Por trás da imaginação
1 Por trás da imaginação
A atividade preferida de Eliorn sempre foi explorar. Adorava descobrir coisas novas e diferentes, que a faziam se sentir num mundo maior do que aquele em que realmente vivia. E era o que fazia dentro da enorme casa de seu tio, em um final de semana tempestuoso em que sua família fora hóspede. Saltitava por entre os corredores e passava os dedos nas estantes antigas e cheias de pó. Abria portas e mais portas, na esperança de encontrar algo de seu interesse.
Parou sorrindo diante da próxima porta, já ciente do que iria encontrar, e muito calmamente, abriu-a, fazendo um rangido alto. Como já esperava, havia lá infinitas portas, e cada uma de um material, cor ou formato diferente. Correu em direção a que estava em sua frente e a abriu.
Sentiu flocos de neve espessos caindo em seu cabelo castanho-cobre, umedecendo-o. Um vento frio batia em seu rosto, fazendo seus olhos lacrimejarem e seu nariz e bochechas ficarem corados. Em meio à neve, se viu perante a uma batalha grandiosa. De canto, observava enquanto as duas ondas de guerreiros colidiram: de um lado, selvagens para-lá-da-muralha, aliados com gigantes de aproximadamente 6 metros de altura e os Outros, com seus olhos azuis brilhantes como safiras e pés e mãos negras, contra soldados humanos determinados a defender os Sete Reinos. Atrás destes, vinha uma garota com seus cabelos louro prateados até a cintura, montada em um enorme dragão negro. Outros dois dragões seguiam-na de perto: o primeiro tinha escamas cor-creme e chifres de um dourado intenso, e o outro era de um verde do verão e de um bronze do outono.
Pegou uma espada longa e afiada que estava junto a um cadáver próximo as florestas e, no momento em que o dragão verde se aproximou, Eliorn colocou todas suas forças no impulso e pulou sobre seu dorso, alçando voo diante do inimigo. Ela golpeou o máximo de selvagens que foi capaz, e o dragão abaixo dela carbonizou dezenas de gigantes. Seu coração batia violentamente e a adrenalina no seu sangue a fazia se sair melhor em batalha. Pouco a pouco, o chão foi se enchendo de cadáveres, e onde havia neve, agora há sangue. Mas Eliorn não sentia medo — sabia que podia se machucar.
Quando o céu se tornou um tom avermelhado e o sol se pôs atrás das montanhas, sabia que tinha cumprido sua parte em ajuda-los e já estava na hora de partir. Assim, saltou do enorme dragão e correu por aonde veio, se misturando às árvores na densa mata. Encontrou-se diante das inúmeras portas novamente, recuperando o fôlego. Logo seguiu em frente, ansiosa para abrir a segunda porta à direita.
Um silêncio perturbador a atingiu, acompanhado por uma escuridão interminável. Tateou a sua frente e aos lados, em busca de algo fixo e sólido, para ter certeza que não estava perdida no vácuo. Andava há muito tempo quando finalmente esbarrou em algo duro, e mais a frente, havia um pontinho de luz, que percebeu ser um archote. Pegou-o, e enfim conseguiu ver o que estava ao seu redor: um túnel redondo como um esgoto, e paredes construídas de tijolos vermelhos por todo lado. Um labirinto.
Pensou ter ouvido vozes do outro lado, mas podia ter sido apenas o vento frio. Enquanto andava pelo labirinto, percebeu que as paredes desapareciam e mudavam de lugar, os corredores ficavam mais estreitos e o teto ficava tão baixo que logo teve que arquear as costas para caminhar. Passava por inúmeros esqueletos, o que a fez sentir um calafrio. Continuava caminhando quando ouviu um ruído alto, que produziu um eco. Olhando para trás, viu que a parede se dirigia em direção à Eliorn, pretendendo esmaga-la. Correu na maior velocidade que conseguiu, com a tocha em sua mão tremeluzindo e fazendo sombras pelos tijolos. Virou à direita pouco antes de a pesada parede atingi-la. Resfolegando, observou atentamente onde agora se encontrava.
