Por amor

1 Capítulo único.


Notas iniciais
Espero que vocês gostem e me deixem saber o que acharam. Boa leitura!

Joana está a uma hora no ponto de ônibus batendo os pés no passeio cinza e duro enquanto resmunga baixinho xingamentos contra o mundo, sua casa fica apenas a vinte minutos de caminhada, mas preguiçosa como é preferiu esperar o ônibus que resolveu não passar. A mulher espera mais meia hora até que sente sua nuca escorrer de suor e a boca ficar cada vez mais seca, portanto respira fundo parando de resmungar já que está parecendo uma maluca falando sozinha e se coloca a andar o mais rápido que suas pernas curtas permitem, afinal já está tarde e precisa chegar logo em casa para fazer o jantar para seu marido que daqui a pouco está voltando do turno extra que está fazendo na agência de viagens em que trabalha, todo dia em mais de vinte anos ela faz o jantar para ele e suas filhas e apesar de não gostar muito de cozinhar dessa vez está animada, pois é o aniversário de casamento dos dois.

Cada passo que dá mais se arrepende de não ter esperado mais um pouco o ônibus, as pesadas sacolas de compra que carrega já judiam de suas mãos, ela havia andado o dia inteiro fazendo compras para casa, procurando ingredientes para o jantar e velas perfumadas para dar um clima romântica na sala, quando finalmente chega em casa larga as sacolas na mesa da cozinha e enche um copo de água bebendo tudo em uma golada só sentindo um alívio na garganta e, imediatamente, uma calmaria acompanhada de estranheza a atinge ao perceber o quanto a casa está silenciosa já que suas filhas dormirão na casa de sua mãe essa noite dando um tempo sozinho a ela e seu marido, algo que precisam urgentemente. Joana deixa o copo na pia e vai até o armário anotar o que ainda precisa comprar para a casa, ao pegar a agenda a vê aberta em uma página com um bilhete escrito “Vou trabalhar até tarde, não precisa me esperar acordada”, ela franze a testa sentindo uma súbita vontade de chorar se questionando como é possível que até no sábado, até no aniversário dos dois ele trabalhe até tarde, Joana respira fundo engolindo o choro, guarda a agenda e sai de casa.

Anda sem rumo pelo bairro tentando colocar seus pensamentos em ordem, tinha planejado fazer um jantar diferente para o aniversário de casamento, planejava decorar a sala de jantar com pequenas velas em formato de flor, no meio da mesa de madeira colocaria uma bandeja com macarrão áleo e óleo e uma garrafa de vinho e algumas músicas tocariam baixinho na caixa de som para dar um toque especial entre os dois, mas sem atrapalhar alguma conversa que teriam, por fim a roupa que usaria é um vestido preto que marca suas curvas e vai até pouco acima do joelho. Dessa forma, era o maior desejo para a noite, Joana e seu marido se reconectariam novamente tendo em vista que faz um bom tempo que eles não se encontram em sintonia física e emocional, no início imaginou que era apenas uma fase difícil, entretanto conforme os meses passaram soube que o relacionamento já não é mais o mesmo.

Cansada de andar Joana senta no passeio sentindo as pernas doerem e pensando que talvez a ideia de entrar em uma academia para sentir menos dor ao fazer uma caminhada pequena não seja tão ruim, ao se sentir um pouco melhor olha para frente e vê uma lojinha charmosa que vende de tudo um pouco que abriu a uma semana atrás, se levanta e atravessa a rua entrando na loja. A primeira coisa que vê é uma prateleira cheia de bonecas de porcelana com olhos grandes que parecem estarem te julgando como se soubessem de cada passo que você dá, adentrando mais o local vê vários vestidos de festa pendurados em uma arara e no lado encostado na parede um espelho de corpo inteiro com moldura de madeira sem verniz.

Ao se olhar no espelho percebe que realmente está ficando velha como seu marido afirmou duas semanas atrás, era uma sexta-feira e ela tinha pensando em ir ao cinema ver um filme de romance que tinha estreado e depois jantar, ao falar sobre isso com seu marido ele concordou com o encontro sem hesitar, no entanto no momento que Joana colocou um vestido vermelho apertado na cintura e solto até a metade de sua coxa ele reclamou dizendo que é uma roupa de mulher novinha e não de alguém velha como ela, que mulher dele não sai de casa vestida assim e Joana já devia saber disso. Ela acabou perdendo a vontade de sair e enquanto remoía a tristeza esquentando um arroz com feijão para si e para as crianças ele apareceu na cozinha a abraçando e contando sobre seu dia como se nada tivesse acontecido, nesse dia ela não acreditou em nada do que ouviu, contudo olhando agora para as linhas de expressão em seu rosto que estão ficando cada vez mais marcadas percebe um fundo de verdade na fala do marido. Sai da loja e volta para casa mais frustrada do que já estava, ao passar pelo portão e a porta principal escuta um estrondo seguido de uma chuva forte que rapidamente escurece a sala de jantar, suspira derrotada e segue para seu quarto sem ligar a luz confirmando que hoje simplesmente não é o seu dia, ao entrar no quarto vai direto ao banheiro para tomar um banho quente que com sorte a relaxaria um pouco.

