Por Um Dia
12 Esperanças Vazias
Notas iniciais

É difícil não saber de onde você veio, o que você é e por que vive assim. É difícil não habitar apenas um corpo, e não ter uma vida normal como os humanos. Sou algo que vaga sem rumo, de corpo em corpo, conhecendo histórias, pessoas, porém sem poder fazer realmente parte de suas vidas por mais de um dia.
Mais uma manhã, acordo em outro corpo, quem será...?
Após despertar de meu sono, sento-me desajeitadamente sobre a cama, abrindo lentamente os olhos, porém desta vez não consigo ver nada. Sabia que o nome daquele era Kim JongIn, e que era um jovem de 21 anos. Forçando sua memória não via imagem alguma, era estranho, conheci toda sua vida, mas tudo em plena escuridão.
No dia anterior, estava no corpo de um playboy arrogante e egocêntrico, um "filhinho de papai" que tinha tudo o que queria. E hoje aqui estou eu, no corpo de um deficiente visual, que aos olhos da sociedade não tem nada, nem ao menos a própria dignidade. JongIn não enxerga desde seu nascimento, convive apenas com vozes, texturas e alguns vultos. Depois que saiu da casa de seus pais, por opção própria, passou a viver sozinho em um pequeno apartamento adaptado a sua deficiência. Não gostava que ninguém sentisse pena de si, queria ser como qualquer um, sem ser diferenciado.
Sentado sobre a cama, percebo que o clima está agradável, uma típica manhã de primavera. Respiro fundo, levando as mãos aos cabelos, frustrado e receoso quanto às atividades rotineiras de JongIn. Levanto-me da cama, tateando as paredes e móveis que há neste pequeno apartamento, caminhando sorrateiramente até o banheiro para fazer a higiene matinal. É complicado estar neste corpo, mas consigo fazer as primeiras tarefas do dia com maestria.
Após ter tomado um café da manhã reforçado, sinto-me devidamente pronto para conhecer pessoalmente a rotina deste rapaz. Coloco os óculos escuros que ele sempre usa e pego sua bengala guia, desdobrando-a, para então caminhar até a saída de seu apartamento. Já do lado de fora, sinto a brisa fresca da manhã, tendo alguns raios de sol refletindo no rosto, sinto um cheiro suave de flores, árvores, da natureza em si. A praça que há logo à frente esbanja um aroma natural e delicado, despercebido por, com certeza, todos ali. Também passo a ouvir sons que antes eram inaudíveis, mas neste corpo ficam evidentes e, digamos, mais aguçados.
Com o auxílio da bengala, caminho a passos lentos, desviando das pessoas que andam apressadamente e também dos obstáculos das calçadas desgastadas pelo tempo e mal planejada para deficientes. Entre alguns tropeços pelas ruas e avenidas, decoradas pela memória de JongIn, dirijo-me ao hospital.
Sabia que sua deficiência nunca o limitou e que ali ele fazia trabalhos comunitários, ajudando crianças e jovens com câncer. Você deve estar se perguntando no que um cego, pode ajudar pessoas com uma doença tão grave, se não fosse um médico. Bom... Ele realmente não tem nenhuma formação na área de saúde, mais tem algo muito valioso para aquelas pessoas, algo que jamais alguém poderia tirar dele, seu bem maior. JongIn tem as mais belas histórias gravadas em sua memória, seu talento é usá-las como porta da imaginação para os outros. Alguns pacientes não tinham mais esperança alguma, estavam ali apenas aguardando a morte, mas graças a ele, reacenderam a esperança e a imaginação as levou a outro lugar, fazendo-as voltar a sonhar. É o caso de KyungSoo, um jovem com leucemia que chegou ao hospital há aproximadamente 4 meses, com a doença em um estágio já avançado. Revoltado e descrente de sua recuperação, ele nunca havia se aproximado, sempre se isolou de todos, até mesmo dos médicos. JongIn sempre tentava convencê-lo a entrar na roda de suas histórias, mas o garoto recusava. Até que um dia, por insistência de JongIn, ele resolveu finalmente ouvir as tais histórias. E foi a partir daí que reacendeu a chama da vida em si, fazendo-o voltar a sonhar e nascer então uma grande amizade.
