Por favor me ouça...
3 Relatos de Layla...
Notas iniciais
Eu ainda estava no mercado por volta das 23 horas, meu substituto havia se atrasado. Infelizmente esse tipo de coisa não acontece com os outros funcionários do mercado. Que coisa feia não é? Desejar esse tipo de coisa para os meus colegas... Acho que me acostumei com pessoas desejando coisa pior para mim, coisas como sofrimento eterno. Eu estava quase dormindo no balcão, se eu tivesse ido embora no horário talvez eu já estivesse com Layla.
Ela entrou e me olhou de cima a baixo, minhas roupas estavam amarrotadas e meu cabelo despenteado, não é permitido esse tipo de vestimenta aqui, mas não fui para casa me arrumar.
Ela suspirou mal-humorada e eu levantei a cabeça para vê-la ir até o corredor de bebidas alcóolicas e pegou uma garrafa de vodka da mesma marca que ontem. Ela jogou o dinheiro no balcão e foi embora.
Não guardei na registradora, olhei para ele durante um tempo, não peguei também. Quando meu substituto chegou eu simplesmente deixei aquele monte de cédulas desorganizadas em cima do balcão.
Saí, há horas atrás quando entrei no meu turno, eu tinha certeza de que deveria ir ve-la logo depois de sair do trabalho. Agora que a vi e ela estava mal-humorada acho que devo ir para casa e deixar ela em paz... Pelo menos por hoje, ou pra vida toda... Ela deve achar que eu sou um incomodo pra vida dela.
Caminhei sozinho até em casa, Marlo estava me esperando na porta, sua expressão era preocupada e ele me abraçou. Ele sempre faz isso quando chego depois do horário normal. Depois que ele me soltou eu passei pelo sofá onde Hikaru cochilava e subi para o meu quarto. Nem fui ao banheiro fazer nada, apenas me joguei na cama de qualquer jeito. Metade das minhas pernas pendiam para fora, quando eu era criança eu tinha medo de algum monstro me pegar, hoje em dia eu torço para isso.
Marlo foi para o quarto por volta das 23:48 naquela noite e Hikaru dormiu quase a noite inteira no sofá. Era quase uma hora da manhã, eu estava quase dormindo quando Layla me ligou, o celular vibrou silenciosamente em cima da cama. O peguei e atendi com um seco "Alô".
—S/N, por favor, venha para cá. — Ela disse, parecia infeliz, assustada.
—Layla, a onde você está? O que está acontecendo? — Perguntei calmo.
—Estou no banheiro do quarto do motel... não tem tranca... por favor, vem logo. — Foi a ultima coisa que ela disse antes de desligar.
Calcei meus tênis e desci para sala onde Hikaru continuava dormindo, ele acordou quando abri a porta, se sentou e ficou me olhando. Olhei para ele também durante um bom tempo antes de ele quebrar o silencio.
—Onde você vai? — Perguntou ele, estava sonolento mas mesmo assim exalava respeito.
—Eu tenho... que... eu já volto... — Eu deveria ter dito a verdade para ele, só para não preocupa-lo, no lugar disso eu dei essa resposta incompleta e fui embora.
Corri o mais rápido que eu conseguia, não sigo o treinamento de Hikaru há 4 anos e acabei perdendo condicionamento físico, não aguento correr mais que 10 minutos. Sinto meus pulmões queimarem lá por volta de 7 minutos correndo, mas não posso parar, estou quase chegando.
Entrei correndo no prédio, ignorei os gritos da recepcionista, eu havia decorado qual era o quarto em que estive com Layla e então corri até lá e abri a porta bem bruscamente. Ela estava na cama lutando contra um cara que tentava a todo custo lhe tirar as roupas. Corri até a cama e puxei o homem pelos ombros até afasta-lo por completo de Layla.
Ele olhou para mim, estava muito irritado, sua respiração forte tentava me intimidar.
—Quem você acha que é oh magrelo? — Ele disse vindo para cima de mim e empurrando meu ombro.
—Sou Stuart Nogaroto... Prazer. — Eu disse estendendo a mão para que ele apertasse mas no lugar disso recebi um soco forte no rosto que me fez cair para trás.
