Por que você?
4 Capítulo 3 - Encontro?
Notas iniciais
Dormi abraçada ao travesseiro. Quando acordei e encarei o espelho, notei o resultado. As lágrimas tinham evaporado. A pele tinha voltado ao seu tom moreno de sol. Meus cachos negros que estavam presos num rabo de cavalo, agora estavam na sua bagunça costumeira. Mas a pele sob meus olhos castanhos escuro estava visivelmente inchada e com o delineador preto marcando toda a parte inferior dos meus olhos.
Fiquei pensando se daria para enganar minha mãe, não queria ouvir dela toda aquela história de “Eu te avisei.”. Mesmo que ela tivesse razão. Inúmeras vezes ela tinha me alertado que Karen não era uma boa amiga. Que uma hora ela me apunhalaria, mas eu preferia acreditar que ainda havia algum resquício daquela amizade. Olhe só onde isso tinha dado.
Depois de alguns minutos saí do quarto com meus óculos, que só uso para leitura. Na mão, meu exemplar de A Menina Que Roubava Livros. Esperava que ela não percebesse. Já eram umas 16:00 horas. Fui até a cozinha e a encontrei em frente a pia passando café.
– Pensei que não fosse almoçar. – eu podia sentir o sermão vindo no seu tom de brincadeira. Quando ela se virou olhou com seus olhos castanhos como os meus para a minha mão e viu o livro. Pôs a mão na cintura. Minha mãe tinha praticamente a mesma altura mediana que eu, mas por ser mais gordinha, ela parecia mais baixa. Tirando o fato de eu ser magra, tipo modelo, e vinte e dois anos mais nova, éramos muito parecidas. Mesmo tom de pele, mesmos olhos e cabelos castanhos escuros. – Porque não deixou pra ler depois de almoçar? Você precisa se alimentar menina! Ou vai acabar ficando doente.
– Eu sei mãe! Eu acabei pegando no sono e acordei há uns 10 minutos. – eu sabia que ela não acreditaria, mas por mim tudo bem, o importante era não perceber que eu tinha chorado.
– Eu só falo para o seu bem. Você quase não come. – ela encostou a cintura na pia – Com essa sua rotina de faculdade, se você não se alimentar direito vai acabar adoecendo. Você já não se alimenta direito.
E começou todo o sermão sobre meus péssimos hábitos alimentares. Ela estava certa Eu não me alimentava direito, mas fazer o que se eu não tinha apetite, apesar de não ter moral para me julgar nesse quesito. Ela mesma nem comia tanto. Nunca entendi como ela não conseguia emagrecer se comia praticamente a mesma quantidade que eu. Às vezes até menos.
Peguei um prato de vidro transparente e coloquei um pouco de feijão e arroz e um frango grelhado. Respondia quando achava que tinha que responder. Desculpando-me quando era necessário. Minha mente estava em outro lugar.
– Você está bem? – perguntou ela enquanto eu lavava a louça que tinha sujado e ela estava sentada na mesa me observando.
– Sim, estou – dei de ombros.
– Como foi o dia? A faculdade? O evento...? – eu não podia vê-la, mas eu a conhecia muito bem para saber que ela desconfiava de algo. Com essas perguntas aparentemente inocentes.
– Eu saí – informei como se tivesse apenas saído para ir à padaria – do projeto.
– Por quê? – ela agora estava mais claramente interessada.
– Não ia dar certo. Principalmente agora com a faculdade. – coloquei o prato no escorredor, fechei a torneira, desanuviei minha expressão de qualquer sinal que denunciasse meu desgosto. Virei-me encostando na pia. Encarei-a com a cara mais despreocupada que eu poderia fazer. – Não ia sobrar tempo. Preciso me dedicar a coisas que me importam de verdade.
Ao olhar a expressão confusa percebi que talvez a minha desculpa não tivesse funcionado.
– Você tem certeza disso? – ela me estudava com um olhar preocupado. – Você parecia tão empolgada.
– Eu tenho. Nunca estive tão certa disso. – dei de ombros.
Não importava quanto fosse verdade ou mentira. Eu estava certa de que não voltaria. Mas eu queria tanto fazer parte daquilo. Me esforcei para demonstrar no quanto eu estava triste.
– Então foi por isso que você passou a tarde inteira trancada no quarto? – Minha mãe me olhava como se eu fosse tola por tentar mentir para ela.
Nada havia funcionado. Ela sabia.
– Eu não estava trancada por isso. Eu sempre durmo quando chego cedo. Ultimamente o tempo para descanso têm sido pequeno. Preciso aproveitar o pouco que tenho– me esquivei.
– Tudo bem. – ela respirou fundo e voltou a mexer no meu livro que estava sobre a mesa. – Não vou insistir. Se você realmente quer assim, eu não vou ser contra. Eu só espero que essa decisão tenha partido mesmo de você.
– Pode acreditar que sim. – afirmei pegando o livro de sua mão e saindo para voltar ao meu quarto.
– Só mais uma coisa. – ela disse ao se levantar. Estava séria – Não deixe que os outros escolham por você. Você é a única que pode decidir por si mesma. A partir do momento em que deixa que os outros façam isso, você dá poder a eles. O poder de domina-la. Não se deixe ser dominada por nada, nem ninguém. Ok?