Joana não entende em que momento exato começou a perder o marido, talvez fosse quando ele começou a ficar horas preso no trabalho quase todo dia, quando passaram a conversar menos, quando ele parou de tocá-la e a julgar cada ação que tomava como se nunca fosse bom o bastante. É estranho imaginar que o homem que conhece melhor que ninguém, que convive durante mais de duas décadas repentinamente teria atitudes que o deixaria irreconhecível aos seus olhos, ele é a mesma pessoa que Joana disse “sim” no altar, mas ao mesmo tempo não é. Ao sair do banheiro ela para de frente do espelho ao lado da cama olhando mais para sua alma que para a imagem refletida, consegue sentir suas pernas fraquejarem e o coração bater tão forte que tudo o que deseja fazer é gritar pedindo para a dor latente parar, pois sempre fez de tudo para ser uma boa pessoa: faz seu serviço de casa sem reclamar, tenta ser o mais atenciosa possível com suas filhas, valoriza o quanto sua vida é maravilhosa comparado com pessoas que passam necessidade, portanto não merece sentir essa tristeza dentro de si, é completamente injusto que tenha que passar por isso sendo que já enfrentou muitas batalhas. Infelizmente a vida não é justa, nunca foi, e ao perceber esse fato mais uma vez se sente tão desgastada que a ideia de pertencer a esse casamento parece errado, porém não sabe se tem forças para lutar agora, então veste o pijama e deita na cama torcendo para que o amanhã seja um dia melhor.

No momento que o relógio dá duas da manhã Joana acorda assustada com o barulho do portão batendo forte e a voz desnecessariamente alta de seu marido, pela rapidez e agressividade que fala é possível ver que está irritado novamente, portanto não irá sequer se dar conta de sua presença igual todas as outras vezes que chegou com esse humor, ela observa em silêncio o homem entrar no quarto, tirar a roupa, ir para o banheiro, sair de lá, colocar o pijama e deitar na cama virado de costas para ela sem nem ao menos dar um mísero aceno com a cabeça para ela, como se fosse tão insignificante que não vale o esforço.

De repente uma ideia passa por sua cabeça, o aniversário de casamento já pode ter acabado, mas ele ainda é seu marido então se recusa a passar mais uma noite aceitando ser ignorada sem tentar fazer algo a respeito, Joana se levanta e vai até o armário abrindo a primeira porta em direção a cômoda, pega uma lingerie vermelha rendada e se dirige para o banheiro, assim que se veste respira fundo tentando controlar a sensação estranha de ficar de roupa íntima perto do marido depois de tanto tempo, passado alguns minutos sai do local e anda lentamente para a cama ligando o abajur que fica no criado-mudo, encara as costas do homem que se casou contando até dez em uma tentativa falha de acalmar a ansiedade e mantendo em mente que é agora ou nunca, dessa forma começa a depositar beijinhos no pescoço do homem e arranha de leve seu braço fazendo com que ele se vire e encare seus olhos deixando-a com o coração acelerado, ele coloca uma mecha do cabelo dela para trás da orelha abrindo um sorriso cansado e se vira para o outro lado novamente.

Joana se levanta da cama com vontade de chorar, volta ao banheiro e coloca o roupão preto que fica pendurado em um gancho atrás da porta, em seguida com passos apressados vai para a cozinha, pega o vinho que havia comprado mais cedo e uma taça e a enche até a boca tendo a certeza que seu relacionamento está na reta final, ela olha em direção ao micro-ondas reparando na prateleira de madeira em cima dele com um pano branco e uma caixinha de música que ganhou no ano retrasado cuidadosamente depositada sob o pano. Era aniversário de Fernanda, a filha mais nova, e o parque de diversão estava na cidade, a menina queria porque queria ir e depois de muito insistir convenceu os pais e a irmã mais velha Helena a levá-la, Joana concordou extremamente contrariada só para ver sua filha feliz já que sempre foi muito medrosa, achava que um parafuso de um brinquedo ia soltar fazendo ele despencar do ar, que podia vomitar em si mesma se fosse na montanha-russa, que o cinto de segurança de qualquer brinquedo não ia realmente mantê-la no lugar. Ao chegarem no parque a primeira coisa que ela e seu marido fizeram foi levar as crianças no carrossel, no pula-pula e carrinho de bate-bate, estava tudo bem até que Fernanda pediu para ir na roda gigante fazendo Joana sentir calafrios percorrerem sua espinha, mas acaba concordando de qualquer forma com a condição que o pai das duas fossem junto, logo enquanto os três se divertiam ela olhava a roda gigante descer e subir com o coração na mão.

