Por Quê Sempre Eu?!
3 "Me irrite"
Notas iniciais
- O quê... O que foi aquilo? O que era aquela coisa? –perguntou-me o filho de Hades assim que sentamos em um banco ainda no lago. Suspirei pesadamente. Odeio ter que dar toda a explicação de porque essas coisas acontecem, porque os deuses estão na America, e porque justo aquela pessoa tinha que ser um semideus. São sempre as mesmas afirmações: “Porque eu?!”, “O que era aquilo?!”, “Não seja ridícula! Monstros não existem!”, “Os deuses olimpianos são mitos”, e blá blá blá...
— Aquilo era a Quimera. A mesma dos contos mitológicos... –falei.
— Mas... São mitos! Essas coisas não existem! –ele discordou meio tenebroso enquanto sua irmãzinha ficava apertando sua mão com medo.
— Não são mitos... Sabe aquelas histórias sobre a mitologia? –questionei.
— Sei... Mas, são mitos! –esbravejou.
— Não, não são. –retruquei o fazendo arregalar os olhos. – Como se chama? –perguntei.
— Mark... E esta é minha irmã Lucia. –respondeu.
— Essa é aquela menina louca da escola? –perguntou Lucia inocente ao irmão, me fazendo ficar com raiva.
— Eu não sou louca! E você sabe muito bem que pode criar ilusões nas pessoas, filho de Hades nojento! –gritei irritada. Não pretendia perder a paciência logo no começo, mas me lembrar da visão horrenda da minha mãe quase morta me irritou, e muito.
— Eu... Eu não sei criar ilusões! E você é louca! Essas... Essas histórias de deuses... Isso é tudo mentira! –gritou e se levantou preparando para ir embora.
— Escute aqui. –falei com o tom de voz baixo, mas macabro. – Se você quiser se proteger desses monstros e proteger sua irmã também, eu acho bom você me escutar, Mark. –terminei de falar com o tom ameaçador e percebi que o havia convencido a ficar.
— Luci... Quer um sorvete? –perguntou e Lucia afirmou que sim com a cabeça. – Toma, vai lá buscar. –disse e deu o dinheiro fazendo Lucia se afastar para não ouvir nossa conversa.
— Não devia ter feito isso. –comentei.
— Por quê? Ela é muito nova para ouvir esse tipo de coisa. –esclareceu se sentando novamente.
— Mas ela também é uma semideusa. –devolvi e ele me encarou confuso.
— Semideusa tipo Perseus e Jasão? –perguntou.
— Sim. –confirmei. – E você é filho de Hades, deus do submundo. Percebi isso quando canalizei sua energia, e também pelo nosso pequeno desentendimento... –disse cínica.
— Mas... Como? –perguntou. Dei de ombros.
— Os deuses possuem vários filhos ao redor do mundo. Sou a encarregada de levá-los para o acampamento meio-sangue, ou pelo menos estou encarregada de levar você e sua irmã para o acampamento. –falei e percebi sua cara de confuso. – Acampamento meio-sangue é um dos únicos lugares aconselháveis para pessoas como nós ficarmos. Lá não há ataque de monstros e você aprende a se defender.
— Espere... “Pessoas como nós”? Então você também é uma semideusa? –perguntou. Revirei os olhos. Não, não, sou uma foca de certo! –pensei com ironia.
— Sim, sou filha de Zeus. Me chamo Melanie. –respondi.
— Zeus... Tipo o que comanda os céus? O rei dos olimpianos ? –perguntou me observando. Ah, mereço, agora ele está achando que não sou poderosa o bastante para ser filha do Todo Poderoso.
— Sim, isso mesmo. Fico feliz em saber que já conhece a mitologia.
— Ta... E onde fica esse acampamento? –perguntou. Olha, até que ele está reagindo bem! Pelo menos não está gritando inconformado com o futuro que lhe resta.
— Nos Estados Unidos...
— O quê?! –perguntou quase gritando. – Eu não vou para lá nem morto!
— Ah, vai sim... Nem se for morto. –respondi o encarando. Minha expressão não devia estar a mais simpática, pois ele assentiu demoradamente encarando-me.
— Então... Quando vamos? –perguntou.
— Não sei. Tenho que achar outro semideus ainda, e você terá que explicar toda essa história para sua mãe, pois tenho certeza que ela não vai gostar da ideia de você sair da sua casa... –comecei falar, mas ele me cortou.
— Não conheço minha mãe. Quer dizer, a mãe de Lucia eu conheço, mas minha mãe mesmo não. Sou adotado. –falou e fez uma expressão triste, como se odiasse seu destino.
