Por Onde Andou Eichler?
6 Ladrão de Cinzas
Notas iniciais
Sabe aquela clássica sensação de que tá liberado meter o pé na jaca porque depois é só remediar que fica tudo bem? Muitos feiticeiros acham que é só botar uma frequência ou um mantra para tocar enquanto descansam ou dormem para ir curando ou afetando o corpo numa boa, sem nem precisar se esforçar muito. Mas, na prática, frequências eram mais um apoio do que um remédio de fato. Não importava se fosse para ajudar em machucados, problemas psicológicos, sorte, ou dores.
Mesmo tendo botado para tocar a fita com o mantra para dores, Breno acordou exausto e com o corpo todo dolorido por causa da queda das raízes da sumaúma. O marasmo nas costas e peito fez com que dormisse mais do que tava acostumado. Detestava acordar tarde durante as férias porque achava um grande desperdício de tempo, mas até seus ânimos estavam cansados nos últimos dias.
Antes mesmo que despertasse totalmente, ouviu os pequenos sussurros saindo da concha sobre sua cabeceira, um búzio amarelado do tamanho de uma moeda. Ainda de olhos fechados, o alcançou e encaixou-o no seu ouvido direito para que a voz ansiosa de Pólen saísse de dentro dela:
“Ayê, Breno. Tô com a urna aqui. Tô te esperando faz meia hora já. Te apressa.” Era apenas uma das várias mensagens que a garota tinha enviado para seu búzio. Quanto mais ouvia, mais ela ficava impaciente e irritada. Motivo o suficiente para Breno finalmente levantar e dar um jeito na vida. Deixar a garota irritada logo pela manhã era uma margem para que ficasse azeda o resto do dia.
Quando saiu do quarto, encontrou o prato de seu almoço posto sobre a mesa com macarrão e almôndegas. Ouviu a mãe limpando o quintal dos fundos e voltou para o quarto. O garoto trocou o mais rápido que pôde e saiu antes que fosse visto pelos pais, sem tocar na comida. O tempo urge quando se está de férias, não há o que esperar.
Fez a primeira parada duas ruas acima da sua, na casa de Eichler, para cumprir com sua parte do esquema.
A passagem secreta que Eichler havia criado para entrar e sair do seu quarto era bem engenhosa e inteligente. Breno ficou fascinado quando ele mostrou como fazia. Foi uma maracutaia que deu um trabalhão para fazer, mas Eichler era muito bom nisso, ficava cada vez melhor e mais sagaz.
Ele sempre foi muito criativo e inventivo, seja para brincadeiras, histórias ou ideias mirabolantes. Quando sacou que esses eram fatores importantes para uma boa maracutaia, ficou viciado em testar coisas novas.
Eichler foi o primeiro da sala a dominar as runas. Era de longe uma das disciplinas e magias que o pessoal achava mais chata, principalmente os mais novos. Era como basicamente aprender uma nova língua e exigia muito raciocínio lógico e improviso para conseguir enfeitiçar algo de verdade usando essa técnica. Normalmente, os feiticeiros resgatavam o interesse por isso já na vida adulta por causa do mercado de trabalho.
Por ser uma artimanha recente, ainda tinha muito a se descobrir e inventar usando runas. Seus primeiros usos foram para armadilhas e ataques agressivos durante as Grandes Guerras Rúnicas, onde foram descobertas. Com o fim das batalhas, foram melhor estudadas pela Academia, mas aplicadas em efeitos mais cotidianos. As casas dos feiticeiros eram repletas de runas e existiam profissionais específicos para prepará-las por trás do reboco, direto na alvenaria.
Eichler praticou e estudou runas até conseguir criar seus primeiros incisos e seu quarto foi seu laboratório. Primeiro, escreveu na porta para que a fizesse fechar ou abrir sozinha assim que ele se aproximasse.
Depois, tornou o guarda-roupa um aspirador gigante — ele abria as portas e aspirava para dentro todas as suas peças de roupas espalhadas pelo quarto, mas ainda bagunçadas e sem dobrar. Era bom mesmo só para esconder a bagunça da mãe. Talvez mais para frente conseguisse alguma magia que dobrasse as roupas sozinhas e colocasse cada peça na gaveta ou porta correta, mas dificilmente conseguiria fazer isso com runas.