Quando desceram as crianças agarram as mãos da mãe puxando-a para uma montanha-russa infantil em formato de uma cobra sorridente e com um loop só e bem pequeno, apesar da aparência agradável Joana já podia sentir o estômago embrulhar ao imaginar suas filhas de cabeça para baixo usando um cinto grande demais para elas, após alguns minutos agonizando sem saber se deixaria as meninas subirem no brinquedo assassino permitiu dizendo que ela e o marido iam juntos porque se fosse para morrer pelo menos morria todo mundo junto, ao entrarem no carrinho na hora que começa a andar Joana agarra a mão de Helena e repete como um mantra que ia ficar tudo bem e ficou tão bem que ela se viu gostando, saiu da montanha-russa levemente enjoada e com adrenalina correndo nas veias, uma adrenalina tão boa que a fez abraçar o marido apertado e falar sem parar do quanto tinha se divertido, os dois tiveram uma conversa leve durante todo o dia e ele até a surpreendeu comprando uma caixinha de música de vidro com uma bailarina cor-de-rosa dentro afirmando que lembrava o quanto Joana ficou triste quando Helena deixou cair no chão a caixinha, consequentemente quebrando a bailarina no meio, que ganhou de presente de sua bisavó horas antes de seu falecimento. Depois desse dia ela sentiu que seu casamento estava melhorando, que pouco a pouco estavam se reerguendo e entendendo novamente como resolver suas brigas sem ficar dias sem conversar e cogitar um divórcio, nenhum dos dois queria se separar então começaram a abaixar suas armaduras preferindo o amor a luta. Mas o amor às vezes não é o bastante.

O relacionamento está quebrado novamente e Joana sabe o que precisa fazer, porém o medo está a consumindo, não pode simplesmente acabar com um casamento de vinte e seis anos porque uma partezinha dela debaixo das frustrações e mágoas ainda o ama e por não saber o que será de si se fizer o que precisa, ela não sabe mais como é ser solteira, como é não ser a esposa de alguém, ainda assim não tem mais como adiar o fim, desse modo se levanta e volta para o quarto.— Eu sei que está acordado, temos que conversar. — Diz mantendo o choro entalado na garganta.

Recebendo o silêncio em resposta vai até a cama parando na frente dele, se ajoelha e coloca os braços em cima da barriga gordinha do suposto amor de sua vida e encara seu rosto tentando decorar cada traço.

— Não me faça repetir.

Ele abre os olhos sabendo o que está por vir, ele conhece cada expressão, mania, forma de se mover e tom de voz de sua esposa, considerando o tom grave que falou e o olhar derrotado soube imediatamente que não sairá coisa boa da conversa, sendo assim senta na cama e pede para Joana prosseguir.

— Tu sabe que eu te amo muito, mas realmente não consigo mais viver assim.

“Eu entendo” foram as palavras que saem de sua boca deixando-a frustrada ao perceber como foi fácil para ele se conformar, no entanto ainda assim já sabia que não seria diferente visto que geralmente em suas brigas ele sempre dizia que a amava muito e que ia mudar, porém a mudança nunca acontecia e em suas últimas discussões nem promessas mais ele fez.

— Sabe o que é estranho na nossa relação? Eu te conheci tinha dezessete anos só e estamos juntos até agora, e em todos esses anos tu foi meu mundo e eu precisava de tu, mas agora… agora eu preciso te perder para conseguir precisar só de mim de novo.

Ao ouvir essas palavras o homem se derrama em lágrimas, pela primeira vez consegue ver um futuro sem sua esposa e não é nada bonito, enquanto isso Joana apenas se levanta e vai para a sala de estar sem olhar para trás, pois o risco de mudar de ideia é muito grande e ela precisa ser firme, acaba adormecendo no sofá sentindo um alívio no coração ao mesmo tempo que seu marido dorme sentindo uma confusão dentro de si que o deixa sem direção, sem saber o que fazer de agora em diante. Ao amanhecer Joana levanta com o corpo todo dolorido e se dirige a cozinha para fazer café esperando ver o seu, agora, futuro ex-marido sair com malas pela porta, contudo enquanto despeja a água fria dentro da chaleira e liga o fogão não escuta nenhum barulho que indique que ele ao menos está acordado. No momento que acaba o café e coloca um pouco para si dentro da caneca toma o líquido rapidamente queimando a língua e a garganta e vai para seu quarto pensando em pegar uma roupa para tomar banho e ver se seu marido já acordou, ao parar em frente a porta do local gira a maçaneta o mais devagar que consegue para não fazer muito barulho e assim que acaba de girar abre apenas o suficiente para passar, quando finalmente entra no quarto fica em choque ao ver as janelas escancaradas deixando o ambiente bem iluminado e algumas gavetas da cômoda abertas e vazias.

A medida que sente seu rosto se contorcer em uma careta e o corpo endurecer obriga seus pés se mexerem até o armário e seus braços abrirem porta por porta para ver apenas suas roupas e um cabide com um moletom verde que deu para ele de presente há três aniversários atrás e que se tornou seu preferido, Joana sente um forte desejo de amaldiçoá-lo por sair escondido, no entanto a mesma força que fez esse desejo aparecer o faz sumir afinal é compreensível ele não querer vê-la depois da noite que tiveram, tendo em vista isso Joana coloca o cabide na cama e veste o moletom branco escrito “Melhor Pai” rindo do quão grande fica em seu corpo e sentindo o cheiro excessivamente doce do perfume que ele usa toda manhã antes de ir trabalhar, ao pegar o cabide novamente e guardar no armário vê um envelope na base do guarda-roupa com seu nome escrito em um garrancho familiar.

