– Por medo.

– Medo? Medo do que?

– De perder você.

– Como assim?

Xena suspira brevemente e continua:

– Quando você foi quase cremada e escolhida pra isso por Palaemon por minha causa, pra ele poder me atingir, eu me dei conta que estar ao meu lado não é seguro pra você.

Gabrielle a interrompe.

– Xena, nós já falamos sobre isso milhões de vezes.

– Eu sei, mas não foi só por isso. Eu fiquei cega e a única coisa que passava pela minha cabeça era a possibilidade de nunca mais poder te ver. E eu não conseguiria viver com isso. Fiquei com medo desse sentimento, com medo do que eu sinto por você. Com medo de passar por algo parecido novamente e te perder. Quando abri aquele sarcófago e só pude sentir o calor e o cheiro da fumaça saindo dele, me desesperei achando que você pudesse estar...

– Xena... – Gabrielle interrompe novamente, tomando as mãos da guerreira, mas Xena prossegue.

– Então eu vi em Ulysses, um homem honesto e bom, que arriscou a vida pra te salvar, e apaixonado por mim, um modo de fugir desse medo. Pensei na hipótese de viver com ele porque para mim é mais suportável ter você longe, porém bem e em segurança, do que ver você em perigo pelo simples fato de estar comigo. Depois meti os pés pelas mãos ao sugerir a você que ele nos acompanhasse, porque ele queria desistir de tudo e vir conosco. Fiquei um tanto perdida, achando que tê-lo por perto pudesse fazer com que o que eu sinto por você diminuísse a cada dia, mas percebi o erro que cometeria. Eu não suporto a idéia de imaginar alguém entre nós e...

Xena não conseguiu concluir o que estava dizendo, pois fora calada pelos lábios de Gabrielle.

– Xena, você ainda não compreendeu que eu só ficarei bem e segura se estiver ao seu lado? Não diga mais nada, Xena. Eu já entendi. – diz a barda – Mas você não precisava tê-lo beijado comigo ali. – ela completa, apontando para a rede.

– Eu achei que você estivesse dormindo. Me perdoe, Gabrielle, sou tão estúpida às vezes.

Gabrielle abraça Xena.

– Vamos esquecer isso. – ela diz, dando um beijo no ombro da guerreira.

Xena toma o rosto de Gabrielle com as mãos e elas se beijam intensamente. Xena sentia a doçura da boca de Gabrielle e ao mesmo tempo o sabor salgado das lágrimas de ambas que invadiam o beijo.

Afastando-se Xena diz:

– Seja lá o que for que eu tenha sentido por Ulysses, eu fiz o que você me disse. Estou feliz agora, porque jamais serei feliz se não for ao seu lado. – ela passa os polegares pelo rosto de Gabrielle, secando suas lágrimas – Portanto, pare de chorar e fique feliz também, certo?

Gabrielle sorri e leva as mãos ao rosto de Xena, também secando suas lágrimas. Depois de um tempo se olhando sem nada dizer, a barda sorri.

– Xena?

– Hum?

– Lembra de quando eu dancei para aqueles homens sujos, fedidos e horrorosos?

– Lembro. O que tem?

Gabrielle aproxima levemente seu rosto no ouvido da guerreia, sussurrando timidamente:

– Eu estava dançando mesmo era pra você.

Xena ergue a sobrancelha e diz, esboçando um sorriso:

– Eu sei.

Voltando a olhar nos olhos de sua amada, Gabrielle a beija suavemente nos lábios.

– Eu te amo, sua guerreira teimosa. – e cutucando o peito de Xena ela completa – E nunca mais tente se afastar de mim entendeu?

Xena passa as mãos pelos cabelos da garota, dizendo:

– Eu também te amo, barda ciumenta!

Xena beija Gabrielle, demonstrando todo o seu amor pela barda, enquanto uma de suas mãos invade o cabelo da garota e a outra envolve sua cintura, puxando-a para si. Gabrielle se arrepia ao sentir a mão da guerreira lhe apertando a nuca e balbucia por entre seus lábios:

– Oh, Xena, já faz tanto tempo que nós não...

– Tempo suficiente pra me deixar morrendo de saudades. – completa Xena, levando sua boca ao pescoço de Gabrielle, mordendo-o com sofreguidão.

A garota amolece em seus braços, sentindo um desejo incontrolável tomar conta de seu corpo, quando um dos homens, mais jovem, chega ofegante na cabine.

– Xena! Xena! – ele grita, quando se dá conta do que está acontecendo – Oh, mil desculpas! – diz o rapaz levando a mão aos olhos e baixando a cabeça.