Ao chegar no hospital, já na entrada, sinto que a temperatura mudou, o ar condicionado mudou totalmente a sensação térmica, deixando tudo mais gelado. O cheiro de utensílios médicos descartáveis invade minhas narinas, sufocando-me. Não gosto de lugares como este, tudo transborda tristeza. Como se conhecesse as pessoas ali, consigo sentir a presença delas, e lhes desejo um bom dia, como JongIn costuma fazer.
Andando pelos corredores das alas do hospital, guiado pela bengala e pela memória de JongIn, o silêncio é interferido apenas por meus passos sobre o assoalho, alguns aparelhos normais de hospitais ligados, e algumas vozes em sussurro de um e outro. Chego à sala separada para os pacientes passarem o tempo divertindo-se, e onde também JongIn conta suas histórias. Ouço vozes, a maioria de crianças empolgadas, proferindo o nome daquele em que eu estava encarnado. Dá para sentir em seu tom de voz surpresa mesclando-se com alegria, JongIn deve fazer muito bem a elas. Logo sinto várias mãos me puxando, sorrio abertamente, deixando-me guiar por eles que me fazem sentar onde todos já estavam sentados em roda.
Após alguns minutos de conversa, descubro que aquele garoto, KyungSoo, aquele tão presente em sua memória, não está ali, deve ter ido fazer mais uma de suas sessões de quimioterapia, ou talvez não esteja passando muito bem. Uma pena, pois estava muito curioso para conhecê-lo.
As crianças me pedem para contar algumas histórias e de início fico um tanto tenso, não sei o que contar. Mas, como num passe de mágica, várias surgem, me fazendo ficar à vontade e também curioso quanto ao final da própria história que passei a contar. Quando nos estamos discutindo sobre o rumo que uma delas tinha tomado, surge o médico que acompanha o tratamento de KyungSoo — soube ao reconhecer sua voz — chamando pelo nome de JongIn, dizendo que o garoto doente gostaria de falar com o rapaz.
Despeço-me daqueles que estão na sala, mantendo o sorriso nos lábios. E assim sou guiado pelo médico até onde o jovem garoto se encontra. Antes de poder entrar, tenho que me submeter a um procedimento de higienização e colocar uma máscara cirúrgica. Pelo que o médico havia me dito, KyungSoo está com a saúde muito frágil, noite passada ele teve uma recaída e precisávamos tomar muito cuidado para que nenhuma bactéria entrasse em seu quarto. Sua imunidade está baixa, e qualquer coisa o faria contrair alguma doença que poderia complicar ainda mais seu estado clínico.
Assim que posso, finalmente, entrar em seu aposento, aproximo-me de onde vem uma voz doce, fraca e manhosa, talvez por estar chorando escondido. Sinto uma mão macia pousar sobre a minha e, assim que o faz, a seguro com firmeza. Ele leva minha mão à sua cabeça e é aí que percebo, aquele garoto havia perdido seus cabelos. Tocando sua cabeça, como JongIn fazia, sinto agora a textura de uma pele macia, e não a de cabelos macios, como a memória daquele guardava.
Fico realmente mal pelo garoto. Estou sem saber o que fazer, até que percebo que o mesmo chora com intensidade. Imaginando que JongIn faria o mesmo, levo a mão que está em sua cabeça ao seu rosto, tateando, tentando formar uma imagem de como seria ele e, por fim, secando as lágrimas que escorrem de seus olhos.
Sinto a necessidade de cuidar dele, sinto que precisa de mim, de alguém para fazê-lo sentir-se melhor. E resolvo passar ao menos este dia, enquanto estou neste corpo, dando minha atenção total ao garoto que se mostrava tão fragilizado.
Minutos depois de enxugar as lágrimas que escorrem de seus olhos, tenho uma ideia que talvez o deixe um pouco animado. Mas antes de colocá-la em prática, seu médico entra no quarto para saber se está tudo bem. Eu, aproveitando a oportunidade, pergunto-lhe se posso passar o dia ali com KyungSoo. Sinto a surpresa e a alegria em seu tom de voz após ouvi-lo perguntar-me se estou falando sério. De início, o médico hesita, mas por insistência minha e de KyungSoo, ele acaba cedendo, dando-nos várias e várias restrições quanto ao que devíamos e não devíamos fazer.
