Notas iniciais
Olá, pessoas... :D Ia postar esse capítulo na quarta, mas ele já está pronto então não custa nada, né. *Agradeço de coração e sorriso gigantesco as recomendações de Florence Queen e Queen Carolyne e todos os reviews incríveis que vcs deixaram pro cap anterior, obrigada sério, quase me mataram do coração, não façam isso. rsrsrs O cap tem bastante coisa e tem uma musiquinha tbm, mas resolvi por dentro do texto pq ele se refere a uma parte específica. Então é isso. Boa leitura.

Perdia-se em pensamentos enquanto ouvia ao longe o ruído das outras pessoas falando ao seu redor coisas que não conseguia captar, palavras que se soltavam das bocas alheias sem lhe atingir um sentido. Todo seu esforço em manter-se firme durante todo aquele dia havia começado. Vez ou outra um colega de classe passava batendo em sua mesa como se quisesse acordá-la. Não ligava, não se importava, apenas continuava ali olhando para a lousa com os olhos perdidos num navio ao longe, num domingo torturante, numa angústia pesada. Como poderia um sentimento tão doce também ser tão amargo?

No dia anterior, havia passado o fim da tarde jogando vídeo game com Henry e Neal, mas dessa vez não houve a presença de Regina que saiu do quarto apenas para deixar um lanche pronto na cozinha e depois trancar-se de novo na parte superior da casa. Não a procurou, não tentou falar com a morena, se ela queria um tempo para pensar no que fosse, Emma daria, daria todo o tempo do mundo ainda que isso significasse a tortura de não saber o que acontecia com a outra. O que teria feito de errado? Dizer que a ama? Por que aquilo era tão difícil para Regina?

Num susto alguém põe um papel em cima da mesa da loira, uma lista de nomes de alunos e nomes de personagens e fantasias. Era Alan tentando acordar a garota que só despertou depois de uma boa sacudida.

–Loirinha, querida, era pra ter dormido em casa, sabia? A noite foi feita pra isso.

Emma não responde, não fala nem expressa nada.

–Olha, essa é a lista de alunos e fantasias para o baile de formatura. — fala puxando uma cadeira para perto de Emma, senta-se e continua:

– Todos estão tão eufóricos com os jogos que não lembram do baile, mas eu, e minha fiel amiga Elza estamos a todo vapor preparando tudo desde agora. Você só precisa contribuir colocando seu belo nome nessa lista e a sua fantasia de contos de fadas ao lado. simples, não? Até um bebê faria isso de olhos fechados. — aponta a lista em cima da mesa de Emma.

–Ok — finalmente fala numa voz baixa. Queria que ele saísse logo dali, não queria falar com ninguém. Pega uma caneta, pensa durante alguns segundos, quem queria ser no dia do baile? finalmente escreve seu nome e seu personagem ao lado.

–Hummmm, cavaleiro branco. mas você é uma caminhoneira, né, Swan! — Alan fala piscando um dos olhos, levantando-se e indo em direção a outro colega de classe.

Emma abaixa a cabeça, olha a superfície dura e fria a sua frente. "Sou o seu cavaleiro branco", se coração murcha dentro do peito. Segura uma lágrima, engole a dor quando ouve o bater de saltos de alguém que entrava em sua classe naquele momento.

–Bom dia. — A voz forte e rouca da diretora Mills preenche todo o espaço da sala.

Todos os alunos se acomodam apressadamente em seus lugares.

–Bom dia senhorita Mills. — respondem todos numa mesma voz.

–Bem, tenho um comunicado para fazer hoje. Senhorita Muller resolveu nos deixar semana passada após o desentendimento que presenciou no refeitório. — Regina olhava todos os alunos com a mesma expressão, inclusive Emma. — Isso para nós é uma lástima, visto que ela é uma das melhores profissionais da área, mas não admite nenhum tipo de comportamento fora dos padrões seja dentro ou fora de sua sala de aula, sendo assim, eu assumirei seu lugar lecionando para o terceiro ano enquanto contratamos outro profissional.

