Por Onde Andou Eichler?
23 Pela trilha das cigarras
Nunca antes um silêncio foi tão doloroso. O único momento em que Breno se comunicou com Írios foi antes de voltarem a caminhar para o sentido que Breno indicou:
— Esse é um dos vários locais de transição que os espíritos usam pra descansar antes de retornarem pro mundo superior ou pro nosso plano. Se a gente achar um espírito, podemos seguir ele e usar a mesma saída. Se a gente ficar muito tempo aqui, nossas almas vão repousar e se recusar cada vez mais a voltar pra superfície.
Mas o problema era que não havia sinal de espírito algum. Os dois garotos perdidos estavam andando há horas debaixo daqueles reflexos quentes dos sóis. A água dos coldres estava acabando e não encontravam nenhum lago ou rio para abastecer — Breno ainda demonstrava ser receoso com as águas daquele plano, como se não fossem seguras para beber. Mas, de qualquer forma, tudo ali era apenas árvores de vidro e folhas secas.
A garganta de Írios não estava seca apenas por causa da sede, mas também por causa das palavras difíceis que estavam engasgadas nela. A barriga revirava não apenas de fome, mas de ansiedade. A distância de Breno caiu como uma bomba de decepção no fundo do seu estômago. O comportamento dele estava mexendo com sua cabeça.
Írios sentia como se estivesse fedendo. Ou talvez com algum tipo de praga que Breno temia que o contagiasse. Isso porque o garoto vinha mantendo distância do estrangeiro desde que voltaram a caminhar. Parecia evitar ao máximo dirigir-lhe à palavra; e mais ainda o olhar.
Era muito fácil deixar Írios inseguro sobre a impressão das outras pessoas para com ele. Era do tipo de garoto que se colocava para baixo ao menor sinal de rejeição. E ficava ainda mais triste ao perceber que isso era praticamente um padrão em sua vida: era certeza de que, em algum momento, ele seria deixado de lado pelas pessoas de quem se aproximava.
Breno estava caminhando a pelo menos dez passos à sua frente e Írios decidiu não acelerar para alcançá-lo. O garoto de cabelos pretos parecia estar desesperado não apenas para sair da floresta, mas também para se ver livre de Írios. Foi o que o outro garoto imaginou.
Esperava outro tratamento vindo de Breno, principalmente depois de todo o cuidado que tiveram um com o outro no último dia. E também teve o beijo. Não que esse fosse o último motivo. Na verdade, era o principal para deixar Írios com expectativas confusas. Ver Breno caminhando afastado dele o machucava. O imaginava ao seu lado, talvez. Naquele momento já não sabia mais de nada.
— Desgraça de lugar — ouviu Breno resmungar lá na frente.
Írios decidiu apelar para um macete antigo, mas infalível: uma piada autodepreciativa que medisse as impressões de Breno sobre ele:
— Minha companhia é tão ruim assim?
Breno não respondeu de imediato. Apenas resmungou. E aquela definitivamente não era a reação que o estrangeiro esperava. Queria algo como “Não, imagina, você não é tão ruim assim! É uma companhia pelo menos satisfatória”. Mas, pelo jeito, aquilo já era esperar demais.
Írios então parou de andar. Parecia que o suco do estômago vazio efervescera de repente e se revirava dentro dele feito uma tsunami. Não queria mais ir no mesmo caminho que o outro rapaz. Também queria ver quanto tempo Breno demoraria para perceber que não estava mais sendo acompanhado. E foi como esperava: demorou.
Quando finalmente aconteceu, Breno deu uma olhadela para trás e viu Írios de longe, parado sobre as folhagens alaranjadas. Fez sinal para que ele acertasse o passo para chegar até lá, mas Írios fez que não com a cabeça. Breno revirou os olhos, irritado, como se estivesse lidando com uma criança birrenta e gritou:
— O que foi? Eu que vou ter que ir até aí?
Írios fez que sim com a cabeça.
Breno não teve outra alternativa. Durante o caminho, ficou imaginando que Írios tinha se machucado mais uma vez para atrapalhar a viagem como sempre fazia, mas, quando chegou perto dele, notou que não havia nada de errado. A não ser pela sua cara emburrada e desgostosa. Ficaram se encarando por alguns instantes.
