Por que você?
5 Capítulo 4 - Livraria
Notas iniciais
Capítulo 4 – Sem título
Cheguei à livraria por volta de 13:00. Mais cedo do que eu imaginei que fosse conseguir. Ultimamente o trânsito estava um verdadeiro caos, principalmente nas imediações do shopping. Quando peguei o ônibus na universidade às 12:45, pensei que demoraria pelo menos trinta minutos, como vinha acontecendo todas as vezes em que ia para aqueles lados. Não tinha almoçado, mas também não me importava com isso. Eu imaginava que poderia muito bem me virar com alguma coisa quando me livrasse de Pedro.
Assim que cheguei subi direto para a livraria na esperança de ele estivesse lá. Eu poderia acabar logo com isso e me ver livre dele para sempre. De todos eles. Mas não tive muita sorte, pois não o vi em lugar algum.
Embalada pelo doce aroma de livro novo, que possuía um efeito inebriante sobre mim, comecei a dar uma olhada nos livros que tinham por lá a procura de alguma novidade que me chamasse a atenção. Sem me dar conta fui parar na seção Fantasia, a minha preferida. Era algo automático, não importa por onde eu caminhasse naquela livraria, eu sempre chegava naquele cantinho.
Comecei a olhar para alguns livros dali, até por meus olhos naquele que era o meu atual sonho de consumo... Anjo Mecânico. A edição ainda era a que possuía holográficos brilhando na capa. Pode parecer meio bobo, mas eu queria aquele livro tanto quanto se deseja um banho refrescante num dia ensolarado de verão. Eu tinha quase todos os livros da Cassandra, mas só faltava esse, que parecia ter ficado fora de estoque durante um bom tempo, mas que resolvera voltar justamente quando eu estava sem dinheiro. Peguei o exemplar com aparência mais usada na pilha e me sentei numa das poltronas para ler o primeiro capítulo.
Fiquei tão distraída com a leitura que não notei quando Pedro se aproximou. Não até eu terminar o primeiro capítulo encontrar seu olhar sagaz fixo em mim, como uma águia faz quando está observando a sua próxima presa. Nessas horas eu agradecia por não ter um tom de pele que ficasse vermelho com facilidade. Isso só acontecia quando eu fazia alguma atividade física, chorava ou ficava muito envergonhada. Nenhum desses casos se aplicava a atual situação. No máximo, um pequeno desconforto.
Ele vestia calça jeans azul e uma camisa polo branca com linhas azul-turquesa nas bainhas da gola e mangas que se ajustavam perfeitamente aos seus bíceps musculosos e ombros largos. Nos pés estavam um par de tênis branco. O cabelo cor de areia estava molhado e um pouco bagunçado. Seu maxilar quadrado estava livre de qualquer indício de pelos. Não me lembrava de tê-lo visto algum dia com a barba por fazer. Eu já tinha notado que Pedro era um tantinho vaidoso, mas assim de perto seu visual impecável era charmoso demais, e ele conseguia parecer ser bem mais metrossexual que o seu amigo Gato-Sentimental-Cheiroso-E-Corno, também conhecido como Matheus, ou o Príncipe-Encantado-Dos-Olhos-Verdes, para os outros simplesmente Ricardo.
Sim, eles também eram da Turma Podre. E sim, eu tinha dado estes apelidos idiotas a todos eles. Eu costumava chamar Pedro de Filhinho-De-Papai-Um-Tanto-Gostoso. Eu nunca vi tantos caras lindos e desprezíveis num grupo só, e por mais que os odiasse, eu tinha que admitir, eles eram de tirar o fôlego de qualquer mortal garota.
– Faz tempo que você está aí? – perguntei ao me levantar para devolver o livro ao seu lugar. Senti uma pontada de nostalgia ao deixa-lo ali, mas eu sabia e um dia voltaria para busca-lo. Notei que Pedro me seguia, então comecei a folhear outro livro distraidamente sem encará-lo.
– Um tempinho. – soltou ao meu lado e eu podia sentir meu corpo inteiro se arrepiar só de imaginar que ele mantinha o olhar fixo em mim. – Mas preferi não interromper a sua leitura. Era uma bela cena.
– Dispenso o elogio! – retruquei tentando parecer indiferente, mas fatalmente falhando – Trouxe o seu lenço.
Abri o bolso lateral minha bolsa jeans e tirei um lenço azul bem passado e dobrado. Eu tinha lavado ele no final da tarde anterior, e por ser pequeno ele tinha secado antes das dez da noite atrás da geladeira. Eu o passei, dobrei e o guardei dentro da minha nécessaire para que não amassasse. Estendi o objeto até entre nós e esperei até que Pedro o pegasse. Ele não fez.