Emma ouve alguns alunos bufarem baixo, se senhorita Muller já era rígida o suficiente, imagina as aulas da diretora Mills. Ela não teve expressão. Receava que se expressasse qualquer coisa, contentamento ou descontentamento, tudo que sentia por dentro pudesse sair de uma vez só e não estava disposta e nem iria permitir que isso acontecesse.

Foi uma hora de tortura. Uma hora ouvindo Regina falar. Uma hora sentindo seu corpo responder àquela voz rouca das mais diversas formas. A morena passara a aula inteira em sua habitual posição rígida, conduzindo tudo como um general. Não conseguiu apreender quase nada, pra falar a verdade, não conseguiu apreender absolutamente nada, ficara sentada na mesma posição o tempo todo sem expressão, apenas procurando pelos caminhos que levavam os olhos castanhos aos seus, aqueles olhos castanhos que olharam para todos os alunos da mesma forma distante, como se não tivesse nada por dentro.

***______________***

–O que você tem? — Mulan pergunta sentando-se no banco em frente a loira, pondo a bandeja com o almoço na mesa, analisando o rosto inexpressivo de Emma.

–Me controlo.

–Hum... Não foi como você imaginou?

–Não imaginei nada. — abaixa a cabeça e enrola a gravata do uniforme nas mãos. — Mas também não esperava que ela mais uma vez fugisse só por que disse que a amo.

–Não... você disse isso? Não devia, Emma, não devia.

Emma suspira.

–Não foi pensado, quando vi já tinha dito, estava um clima tão bom, nós... nós passamos a madrugada inteira... nós dormimos juntas, acordei com ela me olhando apaixonada e preocupada com a hora, depois ouvi ela falar como tinha sido bom, delicioso, foi a palavra usada... eu fui muito burra, devia ter previsto isso. Ela não sente o mesmo, não ainda e eu.. estraguei tudo.

–Já falou com ela?

–Não. Acho que está me evitando, só pra variar um pouco.

–Agora entendo essa sua tentativa de controle. Quer sair correndo daqui e perguntar o que está acontecendo, né?

–sim.

–Então vai.

–Não posso. O que ela pensa? que pode simplesmente sair correndo assim toda vez que sente medo e pensar que eu vou atrás? não, não dessa vez.

–Diz isso pra ela.

–Não.. se é assim que ela quer, é assim que vai ser. Vou pra minha tortura agora. Até,,, — levanta-se da mesa

–Deviam te canonizar, sabia. Aturar a diretora Mills e todos os seus problemas emocionais e ainda ter de aguentar Zelena por uma tarde inteira é muita beatitude.

Emma sorri sem vontade, despede-se da amiga e minutos depois tenta esquecer tudo aquilo ouvindo música no som máximo de seu ipod enquanto limpava os boxes de um dos banheiros da escola.

– "I hate everything about you! Why do I love you... ?" Canta a frase da música alto e com mais ênfase que o necessário, quando sente alguém puxar um lado dos fones de sua orelha.

–Chegou cedo, está concentrada, cantando uma musiquinha de amor não correspondido, dor de cotovelo, Swan? — Zelena pergunta debochada.

–Não é da sua conta! — Emma responde pegando de volta o fio do fone das mãos da ruiva.

–Ui.. que tigresa! — fala rindo.

–Dá pra parar de me encher e fazer logo seu trabalho?

Zelena olha para Emma com uma expressão ainda mais nojenta, revirando os olhos.

–Não precisa me dizer o que fazer, princesinha.

Dá as costas e vai pegar o material de limpeza para começar seu trabalho.