Quando estava irritado com o irmão, ativava a sequência que o bloqueava de entrar no seu quarto. Um escudo anti-Hugo surgia e o rapaz só conseguia atravessar para dentro se o caçula permitisse.
Mas o ápice dos estudos de Eichler chegou quando conseguiu escrever uma sequência enorme ao lado da janela para criar ali uma porta que dava direto para o quintal dos fundos da casa. Sim, uma porta feita inteiramente com magia. E não parava por aí: era uma porta invisível que nem ele mesmo seria capaz de ver.
Ele praticou todos os incisos no papel antes de, durante uma madrugada, encher a parede com as runas que precisava. Era uma sequência tão grande que quase não coube toda. Depois, ainda teve que incluir mais um inciso para que as runas ficassem invisíveis como a porta. Eichler gastou toda a mesada do mês para comprar seiva de pau-brasil para escrever tudo aquilo, mas valeria a pena.
O problema era que podiam acabar descobrindo a porta ali por acidente, num toque vacilante, ou algo assim. Dai a porta secreta não seria mais secreta, apenas uma porta invisível, mesmo.
Já tinha a porta. O próximo passo era conseguir ativá-la e usá-la quando quisesse, mas ainda com o truque para deixá-la escondida. O estalo veio quando um circo itinerante chegou em Àttinos. Os truques de um dos palhaços da última apresentação do show eram de ilusionismo.
Eichler ficou encantado e entusiasmado com tudo que viu. O palhaço conseguia fazer o cenário em que estava mudar a cada movimento que ele fazia com um grande vidro que flutuava ao seu redor. O objeto translúcido girava para um lado e por trás dele fazia surgir todos os objetos que o palhaço precisava para fazer cada uma de suas brincadeiras. Pombas, bolas, garrafas flamejantes, arcos e até um elefante de biquíni.
Assim que a apresentação acabou, o garoto correu para o fundo da enorme tenda instalada no campo de futebol do bairro e ficou esperando até que o tal palhaço saísse para dar uma pitada num fumo. Insistiu que lhe ensinasse o truque, que achava até então ser de evocação dos objetos. Já se imaginava evocando a porta da passagem secreta do seu quarto quando quisesse e depois fazendo-a sumir novamente. Mas o palhaço cortou sua graça e disse que nunca revelaria suas maracutaias.
Eichler ficou desanimado, mas não desistiu. Dias depois, encontrou o moço que se apresentava como palhaço na venda da rua de cima e continuou pedindo. O palhaço estava acostumado com aqueles pirralhos metidos a feiticeiros que o infernizavam atrás de suas maracutaias.
Um atrevido lá dos cantos de Bleckhem teve a pachorra de tentar roubar-lhe o amuleto que usava para estimular as gargalhadas em suas platéias. Se embrenhou no meio da noite no seu trailer e botou-lhe abaixo do nariz uma semente de araucária para que não acordasse. Sorte que o Comandante, seu gato, começou a miar horrores para afastar o intruso e despertou o palhaço antes do ato.
Mas aquele mocinho esguio, o tal de Eichler, pareceu diferente. Até era insistente como os outros, só que o jeito que frescava era ameno, sincero. Aos poucos provou ser só um rapaz curioso atrás de conhecimento, e não de vantagens. Era espirituoso e tinha uma educação sincera, agradável. Como Julian dizia: bastava uma linha de prosa com Eichler para ele provar seu jeito bom. Sabia trocar um lero quase como um adulto, era interessado no que falavam para ele e sabia puxar assunto da cartola pra manter o papo vivo e sua companhia instigante.
O palhaço simpatizou com o menino e então decidiu revelar parte de seu segredo, mas sem entregar totalmente os louros.
— O povo acha que magia tem a ver com invocar, criar. Que nada. Um espetáculo bem feito é um truque de encher e enganar os olhos pra surpreender — disse enquanto esperava seu pastel ser frito na hora. — Eu prefiro ser prático e enganoso. O elefante, as pombas, os aros já estão todos lá picadeiro, cê só num vê e num pode sentir. O vidro é só uma janela para ativar a visão do público.