Rapidamente, Gabrielle se solta dos braços de Xena, tentando se recompor, de costas para ele.

Visivelmente irritada, a guerreira pergunta:

– O que é?

Muito nervoso, o rapaz tenta explicar:

– É Artêmio... ele... ele... caiu por cima da pilha de arpões e...

Ouvindo isso e vendo o grau de nervosismo do jovem, Xena sai em disparada, seguida por Gabrielle. Os homens cercam Artêmio, que agoniza. Xena abre caminho entre eles e se aproxima, constatando que o homem tinha um dos arpões cravado em seu abdômen. Ela se ajoelha ao lado dele.

– Artêmio... Artêmio, pode me ouvir? – ela pergunta.

Ele respirava com dificuldade, mas conseguiu responder:

– Sim... estou...

– Muito bem, então ouça. Preciso que fique calmo. Eu vou ajudar você.

Gabrielle se ajoelha tomando a cabeça de Artêmio e a apoiando em suas pernas.

– Preciso de panos limpos, uma bebida bem forte, linha e agulha! – Xena grita aos homens que os rodeavam.

Dois deles saem correndo em busca das coisas que Xena pediu. Enquanto isso, Gabrielle conversa com o ferido, passando as mãos em seu rosto:

– Artêmio, você tem esse nome por causa da deusa Ártemis?

Pesadamente ele responde:

– Sim... a minha mãe... era devota... da deusa Artêmis... Ela era... uma amazona...

Gabrielle retira os cabelos do homem de seu rosto, alisando sua testa. Neste momento os outros homens voltam com as coisas que Xena havia pedido.

– Ouça, Artêmio, eu preciso que você me ajude agora. E não olhe pra mim. – diz Xena.

– Fique olhando pra mim. – diz Gabrielle, pondo a mão no queixo dele, voltando seu olhar para ela – Sabe, Artêmio, ser filho de uma amazona faz de você meu parente de certa forma.

– Por... que?

– Sou uma princesa amazona.

Artêmio sorri fracamente e dá um grito estarrecedor no momento em que Xena arranca o arpão de seu abdômen, fazendo-o desfalecer nos braços de Gabrielle devido à dor. A guerreira usa os panos para estancar o sangramento, apertando-os contra o corpo do homem.

– Ele vai ficar bem? – pergunta Gabrielle, olhando para Xena.

– Vai sim, só desmaiou. – responde Xena, retirando os panos e lavando a área com a bebida.

Usando outros panos, ela seca a ferida e começa a costurá-la, logo depois ela rasga uma parte de outro tecido e enfaixa a cintura do homem.

– Podem levá-lo! – ela diz aos outros tripulantes, enquanto se levanta – Com cuidado!

Os homens tomam o corpo de Artêmio e o levam para o porão.

– Bêbados! – exclama Xena – Que belos marinheiros Ulysses foi me arrumar.

– Verdade. – concorda Gabrielle – É melhor eu cuidar dele.

Xena assente com a cabeça.

Gabrielle toma um cantil com água e segue rumo ao porão. Chegando lá ela encontra Artêmio deitado sobre um estrado, já acordado. Ela se aproxima dele e lhe dá água.

– Obrigado. – ele diz.

Apenas dando um meio sorriso, ela pega uma manta e cobre o homem.

– Gabrielle? É este o seu nome, não é?

– Sim.

– Me desculpe.

– Pelo que?

– Por ter rido de você.

– Tudo bem, já passou. Você disse que a sua mãe era amazona... ela morreu?

– Sim, há muito tempo. Quando eu era apenas um garotinho.

– Eu sinto muito. – lamenta-se Gabrielle.

Ele segura a mão da barda e sorri, dizendo:

– E você disse que é uma princesa amazona.

– Sou.

– A minha mãe dizia que as amazonas são como irmãs... Então, você é como se fosse minha tia, certo?

Gabrielle sorri.

– É, pode ser.

– Mais uma vez, obrigado por me ajudar.

– De nada. – diz Gabrielle, dando um leve aperto na mão do homem e logo saindo do porão.

– Como ele está? – quis saber Xena enquanto secava as mãos ao ver a garota retornando.

– Ele está bem. Tanto que até me chamou de tia.

Ambas sorriem. Gabrielle olha para Xena e para si mesma. Suas roupas estão sujas de sangue.

– Acho que precisamos de um banho. – conclui a barda.

– Vou providenciar. – diz Xena, pensando rapidamente e se dirigindo até as cordas.

Notas finais
Bem, é isso. Comente! Eu ficaria grato. ^.^ E se gostou dê joinha ;-)