O tempo passou em silêncio...

Não aquele silêncio calmo, mas o silêncio cansado de quem sobrevive dia após dia, contando semanas não pelo calendário, mas pelos ciclos da quimioterapia.

Naquela manhã, Mia estava sentada na cama do quarto que havia se transformado em um pequeno centro de guerra. Frascos de remédio alinhados, bilhetes coloridos colados na parede, desenhos de Jena presos com fita adesiva no criado-mudo. O corpo estava mais fraco, mas os olhos… os olhos ainda tinham fogo.

Segundo ciclo.

Bella observava a filha em silêncio, sentada na poltrona ao lado da cama, tentando se convencer de que aquilo era apenas uma fase. Mas havia algo diferente no ar. Uma antecipação dolorosa.

Mia passou os dedos longos pelos cabelos castanhos que sempre foram seu orgulho. O movimento era lento, quase cerimonial.

— Mãe… — chamou, com a voz baixa.

Bella levantou o olhar imediatamente.

— Ele vai cair, né?

Bella engoliu em seco. Não havia como mentir.

— Vai — respondeu. — Mas isso não define quem você é.

Mia assentiu. Ficou em silêncio por alguns segundos, como quem toma uma decisão grande demais para a idade.

— Eu não quero esperar — disse, por fim. — Quero cortar.

O mundo de Bella parou.

Stefan, que estava encostado na porta, sentiu o coração apertar. Aproximou-se devagar.

— Tem certeza, meu amor?

— Tenho — ela respondeu. — E eu quero que o Anthony faça.

Anthony estava sentado no chão, mexendo distraidamente no celular. Quando ouviu seu nome, levantou o olhar, confuso.

— Eu?

Mia sorriu, fraco, mas sincero.

— Você é quem me faz sentir menos medo.

O silêncio tomou conta do quarto.Anthony se levantou lentamente, como se cada passo carregasse um peso invisível.

— Se você quiser… eu faço — disse, a voz falhando.

Minutos depois, toda a família estava ali.

Bella.e Stefan ao lado da filha, Edward encostado na parede com os olhos marejados, Renée segurando um lenço estampado lindo para a neta.Lily murmurando uma oração, Carlisle e Esme de mãos dadas.

Rosalie com os braços cruzados, tentando não chorar e Emmett que era brincalhão estava sério demais, Damon quieto como nunca.

Alice apertando os lábios para não desabar e Jasper em silêncio absoluto com os ombros ao seu redor.

Anthony segurava a máquina com mãos trêmulas.

— Pronta? — perguntou.

Mia assentiu.

Quando o som começou, Bella sentiu as lágrimas caírem sem controle. Cada mecha que caía no chão parecia arrancar algo dela também.Anthony parou no meio do processo, respirando fundo.

— Desculpa… — sussurrou.

Mia segurou sua mão.

— Não pede desculpa. Você está me ajudando a lutar.

Quando terminou, Anthony desligou a máquina e encostou a testa na dela.

— Você é a pessoa mais forte que eu conheço.

Mia sorriu.

— Então fica comigo.

Ele a abraçou. Forte. Inteiro.E naquele abraço, não havia doença.

Havia amor.

Mais tarde, quando o choro já tinha passado, Alice apareceu com uma mala enorme.

— Muito bem, senhoras — anunciou — preparem-se para o desfile mais brega e glamouroso da história.

Dentro da mala havia perucas de todas as cores e estilos.

— Essa é a “diva francesa”.- disse mostrando uma peruca channel pontuda na cor loira,

— Essa aqui é “rockstar dos anos 80”.- mostrou uma ruiva duvida ao meio com cachos bem definidos.

— E essa… — Alice colocou uma rosa choque na própria cabeça — é “crise de identidade”.

Renée gargalhou.

Rosalie revirou os olhos.

Bella riu pela primeira vez em semanas.

Mia experimentou várias, rindo, fazendo poses exageradas. As avós aplaudiam como se fosse um show.

Mas depois de alguns minutos, Mia tirou a peruca e colocou sobre a cama.

— Não — disse. — Eu quero ser eu. Careca. Doente. Viva.

O silêncio foi seguido de abraço em grupo cheio de amor.

(...)

Naquela noite, Stefan fez algo que não fazia há muito tempo: Cozinhou.

A casa estava silenciosa quando Bella desceu as escadas e encontrou a mesa posta. Velas acesas. O cheiro familiar da comida favorita dela. E, no centro, uma torta de morango.

— Stefan…- murmurou ela

— Senta — ele disse. — Hoje você não é mãe, nem esposa, nem forte. Hoje você é só você.

Eles jantaram em silêncio confortável, sem cobranças e sem medos. Depois, ele a levou pela mão até o quarto.O amor veio lento. Cuidadoso. Necessário. Naquele momento eles se amaram como não faziam há mais de 20 anos, antes de Edward surgir em sua vida, antes do caos todo.Ela não pensou em Edward, ela estava pela primeira vez, depois de muitos anos, enxergando Stefan com seu companheiro.Não foi fuga.

Foi ancoragem.

Bella chorou depois, com a cabeça no peito dele o acariciando.

— Eu estou tão cansada.

— Eu sei — Stefan respondeu passando os dedos entre as ondas castanhas de seus cabelos. — Descansa em mim.

E ela descansou.

No dia seguinte, Edward encontrou Mia sozinha no jardim de sua casa.

— Posso sentar?

— Pode.

Ele respirou fundo.

— Eu devia ter estado mais presente antes, eu devia ter falado com a sua mãe quando te vi bebê, devia ter lutado.

— Você está agora — ela respondeu.

Edward contou tudo. Sobre Aly. Sobre Anthony. Sobre Bella. Sobre o amor que nunca morreu.

Mia segurou a mão dele e o abraçou.

— Eu não te perdi — disse. — Eu só te encontrei tarde, mas no momento certo.

(...)

Mais tarde ainda, Bella encontrou Edward no corredor vazio.

— Eu não sei o que fazer — ela confessou, à beira do colapso.

Edward a encarou com dor contida.

— Então não faz nada. Só sente.- disse olhando em seus olhos castanhos e isso foi o mais perigoso de tudo.