Por todas as minhas vidas
1 Por todas as minhas vidas...
Notas iniciais
-Ligia, até quando vc vai continuar vivendo no passado?
Irene questionava a irmã que lhe olhava do sofá de sua casa com Vicente. Em seu colo, Joaquim mordia um brinquedinho alheio àquela conversa.
-Eu não sei! Eu olho pro meu filho, para o filho que também é dele, e vejo o Miguel.
-O Miguem morreu! Vc já devia ter superado isso!
Ligia abraçou o filho mais forte, sentiu seu cheiro de bebê e fechou os olhos.
Irene continuou, desta vez tentando ser mais compreensiva com a irmã.
- Vc está casada com um cara maravilhoso e que faz tudo por vc. Não desperdiça isso, minha irmã. Não joga tudo fora por uma alucinação do seu passado.
E dizendo isso, ela se despediu de Ligia com um beijo na testa, deixando-lhe sozinha com seus pensamentos.
...
Miguel estava deitado com o corpo colado às costas de Lígia. O cabelo dela caía por sobre ele e os fios tocavam seu rosto. Ele se aproximou um pouco mais, enterrando o nariz na nuca dela e sentindo seu perfume tão conhecido. Ela sorriu quando notou o avanço dele.
- O que tá fazendo? – Ela perguntou, já sabendo o que era.
- Sentindo o seu cheiro. É uma mistura nossa.
Ela se virou, ficando frente a frente com ele, para poder olhar em seus olhos. Sorria, encantada, pois tudo que ele falava era poesia aos ouvidos de Lígia.
- Uma mistura?
- Sim. Meu cheiro fica em vc sempre que fazemos amor. Quase como uma marca que eu deixo com vc, e que te faz minha e de ninguém mais.
- Gosto disso – ela o beijou e ele prolongou a carícia com um toque suave de seus dedos no rosto dela. Depois tirou uma mecha de cabelo que cobria o rosto dela e o cheirou, confirmando o que dizia. Os dois riram à vontade um com o outro para depois ficarem em silencio, apenas observando os gestos um do outro.
- Queria eu também deixar algo com vc. – ela disse pensativa.
Ele fixou os olhos nela um pouco mais antes de responder.
- Já deixou. Eu levo vc comigo sempre, para todos os lugares em que ando, vc não sai daqui. – e apontou para o coração.
...
Lígia desperta das lembranças com a entrada inesperada de Vicente em casa.
- Vicente?! O que aconteceu? – pergunta ao ver o semblante sério e preocupado do marido.
Ele se aproximou calado e pegou Joaquim do colo dela.
- Pedro ligou do hospital.
- Felipe está bem?
Ele hesitou em contar e o nervosismo de Ligia foi ficando evidente. O rapaz havia sido o ultimo filho de Miguel a aparecer e sofria de um problema sério de saúde.
- Fala Vicente!!
E ele foi direto ao ponto.
- O doador apareceu. – ele disse finalmente.
Lígia levou algum tempo para processar o que ele estava dizendo. Vendo a confusão e o choque no rosto dela, Vicente confirmou.
- Miguel apareceu. Ele está vivo.
Lígia levou as mãos à boca e seus olhos se encheram de lágrimas. Um misto de alegria e surpresa tomou conta dela. Queria rir e queria chorar.
- Eu sabia... eu sempre estive certa disso!
E por dentro sua cabeça gritava “meu coração me dizia que ele estava vivo”.
Ela não sabia o que fazer. Queria ir atrás dele, mas não podia magoar Vicente. Essa, no entanto, era uma disputa perdida... e ele sabia.
Nada era realmente seu: Pedro, Joaquim, Lígia. De certa forma, nenhum deles lhe pertencia. Seus filhos tinham no sangue o DNA daquele desconhecido e Lígia nunca havia lhe entregado de verdade seu coração. Ainda era de Miguel, como sempre foi.
- Vai atrás dele. – ele disse por fim, conformado.
- Vicente... – mas não havia o que dizer.
- Vai. Eu fico aqui tomando conta do Joaquim.
Ela sorriu agradecida e correu sem saber exatamente o que iria fazer.
...
Ligou para a única pessoa que poderia lhe dar explicações.
- Lauro! Me fala a verdade! O Miguel estava vivo todo esse tempo...
- Lígia...
- Porque vc não me disse?? Eu tinha o direito de saber!!
- Eu ia te contar... mas as coisas tomaram um outro rumo.
- Ele precisa saber que temos um filho.
- Ele já sabe. Ele sabe de tudo.
...
Ela correu para o único lugar que sabia que ele voltaria: o barco.
Não tinha ninguém, mas as coisas dele que ela já não lembrava estavam lá, quase do mesmo jeitinho de antes. O cheiro dele... que era tão DELES... espalhado no ar.
Lígia levou as mãos à boca, seus olhos encheram de lágrimas... Sentou num canto e esperou sem saber ao certo por quanto tempo. E ele chegou.
Ela levantou no minuto em que ouviu os passos dele dentro do barco.
Miguel a encontrou alí, parada, olhando para ele com os olhos vidrados. Ela analisou todos os detalhes do corpo dele... era ele do mesmo jeito que se lembrava. O amor da sua vida, VIVO!
- Lígia...
- Porque? – ela se aproximou um pouco.
- Porque?! – e a distancia entre eles diminuiu. Ela levou as duas mãos no peito dele e batia, sem controle, sem medida.
Ele deixou que ela descarregasse a raiva que sentia. Ela tinha esse direito. Ele sabia o seu papel: outra vez culpado por magoar a pessoa que mais amava. Era a história se repetindo.
- Porque Miguel.....? – a voz dela foi sumindo, sendo tomada por um choro (antes contido) e que vinha à tona agora. Ela foi largando dele, caindo aos seus pés, rendida em desespero.
Ele demorou poucos segundos para se abaixar à altura dela, sentada no chão. Pegou seus braços e a levantou. Ela o encarou com olhos vermelhos.
- Eu sempre achei que fugindo eu estava seguro – ele finalmente disse. — Eu estava errado. Você não foi embora de mim. Esteve sempre no mesmo lugar. (e ele repetiu o mesmo gesto que um dia ela viu ele fazer... mostrando o lugar dela em seu coração).
- Eu achei que tinha te perdido pra sempre.
Ela esqueceu todo o resto e o beijou com desespero, com toda a saudade que vinha guardando. Ele se entregou sem nenhuma reserva... queria senti-la outra vez em seus braços, fazê-la sua outra vez.
As carícias ficaram mais intensas... beijos, afagos, suas mãos. Ele a levou de encontro a parede e a despiu enquanto ela desabotoava os botões da camisa dele. Encontravam-se os dois se amando no mesmo lugar onde tinham estado juntos pela última vez.
- Eu te esperaria, Miguel... por todas as minhas vidas se soubesse que você voltaria pra mim.
... fim.
Fale com o autor