Por Trás das Palavras.
3 Lar (Nem Tão) Doce Lar./ Toda mentira tem um fundo de verdade ?
Notas iniciais
Larguei o copo na pia sem ligar se quebraria ou não e corri escada acima três degraus por vez, esmurrei o interruptor entrando feito um furacão no meu quarto, sacudi minha mochila de cabeça para baixo na cama fazendo uma zona, atrás do meu celular. Minhas mãos tremiam junto do objeto escuro, mas tentava digitar o número da minha mãe. Depois de duas tentativas consegui digitar o número certo.
— Atende! Atende! — a ansiedade me sufocava. — Vai, mãe, não faz isso comigo, atende esse celular!
Nada.
Segunda tentativa.
Nada.
O som da porta do carro batendo ecoou informando que meu tempo estava acabando.
Terceira tentativa.
Nada.
Eu quase já conseguia ouvir a gritaria no quarto ao lado, de mais uma briga dos dois, que ecoaria até duas casas ao nosso redor e seria o motivo para as fofocas dessas velhas enxeridas que não tem mais o que fazer do que falar da vida alheia.
A porta da frente se fechou em um baque maior que o normal, ele estava avisando que o dono da casa havia chegado.
Acabou.
Só o que poderia fazer agora era tirar a Allyson dessa casa até que o terremoto passasse para que a pobrezinha não fosse afetada. Desliguei desolado minha última tentativa de manter a "paz" nesta casa.
O tela piscava marcando 20:25. Não era possível que minha mãe tenha esquecido da hora. Pelo horário ela já deveria estar a caminho de casa, sem dúvidas deve ter havido algum imprevisto para ainda não ter chegado. É a única explicação para tanto atraso.
Vou ter que ganhar tempo, não faço a mínima ideia como, mas terei que tentar, o Martin não pode saber que ela foi para o parque!
Desci as escadas tão voado quanto subi, encontrando meu pai retirando o blazer tão negro quanto o clima ficará aqui dentro se as coisas derem errado para o meu lado, e pendurando-o nas costas da cadeira do meio da sala de estar.
"Pensa, pensa." — induzia meu cérebro a formar algum plano.
Minha presença foi logo percebida, mesmo ele estando de costas para mim.
— Boa noite, filho. — saudou-me.
— Como sabia que era eu? — perguntei só por perguntar, mais para ocupar tempo.
— Você faz muito barulho quando anda por causa do futebol. — deu de ombros. — Onde está sua mãe? — perguntou casualmente olhando para cozinha e encontrado-a vazia. Senti como se tivessem jogado gelo na minha camisa.
— Ela deve estar lá em cima, cansada. Depois de passar o dia todo arrumando dois andares da casa e o quintal é mais do que normal ela ficar cansada. — me enrolei completamente, tropeçando com as palavras. Seu olhar recaiu sobre mim, me avaliando, entretanto seu rosto era impassível, o que me deixava mais nervoso do que se me olhasse de cara amarrada. Apesar das circunstâncias, eu tentava passar a maior aparência de quem estava falando a verdade. Será que ele percebeu a mentira na minha voz ?
— Você está estranho. — franziu o cenho. Bola na trave.
— Eu? Não. Você deve estar imaginando coisas. Quer que eu coloque o seu jantar? — não tenho ideia porque fiz essa pergunta, quando dei por mim já tinha escapado.
— O que você está me escondendo? — perguntou desconfiado. — Cadê sua mãe que não está aqui? — e se dirigiu para escada num baque surdo.
"NÃO!!" — minha mente gritou como um alarme de incêndio. Ele subiu o primeiro degrau e eu me coloquei a sua frente. Não era o suficiente! Não o segurei por tanto tempo assim! Ainda não vira sinal algum de que minha mãe houvesse chegado.
— Tá bom, tá bom. Desisto. — falei encarando o chão. Meus pensamentos trabalhavam a mil tentando achar alguma forma de mante-lo ali; mediante minha total hesitação encara-lo era a última coisa que eu poderia fazer naquele momento. — Sou um péssimo ator. — respirei fundo procurando a calma que insistia em fugir. — 'Tô com um problema. — falei pausadamente continuando, pondo a mão no bolso tamanho meu desconforto.
— Qual problema? — pude perceber a preocupação em sua voz.
