Por que sempre tão complicado?
5 Susto
Notas iniciais
O silêncio dela me incomoda. Apesar de ter certeza da presença dela por perto, senti-la quieta é estranho. Pego uma camisa, é a única que ela vestiu, lembro-me como se fosse agora, ela toda molhada na porta da minha casa. Ela entra e toma um banho, então veste essa minha camisa e calça da minha mãe e fica perfeita. Não usei essa camisa após isso e fico muito grato por isso. Conservou o cheiro dela. Eu deito para dormir, com a camisa no rosto, sentindo o perfume...
*****
–Alô? Amor?
– Oii Marcus!
– Você vai vir aqui hoje?
– Vou descer a rua agora e pegar o ônibus.
Escuto um som como se estivesse algo derrapando, como um pneu cantando ao longe, em seguida um impacto.
– Jack, ta tudo bem? — nenhuma resposta.
– Jack! Responde! — a ligação cai.
Olho o Facebook pra ver se ela tinha entrado pelo celular, porém nada. Só o momento que conversamos mais cedo. Meia hora depois meu celular toca, vou todo alegre,deve ser ela me pedindo pra ir buscar no ponto. E é o número dela.
– Marcus?
– Senhor Antony? Cadê a Jack? Ela não chegou aqui ainda. Eu to meio preocupado, ela saiu dai?
– Marcus... A Jack foi atropelada... Na frente de casa. Ela foi internada...
– O QUE? COMO ASSIM? PRA QUAL HOSPITAL ELA FOI LEVADA?
– Para o San Agostin. A situação é grave.
Desligo com pressa. Pego uma camisa e me visto, vou para o ponto de ônibus mas parece que nenhum quer passar, lembro que existe um ponto de táxi mais ou menos daqui dois quilômetros, e vou a pé. Chegando lá peço ao taxista que me leva ao hospital, chorei a maior parte do caminho. Ela não pode ter sofrido um acidente. Eu vou matar o babaca que fez isso. Ao chegar lá, pergunto a recepcionista onde ela estava, ela me responde com voz de sono e falta de vontade:
– O sistema travou.
Eu quis a espancar. Mas não o fiz. Vi o senhor Antony mais a frente, vou correndo até ele e pergunto:
– Seu Antony. Cadê ela? Por favor senhor, me diz, cadê ela?
– Filho — foi a primeira vez que ele me chamou assim. Ela me dizia que ele gostava de mim, eu jamais acreditei. — A Jack foi atropelada em frente casa. O rapaz estava bêbado. A situação é gravíssima, ela esta numa cirurgia agora. Fizemos algumas transfusões, agora temos de esperar.
– Onde ta o babaca? Eu vou matar que fez isso com ela. — Digo aos berros. Todos em um raio de 30 metros olhavam para mim.
– Ele foi preso. Os pais dele estão na cantina. Eles estão acompanhando tudo, nos dando toda a assistência...
Só agora eu percebi. No ápice da minha fúria não tinha notado a dor na voz dele. A beira do choro. Os olhos do meu sogro estavam vermelhos como se tivessem corrido muitas lágrimas. A Jack é a filha que mora com os pais ainda. Como se fosse única. Ele tinha voz morta. Eu tinha sido tão rude e ele me ajudando o tempo todo...
– Senhor Antony, senta e descansa. Vai ficar tudo bem... — Digo mais controlado. A Jack vai sobreviver. Ela tem que sobreviver.
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