Por toda a minha vida
13 Capítulo 13
Notas iniciais
A garoa incomum para a época era acompanhada de um vento gelado que batia insistentemente em seu rosto como se quisesse moldá-lo em uma expressão de desconforto sem sucesso. Emma andava em passos firmes pela rua molhada. Carregava no rosto um sorriso incapaz de ser desfeito por uma tempestade de verão ou mais rigoroso inverno.
Passara horas andando em círculos pelo quarto. Experimentara todo o guarda-roupas. Contara segundo por segundo desde o minuto em que recebera a mensagem de Regina. "Por que o cais?" Pensava consigo enquanto caminhava. Nunca havia ido ao cais de Storybrooke, mas o imaginava como qualquer porto: barcos e cheiro de peixe. Não lhe parecia um local apropriado pra um encontro romântico. 'Encontro romântico?', Pôs-se a indagar os próprios pensamentos. “Encontro, encontro, encontro. Palavra mais esquisita”.
Encontramos apenas coisas que perdemos ou coisas que procuramos. Emma não havia procurado por Regina, não havia procurado por nada do que lhe acontecia agora. A cidade, os amigos, o time de rugby... Tudo simplesmente aconteceu. Storybrooke caiu de paraquedas em sua vida, ou melhor, caiu de paraquedas quebrado, quase uma queda livre.
Tentando lembrar-se da vida em Boston o que vinha à cabeça eram imagens difusas: uns poucos amigos, uma escola mais ou menos, saídas no sábado para o cinema mais próximo, a biblioteca pública era o que lhe fazia mais falta. Sabia que há pouco as memórias fugiriam da cabeça e se transformariam em fantasmas sufocados no passado, alojados num canto remoto do cérebro próprio para fotografias em sépia.
Quando realmente decidiu por qual roupa vestir veio-lhe a cabeça outro dilema: com Óculos ou sem óculos? Põe os óculos, tira os óculos, olha pro espelho, põe novamente, retira, põe, retira... “De óculos pareço mais seria e até mesmo um pouco mais madura”. Põe os óculos e sai.
Passava tudo pela cabeça naqueles minutos de caminhada interminável: a primeira vez que viu Regina; a morena tocando piano; o cuidado com seus ferimentos; aquele quase beijo; o desespero daquela noite... aquela noite em que a teve pela primeira vez em seus braços, mesmo por um curto instante, aquela noite na qual percebera o quanto sua Regina também a queria, a desejava.
Saia de seus pensamentos e andava o mais rápido que podia. O cais não ficava tão próximo de sua casa. Passara muito tempo procurando o que vestir e agora se repreendia, devia ter pegado o carro do pai emprestado, mas não queria levantar suspeitas. Imagina expressão furiosa que Regina devia estar fazendo agora e sorri para o vento.
***
Guarda-chuva em mãos. Sobretudo para se proteger do frio. Regina estava em pé ao lado de seu Mercedes. “Cinco minutos de atraso, mais cinco e vou embora, fui bem clara quanto a isso”. Pontualidade é uma qualidade que a morena prezava bastante. Já não lhe bastava estar ali naquele clima úmido a comprometer seus sapatos, ainda tinha de esperar por Emma, a garota parecia fazer de forma pensada, só para irritá-la. “Deve estar atrasada de propósito”, pensa, ou melhor, queria acreditar nisso. seria mais fácil simplesmente crer que Emma estava brincando com ela, querendo tirar-lhe o pouco da paciência que ainda possuía; que era apenas uma criança desejando um brinquedo novo. Regina olha para a rua deserta a poucos metros do estacionamento. Era tentadora a vontade de fugir, refugiar-se em sua mansão, retornar à uma existência sem vida, à linha reta a qual se submetera por pura pressão, convenção, falsa facilidade. Aproximar-se de Emma era suicídio, suicídio lento e doloroso. A loira a atraia mais do que julgava revelar para si. Talvez estar ali fosse uma pequena loucura dentre anos, um arco-íris tímido num céu após a tempestade. A existência do pote de ouro no fim do arco-íris fazia da possibilidade de descoberta um grande perigo. Tinha de permanecer firme, sensata. Ensaiara palavra por palavra, quase um discurso de posse presidencial.
**
Regina sentava e levantava da cama. 21:15 – quarenta e cinco minutos mais e encararia os olhos verdes de Emma. Precisava dizer-lhe tudo o que a consciência lhe pedia para ser dito: “Nunca vai acontecer nada entre nós” — Mascava as palavras na boca, pensava, caçava a melhor forma de não demonstrar fraqueza – “Não sei qual tipo de esperança você consome em sua cabeça, mas não vai acontecer. Eu sou uma mulher, você é apenas uma garota, uma menina que mal começou a vida”. — Regina olha para o espelho. Estaria pensando em um discurso duro demais? Não... Era necessário que fosse assim, cortar pela raiz de uma única vez como quem fecha os olhos e retira a casca da ferida. – “Antes de você várias garotas e garotos já demonstraram interesse por mim, é normal, é uma fase, rara a pessoa que nunca sentiu uma paixonite por um professor ou qualquer pessoa mais velha, é um deslumbramento passageiro. Sei que você pode lidar com isso muito bem e depois se apaixonar por alguém com quem você possa ficar e que corresponda suas expectativas. Sinto muito, Emma. E isso é tudo!”.
