Por que se Deve Levantar a Espada
1 One-shot
Ao sacar a espada, nada mais do que antes era — ou, pelo menos, parecia — real, está mais à minha volta. Só o desejo de lutar por ele me consome. Não contra ele, quanto menos com ele, mas por ele. A lâmina desliza suavemente pelo vento, enquanto as palavras me fogem sem o consentimento.
Agora é tarde demais. Não permitirei que sigam Kariya-sama. O homem que eu amo, o motivo porque ainda saco a espada.
Imagino por que eu o amo, mesmo sendo ambos filhos de Adão. Ou, numa linguagem mais simples — mesmo sendo ambos homens. Porque eu consegui ver, no fundo daqueles olhos vermelhos, o sentimento de justiça, compaixão. Talvez eu seja o único que fora capaz de ver isso em Kariya; nem mesmo aquela Yoshino impura deve tê-lo visto, se ela foi tão facilmente enganada por ele anos a fio.
Não vai nos deixar seguir Kariya? Como pode estar confiante diante de tantos inimigos?
Porque o que eu sinto por Kariya não é tão superficial quanto qualquer um pensaria que é.
Tagarelaram uns com os outros mais um pouco; o bastante para eu entender que alguns tentavam fugir. Não deixarei jamais que sigam Kariya, que o machuquem, que o ofendam. O homem que pôs a aura da vontade dentro de mim e incorporou minha espada sem rumo. Se ele morresse, mesmo sendo um Bount — o que chamamos de imortal -, eu ficaria sem rumo novamente.
Já disse que não os deixarei ir. Brilhe, Nijigasumi.
A luz que cegava — não a mim, mas a eles, os oponentes desejosos de matar Kariya-sama — iluminou tudo, impedindo os outros de reconhecerem o brilho que escorria de meus olhos úmidos.
Eu sei que aquele amor era completamente não-correspondido; então eu o esconderia para sempre, apenas para poder ficar ao lado de meu amo, meu amado.
Presos em minha ilusão, deixei-os por algum tempo refletindo. Enquanto eu mesmo refletia sobre o sentimento que me consumia. Um sentimento chamado amor, mais forte e duradouro do que a paixão, mais intenso que a amizade, quase tão sensível quanto a devoção.
E eu era devoto, devoto a Kariya-sama, o homem que me impôs o respeito, o carinho e a paternidade que eu sentia pelo meu antigo Capitão — morto por aquele maldito Zaraki Kenpachi — e que eu nunca esqueceria como era tal sentimento.
Mas devo dizer, claro, que o que sinto por Kariya é ainda mais profundo do que eu sentia pelo Capitão. Pelo Capitão, sentia respeito. Por Kariya, sentia amor.
Deixei os oponentes tempo suficiente confusos, então lhes expliquei que morreriam naquele lugar, naquela hora.
Ataquei o primeiro. Uma mulher ruiva. Ao tentar atacar o segundo — um homem alto e moreno com uma tartaruga de pelúcia pendurada no ombro -, uma espada cruzou com a minha.
Uma pressão espiritual que forçava-me contra o chão, a espada comprida com o gume raspado. Não sei bem se fiquei feliz ou amedrontado por vê-lo, mas a vontade de lutar se encrustou em meu peito.
Zaraki Kenpachi.
Há horas em que dizemos que levantamos a espada por quem amamos; mas a verdade é que levantamos a espada por quem odiamos.
Capitão Zaraki, este garoto está nos atrapalhando.
Não estou atrapalhando porra nenhuma... Quero ser útil para Kariya-sama! Quero que ele sorria para mim novamente! Seria pedir demais?! Só quero ver seu orgulho por mim novamente, ouví-lo dizer “Bom trabalho, Ichinose”. Por que eu tenho de sofrer tanto por isso?
Ichinose, disseram-me que agora você está ao lado dos Bounts.
Errado, estou do lado de Kariya-sama.
O líder Bount se chama Kariya, certo? Não é da sua conta, merda.
Você nunca muda.
Mentira. Eu mudei... Mudei por Kariya-sama.
Você quer parar essa cambada, não quer? Se for, eu não vou te atrapalhar. Mas, se for ficar, vou ser um cara legal e vou lutar com você.
É certo que eu estava pensando nas vontades de Kariya, acabando com esses Shinigamis e indo ajudá-lo em Seireitei. Mas esse homem matou aquele que eu respeitava e adorava. Perdoe-me, Kariya-sama, eu te amo, mas a minha vingança se pôs agora em frente ao seu sorriso.
No tempo em que ficamos longe, sua expressão ficou mais séria. Zaraki Kenpachi... Vou te matar!
Tudo bem, eu já estava ficando entediado. Vou lutar com você, então me mostre o quanto melhorou.
Eu lhe mostrarei, Zaraki Kenpachi, o quanto Kariya-sama me fez mudar de rumo, me fez mais forte! Pelo homem que eu amo, sacarei a espada e cortarei-lhe a língua para que não mais ofenda Kariya-sama.
Eu poderia até mesmo morrer aqui, vingando meu Capitão, morreria até mesmo pelo amor que sinto por Kariya, mesmo que meu peito se torne a bainha de sua espada, a qual deve ter vergonha do próprio dono. Morreria por minha própria vontade, sem reclamar. Sem chorar. Na verdade, eu sorriria.
Sim, sorriria. Porque eu sei que meus últimos segundos serão guardados para o sorriso de Kariya-sama.
Meu amado.
“Há horas em que dizemos que levantamos a espada por quem amamos; mas a verdade é que levantamos a espada por quem odiamos” talvez esteja certo. A força que usamos para levantar a espada tem a fonte do ódio, mas sei que a aura de Kariya-sama está na vontade de lutar.
Levantamos a espada por quem odiamos, lutamos por quem amamos.
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