Após o médico se retirar, digo a ele que preciso dar uma saída, tudo parte da minha ideia... mas que logo voltarei. Ele demonstra frustração no tom de voz, mas logo aceita, pedindo-me para voltar rápido.
Por fim, deixo seu quarto, guiando-me para a saída do hospital. E graças a um funcionário que passa por ali oferecendo-me ajuda, consigo chegar à saída daquele lugar com facilidade, agradecendo ao mesmo assim que me encontrava do lado de fora.
Quero encontrar uma loja de acessórios, mas não faço a mínima idéia de como encontrar uma, já que estou sem ver nada. JongIn, no entanto, tem uma memória maravilhosa, e graças a ela, desvendando-a, acabo por encontrar uma loja onde ele costumava comprar suas roupas. É bem próxima dali e lá tem o que eu procuro. Jongln não sabe andar pela cidade sozinho, mas sabe ir aos lugares necessário para sua sobrevivência.
Sigo com a bengala para onde fica a tal loja e após alguns minutos de caminhada, chego, sendo recebido por uma voz doce, suave e simpática, feminina. Aquela era a jovem do perfume adocicado, que sempre atendia JongIn quando ele ia até lá. Ela coloca a mão sobre meu ombro, levando-me para dentro do estabelecimento e perguntando o que me trazia até ali. Peço-lhe que traga alguma touca fofa, para um amigo.
Logo ela se afasta, deixando-me encostado no balcão da loja, esperando-a. Volta depois de poucos minutos, colocando várias peças sobre a superfície do balcão. Não consigo vê-las e isso, obviamente, me parece um problema, porém pela textura consigo separar três. Então resolvo pedir opinião à moça simpática. Ela se mostra muito atenciosa e me diz que havia gostado bastante da touca de girafa, dizendo-me que a considerava a mais fofa e entregando-me para que eu novamente sentisse a textura. Acabo por escolher aquela, pedindo para garota que coloque em alguma embalagem de presente.
Este será meu presente para KyungSoo e espero que ele goste. Sinto-me um pouco mal por estar gastando o dinheiro de uma pessoa que eu estava encarnando, não considero muito certo. Mas é por uma boa causa e acho que JongIn faria o mesmo. Pago a moça, pegando o presente que está dentro de uma caixa, com certeza decorada. Agradeço-a pela gentileza e ela me leva até a saída da loja, pedindo-me para voltar sempre... É, quem sabe eu volte, em outro corpo.
Volto ao hospital com o presente em uma das mãos, enquanto a outra segura a bengala. Caminho um pouco mais rápido para poder chegar o quanto antes, dando sempre alguns tropeços pelas calçadas esburacadas, até o hospital.
O som da sirene de uma ambulância e logo a sombra de concreto me fazem perceber que finalmente cheguei. Ao adentrar o recinto, tenho novamente as narinas sufocadas pelo cheiro de hospital e a sensação térmica volta a cair.
Outra vez, caminho pelos corredores do lugar, a fim de voltar ao quarto daquele garoto doente. Antes de finalmente chegar, encontro-me com seu médico, que volta a me encher de restrições e me encaminha novamente para a higienização. Outra máscara me é dada para então finalmente poder adentrar o aposento.
Assim que abro a porta, sou recebido pelos resmungos do garoto, dizendo-me que demorei muito. Rio baixo com aquilo, dobrando a bengala e deixando-a sobre algo plano que há ali. Então me aproximo para poder finalmente estar à frente de sua cama. O garoto não para de me perguntar pra quem é o presente que tenho em mãos. Bom, ele só pode estar se fazendo de tolo, sabe que JongIn não tem ninguém ali para dar um presente, e que no hospital ele é o mais próximo. Todas as vezes que o rapaz comprava alguma coisa, era pra ele, como quando comprava doces e os entregava escondido, pois sabia que aquilo era proibido..
Com a ajuda do garoto, sento-me na cama ao seu lado, entregando-lhe o embrulho, dizendo que é pra ele. O espanto em seu tom de voz me faz perceber que talvez ele realmente seja muito lerdo, a ponto de não ter percebido que aquilo era para ele.
A pequena caixa é tomada de minhas mãos e o silêncio predomina, apenas interferido pelo barulho da caixa sendo aberta. Continuo calado, esperando alguma reação do garoto, mas nada acontece.