“Querida Joana,

Desculpa por ir embora sem falar nada, mas só de pensar em ver o seu rosto uma última vez dói demais. É horrível termos chegado a esse ponto, na verdade nunca achei que isso realmente aconteceria, mas respeitarei a sua decisão. Como eu posso explicar o que tenho sentido em relação a nós dois nesses últimos meses, talvez anos? Eu estou enlouquecendo meu amor, eu tenho esse monte de sentimentos ruins que me faz sentir raiva o tempo todo e tristeza e eu não sei a razão disso, a única coisa sei e que não tem me deixado perder a cabeça é a que eu te amo e te tenho… tinha pelo menos.

Não sei quando ou por que me joguei de cabeça dentro de um buraco, mas é por estar nele que só tenho te afastado e brigado, não sei o que fazer além de me afogar em trabalho e nos copos de cachaça, os dias que eu voltava para casa só de manhã era porque tinha bebido tanto que algum amigo meu me deixava descansar em sua casa para não voltar mal para tu. Em uma dessas noites de bebedeira me lembrei de quando completamos um ano de casados e estávamos vivendo um inferno, nós dois sempre fomos tão diferentes que era difícil convivermos sem brigar e mesmo assim permanecemos juntos e seguimos em frente, crescemos, construímos uma casa, vendemos ela e compramos outra, ficamos mais fortes e no processo tivemos duas filhas incríveis, uma pena que eu tenha te desgastado ao ponto de me pedir para ir embora.

Ontem quando estava indo trabalhar o rádio tocava a nossa música e quando chegou na frase 'você é a melhor coisa que já foi minha' pensei em te ligar só para ouvir sua voz, só que aí acabei deixando para lá porque me faltou coragem de mostrar o quanto me importo, mas eu tenho coragem agora! Então acredite quando digo que não foi isso que planejei para nós quando disse 'na saúde e na doença até que a morte nos separe' naquela igreja azul em 4 de março de 1992. Eu estou indo embora porque não tenho opção, não posso te obrigar a aceitar minha presença, mas se por acaso mudar de ideia não hesite em me procurar. Eu te juro que a última coisa que queria é te magoar, e é por amor e apenas por amor que vou embora mesmo sabendo que é aí que pertenço.”

Assim que acaba de ler a carta sente uma raiva tão grande que explode em um pranto doloroso, ele não tem o direito de fazê-la viver a pior época de sua vida para depois ir embora dizendo o quanto se importa e está magoado, começa a xingar seu marido de todos os nomes possíveis enquanto tira o moletom o jogando no chão e rasga a carta com toda sua força. Quando finalmente cansa de rasgar em pedaços minúsculos o papel escorrega para o chão encostando as costas no armário sentindo o choro diminuir e uma tristeza dar lugar a raiva, após alguns minutos seus olhos estão vermelhos e completamente secos, logo ela se levanta e vai até a janela a fechando, em seguida deita na cama com o estômago embrulhado e as lágrimas voltando a cair, quanto mais chora mais seu estômago se contorce de dor e mais tem que se obrigar a manter os olhos abertos até que não aguenta mais e se deixa ir.

Quando acorda já é fim de tarde e seu corpo está pesado, se levanta da cama indo ao banheiro e a primeira coisa que vê no espelho em cima da pia são os olhos inchados e o cabelo todo bagunçado, repentinamente se vira para o vazo levantando a tampa com o vômito descendo por sua boca de imediato deixando-a sem tempo para segurar o cabelo, assim que acaba lava a boca na pia e senta no chão do lado do vazo sentindo seu estômago ameaçar colocar mais para fora. Ela vomita mais uma vez antes de seu estômago se acalmar, respira fundo novamente tentando conter as lágrimas que estão aparecendo novamente, assim que se sente melhor se levanta e escova os dentes, depois toma um banho quente, coloca um vestido azul florido e treina seu melhor sorriso para a hora que suas filhas voltarem da casa da avó.

Helena e Fernanda tiveram o melhor final de semana de todos, no dia anterior na hora do almoço a mãe de Joana buscou as duas em casa e levou direto para o shopping, visitaram diversas lojas e compraram para Helena um macacão de jardineiro e duas regatas e para Fernanda um vestido verde de babados e uma sapatilha, depois almoçaram hambúrguer e foram para a casa da avó. A noite Isabela fez para as meninas brigadeiro para comerem enquanto viam o filme de romance que Helena tinha escolhido, quando amanheceu o domingo passaram a manhã assistindo desenho e depois tiveram um almoço mais saudável para compensar o hambúrguer gordurento que almoçaram no sábado, de tarde visitaram a feira de artesanato que tem toda semana na praça e comeram cachorro quente do senhor Antônio dono da única barraquinha de comida do local, as duas não sentiam vontade nenhuma de ir embora, mas quando o relógio bateu dezoito horas voltaram para casa de Isabela, escovaram os dentes, pegaram suas mochilas e entraram no carro fazendo planos para convencer a mãe de deixá-las dormirem na avó mais que uma vez na vida e outra na morte. Ao chegaram em casa Fernanda dá um abraço em Joana e vai para seu quarto enquanto Helena senta no sofá da sala de estar junto de sua mãe encostando a cabeça em seu ombro.