E bastou isso para que Eichler entendesse. Não sabia bem como realizar uma maracutaia daquelas, mas o raciocínio conseguiu pegar. A porta secreta em seu quarto devia continuar secreta e invisível, mas não o tempo todo. Precisava amaviar outro objeto para ativar a porta. Como era algo difícil de realizar, precisava ser um objeto pequeno e com atividade natural de se ver.
Fuçou no caixote de álbuns de fotografias antigas da família em busca de algo que seria perfeito, um retratinho. Colocou no olho direito, no sentido contrário da luz, e admirou a foto dentro dele pela última vez, de um antigo vira-lata de três pernas que sua mãe teve quando criança, o Maneco. Retirou sua foto e a substituiu por outras duas sobrepostas que fotografou mais cedo: do muro dos fundos de sua casa e do lado de dentro de seu quarto com a porta secreta aparente. Foram dias de cantigas e uma muvuca muito bem bolada para transformar o retratinho num amuleto. E pronto: ele seria a janela que faltava para sua maracutaia. Depois de um tempo, fez uma cópia para um amigo.
Breno foi até o terreno atrás da casa de Eichler e cavucou a bolsa atrás do retratinho azulado que Eichler havia feito especialmente para ele anos atrás. Sempre que o tocava, sua mente era invadida por muitas memórias das vezes que usou aquela maracutaia para entrar ou fugir do quarto com Eichler.
O garoto conferiu a rua para ver se realmente estava sozinho. Encarou o muro chapiscado de cinza, levou o retratinho no seu olho direito, fechou o outro e admirou a fotografia do mesmo muro, mas com uma porta de madeira bem no seu meio. Segundos depois, abaixou o retratinho e lá estava ela, a porta secreta, igual na foto, atravessando o muro.
Mexeu a maçaneta e, ao invés de se deparar com o quintal dos fundos da casa, como naturalmente se esperaria, estava a um passo do quarto de Eichler. Fechou a porta e ela desapareceu no instante em que a tranca fez o clique.
Já tinha usado a passagem outras duas vezes desde que Eichler partiu. Simplesmente gostava de ir até o quarto se a saudade batia. Quando alguém se vai, dá um medo de perder também tudo que estava ao redor dela. As conversas, as ideias e os lugares. Breno tinha medo de sua memória afogar tudo que viveram lá desde a infância. Gostava daquele quarto.
Em uma das visitas, acabou derrubando o abajur da cabeceira e fazendo um barulho que chamou atenção da tia. Ela correu assustada até o local e de certa forma ficou aliviada de encontrar Breno acuado no canto, e não um assaltante, sei lá. O garoto esperava ser repreendido, mas foi acolhido num abraço quente e longo da mulher, que logo se pôs a chorar.
— É horrível ver esse quarto vazio — ela resmungou num soluço. — Pode vir sempre que quiser, não tem problema. Gosto de você aqui.
Ambos viviam a dor do luto e a mãe de Eichler conseguia ter empatia por Breno mais do que ninguém. Mas estava refletindo muito sobre como a partida do filho era tão mais definitiva para sua vida do que dos outros. Por isso tinha inveja de todas as outras pessoas que também perderam Eichler. Apesar de doer, não era um pedaço arrancado como o dela. Depois de anos de dedicação, de carinho e criação, o filho simplesmente não estava mais lá. Era um projeto de vida. Eichler e Hugo faziam parte dela, de quem ela era.
Não importava os anos, as coisas que viveria dali pra frente. Eichler nunca deixaria sua mente e muito menos o coração. Essa perda poderia ser até mesmo uma barreira em sua vida, um ferimento que nunca se fecharia, uma estaca enfiada no peito que nunca seria capaz de tirar. Acordaria todos os dias e a sentiria, as pessoas a veriam lá.
Mas Breno ainda tinha uma chance. Claro que era pretensão demais orientar aquela pobre criança a esquecer seu melhor amigo, mas queria mostrar a ele que ainda podia viver, ao contrário dela. Ela daria um soco em quem pedisse para ela seguir a vida e deixar o filho para trás, mas a mensagem soaria diferente para um garoto como o Breno, mesmo que ele não entendesse totalmente o recado ainda com aquela idade.