— Qual é a sua? — Írios reuniu toda a (pouca) coragem que tinha enquanto via Breno se aproximar. Ele estava tão tenso que tremia. Sentiu as pontas dos dedos ficarem frias e a cabeça girar um pouco tamanha a moleza que lhe agarrou pelo pescoço. Írios detestava conflitos e fugia deles como se devia fugir de bruxos, mas seus pensamentos estavam o afogando demais. Precisava voltar para a superfície da clareza e respirar tranquilo novamente.
— Como assim? — Breno perguntou, confuso.
Írios não sabia se o garoto de fato não estava sacando, ou se estava se fazendo de cínico. Talvez a segunda opção.
— Você me agarra, me beija — Írios retrucou e tremeu ainda mais do que antes -, me salva, depois eu te salvo e você me trata como se fosse um estranho qualquer.
Breno revirou os olhos mais uma vez, resmungou e procurou palavras para responder. Sua vontade era mandar Írios catar coquinhos e forçá-lo a voltar a caminhar, pois sair de lá era mais importante que discutir. Mas Írios desdenhava um rosto irritado que exigia respostas.
— Cara — Breno resmungou, desviando o olhar -, não é hora pra dramas sem fundamento.
— Dramas sem fundamentos? — Írios contestou, incrédulo com a posição do outro. Seu rosto acobreado ficou vermelho feito lava. Estava fervendo de ódio, dava para sentir o calor de longe.
Na intenção de desviar e diminuir a importância do assunto, Breno decidiu ser derradeiro:
— Foi só um beijo. Isso não significa nada.
— Breno, pelo amor dos Deuses! — Írios soltou uma lufada de ar quente depois de um tempo o encarando, incrédulo. — Se um beijo não significa nada, o que vai significar alguma coisa, então?
— Eu sei lá. Só não precisa tirar conclusões precipitadas — Breno ficou na defensiva e o calafrio voltou ao seu corpo. Definitivamente não queria ter aquele tipo de conversa, então o arrependimento em relação ao beijo bateu nele como uma enorme onda que quebrava sobre seu corpo e o fazia rolar e rolar e rolar no mar sem conseguir voltar para a superfície e respirar.
— Eu tiro conclusão a partir do quê, então? — Írios desabafou. Ele se afastou de Breno e falava gesticulando forte com os braços tamanha sua indignação. — Se nada significa nada, eu tomo decisões como? Com base em quê?
— As minhas vontades significam alguma coisa — Breno atirou a fala direto no peito de Írios, que ficou o fitando por um tempo porque precisava tomar ar para lidar com mais aquela camada de decepção.
— Significam o quê? — decidiu perguntar de uma vez.
— Que não quero nada com você. Já disse: foi só um beijo. Não precisa tirar conclusões sobre o que eu quero, o que eu gosto...
— É, eu sei exatamente do que você gosta — Írios vomitou as palavras cobertas com vontade de ofender de tal forma que fez Breno notar a sua má intenção. Então ele o encarou como quem recebeu a ofensa com um pouco de surpresa. Mas precisava tirar a prova para entender verdadeiramente se Írios realmente estava falando do que ele achava que estava falando:
— Como assim? Do que eu gosto, hein? — Mas Írios não respondeu. Deu um passo para trás hesitado e Breno continuou a confrontá-lo: — Como você acha que sabe do que eu gosto?
A vontade de Írios era devolver a dor para o outro garoto. Escolheu as palavras e ideias que estava guardando desde o começo da viagem:
— Seu olhar já diz muita coisa, Breno. Acha que ninguém percebe? Seu olhar sobre mim mudou depois que você começou a ficar irritado com o Eichler. Seu beijo é salgado de lágrimas, cara. Eu, de verdade, tava achando que seu beijo era pra mim, que seu toque era pra mim. Mas não é, né? Você só queria se vingar do Eichler dentro da sua cabeça fraca e confusa.
Houve um silêncio incômodo e quente. Necessário para se fazer entender.
