Por Quê Sempre Eu?!
16 Chegada inesperada
Notas iniciais
Duas semanas se passaram desde o ocorrido com os chalés. Alec não deu mais nenhum sinal de vida, o que me fez presumir que ele havia parado de me vigiar. Por mais incrível que pareça fiz amizades com Lucy, Luna, Julia, Gabi e Annie. Era um grupo estranho, já que nossas personalidades não batiam muito, mas no geral nos dávamos bem. O verão começou faz dois dias e o acampamento está lotado, às vezes mais parece que estamos no mundo inferior de tanta bagunça. Luiza ainda não havia dado sinal de vida, então presumi que não iria trazer Emanuel, Mark e Lucia para o acampamento e que aquilo que tinha visto na verdade não era nada.
- Melanie! –alguém chamou minha atenção e desviei meu olhar do pôr do sol. Estava na praia em um momento de descanso mental.
- Oi? –respondi não enxergando ninguém. Levantei-me da areia, limpei minha calça e saquei minha espada. Quem era o engraçadinho que tinha ido me irritar?
- Calma! Não precisa ficar na defensiva! –Lyon apareceu de trás de uma árvore rindo. Meus deuses, como esse garoto é irritante! Aliás, todo filho de Apolo que eu conheço é irritante.
- O que quer? –perguntei um pouco grossa.
- Nada de mais, Quíron está lhe chamando. Parece que chegou mais campistas e ele quer sua ajuda... –avisou dando de ombros e sentando relaxado em uma pedra.
- Ta, obrigada. –agradeci e me dirigi até a Casa Grande. Percebi certo tumulto quando cheguei lá, mas ignorei. Se fosse algo importante as meninas me contariam depois.
Quando cheguei à varanda estranhei. Nem Quíron nem o Sr. D. estavam ali. Abri com cuidado a porta da frente, não querendo fazer barulho, para caso eles estivessem em uma reunião eu poder escutar, mas o silêncio não durou muito. E foi eu mesma que o quebrou, com um grito. Assim que terminei de abrir a porta um balde de tinta cor de rosa caiu sobre minha cabeça me lambuzando toda.
- QUEM... FOI... O... IDIOTA?! –bradei ficando irritada.Tirei o balde de minha cabeça, limpei meus óculos e cuspi um pouco de tinta que havia caído dentro da minha boca. Do lado esquerdo da varanda pude ouvir alguns risos abafados, então caminhei tranquilamente até lá.
Quando cheguei vi quem eram os responsáveis por essa brincadeira sem graça: Lyon que havia mentido para mim sobre Quíron, Lilá a menina que, por a caso, era a que não se dava bem com Lyon, e Hélio um filho de Hermes. Tinha que ser, o trio que acaba com a minha aula.
- Engraçado, não? –os surpreendi chegando despercebida, e todos pararam de rir no mesmo instante. Minha expressão não devia estar tão assustadora devido a tinta, mas tenho certeza que minha íris havia mudado de castanho para preto.
Eles se levantaram rapidamente em uma falha tentativa de fugir, mas usei um pouco da névoa para pará-los, um pequeno truque meu.
- Parabéns, vocês ganharam uma semana inteirinha na cozinha! –falei com deboche lançando para eles um último olhar, e me virei para ir ao banheiro tirar toda essa tinta de meu corpo. Ouvi algumas reclamações, mas eles mereciam esse castigo. Eu ainda fui boazinha, poderia muito bem ter desclassificado eles da corrida de bigas que terá amanhã.
Depois de um bom tempo eu consegui tirar toda a tinta do meu corpo... Menos do cabelo. Ele não estava mais tão grudento, mas era como se desde que eu nasci meu cabelo tivesse essa coloração.
- Eu mato aqueles três! –gritei frustrada quando me olhei no espelho. Coloquei uma camiseta do acampamento, um shorts jeans, e uma jaqueta com capuz para esconder meu cabelo rosa pink. Estava um calor de Hades, mas eu iria suportar.
- Melanie! –ouvi alguém me chamando e vejo Julia.
- Oi Julia... –cumprimentei com a voz um pouco rouca, devido a minha vontade de matar o primeiro que eu visse pela frente.
- O que aconteceu? Eu te fiz algo? –perguntou e me assustei. Vai Melanie, fica bravinha e afugenta seus amigos. Mudei minha postura e dei um pequeno sorriso.
- Não é nada, eu só quero matar três semideuses em especial... –esclareci e ela riu.
- Vamos para a aula de voo em pégasos? –perguntou e assenti. Droga! Meu capuz vai cair com o vento, e meu cabelo vai aparecer!
- Am... Pensando bem, eu tinha que ir lá no Arsenal... –desconversei e Julia deu de ombros percebendo que eu estava mentindo.