— Me promete uma coisa? — a mulher enxugou um pouco das lágrimas e se afastou do abraço. O garoto respondeu que sim com a cabeça, então ela respirou e continuou: — Não perca Eichler na memória, mas não deixe ele ditar nada da sua vida.
A tia deixou Breno sozinho logo depois. E ele deitou na cama de Eichler para sentir o que restou do cheiro de camomila dos seus cabelos porque em poucos dias sumiria. Acabou caindo no sono e sonhou que Eichler chegava e o acordava para ir brincar na rua.
Mas, desta vez, Breno foi rápido para não levantar suspeitas e não ser flagrado. Agarrou a urna azul que guardava as cinzas de Eichler e já estava preparando o retratinho novamente para invocar a porta secreta. Até que algo chamou sua atenção na parede oposta.
Era o grande mapa de Àttinos que Eichler usava para marcar suas expedições, lugares favoritos e lugares que queria explorar nas redondezas.
Só que não era mais esse o conteúdo que estava rabiscado sobre o papel grosso. Os locais eram outros e formavam um caminho pontilhado de vermelho que começava em Àttinos e ia para além da periferia. Lembrava um mapa do tesouro. De pronto feito, Breno não conseguiu identificar quais eram exatamente os diversos pontos que o caminho indicava, mas sabia que não eram os que sempre estiveram lá, disso tinha certeza.
Como Eichler gostava de dizer: o mapa indicava seus passos. E aqueles passos eram novos, talvez os passos dos seus últimos dias de vida.
Num supetão, Breno arrancou o mapa da parede e levou consigo para o Bosque Calado. Precisariam terminar toda a maracutaia das cinzas ainda mais rápido para ninguém sentir falta dos objetos no quarto.
Chegou no local combinado em poucos minutos pedalando a todo suor. Depois de algumas curvas e ladeiras, alcançou o campinho de gramado entre a linha do trem e a grande olaria abandonada. Por aquele gramado havia o início de uma trilha do Bosque Calado, o melhor local da cidade para se fazer uma maracutaia.
Pólen estava esperando dentro da mata, então Breno desceu da bike e foi caminhando enquanto a arrastava ao seu lado. As árvores daquele bosque eram baixas e seus galhos retorcidos se esticavam para longe do tronco até encontrar os galhos e folhas de outras árvores para enrolarem-se umas nas outras. Olhando de perto, parecia que as árvores davam vários apertos de mãos.
Todo aquele enlace de folhas criava uma cobertura uniforme sobre o bosque inteiro. Também formavam um ambiente mais escuro por causa do pouco sol que conseguia atravessar o teto verde. Eram pontuais os feixes de luzes que penetravam entre as madeiras e tocavam o chão em forma de fios dourados.
Além de mais escuro e úmido, o Bosque Calado era um silêncio completo — daí o seu nome — porque aquele tipo de árvore absorvia os sons. Cantos de árvores, passos, gritos, música. Qualquer som baixo que tentasse propagar para além de um metro de si mesmo era capturado pela madeira fina e invasiva. Para conseguir conversar, precisavam não ficar muito distantes. Só conseguia ouvir falas a poucos palmos de si.
Por isso aquele local era tão frequentado pelos jovens da cidade. E os principais motivos eram festas clandestinas e feitura de maracutaias longe das vistas do povo de Àttinos. Mas esses eventos eram mais comuns de noite. Durante o dia, era praticamente toda vazia porque suas trilhas eram irregulares e difíceis de andar. O solo era arenoso, desconfortável, e as raízes pungentes das árvores causavam dores nas solas dos pés ao andar sobre elas.
Ali era onde Breno foi a um “rolê” de verdade pela primeira vez. Lembrava do nervoso na barriga em poder sair de noite com seus amigos para encontrar galeras de outros bairros, outras escolas. Tinha muitas expectativas, mas também muitos receios. Só via aquele tipo de situação em filmes.
O evento era nada demais, mas diferente das brincadeiras na rua ou das tardes de filmes na casa de algum amigo próximo. Era um encontro entre a turma daquela idade para ouvir música e conversar no meio da mata. Eles levavam caixas de som e toca-fitas para lá e estalavam as músicas no último volume, aproveitando a magia silenciosa do local. O ingresso era apenas um disco, ou uma fita pra colocar na fila.
