Por trás daquela farsa

11 Aconteceu um problema


Viaturas da polícia se incumbiram de levar os hospedes da mansão para suas respectivas residências, devido à dificuldade de transporte no local, onde eles estavam. Também, porque não poderiam mais ficar na casa, pois, agora, era um cenário de um desaparecimento suspeito, quiçá, uma provável morte misteriosa, até que se provasse o contrário.

Ramon foi deixado na frente do prédio em que morava em um bairro de classe média, abriu a porta do seu apartamento com suas chaves, Marcos surgiu na sala vindo da cozinha, e ficou surpreso com sua chegada repentina. O namorado de Ramon era mais velho, alto e magro, com um ar de intelectual dado pelos óculos redondos de armação dourada, e nas barba alourada e têmporas já surgiam alguns fios grisalhos

— Ramon! O que está fazendo aqui, hoje? – ele perguntou, com um tom de preocupação, aproximando-se para dar um beijo no parceiro.

— Aconteceu um problema, tivemos que deixar a casa mais cedo – Ramon explicou, colocando a mala no chão.

— Que tipo de problema? – Marcos indagou, curioso.

— Uma das participantes desapareceu, parece que caiu de um precipício ou algo assim – Ramon respondeu, com um certo desanimo, cansado pelos acontecimentos do dia.

— Que horror! – exclamou Marcos.

— Você está cozinhando? O cheiro está bom – Ramon perguntou, sentindo o aroma de tomate fresco e manjericão no ar. – Eu estou faminto, não comi nada desde manhã.

—Sim, estou fazendo um simples molho de macarrão – disse Marcos, meio sem graça.

Nesse momento, Ramon reparou no namorado, percebendo a roupa dele debaixo do avental, que ele usava uma camisa social e sobre o ombro havia um pano de prato.

— Por que está todo arrumado assim? – Ramon quis saber, já desconfiado, porém, antes que Marcos pudesse dar uma desculpa, a campainha da porta tocou. Com o olhar brilhando de ciúmes, Ramon foi atender, na frente da porta, surgiu um homem bonito, alto, moreno, vestindo um belo paletó bem cortado.

— Trouxe vinho para nós! – o recém-chegado falou, antes de perceber que era Ramon e não Marcos à sua frente.

Os dois se entreolharam ressabiados, o recém-chegado está atônito ao ver o outro homem na sua frente, enquanto Ramon travava a mandíbula com raiva, sem falar nada, Marcos se adiantou, para explicar.

— Não é nada disso que está pensando, Ramon – disse em tom conciliador – Rafael é apenas um velho amigo de infância que não vejo, há muito tempo. Nós nos encontramos outro dia, ele está de passagem pela cidade, por isso, o convidei para jantar aqui em casa.

— Não quero criar problemas – Rafael se adiantou de modo tranquilo. – Eu vou embora – Ramon o encarou por alguns instantes, sem saber se acreditava ou não, naquela história.

— Por favor, entre – finalmente, o rapaz disse e liberou a porta para o outro entrar, apesar de ainda não está convencido se era verdade ou não.

Loreta abriu a porta da pequena e malconservada casa, onde morava. Encontrou a mãe sentada na velha poltrona diante da televisão, na sala escura, era o mesmo lugar que estava, quando ela partiu alguns dias atrás.

— Voltou cedo – a mãe reparou, seu afastar os olhos da sua novela,

— Tivemos problemas – ela respondeu, sem muitas explicações – Cadê Jonathas? – quis saber do seu filho de quinze anos, que tivera na adolescência, fruto de uma única relação com um garoto, que nunca mais viu na vida, mas sabia que, atualmente, estava preso, cumprindo pena por roubo, mas seu garoto não precisava saber disso.

— Saiu com amigos. Você sabe, vive metido com essa tal de internet – a mãe informou por alto, sem muito interesse.

Loreta sabia que o filho não iria por um bom caminho, não queria trabalhar, nem estudar, ficava vagando pelas ruas até tarde, sem controle, se ao mesmo tivesse um pai, um bom homem para colocá-lo na linha.

Mas, nesse momento, precisa, urgentemente, de um cigarro.

— Onde você vai? – a mãe perguntou quando Loreta abriu a porta.

— Fumar – replicou, já saindo

Do lado de fora, encostou na parede descascada na frente da casa, acendeu o cigarro, o primeiro depois de um longo tempo, puxou uma longa tragada, sentindo a fumaça tóxica encher seus pulmões e a nicotina entrar no seu sangue, com imenso prazer. Pensou no filho, aquele garoto não tinha jeito, nem imaginava qual seria seu futuro. Depois, pensou no dinheiro que poderia ganhar com aquela história toda, ajudaria muito. Ficou imaginando o que aconteceu com Lisa? Quando desceu naquela noite para fumar e ouviu o som da porta se abrindo e a viu saindo, afastando-se da casa, mas só contaria isso para os detetives, no momento certo.

Mark entrou na casa dos seus pais, onde morava, que estava vazia e silenciosa naquela hora do dia, eles não estava lá agora, deveriam ter saindo para fazer compras ou algo parecido, deixou as malas no seu quarto e subiu para o sótão, onde deixava toda a sua aparelhagem. Desde o início, tinha conhecimento que aquela história de centro de pesquisa Inter Mentes era uma tremenda mentira, que tudo não passava de um engodo, mas não tinha ideia onde aquilo levaria, então pagou para ver, sem cogitar que a vida de uma pessoa estaria em risco. Sentou-se pegou seu telefone e digitou a mensagem para sua amiga, cujo nome verdadeiro não sabia, como ele usava o codinome de uma estrela

“Vega, estou de volta, tudo foi mais estranho que o esperado, uma mulher desapareceu, não sei se faz parte da mentira deles ou se, realmente, foi assassinada por alguém daquela casa”

Ao abrir a porta e acender a luz do seu apartamento, Cynthia sentiu um grande alivio, poderia tirar a fantasia de Alicia e voltar a ser ela mesmo em breve, mas, por enquanto, manteria o personagem. Alicia se revelou uma mulher sedutora, bastava ver como Sam ia atrás dela ou como o policial bonitão se derreteu por ela, bem diferente da verdadeira Cynthia, mas não queria pensar nisso agora, não estava interessada em nenhum daqueles homens, não faziam o seu tipo. Seu telefone tocou, na tela surgiu um número desconhecido.

— Cynthia, já em casa? – A voz do outro lado a interpelou.

— Acabei de chegar, mas você não podia ter me ligado agora – Cynthia respondeu, um tanto irritada.

— Eu só queria ouvir sua voz. Está tudo bem? — a voz disse, melosa.

— Sim, está. Agora, que ouviu, será melhor desligar. Até breve – Cynthia desligou, sem dar tempo para o outro se despedir.

Edward chegou no seu bem montado loft, em um bairro chique da cidade, foi direto para o bar, serviu-se de uma dose generosa de seu uísque predileto, tomou o primeiro gole, com prazer.

Depois, pegou seu telefone e apertou a discagem rápida.

— Acabei de chegar em casa – avisou a pessoa do outro lado.

— Tão cedo? – a pessoa parecia surpresa.

— Sim, porque algo inesperado aconteceu – Edward informou.

— O que foi? – A pessoa estava ansiosa com a novidade.

— Ao que parece, a nossa garota desapareceu – ele informou e deu uma risadinha cínica.