A tarde toda transcorreu muda. Emma com seus fones cantando compulsivamente e Zelena ouvindo aquilo cada vez mais curiosa e confusa. Por que diabos sentia tanta curiosidade em saber o que se passava com Emma? Pelo visto a loira parecia incomodada, sofrida com algo, mas Zelena não sabia simplesmente perguntar ou ser gentil, sua forma de se aproximar das pessoas passava longe da cordialidade. Esperou o momento certo para atacar. Quando já no final da tarde, com o último banheiro do dia quase todo limpo, Emma tropeça num balde espalhando a água por todo chão. A ruiva tem então o momento perfeito. Vai até a loira, retira um de seus fones novamente.

–Muito bem, Swan.. eu não vou te ajudar a limpar isso, sua incompetência não vai atrasar meu trabalho, qual seu problema? Brigou com o idiota do seu namorado ou simplesmente não consegue segurar a frustração de cantar tão mal? Meu bem, ninguém é perfeito em tudo, sabia. Aceita. — fala numa expressão raivosa.

Emma empurra a garota que bate forte na parede.

–Se você não vai limpar, vai embora, me deixa em paz.

–Ai.. me deixa em paz, me deixa em paz... — Zelena retruca atiçando ainda mais o ódio de Emma.

–Pára com isso, deixa de ser ridícula, infantil... — Emma fala dando as costas, não iria discutir com ela, não estava com cabeça nem pra bater em alguém, principalmente em Zelena.

–Deixa de ser ridícula, Zelena!!! Fui eu quem passou a tarde toda cantando ridiculamente, né? — ri debochada.

Emma olha pra ela incrédula. O que ela havia feito? Nascido? Era isso que encomendava tanto aquela garota?

– Não vou brigar com você, não vale a pena, nem xingar você vale a pena.

– O-o que quer dizer com isso?

– Quero dizer que sinto pena de você. Não é necessário fazer toda essa cena, toda essa confusão só por você não conseguir conviver consigo mesma. Deve ser ruim, né... ser tão amarga, ser desprezada pela própria família. Eu nem imagino o por que. — Emma fala irônica, sem saber que ascendia uma mágoa dentro da garota.

– Você não saber de nada, Emma Swan. — fala entre dentes.

– Tem uma coisa que eu sei.

– O quê?

– Sei que nunca vai chegar a lugar nenhum assim, tratando as pessoas desse jeito como se quisesse puni-las pela sua próporia existência ao invés de tentar superar uma limitação que é apenas sua. — Emma fala de forma mais branda, olhando diretamente os olhos azuis da garota. Seu exercício de auto controle havia lhe ajudado, em outro tempo já teria partido pra cima da ruiva com toda sua raiva, mas estava calma, queria que ela ouvisse o que tinha pra dizer, estava cansada daquela garota sempre tentando tirar ela do sério, quem sabe se falasse tudo que pensava sobre ela as coisas poderiam melhorar.

Já Zelena, deixava as palavras da loira lhe atingir em cheio, bem no ponto em que ninguém havia atingido antes. Como ela poderia falar de mim sem nem ao menos me conhecer? Como ela podia falar algo sobre mim que eu não conto a ninguém?

– Isso tudo é ridículo. Não me venha com esse papo idiota de eu conheço você, você não me conhece, Swan.

– Será? — aproxima-se mais da garota. — não é isso que sua expressão me diz.

– E o que ela diz? — Zelena pergunta trêmula. Era a primeira vez que sentia vulnerável e transparente pra alguém. O que Emma queria? Brincar com ela? E porque não saia dali? Por que não corria? Por que não batia nela? Porque não gritava? Era o que devia fazer, tomar de volta toda sua pose de garota encrenqueira e gritar com Emma.

– Ela diz que eu acertei e que agora você está morrendo de medo porque alguém sabe algo sobre você e isso te deixa insegura por que você não tem mais ninguém....