Ali, a alguns metros à sua frente, viu uma porta entreaberta, e por ela uma fresta de luz saía, mas era o suficiente para perceber que aquela porta a levava para sua antiga sala. Precisava passar por ali se quisesse voltar para casa, no entanto... Uma enorme criatura guardava a porta: tinha a cabeça de mulher, corpo de leão e asas de águia, e Eliorn logo compreendeu que se tratava da Esfinge. Andou vagarosamente adiante e a Esfinge rugiu, mostrando seus afiados caninos no rosto humano.
-Bem vinda, Eliorn! – Ela falou, embora Eliorn não tenha dito seu nome. – Passe no meu teste e poderá avançar. Falhe e eu te devorarei! Você está pronta para o enigma? – Ela assentiu. — Muito bem, então. Que animal caminha com quatro patas pela manhã, duas ao meio-dia e três à tarde?
Eliorn sorriu diante da pergunta, pois já estava pronta para ela:
— O homem, pois ele engatinha quando pequeno, anda com as duas pernas quando é adulto e usa bengala na velhice. – A esfinge acenou com a bela cabeça de mulher e deu um passo para o lado, liberando sua passagem. E Eliorn foi, deixando assim o labirinto mágico e entrando na realidade novamente.
A terceira porta era de uma cor-cobre, semelhante ao seu cabelo ondulado. Quando a abriu, ouviu o barulho que a multidão fazia, e era ensurdecedor, principalmente quando um dos times que estavam a sua frente marcava um gol. Montados em suas vassouras, voavam velozmente e tudo era um borrão vermelho, dourado, amarelo e preto. Eliorn olhou para baixo e não se surpreendeu quando viu que estava com um uniforme amarelo e preto, e no canto direito superior de seu manto estava intitulado “Lufa-Lufa”. Agarrou uma vassoura qualquer e passou a perna por cima dela, dando um impulso contra o chão e indo se juntar ao seu time, no ar.
Era uma tarde quente e ensolarada, e sentir o vento bagunçar seus cabelos enquanto voava foi uma sensação maravilhosa. No jogo, sua posição era artilheira, determinada a marcar gols em uns dos três aros de 15 metros de altura com uma bola chamada Goles em que os jogadores do time deveriam se passar. O jogo estava acirrado e, no momento em que a Goles parou em sua mão pela primeira vez, voara em direção aos aros, mas a bola foi defendida pelo goleiro do outro time.
No entanto, certo progresso fora feito, e sua equipe começou a jogar com mais união, passando a goles nos momentos e de formas corretas. Assim, na segunda vez em que a goles foi lançada para Eliorn, ela colocou todas as suas forças no braço direito, arremessando-a e marcando um gol. A torcida vibrou avidamente.
E assim foi diversas vezes durante o dia, e quando todos perceberam, a partida já tinha virado em favor deles e a treinadora soava o apito, anunciando o fim do jogo. Eliorn teve consciência do barulho da multidão, que gritava com tanto estardalhaço. Sua felicidade no momento em que levantou a taça dourada acima da cabeça foi infinita, e ainda maior quando os outros estudantes ergueram todos os jogadores do time vitorioso acima dos ombros, levando-os em direção ao enorme e maravilhoso castelo que havia a alguns metros dali. Eliorn fez parte dessa comemoração por um bom tempo, mas sabia que a hora de voltar para casa estava próxima.
Em apenas um dia, ajudou a vencer uma guerra, se aventurou pelo labirinto de Creta e ganhou um torneio de quadribol. Tudo isso dentro da biblioteca de seu tio, porque se quisesse, poderia viver quaisquer aventuras, bastava abrir aquelas portas para a imaginação. E fechou a porta da enorme biblioteca, deixando todos os três livros que havia pegado organizados em seus devidos lugares.
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