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“Isso é tudo”, pensa.
Repassa cada palavra enquanto espera a garota chegar. Seria rápida, direta, sem rodeios ou tempo para interpretações precipitadas sobre o motivo de ter aceitado aquela ideia absurda de encontrar-se com Emma a sós.
Bate o salto no chão. Olha as estrelas. Procura uma força em si para distanciar o ‘indistanciável’. Não seria pega por seus próprios pensamentos, não veria seu coração, seu corpo inteiro pregar-lhe uma peça. Diria o que tem de dizer, faria o que tem de ser feito, tomaria toda sua vontade de amar novamente — vontade essa que nem sabia ser ainda possível de encontrar — guardaria bruscamente num baú e lançaria ao mar.
Passos.
A garota se aproxima rapidamente. Vinha a passos largos imaginando a raiva que a morena devia estar sentindo por tê-la feito esperar por alguns minutos.
– Desculpe pelo atraso. – Fala ao se aproximar animadamente.
– Estava quase me retirando, Swan. Quando pedi pra não atrasar estava falando sério! — Diz de forma autoritária.
– Não acontecerá de novo. – Afirma enrugando a testa.
– Tenho certeza que não. Então... Quero que essa conversa seja mais discreta possível. Acompanhe-me. — Pede dando as costas pra Emma que apenas faz um ruído em concordância.
Regina andou até uma das plataformas do píer onde se encontrava ancorado um navio. Aquilo pareceu à Emma no mínimo curioso, nunca imaginou algo assim em Storybrooke.
– Um navio! — diz surpresa.
–Sim. — afirma Regina. — Jolly Roger. — Fala apontando as letras douradas no casco. — Meu pai comprou da família Jones quando eu ainda era criança. Até hoje tento fazer com que minha mãe não se desfaça dele, é a melhor lembrança que tenho do meu pai.
– Não vais subir? — Pergunta à loira enquanto sobe a escada que dava acesso ao navio.
– Claro! — Emma responde empolgada. — Jolly Roger... A família do Killian tem algo a ver com piratas, Peter Pan e Capitão Gancho?
– Este não é um navio pirata, Emma. É um navio de exploração. Provavelmente fez parte de alguma frota de exploração do governo. Dizem que foi saqueado por algum parente dos Jones há muito tempo e, sim, eles têm essa fama de pirataria na família.
–Então Killian seria tipo... Um parente distante do Jack Sparrow?
– Não seria pra tanto – Responde ironicamente.
A bordo do navio Emma se sentia em um cenário cinematográfico, bastava apenas erguer a bandeira preta e sair navegando em busca de algum baú de tesouros enterrado, tudo isso com Regina ao seu lado, claro, a rainha pirata, poderia existir algo mais perfeito? E por falar em perfeição não podia deixar de notar o quanto ela estava perfeita naquela noite apesar da expressão um pouco severa e preocupada. Emma notou que a mulher tentava manter uma posição firme, com certeza a trouxera até ali para jogar um balde de água fria em qualquer possibilidade de aproximação. Se esse era realmente seu plano precisava desfazê-lo de alguma forma e teria de ser uma forma que não parecesse evasiva.
– Aqui em cima está meio molhado, né? Frio. Não podemos descer? Gostaria de conhecer o navio. — A garota pede abraçando o próprio tronco.
–Claro. — Regina responde se encaminhando para o alçapão de acesso à parte de baixo do navio.
Descem.
Regina procura algo pelo vão da madeira próximo ao alçapão.
–Achei! — fala surpresa. — Sabia que ainda estaria aqui. — Emma olha a amorena de forma interrogativa. –É um isqueiro. — Regina explica-se. — Para acender as lamparinas ou ficaríamos no escuro aqui em baixo..., venha. –
Emma segue a morena mais uma vez. Regina parecia uma criança empolgada. Mostrava cada cômodo do navio com os olhos brilhando, parecia envolta em um passado feliz o que deixava a loira em êxtase. Era lindo ver Regina sorrir, era lindo perceber o quanto a morena estava natural sem aquela pose carrancuda e superior de sempre. A expressão furiosa, preocupada e distante havia se diluído em sorrisos deslumbrantes.
–Aqui é o quarto do capitão. — Fala a morena esticando o braço para dentro do cômodo. — Meu pai costumava trazer toda a família para o navio no final de semana, às vezes até dormíamos aqui. Ele gostava de entrar aqui, pôr um disco do Elvis na vitrola e passar horas ouvindo, dançando sozinho, cantando... eu lembro de cada música.
–Faz quanto tempo que você não vem aqui? – Pergunta curiosa e animada.
–Não muito. Costumava vir mais nos finais de semana quando Henry era menor, ele adorava.
–Podemos entrar? — Emma pergunta olhando Regina nos olhos. A morena assente com a cabeça.
Entram.