— Não vou perder tempo ouvindo você falar merda — Breno resmungou irritado e ofendido, mas Írios cortou sua fala e continuou escalonando cada vez mais o rancor em sua voz:
— Você era perdidamente apaixonado pelo Eichler. Coisa que todo mundo sabe, mas ninguém tem coragem de falar. Mas eu falo. Porque você é fraco e fica descontando as frustrações nos outros. E não sou só eu que concluo isso, não, tá?! Qualquer coisa relacionada a ele que foge do seu controle, que te lembra que ele não era o cara perfeito, que era o cara que não te entregou o que você queria, que te abandonou, você explode! Não precisa ser gênio pra concluir isso, Breno.
— Cala essa sua boca — Breno pediu. Ele também tremia de raiva.
— E sabe o que eu acho? — Írios ignorou o outro garoto. Breno notou algo esquisito no fundo de suas íris. — Que você quer fazer o mesmo que ele fez com você. Dar migalhas, me deixar envolvido por você e não fazer nada em relação a isso. Só pra depois ir embora. Igualzinho ele fez com você.
— Não é nada disso… — Breno recuou.
Írios começou a assustar Breno. O que havia no fundo dos seus olhos era um pequeno lampejo azulado ainda tímido, mas que ganhava força e estalava mais intensamente a cada frase odiosa que Írios vomitava:
— É isso sim! Você resmunga o nome dele enquanto dorme, Breno! Fica lamentando que ele não se apaixonou por você igual você se apaixonou por ele! Até dormindo você deixa isso claro, cara! E sabe de mais? Agora você descobre que ele não só não era sincero contigo, como também tá descobrindo que ele não era o carinha perfeito, não. Era um mentiroso, um bruxo! Então sabe o que você faz?
— Írios, você tá me assustando — desta vez, foi Breno quem deu um passo hesitante para trás a fim de se afastar do outro garoto. Seus olhos estavam ficando cada vez mais claros e Breno jurava que aquilo era puro ódio e rancor faiscando dentro dele.
— Você quer se vingar dele, Breno — Írios continuou avançando com um passo largo para cima de Breno, crescendo para cima dele. — Quer se vingar de um cara que tá morto! Acha que assumir a posição dele na relação vai te trazer alguma resposta. Spoiler: vai nada, porra nenhuma. Só te coloca num espiral de filha-da-putagem. Não é simulando a posição dele que vai descobrir se ele te amava também, ou não. Aceita que você nunca vai saber, não tem como saber.
— Írios… — Breno colocou a mão direita sobre o peito de Írios para contê-lo em sua aproximação.
— …E se achar um jeito, por favor, faça sozinho e sem meter os outros no meio disso. Eu que fui idiota de acreditar em você. Não devia ter confiado. Achei que tava me dando uma chance, mas só tava me usando. Como todo mundo faz. Sempre sou o idiota que confia e se ferra depois.
— Cala a boca, por favor…
— Ele não te amava. Não te amava nem como amigo. Se amasse não seria um péssimo amigo pra você.
Breno ficou em silêncio por um tempo, encarando Írios desaguar todas aquelas mágoas para cima dele até que seus olhos se apagaram. Breno respirou fundo e então empurrou Írios para longe, que se irritou com a atitude e imediatamente quis devolvê-la. Os dois rapazes ficaram trocando empurrões um após o outro, se encarando irritados e aumentando cada vez mais a intensidade até que Breno derrubou Írios de costas no chão.
Írios caiu sobre as folhas secas e chutou uma das canelas de Breno para desestabilizá-lo e enfim causar sua queda. Depois, atiçou seu corpo sobre o dele e agarrou-o pela gola da blusa aos chacoalhões. Breno devolvia tudo na mesma intensidade e logo os dois estavam rolando no chão e fazendo as folhas secas voarem ao seu redor.
Breno apertou os braços de Írios, que deu pontapés na sua perna direita. Também investiu em beliscões e tapas nos ombros e peito. Depois eles se agarraram pelos pescoços e rostos. Írios queria arranhar a bochecha de Breno, mas o garoto segurou seu braço no ar e aproveitou para apertá-lo na região dos olhos.
Entre mais tapas e ofensas acaloradas, os dois garotos rolaram uma encosta que ficou cada vez mais íngreme. A velocidade de seus giros foi aumentando tanto que tiveram que interromper os socos para se segurarem uns aos outros. Seus corpos davam pancadas em pedras e morros de terra até que precisaram se soltar e escorreram morro abaixo.
