Notas iniciais
Foi uma idéia que veio do nada. Ela não tem nome nem rosto. Pode ser qualquer pessoa que você conheça.

POR TÉDIO

A garota andava pela rua a passos lentos e incertos. Estava perdida em meio a cidade cinza e enfumaçada, levada pelo mar de gente que ocupava as calçadas. Ela não tinha direção, nem rumo, nem planos.

Não tinha vida.

Seus pés a levaram ao lugar que chamavam de casa. Seus lábios articularam palavras sem importâncias dirigidas aos mais velhos, sem saber se fora ao pai ou a mãe. Novos passos guiados pelo instinto a levaram ao seu quarto. O mesmo instinto a fez trancar a porta, mesmo sabendo que isso renderia broncas mais tarde. Uma rotina, já estava acostumada.

Apertou o botão do controle do aparelho de som, ligando-o e fazendo tocar uma música que não sabia qual era, apesar de já tê-la ouvido milhares de vezes. Um rock de alguma banda, como tantas por aí que insistiam no mesmo estilo, num mesmo modismo.

Não ligava para isso. Na realidade não ligava pra nada.

Jogou o controle para o lado, desinteressada. Deixou-se cair na cama, deitando-se, espalhando os cabelos na colcha branca. Olhando para o nada, como sempre fazia, perdendo-se em devaneios existenciais sobre sua falta de objetivos, sua falta de sorte.

Ouvindo a música, balançava a cabeça e cantarolava a letra da qual nunca prestara atenção. Algumas lágrimas brotaram de seus olhos, iluminando brevemente os olhos da garota de aparência mal cuidada. Um choro silencioso, apenas de lágrimas porque os soluços desesperados não lhe cairiam bem. Não tinha motivo para mais do que isso. Até mesmo seu choro era rotina.

Tudo era rotina. Todos os dias a pálida garota ruiva acordava, ia a escola, e quando voltava perdia horas ouvindo as mesmas músicas que não sabia o nome e olhando para o nada. Sem objetivos, planos, passatempos. Sua vida era apenas o vazio de quem não sabia o que queria nem o que fazer.

Mas naquele dia algo mudara. Ela sabia o que queria.

Apenas ir embora.

Levantou-se. Foi em direção ao espelho, e parada em frente a ele, não reconheceu a imagem refletida. Algo que acontecia já há tempo. Era comum não reconhecer a imagem da garota franzina e pálida como quem está doente, nem seus olhos, nem os cabelos. Não reconhecera nada.

Essa sou eu?

Há muito que não era. Não sabia dizer quando as coisas tinham mudado daquela forma, mas há muito que não era mais quem conhecia. Ninguém mais a reconhecia: família, amigos, cachorro. Eram mudanças e caminhos para os quais não havia mais volta. Ela não seria mais aquela da qual todos gostavam e queriam de volta.

Então poderia partir. Ninguém sentiria sua falta.

A porta trancada, a música tocando, a decisão já tomada em sua cabeça.

Está na hora.

Um estilete pequeno. Uma dose de coragem. Tudo acabaria de forma simples. Era assim que esperava.

Se não falhasse de novo. Não era a primeira vez que tentava, mas sempre falhava pois perdia a coragem.

Não há quem sinta sua falta, disse a si mesma. Você pode.

Dessa vez ia dar certo.

E fez. Cortes precisos, como se não temesse a dor, como se tivesse um talento nato. Talvez sempre soubesse como devesse ser feito, que este era o seu destino.

Destino? Que destino? A garota não sabia se aquilo existia, mas esperava por ele, deitada na cama, o sangue maculando a pureza da cor de sua colcha branca, quase da cor de sua pele. Os olhos bem abertos, num brilho pálido de uma doce espera.

O destino temrosto?

O destino tem pressa?

Ela não tinha.

Ela nascera e vivera a esmo, simplesmente por viver, por um mero acaso, ou capricho.

Sem idéias, planos, sonhos ou vontades.

Sem expressão, viço, ou beleza.

Sem amor, dor ou arrependimento.

Apenas vivia.

Apenas morreria, do mesmo jeito que vivera.

Por tédio.

Notas finais
Se alguém se interessar, reviews por favor!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!