Por que você?

3 Capítulo 2 - Quebrada


Notas iniciais
Só pude programar o capítulo para depois da meia noite, mas aí está ele. Espero que curtam. A música é What's Up, da 4 Non Blondes.

“And so I cry sometimes

When I’m lying in bed

Just to get it all out

What’s in my head

And I, I am feeling a little peculiar”*

Quando eu cheguei em casa fui direto para o quarto. A lembrança da minha discussão com Karen tinha me atingido novamente e substancialmente forte o suficiente para me fazer voltar a chorar. Eu não queria que minha mãe me visse no mesmo estado em que Pedro me encontrara.

Ah, não Pedro!

Sem querer bati a porta do quarto com mais força do que o desejável. Sem dúvidas, isso chamaria a atenção da minha mãe, Ana.

Perguntei-me onde meu dia tinha começado a dar errado.

– Luísa? O que foi isso? – perguntou ela no corredor.

– Nada Mãe – engoli a voz trêmula de quem estava à beira do choro – Bati a porta sem querer.

– Você está bem? – insistiu ela para o meu desespero.

– Estou – tentei disfarçar o soluço que se formava na minha garganta ao mentir tão descadaramente.

Fez-se silêncio por um instante, e eu pude ouvir o suspiro vencido do outro lado da porta.

– Tudo bem. – desistiu – Não durma sem almoçar antes? – sua voz agora soava mais distante e seus passos ressoavam hesitantes em direção a nossa cozinha.

– Ok. – respondi caindo na cama aliviada.

Não importava se eu fosse dormir cedo ou não. Eu não sairia tão cedo daquele quarto. E como já era costume que eu caísse no sono depois de chegar em casa antes de almoçar, ela não estranharia. Reclamar? Talvez. Estranhar? Não mesmo.

Comecei a recapitular o que tinha acontecido naquela manhã. Detalhe por detalhe. Pelo menos no que dizia respeito ao mais importante daquele período... a minha discussão com Karen, minha suposta melhor amiga. Ou seria minha ex-melhor amiga?

Na verdade, nós achávamos que ainda éramos amigas. Vivíamos como se fosse, mas de um ano pra cá, nossa amizade tinha ruído lentamente. Uma fenda imensa havia crescido entre nós e nos distanciado dia após dia. Em parte por culpa da minha insegurança quase patológica, em parte pela frieza congelante dela. Éramos tão diferentes quanto água e vinho. O extremo oposto uma da outra.

Mas um dia chegamos a ser melhores amigas, e foi uma época legal. Ela sabia tudo sobre mim, eu achava que sabia tudo sobre ela. Junto com Luana, éramos um trio invencível, até Lu ir embora e a minha vida sentimental ruir catastroficamente em menos de um mês.

No início eu estava muito ferida com toda a história. Afinal, não é todo dia que uma romântica incurável vê seu príncipe encantado se transformar num sapo nojento com verrugas e tudo de ruim que você pode associar.

Por escolha própria escolhi me afastar de todo o resto. Não conseguia confiar em ninguém, nem mesmo em Karen. Passei a ver todos como meus inimigos – menos ela. Mesmo assim, não conseguia falar sobre o assunto. Silenciei o meu sofrimento e a minha dor como se isso fosse fazê-la sumir. O assunto passou ser proibido naturalmente. Eu achava que ninguém tinha nada a ver com a minha burrice. E ela respeitou, mas todo esse silêncio fez com a fenda se abrisse e começasse a crescer.

Com o tempo, fiquei mais distante e estagnada naquela paranoica mágoa sem sentido. Ela sempre mais racional seguiu com a vida. Não era de ter amigos, então tudo era mais fácil para ela. Comecei a notar coisas que nunca havia notado antes. Ela tinha um ar superior que a colocava sempre no centro de tudo, um certo egoísmo mesclado com ambição que a fazia agir em favor de si, sem medo de prejudicar o outro. Além da sua natural habilidade de ser falsa com quem não lhe agradava. Sorrindo quando lhe convinha e falando mal na oportunidade seguinte. Eu não me lembrava de ter notado essas características em nossa época de ouro, mas já devia estar lá em algum lugar. Talvez eu tenha cegado minha visão para isso, e quando finalmente pude notar, já era tarde demais.