Eichler estava bem mais empolgado, mas tranquilo. Os dois combinaram de se arrumarem juntos na casa dele. Vestiram roupas novas e bonitas para se saírem bem, mas Breno queria mesmo era usar o clássico shorts de jogar bola e uma camiseta básica porque ficava mais solto para correr.
— Mas a gente não vai brincar, nem correr — Eichler explicou enquanto escolhia qual perfume usar. Achou graça da ingenuidade do amigo. — É uma volta pra gente conversar…
— Não vai ter nem um bets? — Breno contestou, incrédulo. Como assim iria perder uma sexta-feira à noite com um clima agradável como aquele sem aproveitar para jogar uma bola, um bets, nada? Já estava se arrependendo de ter topado.
— É outro tipo de rolê, rolê de gente de catorze anos.
— Ainda temos treze — Breno estava ficando amuado.
— Tamo mais perto do catorze que do treze.
— Nem vem.
E realmente foi um outro tipo de rolê. Breno ficou se indagando o tempo todo se estava gostando daquilo, pois achava que deveria, afinal, os outros pareciam estar gostando bastante. De fato ele preferia algo mais agitado, ou mais privado. Aquilo era só um bando de grupinhos cochichando e eventualmente indo até outras panelinhas para conversarem um pouco antes de partirem pra próxima. Nem a música pareciam estar ouvindo de verdade.
Mas a parte que mais inflou a impaciência do garoto foi ver algumas garotas que vinham falar com Eichler e interrompiam o papo deles. Será que elas não percebiam que Eichler era amigo dele, que tinha ido ao rolê com ele, e não com elas? Ninguém as chamou ali!
Pólen tava toda soltinha e interagindo com o povo da escola lá de baixo, um absurdo. Mas não podia esperar nada muito diferente dela. Pólen falava pelos cotovelos até com objetos inanimados e animais. Era a maior boca de sacola e agrega-gente do grupo. Na escola, ela sempre ia dar moral para os pivetes mais novos que acabavam ficando sozinhos, sem bando.
Ela já foi uma novata solitária e parecia se incomodar muito quando via alguém na mesma situação. Como conhecia muita gente e mantinha papo com praticamente a escola toda, gostava de conectar uns com os outros, sem precisar abrir mão de seu próprio grupo, a Malta.
— Olha, você curte botânica? Vai adorar a galera da extensão de jardinagem!
— E você, adora cacarecos humanos? Eu detesto! Mas vou te levar num clube de garimpo incrível no centro da cidade.
— Não acredito que você também gosta de colecionar tazos! Conheço alguém que vai poder falar sobre!
Mas naquela noite tava diferente. Pólen costumava voltar pra Malta hora ou outra. Agora ela se afastava o tempo todo da rodinha e ficava tempos fora. Se Breno fosse sair de casa com seus amigos para não ter total atenção deles, para que iria, então?
— Não achou ninguém bonitinha? — Julian puxou Breno para um canto e apontou para a galera toda que tava ao redor da grande fogueira no meio da mata. Daí entendeu um dos possíveis motivos para aquele rolê todo. Mas, não, não estava interessado em ninguém novo. Tinha interesse mesmo em jogar bets, ver um filme ou andar de bike por aí.
Julian era mais velho e de fato um garanhão. Poucas garotas resistiam aqueles cabelos longos e sedosos, aquele olhar compenetrado e seguro. Pelo menos, o cara tinha tudo para ser um metido e convencido, mas era bem tranquilo com isso, até. Se não fosse um romântico incorrigível, aí a história já seria outra.
Eichler também chamava bastante atenção, mas dava trela para todo mundo no dia a dia mesmo. Jamais recusaria um bate papo com alguém, ou cortaria com grosseria e faltando com educação. O rapaz era um querido ao máximo. Isso às vezes prejudicava as mocinhas que iam falar com ele, pois achavam que a atenção e a simpatia que ele dava era algo especial. Daí, pronto, elas ficavam todas iludidas.
— Deixa de ser tão ciumento — Pólen se queixou com Breno no dia seguinte daquele rolê, depois dele contar que não curtiu tanto assim. Como ela era o contrário dele (receptiva e falante), Breno zombava chamando-a de vereadora.
— Não é ciúme — ele explicou, orgulhoso, mesmo sabendo que seria pouco compreendido. — Só não gosto de gente nova.