— Cadê sua vó? Não quis entrar não?

— Não, ela disse que tem aula de natação. Como foi ontem com o papai? Que tu fez com ele?

— Foi legal…jantamos e conversamos um pouco. — Joana sorri forçado e respira fundo.

— Ele tá em casa?

— Tá não, teve que fazer uma daquelas viagens de emergência do trabalho.

Helena balança a cabeça em compreensão e liga a televisão no seriado de serial killers que acompanha com Joana, quando seu pai começou a trabalhar na agência de viagens “Rioecoturismo” vivia recebendo ligações do chefe avisando que tinha uma hora e às vezes menos para se arrumar e ir viajar, no começo ficava chateada por ele sair sem se despedir e sem saber quanto tempo teria que ficar fora, mas quando se conformou com o fato de que nem sempre dava tempo passou a encarar como algo normal. Ao acabar de assistirem todos os episódios novos gravados Helna vai até o quarto de sua irmã e encontra a menina debaixo de um cobertor roxo grosso de lã sendo que está fazendo um calor de vinte e sete graus, se aproxima percebendo que o cabelo da mais nova está ensopado de suor, então retira a coberta substituindo por um lençol branco fino com o máximo de cuidado possível para não acordá-la, porém ao se virar para sair escuta uma voz baixinha a chamando.

— Oi pequena.

— Ei… naninha o papai já chegou?

— Ele teve que viajar, mas a mamãe tá em casa, quer que chama ela?

Fernanda balança a cabeça em sinal positivo fazendo com que Helena comece a gritar o nome de sua mãe até a mesma responder.

— Se fosse pra berrar eu mesma berrava. — Fernanda revira os olhos.

Joana aparece dizendo que não gosta que a gritem, se encosta no batente da porta e olha para as duas que estão em silêncio até que Helena cutuca a irmã.

— Eu quero a música mamãe.

— Está cedo para a música, na verdade está cedo pra tu dormir, sabe muito bem que se dormir agora não vai dormir direito de noite.

— Por favor mamãe, eu prometo que vou dormir a noite todinha!

Ela franze a testa sabendo que a promessa é em vão, pois conhece a filha o suficiente para saber que não conseguirá dormir, contudo considerando como seu dia tinha sido cansativo decide não se desgastar ainda mais em uma discussão com a filha.

— Tudo bem, mas se eu ouvir um pio de noite vou te colocar de castigo.

— Sem pio mamãe. — Fernanda coloca as duas mãos na boca indicando que ficará quietinha fazendo Joana rir e começar a cantar baixinho para que só as duas escutem.

— O pecado não consegue esconder a marca de Jesus que existe em você, o que você fez ou deixou de fazer não mudou o início: Deus escolheu você. Sua raridade não está naquilo que você possuiu ou que sabe fazer, isso é mistério de Deus com você…

Joana acaba de cantar e observa Fernanda dormir com um semblante calmo como sempre fica depois de escutar essa música ou de rezar, “Raridade” é uma canção que seu marido ensinou para as meninas assim que começaram a ir na Igreja e desde então virou tradição ele cantar para as duas a pedidos de Fernanda antes de orarem para dormir e quando ele não está em casa Joana o substitui com uma certa relutância tendo em vista que não sabe se acredita em Deus, com isso em mente a mulher mais velha sente seus olhos coçarem e encherem de lágrimas, rapidamente passa a mão neles em uma tentativa de secá-los e ao conseguir encara Helena fazendo com que a garota entenda nas palavras não ditas que seu pai não é mais bem-vindo em casa.

Joana se levanta e vai para seu quarto sendo seguida por Helena que está com milhões de perguntas na cabeça, ela não é burra nem uma menininha mais e seus pais não são exatamente bons em esconder as constantes brigas então sempre percebeu o clima pesado entre eles apesar de nunca ter dito uma palavra sobre isso, afinal não sabe como podem reagir e não diz realmente respeito a ela, entretanto se preocupa como a irmã vai reagir quando souber que os pais possivelmente não ficarão mais juntos, pois ela ainda tem muita coisa que não entende em relação aos dois. Fernanda ainda é muito nova para compreender o tratamento silencioso que dura dias que seu pai dá a sua mãe sempre que ela fala ou faz algo que não o agrada, em sua inocência se apoia em Helena todas as vezes que frases horríveis ecoam pela casa antes do silêncio recebendo o alento que adultos brigam assim como ela e que quando se acalmarem estão bem de novo.