Pararam depois de alguns segundos, repousando numa região plana. Breno levantou com tudo e, fervendo de ódio e todo arranhado e emaranhado com folhas, correu e se jogou contra Írios para continuar com o combate.
Írios interrompeu a corrida de Breno com um chute no corpo do garoto, que tombou para trás.
— Seu bostinha! — Breno grunhiu ao ver Írios retomar o equilíbrio para ficar de pé e tentar fazer o mesmo: avançar sobre ele.
Mas Breno sacou a varinha da calça e, com um giro rápido, evocou uma onda de vento que fez Írios tirar os pés do chão e ser arremessado para o lado até atingir uma pequena árvore de vidro. O tronco partiu em diversos cacos e os galhos vieram ao chão para se espatifarem. A lufada de Breno também fez tantas folhas se levantarem do chão que ele mal viu para onde o outro garoto foi jogado.
Breno ficou de pé e cuspiu sangue no chão. O panaca do Írios fez ele morder a parte de dentro da sua bochecha durante a queda da encosta.
Írios finalmente apareceu quando a chuva de folhas enfraqueceu. Tinha dois cortes pequenos no rosto vindos dos cacos da árvore de vidro. Ele fuzilava Breno e segurava sua espada com voracidade. Ao vê-lo armado, Breno tateou seu cinto em busca de uma adaga, mas não a encontrou. Devia estar na mochila, que rompeu a alça e foi parar a vários passos dele.
A lâmina da espada de Írios começou a cintilar junto com seus olhos, que soltavam faíscas novamente. Ele golpeou o ar e fez a luz se projetar contra Breno, que se jogou para o lado porque era a única chance de desviar daquele raio.
A eletricidade de Írios percorreu o espaço, soltando pequenos braços paralelos de energia que tocavam as árvores ao redor e se enfraqueceu apenas depois de alguns metros. Mas o caminho por onde passou começava a levantar faíscas e pequenos focos de chamas nas folhagens espalhadas.
— Você tá maluco? — Breno gritou a plenos pulmões enquanto se levantava. — Tá querendo me matar?
— Até que não seria má ideia! — Írios confessou de longe. Ao falar, sua voz estremecia como um trovão. Os olhos foram se apagando aos poucos, mas a espada ainda conduzia um pouco de eletricidade a ponto de algumas faíscas se conectarem com os braços que a empunhavam. As labaredas ao redor aumentavam.
Logo depois de falar, Írios se arrependeu do que disse. Não gostava de brincar com coisas mórbidas como aquela. Quando caiu em si, abaixou a arma e descontou a eletricidade faltante no solo até a espada voltar a ser uma pequena adaga nas suas mãos trêmulas.
Percebendo a guarda baixa, Breno voltou a ficar de pé e permaneceu em silêncio por um tempo, analisando o garoto cabisbaixo. Respirou fundo, concentrando-se nas labaredas que estavam prestes a se tornarem chamas. Roubou o calor delas até fazer todas se apagarem em cinzas. Roubar aquele fogo do ambiente lhe fez bem: parecia que, de alguma forma, ele o acalentava por dentro.
— Já deu? — Breno perguntou e Írios respondeu com um aceno de cabeça. Os dois não trocaram olhares e nem mais palavras durante os minutos seguintes. Apenas limparam suas roupas cheias de folhas e terra e reuniram as mochilas e itens que se espalharam durante a queda.
Breno ficou intimidado com o garoto. Sempre subestimou os poderes de Írios, mas entendia que manipular eletricidade daquela forma era um feito muito difícil e até raro. Uma vez já tentou e ficou com dores de cabeça e desânimo por praticamente uma semana inteira. Disperso enquanto trocava de camiseta por outra limpa da mochila, encarou sua própria barriga e lembrou-se da cicatriz em formato de trovão que tinha visto no corpo de Írios quando estavam nas Copas. Sentiu vontade de questionar o garoto sobre aquilo, mas um som que veio tímido do horizonte alegrou seus ânimos:
— Cigarras!
Írios o encarou com dúvida, então Breno se explicou em poucas palavras:
— O canto das cigarras guia os espíritos.