—Não o cumprimente S/N, bate nele. — Disse Layla correndo até mim e me ajudando a levantar.
—Você sabe quem eu sou? — Disse ele tirando uma arma da cintura e apontando para o meu rosto. Neguei com a cabeça. — Diz pra esse arrombado que eu sou puta.
—Ele é o Big John... Cafetão e Traficante... — Ela disse em voz baixa, eu ri mesmo sendo uma risada seca e sem vida, eu ri da ironia.
Ele engatilhou a arma lentamente, eu tenho que contar algo para vocês, esse negócio de "Ver a vida inteira diante dos seus olhos" é mentira, no máximo você vê umas cenas soltas que geralmente não significam nada... Ou não significam mais. Quando senti que ele ia puxar o gatilho o celular dele tocou e ele abaixou a arma para atender. Ele ouviu em silencio seja lá o que estava sendo dito do outro lado da linha.
—Escuta aqui moleque, dessa vez eu vou deixar passar, mas se você se meter entre mim e minhas putas de novo, eu vou deixar sua cabeça parecendo uma peneira. — Foi o que ele disse antes de ir embora com a arma ainda na mão.
—Me desculpa... Eu não devia ter te chamado. — Disse Layla para mim, sua voz carregava tristeza e ela se sentou na cama e se jogou com a cabeça no travesseiro.
—Layla...Por que se tornou garota de programa? — Perguntei me sentando ao lado dela na cama.
—Por que isso agora?- Ela se sentou rápido, pegou a garrafa de vodka ainda lacrada e a abriu servindo um copo que ela deixava no criado mudo. Bebeu em um gole. — Bem... Acho que seria injusto com você se eu não contasse... não é? Pois bem... Minha mãe era prostituta, um dia quando estava drogada ela se descuidou e isso gerou... bem... eu...
"Ela se livrou de mim na primeira oportunidade afinal ser puta é difícil, mas ser puta e mãe é quase impossível, por isso até os 14 anos eu morei em um orfanato apenas para meninas. Não era nenhuma freira bondosa e gentil que cuidava de nós. No lugar disso um veterano de guerra que se dependesse dele trocaria até as roupas por um gole de Whisky, vivia bêbado. De tempos em tempos ele chamava uma menina para os seus aposentos.
Eu sabia exatamente o que acontecia naquelas noites. As paredes finas permitiam ouvir o que se passava no quarto daquele velho tarado e bêbado. Sempre evitei ao máximo contatos com com as outras meninas. Exceto por uma, Julie, ela tentou se aproximar de mim e acho que eu precisava dela. Certa noite depois de eu completar 13 anos, aquele velho me escolheu para ser uma de suas... vadias... Eu já havia me preparado mentalmente para isso, apenas bati na porta dele que já me esperava. Ouvi ele gritar um sonoro e embriagado 'Entre doçura'. Coloquei minha mão na maçaneta mas não cheguei a abrir. Julie colocou sua mão sobre a minha e sorriu antes de sussurrar um 'Vá dormir'.
Ela não tinha que fazer aquilo, mas mesmo assim eu a deixei sozinho com aquele nojento e fingi que nada aconteceu. No dia seguinte ela estava com um hematoma no rosto, não sorria... assim como você. Eu tentei falar com ela mas sempre era evitada e fiquei novamente sozinha até que minha mãe apareceu no orfanato com aquele homem que se dizia meu "pai". Foi a única vez que minha mãe me visitou.
No dia seguinte eu estava indo embora com um homem que eu nunca havia visto na vida, nós vivemos de boa por um mês, até que ele mostrou que não era melhor que o cuidador do orfanato. Em uma noite ele chegou bêbado em casa. Por ser mais forte que eu ele me imobilizou e bem... Eu não quero falar sobre isso...
No dia seguinte eu saí daquela casa, sem rumo. Encontrei com o Big John e bem... sobrevivo..."
Ao terminar ela já parecia bem embriagada, foram vários copos de vodka com o decorrer de sua narração e a garrafa já estava mais da metade vazia, ela se deitou novamente ao terminar de contar. A observei por um tempo, ela parecia dormir. Me levantei devagar e deixei vinte euros no criado mudo, era tudo que eu tinha no bolso. Caminhei até a porta quando ouvi murmúrios.