Helena quer muito obter respostas sobre qual a razão da briga dessa vez, porém como sempre guarda para si mesma juntando todas as informações que já tinha da relação dos dois. Sua mãe é calma, compreensiva e sempre fala baixo olhando para o chão enquanto seu pai perde a noção da altura em que fala e do que fala principalmente quando o assunto é sua família, quase todos os dias ele tem uma reclamação a fazer como o fato de que suas filhas estão crescendo rápido demais e enchendo ele de perguntas que é obrigação apenas de Joana como mãe responder, também sempre reclamava do quão vagabundo era seu irmão que se envolveu com drogas até que ele levou um tiro e a reclamação passou para uma lição de moral sobre a justiça divina ter entrado em ação com seu irmão, entretanto Helena sabe que a bala cravada na cabeça de seu tio drogado não teve relação alguma com Deus.

No dia que Joana cortou os cachos que batiam na cintura deixando-os na altura dos ombros e comprou roupas novas para o guarda-roupa que, diferentemente das outras, marcam sua silhueta as brigas só pioraram, entretanto Helena não entendia muito bem o motivo já que não tem nada demais em roupas novas. Então Joana começou a costurar e depois de um tempo passou a ganhar seu próprio dinheiro vendendo as bolsas que fazia em feiras e na internet e fez novas amizades com outras pessoas que gostavam de artesanato e o inferno foi instalado dentro de casa, sabendo da mente neurótica de seu pai Helena finalmente entendeu o que estava acontecendo: ele sofria com a própria imaginação que o fazia se perguntar quem Joana estava vendo sempre que saía para vender suas costuras, com quem estava conversando no celular e até mesmo se queria agradar alguém que não era ele com as roupas novas que havia comprado e usava sempre que podia.

Todavia cada dia que passava o amor era sufocado pelas dúvidas e o pior era que Joana recebia toda a agressão de seu marido sem realmente entender a razão disso já que ele não falava logo o que o incomodava, apenas jogava piadinhas e a criticava tudo que fazia, até que um dia ele disse com todas as letras o que se passava em sua cabeça: a acusou de traição e falou até que o dinheiro que estava ganhando era para pagar o motel com o outro. Ele dormiu na casa dos pais nesse dia e passaram uma semana sem se falar, Fernanda como sempre buscou o colo da irmã mais velha e escutou o mesmo papo que ia ficar tudo bem quando se acalmassem e Helena ficou extremamente magoada com o pai por pensar coisas horríveis de Joana, ela queria xingá-lo e defender sua mãe, mas ao ver o rosto abatido na mulher mais velha se conteve decidida a não deixar as coisas piores para ela. Quando ele voltou pediu perdão aos pés de Joana e disse que a amava tanto que não suportava a ideia de ser trocado, mas que notou que ela nunca faria isso e que foi um idiota de sequer imaginar algo desse tipo. Joana o perdoou e de fato ele nunca mais a acusou de ter uma atitude tão cruel novamente, porém ela nunca mais voltou a costurar.

— Mãe.

— Fala.

— Posso dormir contigo hoje? — Helena pergunta já deitando na cama.

Joana deita ao seu lado olhando para o teto pensando em negar, porém ao olhar para a filha que está visivelmente abalada seu coração se aperta.

— Só se você tomar banho, não sou obrigada a aguentar fedor.

— Eu não tenho fedor, tomo banho todo dia!

— Todo dia que você diz é só os sábados que eu sei. — Joana ri de sua própria piada.

Helena faz cara feia para mãe, se levanta e vai para seu quarto pegar o pijama, em seguida entra no chuveiro que fica no corredor, assim que acaba de tomar banho vai até a cozinha e pega um pedaço enorme do bolo de chocolate que sua mãe comprou há dois dias, volta para seu quarto e liga o computador para fazer o trabalho de ciências da escola. Enquanto a menina estuda Joana abre a última porta do armário do lado da parede e vê a máquina de costura no mesmo lugar que deixou anos atrás quando parou de costurar, pega a máquina com bastante dificuldade devido seu peso e deixa em cima da cama parando para respirar um pouco, alguns segundos depois pega novamente o objeto e vai até a sala de jantar em passos pequenos para não desequilibrar colocando a máquina em cima da mesa, volta para seu quarto e pega uma tesoura, uma régua e alguns panos indo para a sala de jantar novamente, liga a máquina na tomada e tenta lembrar das medidas do porta óculos que ia fazer antes de parar de costurar, ao se lembrar começa a medir os panos e cortá-los para poder costurá-los na máquina. Passado algumas horas Joana acaba de costurar e olha com um certo orgulho para seu feito, o porta óculos é todo preto com bolinhas brancas e cabe perfeitamente seu óculos de leitura, a costura nos cantos inferiores e no zíper ficou um pouco torto, porém conseguirá arrumar isso com o tempo quando pegar jeito novamente, desliga a máquina e vai para a cozinha preparar um macarrão a bolonhesa. Quando acaba de cozinhar se dirige ao quarto da filha mais velha a pede para acordar a Fernanda para comerem, a menina grita a irmã três vezes antes de finalmente escutar uma resposta perguntando o que ela queria, então Helena grita novamente dizendo que é hora de jantar.

— Eu já disse para não gritar Helena Maria!

— Desculpa mãe.

