Por quê?
1 Nós (Capítulo Único)
Notas iniciais
Sinto muito se estiver confuso. Acho que escrevi de modo muito... pessoal. Mas eu tentei e, como disse, é o meu primeiro texto do tipo.
Boa leitura, queridos.
O vento sopra. E sopra. E nunca para de soprar. Porque é outono, e ele se libertou, e há folhas espalhadas pelo chão, sujando as ruas de vermelho e amarelo. Você me deixou faz um ano. Eu morri faz um ano. Meu coração morreu faz um ano. Faz um ano que minha alma foi arrancada de mim. Porque você se foi, e levou o amor consigo. Levou meu mundo consigo.
E o que eu deveria fazer? Apenas caminho como se tivesse rumo, mas não tenho. Você o levou também; você era meu rumo, sempre foi. Você é egoísta e não deixou nada sobrando para mim, apenas o recipiente vazio que é o meu corpo e eu o odeio.
Minhas pernas cansam e eu caio. Ainda me lembro do sangue em suas roupas. Ainda me lembro do sangue em minhas roupas. Ainda me lembro do sangue. Sangue. Sangue para todos os lados. Há sangue agora. Deveria haver? Eu não sei. Talvez devesse. Não consigo mais pensar. Acho que você também levou minha racionalidade.
Por quê?
***
As folhas sumiram, e tudo é branco, como num sonho de morte iluminado por lâmpadas fluorescentes. Vejo cobertores, cobertores que não deixam fora o frio. Uma cama de ferro. Remédios. Um vidro de soro. Não consigo deixar de pensar que isso é culpa sua. E você nem está aqui.
Havia tempos em que a vida era feita de sonhos: sonhos cor-de-rosa, sonhos de amor eterno. Mas não existem agora. Existe apenas o nada, tomando conta de tudo. Existe apenas o sangue, escorrendo das veias de uma alma morta. Branco e escarlate, numa dança de solidão sem fim.
Por quê?
***
E agora há a escuridão. Há uma faca que brilha e chama minha atenção. Preciso me esticar bastante para pegá-la. Preciso chegar até você.
Me lembro do que você costumava dizer. “Sempre há uma razão. Para tudo. E você é a minha”. Você é a minha. Você era. Você é. Você será. Em breve, meu amor.
E, finalmente, eu consigo. O sangue está por todo o lado de novo e eu sorrio. A dor não é nada. Eu não me importo com a dor. Ela é apena um incômodo. Uma pedra no sapato. Eu quero encontrar você novamente. Eu preciso, porque você me roubou de mim mesma. Quero me encontrar, saber quem eu sou. Quem eu costumava ser antes de você se tornar uma das que estão debaixo da terra. Por minha culpa.
Todos os dias eu me pergunto o que fiz para merecer você. Tão delicada tão pálida e tão pequena em minhas mãos: você era minha, e precisava de mim tanto quanto eu preciso de você agora. Eu preciso. Sempre precisei. Por que não entendi antes?
Por quê?
***
Porque você é egoísta; porque eu sou egoísta. Fomos feitas uma para a outra. Eu arranquei a sua vida. Agora arranque a minha.
Notas finais
Adeus.
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