Breno estava com uma vontade efervescente dentro dele de sair daquele lugar. Não apenas pela urgência do tempo, mas porque ficar sozinho com Írios estava o deixando confuso e, agora, com medo e receio. Estava desejando profundamente ter uma daquelas chaves mestras das lendas para poder abrir fendas que o levassem de volta para sua casa.
Após ouvirem os cantos dos animais, os dois rapazes se puseram a seguir em direção para onde o som se intensificava aos poucos, com ouvidos atentos para decifrar qual era o caminho que elas estavam indicando. Andaram por mais algumas horas em completo silêncio e sem nenhum contato visual, por mais que a vontade de Breno fosse de mandar Írios à merda e deixá-lo ali sozinho e a própria sorte.
Se essa é uma trilha para guiar os espíritos, onde estão eles?, Írios refletiu enquanto continuava sua caminhada morosa. Olhava ao redor constantemente, procurando por espectros. Sabia que eram tímidos e gostavam de se ocultar entre as árvores e copas, mas por ali havia sinal algum deles. Nunca havia visto um na vida. Sinceramente, tinha um pouco de medo, mesmo sabendo que são inofensivos até certo ponto.
Lembrou-se de quando era pequeno e aprendeu sobre os espíritos num livro que sua mãe leu para ele dormir. Era uma história infantil de feiticeiros e os apresentava de forma didática, mas Írios ficou morrendo de medo deles mesmo assim.
— A maioria dos espíritos estão aqui pra proteger e cuidar da gente e do mundo que a gente vive — sua mãe tentou tranquilizá-lo depois que o ouviu choramingar no quarto escuro, sem conseguir pregar os olhos -, tudo têm espírito. As árvores, as florestas, os rios, lagos, as ondas do mar, a areia… Eles são bons, não vê? Os espíritos são a vida de tudo isso. Você não gosta de brincar na praia? Então, eles estão sempre por lá… Não precisa ter medo.
O exemplo da praia foi perfeito para o pequeno garoto porque a família tinha voltado de viagem ao litoral há poucas semanas. Ele ficou mais tranquilo, mas ainda questionou:
— Mas o espírito do vovô não vem me visitar, né?
Em resposta, sua mãe soltou um riso singelo. Adorava a ingenuidade das crianças.
— Seu vovô não virou um espírito — ela explicou. — Ele teve uma vida e passagem tranquilas, não tem motivo nenhum para continuar no nosso plano. Ele tá lá no último céu cuidando da gente.
— Então ele não vem me visitar, né? — o garoto que morria de medo de fantasmas estava realmente bem preocupado.
— Não vai, não. Gente não vira espírito. Quem tem espírito são as coisas. Gente e seres vivos têm alma, é diferente. Quando partimos, nossa alma ascende. Os espíritos não morrem, apenas decaem. E voltam pra cá depois de descansarem.
— Mas e os fantasmas? — Írios se afundou na coberta após dizer a tão temida palavra.
— Só pessoas más, bruxos e gente perturbada viram fantasmas, meu querido. Não tem nenhum por aqui. Fica tranquilo, tá bem?
Írios suspirou fundo. Tudo que precisava naquele momento era de sua mãe para tranquilizá-lo. Isso se conseguisse sair daquele lugar. Então a possibilidade de ficar preso lá e nunca mais vê-la apertou no seu peito. Pelo menos o canto das cigarras parecia ter aumentado levemente nos últimos minutos.
Olhou ao redor para procurar sinais dos espíritos mais uma vez, mas nada. Que tímidos, ele pensou. Foi só aí que se lembrou de uma aula antiga de anos atrás no colégio oculto dos feiticeiros do Outro Lado. Aquela professora amarga e moribunda não tinha a didática mais interessante do mundo, por isso prestava pouca atenção nas suas explicações longas e morosas. Não lembrava nem o nome dela direito… Judite, talvez? Janice, capaz. Achou que fosse Janice mesmo. Enfim.
Janice já havia falado sobre espíritos. Írios ficou receoso de estar caindo numa pegadinha de sua memória ruim e não queria fazer um tira-teima com Breno naquele momento. O que tentava resgatar no fundo da memória era algo sobre a aparência deles.
Os espíritos não tinham uma forma física, talvez nem mesmo teriam uma forma definida. O ponto era que o olhar dos seres humanos não era capaz de interpretá-los, como se habitassem uma frequência de cores que seus olhos não conseguiam captar. Mas algumas vezes, principalmente quando queriam se comunicar, os espíritos conseguiam se fazer presentes.