— Mas... Como? –perguntei abobalhada. –Lucia também é uma semideusa!
— Pode até ser, mas não tenho nenhuma ligação sanguínea com ela. E ela também não sabe manipular a mente das pessoas para ser filha de Hades... –comentou.
— Então admite que me fez acreditar que minha mãe estava morta?! –questionei nervosa. Ele olhou para o chão fazendo com que seu cabelo loiro caísse sobre o rosto, o dando um ar mais “sossegado”, o que o deixou bonito. OI? EU PENSEI ISSO MESMO? –perguntei-me em minha mente.
— Sim... –admitiu.
— Mas... Como você sabia que minha mãe é uma drogada?! –perguntei com medo da resposta.
— Am... Digamos que posso ler mentes... Por isso sei que você não está mentindo sobre toda essa coisa. –esclareceu e senti meu rosto corar. Eu tinha que ter reparado na beleza dele. Tinha.
— Ta. Bom, agora que você já sabe, se resolva com a sua mãe adotiva e quando formos para o acampamento lhe aviso. Preciso descobrir quem é o outro semideus. –falei com a voz inalterada tentando não demonstrar sentimento algum, e tentando não pensar em nada.
— Tudo bem... Só queria saber como vou falar isso para Lucia... –disse e observou Lucia que vinha vindo feliz com um sorvete na mão, parecendo ter se esquecido do ocorrido a pouco.
— Bem... Hum, e se perceber alguma atividade estranha dos professores, ou alunos, me avise. Pode ser um semideus ou um monstro. –avisei e ele assentiu. – Tchau. –despedi-me levantando no banco e ele me encarou.
— Desculpe por ter... Sabe... –ele falou meio sem jeito.
— Tudo bem. –respondi curta e grossa. Eu não o tinha perdoado, e não iria perdoa-lo tão cedo. Poxa, ele me fez acreditar que minha mãe estava morta!
— Eu sei que não está tudo bem... –ele discordou assim que comecei a andar. Virei-me para trás e respondi:
— Isso faz alguma diferença pra você por acaso?! –questionei.
— Faz. –respondeu e deu de ombros se virando para olhar sua irmãzinha que balançava em um dos equipamentos da academia de idosos. Garotos são tão esquisitos.
Quando cheguei ao hotel encontrei uma Luiza histérica.
— AH! QUE COISA! –gritou para mim.
— Que foi? –perguntei.
— Você tem que parar de sumir. –exclamou e cruzou os braços.
— Não sumi, só fui dar uma volta... –expliquei e ela revirou os olhos impaciente.
— Ta, tanto faz. Preciso da sua ajuda. –falou e com isso puxou meu braço me levando até seu quarto do hotel.
Ao entrar me deparei com um quarto idêntico com o chalé de Afrodite do acampamento.
— Sente saudades? –perguntei e me arrependi assim que falei.
— Claro que não! Eu só... –tentou explicar, mas a ignorei. Era lógico que ela estava com saudade de “sua casa”. Era a mesma coisa para mim, entramos no acampamento desde pequenas, e sair de lá para vir em outro país com uma cultura completamente estranha.
— Quero sua ajuda. –falou depois de um tempo ter ficado perdida nas palavras.
— Pra que?! –perguntei curiosa. – Ah! Eu preciso lhe contar algo... –comecei a falar me lembrando de Mark e Lucia, mas ela me cortou.
— Escolhe! –ordenou. Fiz uma expressão irritada por ela ter me cortado, e fiquei mais irritada ainda ao reparar que a “ajuda” era para escolher entre duas roupas.
— Não creio! –exclamei irritada.
— O quê?! É de grife! –Luiza se defendeu irritada. Respirei fundo para não ser grossa.
— Esse. –apontei para qualquer um ser nem olhá-los direito. – Descobri quem é o filho de Hades, e uma outra semideusa. –contei.
— Esse? Mas ele fica tão apagado em mim... –comentou se olhando no espelho. QUE DROGA!
— Você não escutou o que eu disse?! –perguntei incrédula.
— Escutei, mas Henri virá nos buscar para sair em dez minutos e ainda não estou pronta! –falou e continuei incrédula. – Agora vai se arrumar que daqui a pouco ele chega... –disse me colocando para fora de seu quarto enquanto eu protestava.
— Não vou de maneira alguma sair com Henri! –exclamei irritada depois dela ter me enxotado para fora, e fechado a porta.
— Vai sim. –Luiza abriu a porta me assustando, e depois fechou.
— Arrgh! –exclamei irritada. Acho que deve estar escrito na minha testa: “Me irrite”, porque, vou falar, não aguento mais!
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