era o significado daquilo tudo.

Quando se conseguiu participar daquela história, achou que seria algo diferente não aquele circo sem sentido, com a tal carta-convite, com todas aquelas instruções estranhas, queria ver onde aquilo ia dar, além disso a grana era boa para tão pouco tempo e por pouco esforço, só precisa entender o que estava acontecendo ali, se tudo desse certo, poderia ser quase como umas férias remuneradas. Tirou as roupas e foi para o banheiro, tomar um banho quente, atirou-se na cama confortável e macia e dormiu profundamente, lá fora, a uma forte chuva com ventos uivantes começou a cair com um estrondo, porém ele não escutou.

Ao abrir a porta do seu quarto, Lisa sentiu um arrepio percorrer a sua espinha, aquele lugar era lúgubre e assustador, com aqueles móveis pesados e escuros, o papel de parede antigo, o cheiro de mofo, ainda não entendia como concordou com nessa história, mas era necessário, para que tudo se resolvesse. Passou a mão nos cabelos escuros e curtos, ainda não havia se acostumado com eles, muito menos com essas roupas sem graças que usava, mas era só aguentar alguns dias e logo tudo teria terminado, era estranho bancar outra pessoa. Agora, iria se trocar para tentar dormir, já que estava muito ansiosa com a perspectiva do que estaria para acontecer ali, naquele lugar, nos dias que se seguiriam. Lá fora, chovia forte, o vento fazia um barulho assustador, ela sabia que seria assim quase todos os dias que estivesse ali, era comum naquela época do ano. Assim, colocou os pijamas, puxou as cobertas, encostou a cabeça no travesseiro macio, que cheiravam bem, fechou os olhos, tentou pegar no sono, era o fim do primeiro dia.

A chuva ficou mais forte, no silêncio da noite, o barulho do vento trepidando a janela como se quisesse arrancá-las, não a deixava dormir, por isso lutou contra a preguiça, jogando as cobertas de lado, levantou-se e constatou que só a janela interna de vidro estava fechada, porém Lisa estava decidida que não enfrentaria a chuva e o frio para puxar as janelas de madeira aberta, teria que se acostumar com o barulho e tentar dormir. Foi no instante em que puxava a cortina, que notou algo se mover lá fora, estava muito escuro, forçou a visão, tinha quase certeza que era uma pessoa, talvez, uma mulher, contudo foi muito rápido, a imagem desapareceu na escuridão. Considerou que poderia ser uma das pessoas responsáveis pelas refeições ou manutenção da casa, mas o que ela estaria fazendo lá fora, correndo na chuva.

Na manhã seguinte, havia parado de chover durante a madrugada, mas fazia frio, tudo lá fora estava encharcado e enlameado, o ar úmido e o céu continuava cinzento, às 7 horas, um despertador soou em cada quarto na mesma hora, despertando os hóspedes, já que deveriam estar juntos, no horário marcado para as refeições, assim se aprontaram e desceram para o salão principal. Na hora exata, Marion abriu a porta e encontraram a mesa já posta para o café da manhã, sobre ela, haviam salsichas, ovos mexidos, torradas, manteiga, geleias, sucos, leite, café e chá, um típico café da manhã inglês. Os lugares marcados mudaram de posição.

— Pelo menos, se come bem nesse lugar – Bruno observou, enchendo o seu prato com ovos mexidos e salsichas.

— Vocês ouviram a chuva de ontem à noite, foi aterradora, principalmente, dentro de uma casa velha como essa – Marion comentou, quando se servia de chá e leite.

— Não vi ou ouvi nada, dormir como uma pedra – Bruno respondeu, devorando sua comida.

— Eu vi uma mulher lá fora, na chuva – Lisa revelou, todos olharam para ela, espantados.

— Como uma mulher estava andando na chuva, no meio da madrugada, em um lugar como esse? – Marion questionou, descrente – Pode ter sido um sonho ou uma ilusão da chuva – cogitou.

— Não, eu tenho certeza, estava bem acordada, era uma mulher correndo na chuva – Lisa confirmou, com veemência.

— Quem sabe, era um fantasma. Essas casas velhas costumam ter alguns espíritos atormentados em busca de paz – Sam disse, em tom de brincadeira, depois mordeu sua torrada com geleia, despreocupadamente.

— Oh! Que horror! – Alicia exclamou, amedrontada, levando as mãos à boca – Por favor, não brinque com isso!

— Mas, pode ser verdade – falou Roger, ajeitando com um dedo, os óculos sobre o nariz — Há lendas, nessa região, sobre o espírito de uma mulher, que vaga pela à noite, pela beirada do desfiladeiro, a procura de vingança.