Tomei coragem de encara-lo, mas ao encontrar seu olhar com o meu, senti uma nuvem planar no meu estomago. Aquilo não era nada bom, nada bom. Então ignorei a sensação miserável que me atingia. E busquei lembrar de tudo que ele já tinha feito. Quem ele era naquele jogo todo. O garoto que não fazia questão de esconder que ria de mim. Que havia me amolado tantas vezes com um apelido ridículo.
– Qual o problema? – questionei impaciente.
– Se eu pegar o lenço, você vai embora? – ele suspirou sem desviar os olhos de mim.
– Pode ter certeza que sim! – retruquei encarando ele com determinação. – Agora você quer pegar a droga desse lenço e me deixar em paz?
– Não sei se quero isso. – confessou me analisando com uma ansiedade que eu desconhecia.
Hã?! – perguntei incrédula – Como assim você não sabe se quer? Eu vim aqui contra a minha vontade e trouxe o maldito lenço, e você não sabe se quer ele de volta?
–Você é uma coisa, hein Luluzinha. – zombou abrindo um sorriso cafajeste.
Pedro desviou o olhar para um dos livros que estavam na bancada ao nosso lado. Era o mesmo que eu lia minutos antes. – Não vai levar?
– Não é da sua conta. – respondi alto e rispidamente. Já estava cansada daquela situação. – Pegue a droga do lenço.
– As pessoas estão olhando Luluzinha... – alertou calmamente, enquanto corria o olhar a nossa volta. – e eu estou pensando!
Eu não precisei olhar para saber que estava mesmo chamando a atenção. E tudo que eu menos queria era ser expulsa e proibida de entrar ali, por fazer cena.
– Não me chame assim! Eu me chamo Luísa – larguei o lenço sobre o livro e caminhei em direção à saída da loja a passos largos e pesados.
Ele me seguiu.
– Mas eu gosto – riu ao me alcançar do lado de fora.
– E eu odeio! – disparei.
Aquele apelido me irritava mais do que qualquer coisa, pois não fazia referencia ao meu nome, como era de se imaginar, mas sim ao sobrenome de Júlio, Lutero.
– Tudo bem... – concordou ao me puxar pelo cotovelo, me fazendo parar e virar-me de frente para ele – Luísa.
Estávamos tão próximos que eu podia sentir seu cheiro de colônia masculina. Era totalmente diferente do aroma amadeirado de Matheus ou do cítrico que eu amava em Júlio. Era algo adocicado e sedutor. Vi seus lábios convidativos entreabertos enquanto expirava um hálito fresco de hortelã. O contato local onde sua pele tocava a minha no braço, mandava uma carga elétrica por todo o meu corpo. Notei que ele segurava o lenço na outra mão.
– Ei, qual o seu problema? – Pedro me perguntou como se estivesse confuso, mas eu podia ver a encenação brilhando naquele maldito olhar cínico – O que eu te fiz agora?
– E você ainda pergunta? – vociferei sem mover meu olhar do seu. A raiva explodiu em minha voz ressentida. Eu tinha tantas coisas para dizer. Coisas que ficaram entaladas na minha garganta. Coisas que nunca pude dizer porque tinha medo de parecer mais ridícula do que fui naquele dia que pulsava vivo nas minhas memórias – Já esqueceu a droga do apelido que você ajudou a propagar nos corredores da escola? Já se esqueceu das vezes que passei pela sua turminha de merda e você me encarava com esse sorriso debochado pra deixar bem claro que eu era a piada?
– Então é verdade – seus lábios curvaram-se no maldito sorriso e eu notei que estava se divertindo com aquela cena – você ainda não superou.
– Superar é uma coisa – cuspi as palavras ao soltar-me de seus braços... – Esquecer é outra totalmente diferente. Vocês sempre fizeram questão de me lembrar durante esses dois anos.
Num piscar de olhos minha mão estalou em seu rosto bonitinho com toda a onda de raiva contida em mim durante dois longos anos.
Não esperei que ele se recompusesse do tapa. Apenas saí sem olhar ao redor. Eu sabia que tinha agido mal. Tinha caído na armadilha e posto a baixo toda a imagem de “não me importo mais”, que durante tanto tempo eu vinha tentando construir. E era isso que ele queria.
Mas a adrenalina percorria minhas veias como uma droga poderosa que mantinha a momentânea sensação de êxtase. Eu não queria pensar no meu ato impulsivo, pois pela primeira vez eu me sentia poderosa aliviada. Se não de tudo e todos, pelo menos daquele idiota. E nada poderia tirar de mim aquela sensação reconfortante daquela breve vingança.
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