- Tudo bem... Essa é boa, uma filha de Zeus fugindo da aula de voo... –murmurou para si mesma, mas alto o suficiente para eu ouvir. Revirei os olhos e fui caminhando lentamente para o Arsenal. Passando pelo Artes e Ofícios ouvi os filhos de Apolo aplaudindo uma garota que cantava uma música em espanhol. Cheguei mais perto e percebi que a garota se tratava de Annie, e que havia uma lira e um arco por cima de sua cabeça.
- Salve Annie Consoli, filha do deus das artes, Apolo. –eu disse fazendo reverência e todos presentes no salão fizeram o mesmo, deixando Annie completamente vermelha. Logo depois sorri para ela, e continuei andando até o Arsenal, despreocupada e um pouco mais calma.
- Você viu a cara dela depois?! –alguém dentro de Arsenal conversava e ria com outra pessoa. – Parecia que ela ia matar a gente!
- Bem feito, agora o cabelo dela está rosa... E vai ficar assim por uma semana! –outra pessoa ria e parei no mesmo lugar que eu estava. Além de me sujarem toda, deixarem meu cabelo cor de rosa, ainda estão debochando de mim?!
Fechei meus olhos e me concentrei na pressão da gravidade à nossa volta. Com um movimento rápido a temperatura de dentro do Arsenal caiu, e os objetos elétricos pararam de funcionar. Um raio pousou próximo aos pés das duas pessoas, as quais ainda nem vi quem eram, e eu entrei a passos lentos, recebendo olhares assustados. Os dois que estavam ali eram Lyon e Hélio.
- Vamos debochar da Melanie... É tão legal ver ela brava, não é? –falei com ironia na voz e algumas pessoas que estavam no Arsenal foram saindo. – Ah, não. Melhor, vamos contar pra todo mundo que pregamos uma peça nela! Seria tão hilário!
- É impressão minha, ou todo mundo saiu do Arsenal nos deixando sozinhos?! –Lyon sussurrou com a voz tremula e Hélio assentiu.
- Olha Melanie, não precisa ficar brava... A gente só tava brincado... –Hélio tentou se explicar, mas eu já estava irritada de mais. Em um movimento rápido peguei Traiçoeira e quando estava a ponto de acertar o cabo da espada na barriga dos dois, a porta do Arsenal se abre e Quíron entra com outra pessoa, me desconcentrando.
Quando percebo que se machucar Hélio e Lyon na frente de Quíron estarei ferrada, faço a temperatura normal voltar e guardo Traiçoeira.
- Melanie, que está fazendo? –Quíron pergunta e Hélio e Lyon aproveitam para sair correndo. Reviro os olhos e me viro para a porta.
- Eles estavam... –comecei a falar, mas parei assim que vi qual semideus estava ao lado de Quíron. – Mark? –indaguei quase sem ar. Mark estava com seu habitual estilo despojado, com o cabelo loiro jogado de lado e as roupas folgadas, o que para ele caia muito bem.
- Oi. –ele respondeu me analisando de cima a baixo. – Te conheço? –perguntou e me assustei. Como assim “te conheço”?! Tudo bem que só passei uma semana ou menos com ele lá no Brasil, mas do mesmo jeito ele deveria se lembrar. Enquanto eu me espantava, percebi que a expressão no seu rosto mudou e ele quase riu. – Que eu me lembre você não tinha cabelo rosa... –debochou e fechei a cara, voltando a ficar com raiva. Ah, claro, ele pode ler meus pensamentos... Tinha esquecido.
- Bom, já que vocês se conhecem, acho que você pode mostrar o acampamento a ele, não é Melanie? –Quíron pediu e eu fiz uma careta.
- Não, eu tenho que... –comecei com uma desculpa, mas Quíron já havia saído, me deixando sozinha com ele. Di imortales, por quê sempre eu?!
- Você realmente bota medo nas pessoas... Aqueles garotos já estavam pensando na morte deles... –Mark disse sorrindo, mas eu não alterei minha expressão. Fala sério, já não basta aguentar aquelas pestes aqui no acampamento, e agora tenho que aguentá-lo?! Oops, acho que ele ouviu isso. – Simpática como sempre... –ironizou e começou a mexer em algumas armas.
- Eu sei, obrigada. –respondi no mesmo tom de ironia. – Como Luiza trouxe vocês? –questionei colocando o capuz de volta.
- Na verdade, ela só nos colocou em um avião e pronto. Ela, diferente de você, foi simpática e explicou corretamente para minha mãe o do porque vir para cá, então Lucia também veio. –explicou e revirei os olhos. Eu nem tive a chance de conversar com a mãe dele! Que garoto chato...
- Como pode ver, aqui é o Arsenal. –eu mudei de assunto com um suspiro. Não aguento mais ficar discutindo com as pessoas. – Se quiser, pode escolher uma arma daqui para usar sempre. –expliquei e ele ficou por uns três minutos apenas observando as armas.
- Que tipo de metal é esse? –ele perguntou apontando para uma espada negra.
- Se trata de ferro estígio, retirado do próprio Estige, no mundo inferior. Tem o mesmo efeito que uma espada de bronze celestial. –Expliquei dando de ombros. Típico de filhos de Hades quererem uma espada estígia.