"Garota intrometida, petulante, cheia de si", Zelena pensava enquanto a voz da loira se tornava cada vez mais distante. Emma achava que estava sabendo de tudo e com certeza se divertia as custas da garota que naquele momento não sentia raiva, nem ódio nem vontade de matá-la, cortar todo seu corpo em pedacinhos e jogar num tanque cheio de piranhas. Cortar seu corpo? Seria um desperdício, a loira tinha um corpo bonito, isso Zelena não podia negar, assim como seus cabelos, seus olhos e seu jeito grosso de ser. "Está ficando maluca, Zelena?" De repente enquanto ainda ouvia Emma falando, mais e mais distante a medida que olhava pros movimentos de seus lábios que se mexiam rápidos, mais rápidos, mais rápidos, eles se aproximaram lentos, mais lentos, até pressionarem os lábios da ruiva que nada entendia daquilo mas se deixava levar pela imagem de um pequeno beijo.

– Zelena, Hey,,, Acorda!! — Emma sacode a garota que parecia estar em transe.

– Oi.... — Zelena acorda.

– Você está bem? — pergunta confusa. O que tinha acontecido? Ela havia entrado em estado de repouso? Usava drogas ou algo assim? — Sei que eu não sou uma pessoa legal mas deixar alguém falando assim na sua frente enquanto você entra em estado vegetativo não é legal, é muito rude. Mas o que esperar de você, né? Delicadeza...

– Cala a boca, Emma! — Interrompe a garota com seus gritos. — Só cala essa sua maldita boca e me deixa em paz! — sai correndo do banheiro como um furacão.

Emma fica parada sem entender nada. O que ela havia feito? Só estava tentando ajudar. Qual o problema das mulheres dessa família? Mania de gostar de fugir.

Respira fundo e continua o trabalho. Enxugava o banheiro se lamentando por ter sido tão descuidada e recapitulava os acontecimentos do dia. Regina seria sua professora por tempo indeterminado. Isso seria incrível não fosse a situação em que se encontrava. Não conseguia entender aquilo. Como a mulher se entrega daquele jeito e depois simplesmente some? Por quanto tempo aquilo duraria? Por quanto tempo Regina olharia pra ela como se fosse apenas mais uma aluna daquela escola? Por quanto tempo fugiria? Põe os fones nos ouvidos mais uma vez no volume máximo, sempre no volume máximo tentando deixá-lo mais alto que seus pensamentos.

Por muitos dias iria fazer aquele mesmo ritual. Aulas de uma Regina metálica, durona, impassível; limpar aqueles banheiros com Zelena, pela primeira vez, muda, ignorando sua existência, o que Emma achava ótimo, não gostava de brigar nem discutir com ninguém, mas desde aquele dia na praia em que bateu em Tamara carregava aquele estigma, "Emma a encrenqueira". Não se importava, não se importava com nada. Já era a segunda semana inexpressiva que passava tentando não pensar, tentando ao máximo resistir a voz de Regina durante as aulas, aos convites de Henry, aos convites dos amigos, as perguntas dos pais. Apenas seu travesseiro sabia de tudo que se passava por dentro, das lágrimas que derramava, das vezes sem fim que olhara pro celular esperando alguma coisa, pensando em enviar alguma coisa, pensando em falar e ouvir alguma coisa, qualquer coisa... palavras ou ruídos quaisquer só para saber, para lembrar que ela ainda estava ali e tentava sobreviver aos olhos frios da diretora, os olhos completamente diferentes daqueles tão cheios de desejo e carinho de duas semanas atrás.

Começou a pensar que aquilo tudo havia sido apenas o que havia sido, sexo. Nada estava no lugar, sua cabeça, seu coração, todos as partes suas pareciam ter sido trocadas, pareciam funcionar de forma desconexa, intrusa em si mesma, procurava uma saída que não a levasse para mais perto de Regina, mas a mulher estava em todos os cantos de seus pensamentos. Aumentava nela a saudade, saudade de tudo que vinha daquela mulher; aumentava a raiva, aumentava a vontade de sumir dali, aumentava a vontade de sair correndo de onde estivesse para bater na mansão de número 108, pegar Regina pelo braço, sacudir a morena e dizer que a ama, que ama mesmo, que a ama perdidamente e que ela não podia fazer nada com relação a isso além de também se entregar e não fugir mais; aumentava a vontade que sentia de tirar aquilo do peito. Mas não cederia, não procuraria, não iria atrás, passasse o tempo que for, não iria e se ela viesse... não cederia, será?