Assim que as três vão para a cozinha jantam em um silêncio confortável, Fernanda está perdida em pensamentos sobre como o final de semana foi longo e sente falta de suas amiguinha na escola, Helena está angustiada porque a segunda-feira está chegando e tem prova e estudou absolutamente nada e Joana não consegue deixar de desviar sua mente para seu marido e todos os momentos que compartilharam, seus pensamentos estão focados em todas as vezes que ele minou sua autoestima fingindo que ela é invisível, dizendo que é uma mãe horrível quando uma das filhas aprontava ou até mesmo jogando alguma piadinha quando chegava quase nove horas da noite da casa da mãe porque aparentemente nenhuma mulher adulta gastava tanto tempo assim com os pais, consequentemente ela devia ainda ser muito dependente do ninho fazendo com que ela diminuísse consideravelmente o tempo que gastava com seus pais. É inevitável não se perguntar como deixou chegar a este ponto, como aguentou tanto tempo, e o motivo de mesmo sabendo que tirar ele de casa e quando estiver mais calma entrar com o pedido de divórcio é para melhor ainda sente seu coração ser esmagado. Ao acabaram de comer Joana lava a louça enquanto Helena seca, em seguida vai para seu quarto tomar um banho quente que sempre a ajuda relaxar e a filha a segue subindo na cama e ligando a televisão no programa de culinária “MasterChef Brasil”.

— Para quem está torcendo? — Pergunta Joana ao sair do banheiro e se sentar na cama.

— Pro barbudo fortão daqui do Rio, ele além de ser irado cozinhando é muito bonito.

— Ele é apenas, como você diz, irado pra cozinhar mesmo, de bonito tem nada.

— Deus perdoa ela, não sabe o que fala. — Helena diz juntando as mãos e olhando para o teto.

Joana apenas revira os olhos e liga o secador de cabelo ao dar o intervalo do programa, passa no cabelo todo dando uma atenção especial a franja para não ficar arrebitada e quando acaba desliga o secador colocando-o em cima do criado-mudo e deita se encolhendo debaixo das cobertas esperando o programa acabar. Assim que MasterChef Brasil volta a passar Joana presta bastante atenção sentindo seu estômago revirar de fome com tanta comida com aparência gostosa e ao cutucar Helena para falar que deviam tentar alguma receita do programa um dia percebe que a mesma adormeceu, portanto cuidadosamente tira o controle da mão da filha, desliga a televisão, apaga a luz e encara o teto pensando como conversará com suas filhas sobre o que aconteceu e que deve procurar seu marido para decidirem quais dias as meninas passarão com ele, afinal as duas ainda precisam do pai. Pensando nisso sua mente, de repente, vaga para sua crença inexistente em Deus, sempre estranhou a ideia de alguém observando cada passo que dá e que sabe tudo sobre sua vida e suas intenções quando você mesmo não sabe, entretanto a angústia que sente abriu espaço pela primeira vez em muito tempo para a necessidade de um conforto teoricamente inigualável.

Dessa forma junta as mãos, fecha os olhos e respira fundo tentando lembrar como rezar já que nas poucas vezes que participa do momento de oração com as filhas uma das duas que falam com Deus enquanto ela se permite divagar consigo mesma, ao ouvir Helena resmungar algo inteligível uma luz acende em sua cabeça a lembrando exatamente como orar, sendo assim se deixa levar por uma enxurrada de emoções enquanto pede a Deus pela razão de sua família estar passando por mais essa fase difícil e por um sinal de que não é louca por estar basicamente sussurrando para si mesma, que Ele realmente a está escutando.

Ao acabar de rezar faz o sinal da cruz com um aperto no coração considerando que não parece certo fazer esse gesto quando sua fé é uma luz trêmula dentro de um abismo, porém torce para que Deus desconsidere esse fato e se concentre apenas no agora, em seguida abre os olhos, pega o celular e começa a ler as mensagens trocadas com o marido, a maioria é dele avisando que está preso no trabalho então voltará tarde para casa e ela aceitando e falando que o ama sem receber um “eu te amo” de volta, com isso devolve o telefone para o criado-mudo e adormece com o coração partido.

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Três semanas se passaram desde que Joana colocou um fim em seu casamento, todo dia durante a noite Helena e Fernanda falam com o pai pelo telefone que não conta o verdadeiro motivo de estar longe, apenas conversa um pouco sobre o dia delas e reza com as duas depois de cantar a música para Fernanda. Joana conseguiu começar a se sentir menos angustiada com a situação e se focar em si mesma, passou a costurar novamente todo dia e voltou a frequentar as feiras de artesanato para ganhar um dinheiro extra já que as economias da casa não vão durar para sempre até conseguir acertar a situação do divórcio que está enrolando para dar entrada, toda vez que decidi ir em um advogado acaba encontrando mil coisas para fazer e quando percebe já está muito tarde e seu marido, que podia também dar a entrada, não parece fazer questão alguma de acelerar a separação. Tudo estava indo consideravelmente bem até que uma quinta-feira sai mais cedo da feira, todo vez que ia ficava até as sete da noite e dessa vez ficou até as cinco para poder levar suas filhas para passear já que nas últimas semanas só tinham ido de casa para escola e da escola para casa, ao chegar em casa vai direto para seu quarto trocar de roupa escutando risadas no quarto de Fernanda e imagina que a menina está brincando com um de seus bichos de pelúcia, enquanto troca a camiseta por uma regata vermelha escuta a risada ficar mais alta seguido por um “lá vou eu”.