— Queria manter o assunto longe da minha mãe, porque é um pouco desconfortável para mim. — menti ainda sem encara-lo. Meu coração batia tão forte no meu peito, de tão nervoso que eu estava, que temia que ele escutasse e descobrisse tudo. — Sabe como é, minha mãe é mulher, como que vou olhar para ela depois ?
— Ah entendi, você tá com problema com "ele" ?! — me perguntou disfarçando o riso. "Ele" ? O que é "ele" ? Encarei o homem a minha frente com cara de ponto de interrogação para logo ser substituído pelo espanto. Ah! Isso! Assim que entendi do que se tratava, meu rosto ardeu em brasas.
— Não!! — brandei um pouco alto demais. — Não é esse tipo de problema!! — fiquei mais nervoso do que antes, o que a gente não faz pra livrar a pele dos outros, hein?! Meu pai percebeu que ultrapassou um pouco os limites.
— Não é vergonha nenhuma admitir que está com problema pra ...
— Mas eu não tenho isso! — passei as mãos no cabelo e desci pelo rosto que queimava de vergonha, respirei fundo para restabelecer meu autocontrole. Sexo não se trata de um assunto incomum quando se tem dezoito anos, pelo contrário, se você tem amigos como os meus é simplesmente o que mais se escuta, agora ter que falar sobre isso com os pais é uma coisa completamente diferente, e aterrorizante. — É outro lance, mais leve. — adicionei rapidamente. Havia esquecido completamente o principal motivo para estar ali: enrola-lo. Novamente o olhar avaliador se fez presente.
— Tem uma garota. — falei convicto. Não deixava de ser verdade, porém meu pai era a última pessoa com quem queria fala sobre ela. E, eu nem sabia porque estava falado dela pra começar.
Entretanto, não estou em posição de escolher nada no momento.
Tudo o que mais queria era que o tempo voasse para minha mãe chegar aqui sem levantar suspeitas.
— Mais uma?! Já é a terceira esse ano, não é ?
— É.- Bem, foram mais, mas isso não interessava a ele. Na verdade, nada da minha vida interessava a ele, Martin não era o que se podia chamar de " pai do ano" , com seu trabalho sempre a frente da família, eu acabava ficando em terceiro plano na sua vida e Ally em quarto, em contraposto, minha mãe sempre esteve no topo.
Ele sempre a manteve cuidadosamente debaixo da sua asa, controlando-a como uma marionete, o tempo todo "preocupado" onde ela foi, com quem andou falando, sempre foi assim desde que me entendo por gente, pensando melhor desde que Ally nasceu; antes da minha irmã chegar, éramos como uma família feliz, íamos quase todo final de semana na casa dos meus avós, ou ao parque juntos, eu ia à biblioteca do centro com a minha mãe, ela lia para mim antes de dormir, e o Martin era realmente o que podia se chamar de um pai, bons tempos os que ele jogava vídeo game comigo, depois do "marco" Ally, tudo mudara.
Essas coisas às vezes me levam a crer que talvez Ally tenha realmente culpa de alguma forma, mas como um bebê poderia ser culpado pela ruína dessa família? Fico pensando se eles não queriam te-la. Ou que talvez ela não fosse filha do nosso pai, mas isso é impossível! Seriam as únicas explicações para tudo isso, mas dona Fernanda afirma que Allyson não tem nada a ver com essa guerra toda.
— Ela é diferente. — continuei. — Não sei porque, mas com ela é diferente, é difícil tentar explicar para você. — me confundi tentando pôr em palavras o turbilhão de coisas que ela me faz sentir. — Ela... ela nem fala comigo, mas quando entra em sala, eu fico feliz ou sei lá, me sinto estranho, não faço ideia do porquê, é como se eu tivesse esperado a noite inteira só para vê-la, ou... eu não sei. — cocei a atrás da cabeça, minha mente deu um nó. Era exatamente assim que minha cabeça estava e que eu me sentia: confusamente perdido.
— Você está apaixonado por ela. — ouvi cada palavra proferida sendo separada as sílabas.
— Isso é impossível. — neguei veementemente, desacreditado. — Como posso me "apaixonar " — fiz aspas com as mãos — por alguém sem ter conversado com essa pessoa? — Martin sorriu descontraído, uma das pouquíssimas vezes que esse tipo de milagre aconteceu. Ou ele estava me entendendo, ou ele estava zoando da minha cara, espero que seja a primeira opção.