*______________*

–Dois jogos, Emma.. dois jogos e você foi péssima! — Mulan gritava a plenos pulmões chamando a atenção da amiga. A voz da garota corria pro vento, estavam as duas no campo de Rugby da escola após mais um treino no qual Emma não tinha conseguido se concentrar. A loira assistia ao show de mágoas da amiga com os olhos inexpressivos. — Eu nem sei como conseguimos chegar a final no campeonato e com certeza não foi com sua ajuda. — Mulan leva as mãos a cabeça. — Eu não acredito que você está fazendo isso.

–E eu não acredito que você está gritando comigo por causa de um campeonato idiota. — Emma fala sem levantar a voz.

–Não é só um campeonato idiota.. você praticamente parou a sua vida só por causa da Regina, eu simplesmente não aguento ver isso!

–E você quer que eu faça o que, hein? Saia por aí comendo todas as garotas da cidade como você faz? — Emma grita de forma ameaçadora.

–Eu me preocupo com você, eu quero que você saia disso, saia dessa relação que criou na sua cabeça. Ela não está nem aí pra você, Emma... ela conseguiu o que queria e era apenas aquilo que ela queria, vocês não tem um romance e nem estão completamente apaixonadas, pelo menos não da parte dela. — Mulan para tomando ar, não queria ter de dizer nada daquilo a amiga, mas vê-la consecutivamente tentando se tornar cada vez mais fria estava deixando a japa irritada. — Por que você simplesmente não vai lá e tira satisfação com ela? Por que no fundo você tem medo que ela te dê um fora, que ela te diga exatamente o que estou te dizendo agora. Acorda, Emma... é muito melhor você ir lá, perguntar tudo que quer e levar um fora de uma vez, desencanar disso tudo, voltar pra sua vida. Eu falo isso pro seu bem.

– Eu estou bem, estou muito bem e estaria ainda melhor se não tivesse de ouvir tudo isso. Você não sabe o que aconteceu entre nós, você não tem o direito de gritar comigo desse jeito e... e se está tão preocupada assim em eu estragar seu joguinho idiota, pois bem, estou fora. — Fala com raiva tirando o colete vermelho que usavam para o treino, sai do campo como se quisesse afundar o chão por onde seus pés passavam e aproveitar para cair num buraco sem fundo.

–ok, vai embora... foge, é muito mais fácil mesmo, né. Estou com raiva de você, Emma Swan, com raiva e completamente decepcionada! — Mulan grita enquanto Emma se afasta do campo.

****______******

Na mansão havia um salão de paredes brancas, janelas com cortinas leves também brancas e um enorme piano de cauda completamente branco. Um lugar que nunca escutara uma nota se quer. O piano estava ali há doze anos trancado. Ninguém entrava a não ser a faxineira que uma vez por semana limpava o lugar. Os habitantes da casa nunca entenderam o porque daquilo, Henry sabia que a mãe tocava piano, mas nunca tinha visto ela chegar perto daquele, um desperdício, um instrumento tão valioso ali, com as cordas sendo tomadas pelo ruir do tempo e assim continuaria se não fosse Regina, por motivo desconhecido ao filho, destrancar a porta, entrar no salão vagarosamente e numa lentidão sem tamanho pressionar tecla por tecla, afinar o instrumento com paciência para enfim tomar toda a mansão numa melodia.

https://www.youtube.com/watch?v=I3q3ThaKfss

As notas tomavam todos os cômodos da casa. Entravam e saiam dançando invisíveis, deixando um sabor de lágrimas dentro das paredes e em baixo dos tapetes; batiam em uma cicatriz dentro do peito, cicatriz antiga, tão antiga quando aquelas teclas.