— Do que tanto tu ri? — Joana fala entrando no quarto da filha mais nova.

— Da naninha.

— Mas ela nem está aqui.

— Claro mamãe, mas ela acha que pode esconder de mim, só que eu sempre acho ela! — Fernanda ri, corre passando por Joana e gritando que começará a procurar.

A mulher sente uma raiva crescer dentro de si considerando que já disse milhões de vezes sobre gritar e correr dentro de casa para as duas, mas parece que não é português que fala e sim grego.

— Chega dessa brincadeira, quero as duas na sala agora! — Grita indo para a sala de estar e percebendo que não adianta nada dizer que não gosta de gritaria se ela mesmo o fizer.

As irmãs vão para a sala em silêncio de mão dadas até sua mãe e de cabeça baixa sabendo o sermão que escutarão, Joana olha para as duas pronta para colocá-las de castigo até que uma terceira pessoa aparece com um sorriso escancarado que a faz congelar.

— Mamãe, o papai voltou! Ele só queria brincar com a gente. — Fernanda fala manhosa.

— Depois conversaremos sobre isso, vão para seus quartos.

Joana olha o homem a sua frente da cabeça aos pés percebendo que sua pele está mais pálida, as olheiras mais fundas e emagreceu tanto que a pele em sua clavícula está funda.

— Tu vai dizer algo ou vai ficar aí parado?

Ele sorri sem graça e senta na poltrona preta do lado do sofá explicando que não tem muito o que falar, que queria apenas ver suas filhas e que teria conversado sobre isso com Joana, porém suas conversas têm resumido apenas em divórcio, por isso aparecer de surpresa pareceu uma boa ideia. Joana se esparrama pelo sofá encarando o teto enquanto escuta aquele que prometeu amá-la até a morte se desculpar por tudo que fez e dizer que quer voltar para a casa, que quer dar uma chance para os dois porque tantos anos e tanto amor não podem ser desperdiçados assim, repentinamente sua mente vaga para o que precisa fazer para o jantar e se deve ou não colocar mais um prato na mesa, pois já sabe essa ladainha tão de cor que não será surpresa alguma se ouvir ele admitindo que estava errado e que se esforçará mais dessa vez, e mesmo sabendo disso esse papinho a deixa abalada toda vez. Por algum motivo parece inútil resistir a ele, visto que durante os dias têm se mantido firme e forte, mas ao chegar a noite se deitar sozinha em uma cama grande demais tudo que consegue pensar é em ter o corpo quente dele ao lado do seu mesmo que não estejam se encostando. Ao voltar a se concentrar no marido escuta ele perguntar pela centésima vez se pode voltar para casa e um sim escorrega de sua boca antes que consiga pensar melhor sobre isso, ele vai até ela e a abraça depositando um beijo em sua cabeça, grita por Helena e Fernanda que chegam na sala o ouvindo avisar que não viajará de noite como tinha dito, Fernanda comemora com gritinhos de felicidade e pulando em seu colo enquanto Helena apenas balança a cabeça em positivo, senta do lado de Joana e segura sua mão apertando de leve.

As horas passam com os três vendo televisão, no momento que o relógio bate vinte e duas horas as crianças vão para o quarto da mais nova acompanhado do pai para cantarem e rezarem enquanto Joana vai para seu próprio quarto tomar um banho, colocar um pijama e dormir. Passado alguns minutos seu marido entra no quarto segurando a máquina de costura que estava na sala de jantar como se tivesse o peso de uma pena, abre a porta do armário e coloca na base dele aonde estava quando convenceu Joana a parar de costurar, ela o olha trancar o armário com um aperto no coração e o assiste deitar ao seu lado com uma felicidade que não demonstrava a tempos, apesar de ter desejado tanto ver essa alegria em seu rosto não consegue retribuir o sentimento então apenas se vira para o lado oposto e força os olhos a ficarem fechados, repentinamente sente os braços magros do marido a abraçar puxando-a para mais perto em um gesto que seria corriqueiro entre casais, mas que não é para eles. Joana aperta mais ainda os olhos e junta as mãos pela segunda vez no mês pedindo a Deus para que tenha tomado a decisão certa, para que o amor que pensa sentir seja realmente amor e não dependência.

Notas finais
"Por amor" foi realmente difícil de escrever já que, até certo nível, é muito pessoal. Pesquisei bastante sobre o assunto para poder desenvolver este conto da melhor forma possível, espero que tenham gostado! Eu sempre falo um pouquinho sobre os próximos contos que irei postar ou estou escrevendo no twitter, quem quiser me seguir é @lanatalita123, também tenho Instagram: lanatalita_
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!