Fico tenso com aquilo, então acabo perguntando se está tudo bem. Nada é dito, apenas sinto seus braços envolvendo meu corpo, o apertando com força. Agora é minha vez de ficar surpreso, não sabia que o garoto ia fazer isso, então, um pouco receoso, acabo retribuindo seu abraço enquanto ele afundava seu rosto em meu peito e volta a chorar, agradecendo-me várias vezes em sussurros.
Após se acalmar, ele me pede para colocar a touca em sua cabeça. Com um pouco de dificuldade, consigo fazê-lo, dizendo-lhe que gostaria de enxergar para ver como ele estava. Acho que JongIn também gostaria, se realmente estivesse aqui neste momento. Sem jeito com que eu digo, KyungSoo dá um leve tapa em meu braço, rindo baixo, sua risada é muito agradável e gostosa de ouvir.
Depois de um tempo ali com ele, passando palavras de incentivo e encorajando-o, KyungSoo repentinamente passa a me falar sobre sua família, assunto de que ele sempre tentava escapar quando JongIn perguntava algo. Fico sabendo que depois que seus pais descobriram sua doença, passaram a trabalhar em dobro para arcar com as despesas do hospital, que eram altíssimas, e nunca o visitaram desde que foi iinternado, tanto por trabalharem muito, quanto por não conseguirem vê-lo daquela forma. Era por isso que ele falava tanto sobre a morte para JongIn, ele queria que acabasse logo seu sofrimento e de seus pais.
É a primeira vez que entro no corpo de alguém e fico tão envolvido em sua vida e das pessoas ao seu redor. Não costumo fazer isso, a cada dia que entro no corpo de alguém evito saber muito sobre elas. Mas as lembranças daquele deficiente visual me cativam de tal forma, que a cada descoberta que faço sobre ele e sobre o garoto me fazem querer mais e mais. Pela primeira vez, tenho o sentimento de estar no corpo de duas pessoas, JongIn e KyungSoo. De alguma forma, sinto as dores do garoto.
Passamos o resto da manhã falando sobre nossas vidas pessoais, quer dizer, sobre a vida dele e de JongIn. Mesmo não querendo, acabo revelando vários segredos do rapaz em que eu estou encarnado, já que o garoto revela os seus. Mas está tudo bem, acho que seriam coisas que JongIn contaria para ele sem qualquer receio, são apenas confidências de amigos, travessuras que eles cometiam em suas infâncias.
No primeiro período da tarde, uma enfermeira entra no quarto de KyungSoo, trazendo-lhe sua refeição, e a pedido do médico do garoto, também traz algo para que eu me alimente. Fico agradecido e envergonhado pelo ato, mas aceito de bom agrado, já que o corpo de JongIn já está apresentando sinais de fome. E pra quem reclamava de refeições hospitalares aquilo estava ótimo. Claro, com menos tempero que as comidas caseiras que estou acostumado a comer, mas não deixa de ser bom. Como eu, ele também está comendo alguma espécie de sopa com legumes, ouço-o fazer barulhos com a boca, sugando o caldo que há em seu prato, me fazendo rir, tentando imaginar a cena cômica que seria vê-lo naquele estado.
Após o almoço, ficamos conversando, contando histórias, e fazendo brincadeiras bobas, e é uma das tardes mais agradáveis que já tive. Mesmo sem a visão, fiz coisas que em corpos saudáveis e sem qualquer deficiência nunca havia feito. Sempre era tudo tedioso e eu mal esperava para o dia acabar, para que a próxima manhã chegasse logo, com a esperança de que seria diferente. E finalmente este dia chegou. Estou eu aqui, no corpo de um cego, me divertindo como nunca antes, junto a um enfermo.
As horas parecem minutos, e sem ver que elas passaram, chega a noite. O médico de KyungSoo, entra novamente em seu quarto, nos dizendo que o garoto teve um dia agitado, precisava descansar, e já estava tarde. Eu entendo o que ele quer e levanto-me da cama, despedindo-me de KyungSoo. Queria um dia poder vê-lo e ouvir sua voz novamente, mas sei que aquela despedida é para sempre.