Regina passou dias tocando, sentindo, procurando algo dentro de si mas o vazio havia ido embora sem mais nem menos e voava pelas janelas, pois fora preenchido por um par de olhos verdes, por cachos dourados, por um sorriso radiante de menina, por uma juventude e alegria de viver que há muito lhe faltava. Havia errado com Emma, havia errado em não ter dito nada, em tomar a garota daquele jeito se ainda pretendia relutar contra o que sentia. E o que sentia? Não podia ser tudo aquilo de novo, não podia estar acontecendo, mas acontecia e se tornava ainda mais claro a cada batida dos dedo nas teclas. A música era como uma voz, a voz dela que há muito se foi, mas permanecia intacta naquelas paredes brancas. Era ela quem falava no fundo de suas lembranças:

"É o amor, está amando novamente — sua imagem sorria — está amando mais uma vez e sim, existe a possibilidade da perda assim como em qualquer circunstancia da vida, mas o que importa são os momentos que vivemos, é a felicidade que permitimos sentir e deixamos que o outro também sinta em nós. Você está amando como já amou um dia, talvez até mais... então vai e mostra, mostra quem você é, o que está dentro de você, a simplicidade de suas carícias, a doçura do seu toque, a transparência do seu olhar que há muito foi meu e agora é dela. Vai e abre todas as portas, deixa entrar, destranca esse coração, abre os braços, alma, corpo, mostre, sinta e deixe sentir. Eu vou estar aqui no lugar reservado apenas a mim dentro das suas lembranças mais felizes".

As mãos param para enxugar o rio de lágrimas que descia por seu rosto. Precisava dizer a ela, precisava contar pra ela, precisava fazê-la sentir aquilo que ela sentia, precisava agora mais que tudo, agora que toda aquela dor que carregou durante doze anos havia se transformado em lembranças, lembranças dolorosas, mas acima de tudo, felizes. Sorri passando os dedos levemente pelas teclas, sentindo o vento morno entrar pelas janelas, levantar as cortinas, passear por seus cabelos...

***_______________________

A água quente corria por seu corpo relaxando os músculos mas sem levar embora seus pensamentos, seus tantos pensamentos que a atormentavam durante todos aqueles dias. Qual era o poder daquela mulher? Não aguentava mais ser tão repetitiva para si mesma, não suportava mais aquela situação. E se Mulan estivesse certa e ela não procurou Regina por medo de que tudo aquilo terminasse de verdade? Então achava melhor se torturar num talvez que bater a cabeça na realidade? "Isso não parece com você", pensava. "Não parece nem um pouco com você, Emma Swan". Devia sair dali, voltar ao campo e pedir desculpas a amiga, devia seguir seu conselho e voltar à sua vida como se nada tivesse acontecido, com certeza era isso que Regina tinha feito, se ela conseguiu assim tão rápido a loira também conseguiria, também conseguiria simplesmente não ter um coração, conseguiria apenas fingir felicidade, superioridade e poder, ou seria tudo isso infantil demais? "Mentir pra si mesmo é tão difícil", pensa saindo do banho.

Em cima do balcão da pia o celular da garota descansava mudo. Emma olha para a tela escura: — Ele não vai tocar, Emma, — fala para si mesma, mas estava enganada e minutos depois enquanto vestia-se ouve o bipe do celular, devia ser sua mãe, pai, Mulan, Ruby, Neal, Henry, qualquer um, mas não era.

____

Me encontra agora no mesmo lugar, tenho algo pra te mostrar.

Regina

____

Notas finais
Música que Emma esta ouvindo no banheiro: https://www.youtube.com/watch?v=d8ekz_CSBVg ** Espero que vcs tenham gostado do capítulo e ele não tenha bugado ngm aí. hehehe. Até