Estávamos na organização de um grande evento beneficente em prol de uma escola infantil. O objetivo era arrecadar fundos para a biblioteca de uma escola carente. Já tínhamos conseguido patrocinadores e aquela era a etapa da organização da grande festa para arrecadar os livros, quando precisei me ausentar durante uma semana, para resolver assuntos da minha nova faculdade.

Além de nós duas estavam no projeto Vanessa, Jéssica e Virna. Eu não podia dizer que simpatizava com elas, porque eu estaria mentindo descaradamente. Mas elas fingiam serem amigas de Karen e tinham insistido em ajudar. Aceitei, mas não confiava inteiramente nelas.

Quando voltei uma semana depois, tinha sido excluída do projeto. Deram as desculpas mais incoerentes que podiam ter. Que eu não poderia me dedicar inteiramente ao projeto, que eu não me importava o suficiente com ele. Oras, eu tinha tido a ideia, como não me importaria. E Karen não moveu um dedo para me ajudar. Apenas assistiu em silêncio.

Quando eu perguntei por que ela tinha as deixado tomar o controle do nosso projeto, ela apenas disse que elas tinham razão. Talvez fosse melhor para mim e para o projeto que eu ficasse de fora.

Aquilo bastou para mim. Coloquei as cartas na mesa e disse o que eu pensava sobre os últimos dois anos. Dos momentos em que tomei as suas dores para defender daquelas mesmas cobras às quais tinha se unido para me apunhalar. Das vezes em que vi pena em seu olhar, ao julgar erroneamente as minhas atitudes. Como naquela vez quando o seu pré-julgamento me tornou a idiota número da escola. Afinal, ela se achava tão esperta e dona da verdade, que nunca notou que foi a partir daquele dia, que eu tinha me fechado de vez.

Ela disse apenas que ela não era culpada por eu ter me fechado para o mundo. Muito menos pelo que Júlio tinha feito comigo. Que a culpa era minha, pois eu tinha afastado a todos e mentido descaradamente ao fingir que tinha deixado o passado para trás. Eu tinha me recusado a receber ajuda, negando que ainda o amava.

Por isso terminei naquela parada pensando em tudo que tinha sidos meus dois anos. Onde eu tinha errado.

Àquela altura, meu travesseiro já estava completamente encharcado nas lágrimas. Lembrei-me da promessa que várias vezes eu tinha quebrado. Eu nunca mais choraria na frente dos meus inimigos. Nem dos meus amigos.

E eu havia chorado na frente de Pedro. Um deles.

Naquele momento eu podia jurar que me odiava.

Doía pensar que Karen tinha razão. Eu nunca havia superado a dor daquela traição, a humilhação pública, os cochichos e piadinhas sobre mim nas rodinhas de fofocas. Doía que ela tivesse feito aquele primeiro péssimo julgamento há dois anos. Mas ela estava certa dessa vez. Eu não tinha superado, e eu tinha deixado essa história destruir minha crença no mundo.

A boa notícia: Eu não precisaria mais olhar para eles. Se os anjos ouvissem meu apelo, nunca mais eu esbarraria com nenhum deles.

Nunca mais.

Notas finais
Tradução do trecho: "E então eu choro às vezes Quando estou deitada na cama Só para me livrar disso tudo que está na minha cabeça E estou me sentindo um pouquinho esquisita" Eu sei que não aconteceu muita coisa nesse capítulo, mas ele era mais pra ilustrar o que tinha acontecido com ela. O próximo tem um pouquinho de Pedro.