— Mas, qual tipo de vingança? – Marion perguntou, interessada, se curvando para frente.

— Dizem que ela foi traída pelo homem que amava, se matou na véspera do casamento, atirando-se de um penhasco, agora, ela vaga como uma alma penada pelas noites, procurando vingança contra os homens traidores – Roger concluiu, de um jeito sério. Todos o encaram alguns assustados, outros descrentes.

— Meu Deus! – Alicia disse, chocada.

— Jesus! – Bruno fez o sinal da cruz.

— Isso é bobagem – Sam falou, achando graça daquela comoção. – Estava chovendo muito, Lisa deve ter visto um reflexo qualquer.

— Não, eu sei muito bem o que vi – Lisa reiterou, convicta.

— O que faremos no restante da manhã? – Bruno quis saber, mudando de assunto.

— Agora, podemos sair um pouco lá fora, por cerca de uma hora, dar um passeio – Lisa explicou.

— Deve estar tudo molhado! Um lamaçal só – Alicia fez cara de nojo. – Não quero enfiar os meus pés na lama!

— Mas é a nossa única oportunidade de sair dessa casa, vai quem quiser – Lisa retrucou.

— Pois, eu vou ficar – respondeu Alicia, cruzando os braços sobre o peito.

— Eu vou sair – Bruno decidiu.

— Eu também – Roger também confirmou e Marion assentiu com a cabeça.

— Eu fico aqui com Alicia – Sam se ofereceu.

— Não precisa, posso muito bem ficar sozinha – replicou Alicia.

— Com fantasma? Não, eu faço questão de ficar aqui para proteger você – ele afirmou, recebendo um sorrisinho simpático dela.

Irritada por seu desacreditada e não perdendo mais tempo, Lisa pegou seu casaco e calçou uma das galochas, estrategicamente, deixadas logo na entrada e saiu, sem esperar pelos outros, com passos largos, rodeou a casa até avistar a janela do seu quarto, calculando onde estaria a mulher, procurou alguma pista pelo chão, talvez, uma pegada, porém se havia algum sinal da passagem dela por lá a chuva se incumbiu de apagar, só restava muita lama. Então, ela começou a duvidar de si própria, talvez fosse só um reflexo como Sam disse ou um sonho como Mario cogitou. Já voltava, quando algo chamou sua atenção, abaixou para pegar depois esfregou a lama, que encobria o pequeno objeto, que se revelou um delicado brinco de pérola, o guardou no bolso, uma ideia veio a sua cabeça, e se isso fizesse parte do estudo do doutor Taylor, algum tipo de teste.

Alicia se viu sozinha com Sam, havia achado ele bem interessante, bonito mesmo, apesar de não ser o seu tipo, parecia sério demais, mesmo assim, poderia ser uma solução para o tédio que prometia se instalar por ali, talvez, só um flerte de brincadeira, não havia nada nas regras proibindo isso, só uma distração, um joguinho de sedução, já que ela gostava disso, principalmente, com essas roupas provocantes que usava agora, para o seu personagem.

— Enfim sós – ela brincou, assim que os outros saíram, sentados em um dos sofás da sala dos cavalheiros.

— Por pouco tempo – ele deu um sorriso travesso para ela.

— Então, em que empresa trabalha? – Alicia perguntou, se estirando, confortavelmente no sofá e se voltando para ele.

— Não posso dizer, são as regras — ele respondeu com um sorriso cínico.

— Sim, as regras – ela repetir, resignada – E você é casado?

— Não — Ele mostrou o dedo anular da mão esquerda, sem nenhum anel, e ela sorriu, satisfeita, trocou de lugar para sentar-se ao lado dele.

— Você pode imaginar, que estão nos vendo nesse exato momento – ela falou, se inclinando para ele, ficando muito perto, enquanto enrolava no dedo um cacho do seu cabelo, sensualmente, então pode notar quando os olhos deles pararam nos seus seios, que tentavam escapar pelo decote proeminente. Sam sorriu lascivo, aceitando a provocação, não seria aquela garotinha, que o tiraria da linha.

— Mas, não estamos fazendo nada demais, apenas nos entendendo – Sam sussurrou bem junto a Alicia, olhando-a nos olhos, que segurou o olhar.

— Mas poderíamos fazer? – ela murmurou – Não há regras quanto a isso?

— Não, não há – ele falou bem, perto dos lábios dela, quase se tocando, mas afastou-se, subitamente, com um sorriso torto – Mas, ainda, é muito cedo — afirmou, se levantando e saindo, deixando Alicia, surpresa, sozinha.