— Simples. De alguma forma essa menina chamou sua atenção.
Parei pra pensar naquilo, Cecília não tinha um corpo de parar o trânsito, coisa que chamaria minha total atenção com toda a certeza, se parar para compara-la com a Silvana, por exemplo, ela perde fácil, afinal Sivana era o padrão de beleza da escola, todas as garotas são comparadas com ela, ela era loira, olhos azuis elétricos, linda, e como toda líder de torcida, magra com curvas acentuadas nos locais mais do que certos. Por onde a Silvana passa todos param para olha-la. Definitivamente não foi o corpo, Cecília é... normal.
Mesmo contrariado com o veredicto, retruquei:
— Vou tentar saber o que foi, pensando por alto não me vem nada em mente. — meu pai alargou um pouco mais o sorriso, porém ainda contido. — Por que tá rindo? Tá tirando uma com a minha cara? Estou aqui me abrindo pra você — mesmo que contra a vontade — e você acha graça?! — querendo ou não estou contando uma parte secreta da minha vida a ele, uma que nem meus amigos sabem, (com exceção do Schneider, ele percebeu), e ele ri ?!
— Não estou rindo de você, é só que você se parece muito comigo na minha adolescência. — preferia ter levado um soco na cara do que ter ouvido isso. — Isso de pegar geral, mas ficar enrolado quando o assunto é amor. — sorriu se lembrando desse tempo — Com sua mãe foi exatamente assim, ela era 1,65 m de puro terremoto, por onde passasse deixava seu rastro, sua espontaneidade me chamou atenção e também das poderosas da escola, que de todas as formas tentaram infernizar com a vida dela, com certeza se sentiram ameaçadas, mas sua mãe era forte — sei disso, pra te aturar tem que ser muito forte! — ela passou por cima de todas, respondendo a altura, tanto que, quando fui falar com ela, chamar pra sair, ela achou que fosse alguma sacanagem das garotas. — deveria ser engraçado a baixinha peitando com as de 1,80m. Vi a deixa na minha cara, é agora ou nunca.
— Você ainda ama a minha mãe como nessa época? — joguei verde, seu semblante se fechou como um feixe de luz cortando a escuridão, e assumiu a postura do administrador que entrou nessa casa a minutos atrás. Era visível a dúvida transparecida em seu rosto, se respondia ou não, já imaginando que tipo de perguntas viriam depois desta.
— Amo. — foi sucinto.
— Por que brigam tanto? — adotei uma postura ofensiva.
— É normal casais terem suas desavenças. — falou o administrador. Ao contrário da minha mãe ele responde minhas perguntas, sendo que da forma mais evasiva possível, o que daria o mesmo de não responder.
— Desavenças ainda vai, agora fazer aqueles escândalos que vocês dois fazem, e com a Allyson sobre o mesmo teto já passou de todos os limites!! — esbravejei controlando minha voz, Ally ainda estudava no andar de cima.
O homem a minha frente franziu o cenho aborrecido, toquei em algum ponto dolorido.
— Isso são problemas meus e da sua mãe. — desviou.
— E quanto a nossos avós...
— Pierre, não é o momento apropriado para conversarmos sobre isso, — me interrompeu — da última vez falamos dos seus avós, e ...
— Minha mãe sente falta deles. — fui direto.
— Sua mãe escolheu cortar ligações com eles porque quis. — falou indiferente coçando a cabeça, sua paciência estava acabando. — Nessa aí eu não tive nada a ver. — livrou a pele, mas algo me dizia que ele ocultava informações importantes.
— Tenho certeza que a culpa é sua! — falei entredentes. Assustara-se com minha acusação, pra logo depois emanar uma áurea de ódio.
— Fernanda te disse isso? — tentou transparecer a calma, mas parecia que era impossível manter seu punho parado.
— Não! — ele pareceu relaxar — sou eu que 'tô falando, e você não vai tirar satisfações com ela por causa disso! Você tá me entendendo ?! — apontei o dedo pra ele.
— Com sua mãe eu resolvo. — falou por fim, passando por mim bruscamente e subindo as escadas enfurecido. — FERNANDA !!
Ferrou.
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