— Acha que vai ser amigo só da gente pro resto da vida? — Valen também questionou. — Têm que sempre conhecer gente nova, sim.
— Pra mim já tá bom como tá — Breno pisou o pé e todos riram do seu jeito turrão, até Eichler, que comentou:
— Deixa ele, gente. O Breno não sabe fazer amigos novos.
— Não sei, mesmo. Odeio aquelas conversinhas bobas que se têm quando não se conhece alguém. Eu não me importo se você tá bem ou se o tempo virou. Eu vou lá gastar tempo com desconhecidos?
Lembrar de Eichler era estranho. Doloroso. A cada memória da vida passada que vinha à tona, ficava com as cores mais desbotadas, como um objeto que afunda na água até sumir de vista. Antes, quando alguma faísca de saudade batia, era só ele correr para duas ruas acima da sua e pronto. Agora, praticamente nada podia ser feito, só remoído no peito.
Breno virou à direita na placa que apontava ser o centro do bosque e logo avistou a figura de Pólen. Ela era mais alta que ele e era bem magricela. Tinha pele cor de açúcar derretido virando caramelo e os cabelos eram divididos em várias tranças finas e longas. Seus olhos interessados brilhavam num azul-esverdeado abaixo das sobrancelhas finas. Eles eram agitados, atentos. Suas mãos quase sempre estavam cheias de band-aids coloridos e faixas para machucado porque a garota costumava ajudar a avó na colheita de plantas pra botica da família.
Breno ficou receoso e curioso de imediato, pois a garota estava acompanhada de mais alguém. Não conseguia identificar daquela distância, então deixou a bike cair ao solo para apertar o passo até eles. Quando encarou o garoto de cabelos cacheados e raspados pela metade, o coração deu um pulo.
— O que ele tá fazendo aqui? — Breno questionou Pólen, dirigindo a palavra diretamente para ela como se o outro nem estivesse ali.
— Ele vai ajudar a gente. Estamos fazendo uma… troca! Já que a Valen não vem e precisamos de três para fazer a maracutaia, ele vai nos ajudar e eu ajudo ele com uma coisa depois. — Pólen se justificou tentando ser o mais direta e prática possível. Sabia que Breno era extremamente intransigente quando se tratava de planos, principalmente se o que fugia do combinado fosse pessoas que ele não conhecia. Ela precisava deixar bem clara a utilidade de Írios ali. — Esse é o Írios, mas acho que vocês já se conhecem, né?
Pólen não resistiu de dar um riso tonto. Breno corou imediatamente e já desenhou uma feição irritada. Sabia que seria zombado pelo incidente com o líquen. E ficou se questionando como a bendita Pólen tinha conhecido aquele cara e arrastado ele até ali.
— Infelizmente conheço — Breno não deu o braço a torcer e foi até ao lado de Pólen, continuando a ignorar Írios, que estava acuado e sentado em um toco de madeira. Ele parecia envergonhado e desconfortável, tanto que nem emitiu um pio. — E como ele vai ajudar?
Estava tentando controlar a insatisfação pela Pólen decidir bancar a bastião dos solitários e esquisitos justo naquele dia, mas tinha muita dificuldade em não deixar transparecer. Breno demorou para olhar diretamente para o estrangeiro. Quando o fez, notou que seu rosto sangrava. Um fio de sangue fresco descia de cima da sobrancelha grossa até o pescoço.
— Foi um acidente — Pólen já foi se justificando quando notou que Breno estava encarando o corte no rosto. — Tava começando a fazer um emplastro pra tratar disso agorinha mesmo…
Mas Breno não estava preocupado com o estado de saúde do garoto do líquen, apenas instigado com o que tinha perdido enquanto estava na casa de Eichler. Mas deixou para lá. Eles já tinham o que era preciso para cumprir a missão do dia, então puxou a mochila das costas, abriu o zíper e retirou de lá a urna com as cinzas de Eichler.
Lá dentro também encontrou o mapa dos passos de Eichler dobrado. Pensou em tirá-lo para mostrar à Pólen, mas hesitou. Esperaria que o garoto esquisito fosse embora para que conversassem sobre aquilo, mesmo estando com a cabeça fervilhando sobre aqueles locais todos que ele rabiscou.