—Por que você é assim? Aparece conversa e depois vai embora?- Ouvi ela dizer... Voltei até a cama e fiquei em pé ao seu lado a olhando. Com o rosto corado por causa da embriagues ela abriu os olhos e olhou para mim. — Senta na cama... por favor...
Suspirei e sentei ao lado dela novamente, ela se sentou e me abraçou, não retribui. Depois que me soltou ela começou a rir, provavelmente efeito do álcool. Olhei para ela, seus olhos brilhavam porem de uma forma fosca.
—S/N... Por que você não me beija? — Ela me perguntou, tentei levantar mas ela me prendeu com suas pernas.
—Eu te conheci ontem... Nós sequer namoramos. -Eu falei, ela aproximou seu rosto do meu até que pudessemos sentir a respiração um do outro.
—Tem gente que faz coisa bem pior me conhecendo há menos de 10 minutos. — Ela disse e então finalmente me beijou, no meio daquilo eu virei o rosto a impedindo de continuar. — O... O que está fazendo?
—Layla, eu vou embora... — Consegui me soltar de suas pernas e me levantei. Ela ficou ali me olhando e eu saí do quarto. Big John estava no corredor, nossos olhares se cruzaram e ele sorriu antes de eu dar meia volta e tirar Layla daquele prédio.
—Minha noite ainda não acabou. — Ela gritou para mim já no caminho para minha casa.
—Não vou deixar você lá sozinha enquanto estiver sob efeito do álcool. — Disse, por um instante senti uma mínima determinação no tom de voz, mas foi bem passageiro.
—Você evitou me beijar... Estou começando a suspeitar que você gosta de outra fruta... — Foi o que ela disse antes de rir novamente, uma risada mole.
Quando chegamos eu destranquei a porta, Hikaru já não estava no sofá. O relógio da parede denunciava 3:30 da manhã. Levei ela até meu quarto e a deitei, ela dormiu quase imediatamente... Eu não posso te proteger Layla... Desculpe...
Quando ela acordou no dia seguinte já era mais de meio dia, eu estava cozinhando na cozinha. Marlo estava na sala trabalhando na capa do livro. Ela se dirigiu a cozinha e se sentou a mesa com as mãos na cabeça, eu apenas a observei.
—Você está bem? — Perguntei em voz baixa, ela concordou sem dizer nada.
—Olha... me desculpa mesmo por ontem... Acho que o álcool tomou conta de mim. — Ela falou antes de se levantar. — Sua casa é legal... confortável... eu queria ter crescido em uma assim, espero que um dia você consiga encontrar a alegria para poder apreciar esse lugar.
Ela saiu da cozinha e por fim ouvi a porta da frente se bater, eu também espero encontrar a alegria para apreciar esse lugar e minha própria existência... Ela é a primeira pessoa que sinto que é como eu... Mesmo sendo diferente, eu queria ajuda-la mas não posso, não sem usar violência e isso é algo que eu não quero, nunca mais.
Não comi, não sinto vontade de me alimentar. As vezes eu simplesmente empurro para dentro, mas não é o caso de hoje. Era meio dia e quarenta e cinco quando saí para ir ao dojo levar almoço para Hikaru. Fui de ônibus, demorei pouco mais de cinco minutos para chegar lá. Quando entrei haviam apenas 2 alunos, quatro a menos que da ultima vez. Hikaru estava sentado ao balcão do canto com a cabeça baixa, encostei em suas costas antes de deixar a comida a sua frente.
—Ah... oi Stuart. — Disse ele levantando a cabeça e olhando para mim, sorriu mesmo eu sabendo que ele não tinha vontade alguma. — Hoje a aula está meio parada. — Ele riu forçadamente, me lembrei de suas palavras de quando eu era criança.
Saí do dojo, eu queria ser forte para superar meus desafios, para proteger Layla do big John e para ajudar meus pais. Mas, sou incapaz de fazer qualquer coisa. Minha vida só afunda e acho que logo não vou mais conseguir prosseguir...
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