O cômodo era pequeno, mal parecia um quarto, mas visto todos os cômodos do navio aquele era o que poderia se dizer o mais aconchegante: uma cama alta à esquerda, cobertores vermelhos com desenhos coloridos, mais pareciam mapas, estava arrumada; travesseiros no mesmo tom, bem dispostos, como se estivesse esperando que alguém deitasse ali e tomasse aquele espaço para si; ao lado da cama uma estante com livros antigos, um pequeno armário, um baú e uma vitrola no canto do quarto.
Regina senta-se na cama enquanto Emma caminha em direção à vitrola. Era Elvis, como imaginou que seria, um velho disco.
–Ainda toca? — Pergunta a loira virando-se para a outra, podia ver a expressão meio contente e meio entristecida no rosto de Regina.
–Toca. — Diz a morena com um fio de voz.
–Posso? — Pergunta apontando para a vitrola?
–Fique a vontade. — Responde sem entusiasmo.
Era um erro. Havia cometido um erro em trazer Emma até o navio. Aquele lugar sempre lhe trazia memórias dolorosas do pai, da forma súbita de sua morte, da forma súbita de como perdia seus amigos. Todos que amava de alguma forma iam embora. Talvez não fosse seu destino ter alguém com quem compartilhar os sorrisos, os momentos de alegria, a vida. Agora estava ali com Emma sem entender muito bem o que a levou a abrir-se tanto assim, mas a garota lhe passava uma segurança, uma confiança cega, uma vontade de viver.
“Wise men say only fools rush in
But I can't help falling in love with you…”
Uma lágrima prepara uma queda, mas é interrompida pelos olhos verdes pidões. Regina levanta o queixo. Olha para a loira. A mão direita estendida. Um sorriso doce no rosto. Emma tirava Regina para dançar como o mais perfeito cavalheiro. A morena deixa seu sobretudo em cima da cama. Usava um vestido preto até os joelhos. “Perfeita”, pensa Emma, “perfeita, como uma rainha”.
“Shall I stay would it be a sin
But I can't help falling in love with you…”
Suas mãos se tocam. Emma levanta a morena da cama colando levemente seu corpo no dela. As mãos da loira em sua cintura. Os braços da morena em volta de seu pescoço.
Emma sorri.
Regina sorri.
“Like a river flows surely to the sea
Darling so it goes some things are meant to be...”
Os passos leves de um lado para o outro. Sem dizer palavra aconchegam-se cada vez mais no corpo uma da outra. O cheiro de baunilha e canela misturando-se ao aroma de maçã. O mundo todo parecia mais leve com Regina em seus braços. Na cabeça da morena, já levada para outra dimensão de felicidade, não saia outra frase, outro sentimento que descrevesse aquele momento, estar nos braços de Emma Swan “É como viver novamente”, pensa.
“Take my hand take my whole life too
For I can't help falling in love with you...”
Não sabia contar ou descrever para si mesma o quanto precisava daquele contato, do calor de sua pele e da forma firme e apaixonada com que Emma segurava sua cintura e conduzia seu corpo. À Emma era urgente a forma como Regina entregava-se doce e sensualmente com sua cabeça caída em seu ombro fazendo sua respiração quente ser sentida no pescoço da outra lhe tirando arrepios por todo o corpo.
“Like a river flows surely to the sea
Darling so it goes some things are meant to be...”
Lá fora o mar quebrava em pequenas ondas e a água batia suavemente no navio fazendo-o balançar levemente, como uma dança na lua.
“Take my hand take my whole life too…”
Entrega.
Entregam-se uma a outra sem mais reservas a dizer que aquilo não poderia ser possível. Se era errado, se era incerto, se era difícil demais, não parecia. Ali era leve, era certo, era simples, fácil demais, fácil como mover o rosto lentamente, como pôr os lábios vermelhos carnudos na direção do desejo tranquilo e atordoado, fácil como olhar um mar verde que lhe assegurava a possibilidade do amor.
“For I can't help falling in love with you…”
Entrega.
Uma entrega que aproximava seus lábios e aprofundava seus olhos num brilho verde-castanho infinito.
Entrega.
Num toque macio dos lábios. Nas línguas que dançam no espaço do céu da boca. Nas sensações eletrizantes que correm por todo o corpo. Era um beijo, o beijo, o primeiro beijo.
“For I can't help falling in love with you…”
Regina dança a língua na boca de Emma passando seus lábios sensualmente pelos lábios da loira que a puxava carinhosamente para mais perto tentando diminuir a distância de seus corpos. Estava perdida, estava totalmente perdida. As mãos perdidas nos cachos loiros, o corpo perdido em deliciosas descargas elétricas que percorriam todo seu sistema sanguíneo cada vez que Emma passava as mãos por sua cintura, por seu quadril, por suas costas. Borbulhava em desejo, afundava-se no gosto da outra, os olhos de ambas fechados... era o céu, um paraíso.
A música havia parado, mas o beijo não foi interrompido. Se ouviam algo com certeza não era música deste mundo, devia ser um som etéreo, batidas de coração, mas era apenas o celular de Regina no bolso do sobretudo. O beijo foi quebrado deixando no ar uma sensação leve, um medo, um desejo pela próxima dança.
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