No fundo, algo que entenderia apenas mais tarde doía sobre isso. Lembrava nitidamente que na semana anterior da morte de Eichler, o amigo estava meio distante de todos, solitário. Isso não era tão incomum. O garoto tinha sim uns acessos de solitude e dava uma sumida. Mas normalmente avisava, contava onde iria e o que faria por lá.
Mas daquela vez foi diferente. Olhando em retrospecto, parecia até que estava sentindo o mau agouro chegando sobre sua vida, foi o que Julian disse.
O único membro da Malta que conversou com ele foi Julian. Eichler havia ido até a fazenda de sua família para passar um dia por lá. De noite, foi embora de bicicleta, mas Julian percebeu que ele pegou o caminho contrário da volta para cidade. No dia seguinte, foi visto por Valen na periferia, sozinho. Depois, foram quatro dias de completo sumiço. Quando voltou para a cidade, bem, sofreu o acidente.
Eichler havia passado tanto tempo fora e não contou nada pra Breno. Aquilo o deixava chateado. Principalmente por ter sido a última semana de vida do amigo. Por quê não queria compartilhar isso com ele, não sabia. Mas agora tinha um belo chute de onde ele esteve. Será que poderia descobrir também o que estava fazendo?
Breno encarou Írios com o rosto irritado novamente e nem se incomodou se ele percebesse. Estava com raiva da sua presença. Queria falar sobre aquele assunto com Pólen, mas não podia na sua frente.
Írios ficou admirando o jarro branco com pinturas em índigo que Breno tirou da mochila e notou a inscrição abaixo. Era o nome de Eichler junto ao ano de nascimento e o ano de falecimento. Ficou um pouco assustado com aquilo. Por que eles estavam com os restos do amigo? Aquilo tava começando a tomar um rumo que não sentia ser legal, mas preferiu ficar calado por enquanto.
Já Pólen percebeu que Írios olhava para as cinzas com um desdém meio assustado. Aquele garoto tinha uma cara de susto naturalmente, o que era até engraçado, mas estava ainda mais expressivo quanto a isso. Para não perder a ajuda do rapaz, ela foi até ele e decidiu contar:
— É, isso são as cinzas do nosso amigo. Vamos roubar ela e colocar uma falsa no lugar, ok? Precisamos levar as verdadeiras pra um lugar e velar o nosso amigo do jeito certo, desta vez.
Ok. Írios de fato não entendia muito sobre como os feiticeiros lidavam com a morte. Talvez essa bagunça toda fosse normal. Se não fosse, ele não tinha nada a ver com aquilo. Estava ali apenas atrás de uma coisa. E, aproveitando que Pólen estava desabrochando respostas, decidiu perguntar novamente:
— E sobre Amélie, quando vamos falar?
Breno fez uma cara de interrogação e entrou na conversa:
— Oxe, oxe. O que Amélie tem a ver com isso?
Pólen nitidamente não queria que a conversa fosse para aquele lado, tanto que repreendeu de leve Írios com o olhar. Preferiu responder rápido para voltarem ao que interessava:
— Ela desapareceu, tá sumida, num sei. E pelo jeito foi perto de onde a gente tava naquele dia da fogueira.
— Têm alguma coisa a ver com a explosão? — Breno ficou instigado de imediato e começou a ligar alguns pontos.
— É isso que eu queria saber — Írios finalmente dirigiu a palavra ao garoto de cabelo raspado. Eles se olharam por poucos segundos até Breno desviar dele. Ambos ainda sentiam vergonha pela armadilha em que caíram juntos.
— Mas depois falamos sobre isso — Pólen já se agitou para mudar o foco enquanto pegava dos braços de Breno o jarro de cinzas. — A gente tem que fazer isso logo pra devolver a réplica no quarto o quanto antes.
Írios até se ajeitou no toco de madeira. Veria, pela primeira vez, feiticeiros fazerem um feitiço complexo e estava muito empolgado com isso. Tanto que Amélie até sumiu de sua mente por um tempo.
— Bora lá, moleques — Pólen se dirigiu aos dois. — Bora começar. Façam tudo o que a bruxona aqui disser que vai dar tudo certo.
Fale com o autor