Eles assumiam formas humanoides ou parecidas com animais para facilitar o contato. Mas Írios não tinha certeza sobre isso. Estava em dúvida entre essa tese e a de que, quando eles se pareciam com humanos, era a cabeça dos feiticeiros tentando interpretá-los dessa forma. Igual aquela mania da cabeça humana de ver rostos em tudo, formas nas nuvens e vultos na visão periférica.
De qualquer jeito, a trilha das cigarras poderia estar cheia deles, sim. Mas deveriam estar ocultos. Talvez aquele arrepio incessante na pele de Írios fosse um efeito da presença deles.
A falta de mudança no cenário estava deixando ambos os garotos desesperançosos e ainda mais casados. Os pés de Írios ardiam e imploravam por horas de descanso. Breno sentia a boca tão seca que aceitaria até beijar Írios novamente para senti-la úmida.
Demorou um tempo para o canto das cigarras realmente aumentar o volume de uma maneira bem notável. Breno olhou ao redor para procurá-las nos troncos das árvores, mas não avistava nenhuma.
— Devem estar cantando no nosso plano… — ele refletiu sozinho — e reverberando aqui.
Mais alguns passos e finalmente houve novidades à vista. A floresta de árvores de vidro e forrada de folhas amarelas e vermelhas deu lugar a um terreno árido, de terra alaranjada e vento seco. Naquele ponto o canto dos insetos estava num volume praticamente ensurdecedor.
— Uau! - Írios não conseguiu deixar de murmurar quando alcançou Breno e ficou na beirada do precipício.
Os garotos estavam a poucos metros de um enorme desfiladeiro que dividia o terreno onde estavam com o outro lado, que reservava um cenário mais simpático: uma floresta tão verde e dócil que servia até de alento para seus olhos cansados de tanto amarelo e laranja.
O céu ainda era coberto pelo vidro infinito, que refletia o fundo (bem fundo, mesmo) do desfiladeiro: um rio largo de águas violentas e vermelhas como sangue. Entre as duas colinas deveria ter pelo menos uns trinta metros de distância.
Devido a altura do canto das cigarras, Írios precisou quebrar a recente regra velada de manter a distância entre os dois e se aproximou bastante de Breno para perguntá-lo:
— Como chegamos ao outro lado?
O estrangeiro ainda tinha um certo receio (e até vergonha) de falar com o garoto depois da briga que tiveram, mas o desespero para saírem daquele lugar falava mais alto.
— Não sei — Breno precisou projetar bem a voz para se fazer ouvir. Parecia não se incomodar com a aproximação de Írios, então ele se tranquilizou. Estava encucado com alguma coisa: — Têm uma parada estranha com esse lugar, não percebe?
Írios ficou em dúvida se deveria estar achando aquilo também e demorou para responder. Por fim, não havia nada suspeito para ele, então respondeu em negativa para Breno, que mantinha a feição de desconfiança. Ele se aproximou mais da beirada e ficou olhando para o rio de águas vermelhas a metros dos seus pés.
— Isso… Não sei. Será que é uma ilusão? — Breno indagou.
— Parece bem real para mim — Írios espichou o pescoço para olhar lá embaixo e imediatamente sentiu tontura seguida de náusea ao encarar o abismo.
Breno decidiu olhar com mais atenção, principalmente o vale esverdeado do outro lado. Cerrou os olhos e encontrou no horizonte algumas linhas finas e delicadas, quase imperceptíveis, ondulando o ar com a leveza de penas.
— É. É uma ilusão — ele afirmou.
— Então a gente pode só atravessar que não vamos cair? — Írios achou que seria simples assim.
— Não. Uma ilusão não significa que não é real — explicou -, mas é diferente do que vemos. Pode ser uma queda e tanto, de qualquer forma. E deve ter um jeito de desfazer a ilusão em algum lugar por aqui.
Breno olhou ao redor com ansiedade, entregou sua mochila para Írios e voltou para perto da floresta de vidro, mas não havia nada de interessante por ali além das já conhecidas árvores de vidro e folhas secas. De cara ficou irritado com a falta de pistas.