- Acho que vou ficar com ela... –disse a pegando e analisado. Ela tinha em média um metro do ferro negro, e vinte centímetros de cabo. No cabo havia entalhado algumas imagens da lua, e Mark pareceu gostar.
Depois disso, fomos até o campo de morangos, o pavilhão do refeitório e os chalés, o restante Quíron já havia mostrado. Até que não estava tão insuportável ficar ao lado dele, mas eu tinha que pensar redobrado do que não pensar e do que não falar, se é que isso é possível. O último lugar que havia para eu mostrar era o riacho Zéfiro. Normalmente eu nem levo as pessoas para conhecer lá, afinal, é apenas um riacho. Mas parecia que havia algo incomodando Mark e como sou pouco curiosa, estava determinada a saber do que se tratava.
- E aqui é o riacho Zéfiro. Mais à frente tem a praia, onde normalmente acontecem os fogos, que por sinal será amanhã, dia 4 de julho.
- Fogos? –Mark perguntou se sentando próximo ao riacho e me sentei também. Estava quase morrendo naquela jaqueta, mas eu me recuso a tirar o capuz.
- Sim, é tipo o maior programa de verão que tem por aqui... –comentei.
- Posso te fazer uma pergunta? –ele me olhou cuidadosamente e dei de ombros. – O que você teve com Emanuel?
- Q-quê?! –questionei. Ta, por essa eu não esperava. Sério que era isso que estava o incomodando? – E-eu... Meio que namorei com ele. –respondi mais em tom de pergunta. – Não, eu diria que eu me iludi com ele, e nada mais. –terminei de falar abaixando o olhar para a água. Aquele idiota... Como ele pode me enganar daquela maneira?!
- Ah, desculpe. Não sabia que esse assunto era delicado... –Mark disse mais em tom de ironia do que arrependido, mas não liguei. Como ele é novato vou tentar ser legal... Só não prometo nada.
- Mas... Ele disse algo? –perguntei curiosa. Não tinha o porque ele tocar nesse assunto se não soubesse de algo a mais. Ah, meus deuses, pare de pensar Melanie!
- Não muita coisa, mas não parava de pensar em você. –Esclareceu dando de ombros e arregalei os olhos. Então quer dizer que nem tudo que ele havia dito no Olimpo era verdade...?
- Mark... –comecei já formando uma ideia. – Ele... O que ele estava pensando?! Vai, me fala!
- Quê? Isso é invasão de privacidade... –ele me ignorou revirando os olhos.
- Invasão de privacidade é você ficar lendo o pensamento de todo mundo! Me contar não vai mudar muita coisa... Por favor! –quase implorei, o que é difícil, considerando que não vou com a cara dele. Mas, poxa, era uma informação sobre Emanuel, então...
- Você não vai me usar dessa maneira, pode ir tirando o cavalinho da chuva! –ele disse totalmente ofendido.
- Mas Mark... –tentei convencê-lo me aproximando e fazendo uma cara de dar dó, mas isso pareceu irritá-lo.
- Não. Que coisa, Mel! –quase gritou na minha orelha. Haha, vamos usar o apelido que a Melanie não gosta para irritá-la, legal.
- Ta, deixa. –disse em tom ressentido mas quase engasguei ao ver o quão perto eu estava dele. Isso não é bom, isso não é nada bom –pensei me afastando e ficando corada. Que droga.
- Ah, o bebezinho vai ficar emburrado? –Mark debochou e me irritei. Já não basta a tinta, agora ele vai ficar tirando uma com a minha cara?!
Levantei-me do chão e no impulso tentei derrubar Mark na água, sem sucesso é claro. Mas depois de forçar um pouco, e como percebi que isso estava irritando-o, consegui jogá-lo.
- Bem feito. –debochei rindo e ele ficou mais irritado ainda.
- Engraçado, né?! –murmurou saindo da água e quando percebi o que ele ia fazer foi tarde de mais.
- Não, não, não, não!! Para, Mark! –comecei a correr dele já que o idiota queria me jogar na água também.
- Agora que você me jogou vai também! –ouvi ele falar atrás de mim e comecei a rir. Que garoto tonto...
- Não! Me larga! –gritei assim que ele conseguiu me pegar, mas como estava rindo, não tive força para me soltar. Resumindo: Ele conseguiu me jogar na água, me molhando toda.
Agora, estou novamente no banheiro tomando uma ducha. Parando para pensar eu agi feito uma criança. E porque fiquei rindo igual a uma idiota? Eu devia é ter saído voando que ele não me alcançava de maneira nenhuma... Isso Melanie, fica pensando nele. Aí você chega a conclusões erradas e ele por acaso escuta... –repreendi a mim mesma. Essa chegada dele aqui não vai prestar... Mas, se ele está aqui quer dizer que Emanuel... Oh, deuses, estou completamente ferrada!
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