Volto para a casa de JongIn sem ânimo algum. Caminho pelas ruas em meio aos meus devaneios e logo já estou no apartamento. Tomo banho, deixando a água morna cair sobre o corpo de JongIn, deixando-me mais relaxado. Após o banho, preparo uma comida rápida. Estou me dando muito bem com este corpo, consegui atender a todas as necessidades diárias sem muito sacrifício. Decido me deitar, mesmo que esteja um pouco cedo, mas não há mais nada a fazer, só guardar as lembranças deste dia, descansar, e me conformar que amanhã terei uma outra vida e esta não será mais da minha conta.
Demoro para adormecer, estou com a cabeça cheia, não paro de pensar em como KyungSoo seria fisionomicamente falando. Preciso vê-lo de alguma forma. E assim que estou para finalmente despedir-me deste corpo, por volta das 22 horas, o celular de JongIn emite um som um pouco perturbador, fazendo-me sentar novamente na cama e tatear a escrivaninha que havia ao lado até achar seu telefone. Pego o mesmo, atendendo-o. Para minha surpresa, é o médico de KyungSoo, seu tom de voz me assusta, está muito sério, esbanjando profissionalismo, mas dá pra perceber que também está nervoso.
Pergunto-lhe o que o faz ligar-me a esta hora, sua voz fica trêmula. Já estou ficando ainda mais assustado, e como se tivesse jogado um balde de água fria em mim, ele cospe as palavras que JongIn e eu mais temíamos. Sinto um nó se formar na garganta e o coração parar por um segundo e logo voltar a palpitar extremamente rápido, o corpo em que estou passa a tremer por inteiro, não estou acreditando no que ouvi. Com a voz um pouco alterada peço-lhe para repetir o que havia dito, mas antes de deixá-lo continuar, desligo o telefone. Da forma que estou, pego apenas a bengala de JongIn, saindo apressadamente rumo ao hospital.
A noite está fresca, a brisa bate contra meu rosto enquanto ando rapidamente, a ponto de já estar correndo, sem me importar com os vários tropeços que quase me levam ao chão. Preciso chegar àquele lugar o quanto antes.
Pela terceira vez no dia, passo pela entrada do hospital, caminhando às escuras pelos corredores, agora totalmente silenciosos. Trombo com alguém que, com a força do impacto, me leva ao chão. A pessoa me ajuda a levantar, pedindo desculpas. Então percebo a voz, é de um dos enfermeiros que cuidavam de KyungSoo. Ele então me pergunta se eu estou ali pelo garoto, mas isso é óbvio. O enfermeiro me leva para o local em que se encontram os familiares de KyungSoo. Ouço apenas choros contidos, e aquele cenário de hospital transbordando tristeza agora também transborda angústia, tensão, descrença, invalidez de minha parte por não ter nada o que fazer para reverter aquela situação.
Não sei ao certo quantas pessoas há na sala. Com tanta coisa em mente quando cheguei, esqueci-me de cumprimentá-los, apenas me sentei em um banco, e me encolhi ali, sentindo apenas as lágrimas gélidas escorrerem pelo rosto de JongIn.
Meia noite... Com tanta coisa acontecendo, não estava tão preocupado com isso. Mas já está na hora, serei arrancando do corpo. Tento me preparar para a dor que virá a seguir, fecho os olhos, logo a dor insuportável me invade, me fazendo contorcer-me. Assim, sou arrancado do corpo de JongIn deixando-o ali, desamparado naquela sala, sem visão, e agora também sem o garoto que era o mais importante em sua vida...
A vida nos dá vários golpes, alguns são de sorte, e outros, dizem ser de azar. A ciência inova, mas nem sempre ela pode explicar tudo. Eu, por exemplo, sou algo inexplicável pela ciência, não há nada que poderia comprovar minha existência, mas eu existo. A ciência não cura todas as doenças, não consegue evitar que todas existam. Considero que a doença de KyungSoo tenha sido um golpe de sorte. Com ela, ele aprendeu a dar valor à vida, conheceu alguém maravilhoso, que o ensinou a ver as coisas com outros olhos. O golpe de azar foi a vida não ter lhe dado outra oportunidade de escapar daquele mal, o golpe de azar foi que a tecnologia e os esforços dos médicos não tenham conseguido fazê-lo livrar-se daquilo. E por natureza, mais um se foi, como tantos outros, para um lugar desconhecido, ou talvez apenas tenha ido descansar, e finalmente livrar-se deste mundo...
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