Ouvi as palavras, e pensei no que elas poderiam significar. Não me virei para responder, apenas assenti e murmurei um “ok” para ela. Voltei para o meu quarto, pronta para esquecer aquele dia claustrofóbico. Liguei o computador para checar meu e-mail. Apenas informativos da faculdade anúncios de promoções dos sites de compras online. Aproveitei e abri uma aba para o Facebook.
Havia três solicitações de amizade. E algumas notificações. Duas solicitações eram de colegas novos da faculdade. A outra? Um certo Pedro Viana.
Eu não sei bem o que estava na minha mente. Talvez um pouco do conselho da minha mãe, e outra parte seria a raiva poder me deixado ser controlada durante tanto tempo por essas pessoas. Eu aceitei a solicitação num ato de rebeldia. Para provar que eles não me dominavam mais. Que eu não tinha medo deles.
Tudo bem que o certo seria eu ter negado a solicitação, e rapidamente o bloqueado para que ele nunca mais me importunasse, mas eu não era conhecida por tomar atitudes impulsivas e equivocadas à toa. Eu sempre dava um passo errado, antes de pesar bem as consequências. Aí quando eu analisava a situação com a cabeça fria, acabava enxergando o meu erro.
Em questão de segundos uma mensagem brilhou no canto da tela, só para confirmar a burrice que eu tinha feito.
“Você me aceitou?” digitou Pedro.
Olhei para aquela frase piscando e xinguei uma sequencia de palavras feias. Bem, eu podia concertar o erro de outra forma... Ignorando.
Comecei a ver as notificações. Tinha um convite da para o cinema. Confirmei que iria, pois precisava me distrair. Algumas marcações de uns amigos que eu só conhecia virtualmente por causa de um grupo de escritores do qual eu fazia parte. No geral eram novos textos. Quando eu comecei a ler um deles, uma nova mensagem piscou no canto inferior da tela.
“Vc ainda tá aí?”
Ignorei novamente. Ele podia ver que tinha visualizado a mensagem, e eu me senti satisfeita por isso. Quem sabe ele caísse em si e me deixasse.
Outra mensagem chegou em seguida.
“Ei, se ñ era pra falar cmg pq adiocionou?
Vai me ignorar mesmo?
Pois saiba q ñ vou deixar
Esqueceu q tem uma coisa q me pertence?
E EU QUERO DE VOLTA!”
Olhei para aquelas frases e fiquei chocada. Ele tinha deixado o lenço comigo e então estava me acusando de ficar com algo que não era meu? Como se eu tivesse roubado. Quem ele pensa que é!? Pensei com raiva.
“Foi vc q me deixou c/ ele.
Eu ia devolver, mas vc ñ quis
disse que”
Quando eu terminei de digitar lembrei a cena antes de Pedro partir. Ele rindo e dizendo que depois eu o entregaria. Fiquei confusa tentando encontrar uma explicação para isso. Mil teorias pipocaram na minha mente e nenhuma delas eram boas. Todas piscavam em sinal de alerta. Armadilha.
“Eu disse q vc me devolvia depois”
“E agora vc quer d volta?”
“Sim.”
Eu fiquei pensando por um tempo sem responder, pondo a mente para funcionar a todo vapor. Isso parecia coincidência demais. E quando se tratava da Turminha Podre, eu tinha aprendido a desconfiar de tudo. O problema era que, além de teimosa e impulsiva, eu era curiosa e a minha vontade de saber qual era a armação da vez, me fez ficar inquieta como se uma pulguinha muito chata estivesse picando atrás da minha orelha.
“Ei...” retornou Pedro.
“Oq é?”
“Como vai ser? Vai me devolver por bem ou vou ter q perguntar pra Júlio como chegar na sua ksa?”
Tudo que eu menos queria naquele momento, era ter um deles na porta da minha casa, cobrando um lenço velho e sem graça que eu não fazia a menor questão em ter comigo. Eu só não estava certa me encontrar com ele era certo ou errado.
“Não precisa.
Eu vou te devolver.
Pode ser amanhã de 13:30 na livraria do 3º piso no shopping?”
Aquele era tempo suficiente para eu sair da aula, pegar um ônibus e chegar ao local marcado.
“Por mim tudo bem. Luluzinha”
Ignorei completamente o apelido e desconectei do Facebook antes que Pedro voltasse a falar comigo. Não que eu fosse responder, eu só não queria dar motivos para ele pensar que eu estava caindo na dele.
Mais tarde naquela noite, fiquei por horas acordada pensando em como eu tinha conseguido um encontro – mesmo que fosse só para entregar um lenço velho e sem graça – com um dos meus inimigos. Um dos mais bonitos, eu tinha que admitir, mas ainda assim, um dos desgraçados que riram de mim.
Era engraçado como esse passado nunca deixava de me assombrar. Como um fantasma que habitava as ruinas de um castelo abandonado. Sempre ressurgindo nos cômodos vazios, sempre me perseguindo como uma sombra. Não importava quantas vezes eu tentasse mantê-lo longe, ele sempre fazia seu caminho de volta a minha vida.
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