Já Írios ficou refletindo sobre o que Breno respondeu acerca das ilusões. Virou-se para ver o garoto aflito e investigando cada detalhe da floresta em que estavam, mais especificamente para o tirante em seu peito, onde a miniatura da urna de Eichler tintilava enquanto se movia.
— Breno, como você reverteria a ilusão da urna? — Írios falou alto para o garoto ouvir.
Breno o encarou provocado, então respondeu:
— Quebraria o item que montou a ilusão na maracutaia. Ou…
— Ou o que?
— Tentaria convencer a ilusão de voltar atrás.
— Como?
— Alguma cantiga, ou com cantalíngua. Talvez tentaria conversar com a ilusão e perguntar pra ela — Breno respondeu por fim e um estalo soou nas suas ideias. Ele correu para Írios, virou-o de costas para ele e começou a mexer em uma das mochilas que levava até encontrar seu caderno de desenho e um lápis.
Breno se debruçou no chão, com o caderno contra as folhas e começou a se concentrar.
— O que cê tá fazendo? — Írios pediu, mas Breno agitou os braços para que ele fizesse silêncio.
O garoto começou a prestar atenção no canto das cigarras na tentativa de decifrar o que elas reverberavam. O canto delas é uma cantiga em cantalíngua!, Írios se deu conta quando viu Breno anotar os versos no papel em branco com dificuldade, afinal, ele não tinha tanta afeição por aquele tipo de feitiçaria.
Depois de uns minutos e muitos versos riscados e recomeçados do zero, Breno se deu por satisfeito e voltou a ficar de pé de frente para o desfiladeiro.
— Pronto! — pigarreou para limpar a garganta e lamentou antes de começar a ler em voz alta os versos — Nunca fui bom em cantalíngua, mas vamos lá.
Írios se absteve em ajudar. Nunca havia usado cantalíngua antes, então se limitou em assistir Breno cantarolar, com dificuldade, a melodia, tentando se manter no mesmo tom e se encaixando no canto das cigarras.
Claro que Breno não usou a cantalíngua da mesma forma linda que Pólen, mas sua voz começou a se projetar num tom suave. Parecia que sua garganta era capaz de lançar aos ventos mais três vozes além da sua natural.
Num primeiro momento, nada aconteceu. A primeira tentativa saiu aos frangalhos, pois Breno não conseguia manter o mesmo ritmo das cigarras. Depois, a maior dificuldade foi pronunciar os versos sem errar as entonações. Mas enfim o sucesso veio: as linhas brancas que flutuavam no horizonte começaram a se agitar, ondular com mais força e engrossar até que elas passaram a dançar com violência e no ritmo dos cantos.
A primeira linha alçou altura o suficiente para tocar o espelho que revestia o céu, atacando-o como um chicote numa força que foi capaz de rompê-lo. Breno e Írios se assustaram e queriam voltar correndo para a floresta e se protegerem, mas a visão era grandiosa demais, então ficaram congelados e assistindo.
O espelho rachou no meio e partiu-se em diversas lâminas de vidro que sumiram no ar. De dentro dele, o reflexo do desfiladeiro ganhava vida: as águas vermelhas que antes eram apenas uma paisagem refletida agora eram reais e despejaram do céu como uma cachoeira e tanto. Parecia que aquele pé d’água escarlate iria cair até o desfiladeiro, mas bateu na altura de onde estavam Breno e Írios, formando uma espécie de lago agitado.
As águas pararam a poucos centímetros de seus pés, cobrindo todo o espaço que antes havia por perto deles. Depois, abriram espaço para surgir na superfície uma trilha de pedras e areias brancas que ligava um lado ao outro. Sobre esse caminho, sombras acinzentadas começaram a se projetar. Tinham alturas e larguras variadas, eram disformes e caminhavam em direção à floresta verde.
— Os espíritos — Breno murmurou.
Írios olhou para o céu. O espelho estava lá novamente, como se não tivesse sido quebrado antes. Ele refletia o novo cenário: um rio vermelho ainda mais largo e agitado, mas alto e cortado pela ponte de pedras brancas. No reflexo, os espíritos não apareciam. As cigarras ainda cantavam, mas num volume baixo e agradável.
— É a nossa saída — Breno comemorou.
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