Por Nossos Filhos
3 Capítulo 3
Notas iniciais
2008
Sérgio Pontes
Hoje faz 30 anos que vi os olhos da minha doce Olívia pela última vez. Nunca me esqueci dos seus olhos assustados e de quanta tristeza havia neles. Eu compartilhava a sua dor por saber que não mais nos encontraríamos.
Depois de ser socorrido ao hospital da cidade e receber os primeiros atendimentos, meu pai me transferiu para a Capital, Belo Horizonte. Toda a família tinha medo que eles voltassem atrás de mim, eu sabia que ninguém mais viria, eles foram bem claros.
Não voltei pra casa por muito tempo, terminei a faculdade de medicina em São Paulo, longe de toda a loucura que era guerra entre as nossas famílias. Soube por um dos meus irmãos que pouco depois que me mudei Olívia se casou, um político, o genro perfeito para o pai dela. Nossas alianças continuam guardadas na mesma caixinha de veludo. Tentei me desfazer delas inúmeras vezes, mas algo sempre me impedia. Acabei guardando, como uma lembrança boa de um amor bonit0o que não pôde acontecer, para sempre me lembrar do jovem que eu fui, mas, principalmente, para, como pai, nunca me esquecer de apoiar os meus filhos quando derem de cara com o amor.
Aos poucos fui me adaptando à rotina de médico recém formado, muito trabalho, pouco descanso, era bom, sobrava pouco tempo para pensar nela e em tudo o que deixamos de viver. Conheci Marina no último ano da faculdade, ela também é médica nos demos bem logo de cara, era fácil me relacionar com alguém que entendia minha rotina e minhas ausências. Ela sempre soube que eu tinha um passado, mas nunca me questionou sobre ele. Com o tempo eu aprendi a amá-la. Dois anos depois nos casamos e começamos a nossa família, um casal de filhos, Rafael e Gabriela, nossos anjos, que nos uniram ainda mais. Marina engravidou da Gabi quando ainda estava no período de licença maternidade o que tornou nossa vida uma loucura, dois bebês em casa nos fez ainda mais fortes e unidos.
A guerra entre os Pontes e os Andrade pelo poder em São João dos Milagres não acabou, mas hoje as coisas estão mais controladas, meu pai sofreu um acidente de carro a 10 anos e perdeu os movimentos dos membros inferiores, isso o deixou depressivo por muito tempo. Meus tios nunca estiveram dispostos a enfrentar a briga de fato, apenas apoiavam meu pai, com ele fora da jogada as coisas acabaram se acalmando.
A cerca de 3 anos o coronel Luiz de Andrade sofreu um AVC que o deixou com muitas sequelas. Sem os chefes, nenhuma das duas famílias teve coragem de continuar os enfrentamentos. Agradeço a Deus por isso, já basta de violência e morte. Todos já tivemos a nossa quota.
Volto da minha viagem ao passado quando escuto uma batida suave na porta do consultório, e então ela entra.
— Atrapalho? – pergunta minha esposa.
— De forma alguma meu bem – a chamo com a mão. Ela caminha em minha direção e se senta em meu colo, depositando um beijo suave nos meus lábios.
— Rafa me ligou. Está vindo pra casa. Chega para o jantar e não está vindo sozinho.
— Uma garota? – pergunto curioso. Meu filho nunca trouxe uma garota para casa, em quase cinco anos de faculdade, esta é a primeira vez que traz alguém para conhecermos. Está cursando o último ano da faculdade de Direito em Curitiba, vem nos ver com bem menos frequência agora. Sei que Marina sofre por tê-lo tão distante e está contando os dias para que volte para casa.
— Acho que ele está apaixonado. Ela se chama Lorena, parece que é filha de um deputado, a família é de Minas, talvez seus pais conheçam.
— Acho que não, papai não se envolve com a política desde o acidente, e convenhamos, é melhor que continue assim. – ela ri, adoro o som claro do riso dela.
— Liguei pra Claudia preparar algo especial para o jantar, vai demorar a sair?
— Não. Encerrei por hoje, podemos ir juntos se estiver pronta.
— Então vamos.
Conversamos sobre os planos para o fim de semana, percebo que ela está ansiosa. Depois de 23 anos de casados conheço cada trejeito dela.
— Se acalma – digo segurando sua mão enquanto dirijo para casa.
— Será que ela é uma boa pessoa? Será que vai gostar de mim? Não quero ser uma sogra ruim.
— Você vai ser uma sogra maravilhosa – tento acalmá-la.
— Não quero que ele sofra, não quero que ele se machuque. Você é meu primeiro e único amor, mas sei que você já teve o coração partido Sérgio, não quero que ele passe por isso.
— Eu também não meu bem, mas se acontecer estaremos aqui, para ajudá-lo a se curar. – ela balança a cabeça confirmando.
Em casa encontro uma verdadeira operação de guerra. A cozinha tem recipientes com ingredientes picados por todos os lados e um cheiro maravilhoso. Ela caprichou no cardápio, quer impressionar a garota. Mães.
Tomo um banho para aplacar o cansaço do dia de trabalho e me coloco na sala esperando meu filho e sua namorada enquanto Marina sobe para se arrumar. Não muito depois escuto o som do carro entrando na garagem, abro a porta para que entrem. Ele vem na frente me impedindo de ver completamente a moça, me abraça, lhe dou um beijo e só então volto meu olhar para ela.
Nada no mundo me prepararia para este momento. É como ver Olívia 30 anos atrás. Os mesmos olhos, os mesmos cabelos castanhos claros. Fico por alguns segundos sem reação. Sou tomado por lembranças de um tempo distante, ela sorri e fica ainda mais parecida.
— Papai essa é Lorena, minha colega de turma na faculdade e minha namorada.
— Muito prazer Dr. Sérgio. – ela me estende a mão, demoro alguns segundos para corresponde-la. Percebo seu constrangimento quando seu rosto começa a enrubescer como minha Olívia.
— O prazer é nosso, seja bem vinda – aperto sua mão.
Tento ignorar o quanto ver essa garota mexeu comigo, digo ao Rafa para leva-la para conhecer a casa e informo que Marina está no banho. Assim que eles se retiram abro a porta da sala e saio. Preciso de ar, preciso respirar e tirar todas essas imagens da minha cabeça. Eu nunca me esqueci, Olívia sempre foi uma parte de mim, mas essas lembranças todas estavam guardadas em um cantinho, não me dava permissão para acessá-las.
— Querido – ouço Marina me chamar da porta – está tudo bem?
— Sim – respondo automaticamente enquanto ela caminha em minha direção.
— Você a viu? – pergunta animada – Tão linda, parece ser tão doce. Acho que já gostei dela – sorrio, Marina se entrega fácil. Se essa moça tratar bem ao Rafael ganha a mãe dele sem maiores esforços.
Passo meus braços ao seu redor e a levo de volta para a sala. O casal está sentado em um dos sofás e é como se eu estivesse revisitando o passado. Sempre escutamos que o Rafa é uma cópia fiel de mim nessa idade, na aparência e nas atitudes. Vê-lo abraçado a essa moça que me lembra tanto Olívia é como olhar para uma fotografia antiga.
Gabriela chega da faculdade e corre para o irmão. Não se surpreende ao encontrar Lorena conosco, tenho a impressão que já se conhecem. Durante o jantar isso fica ainda mais evidente. Marina está encantada ao ver como os nossos dois filhos parecem gostar da moça e a reciproca é mais que verdadeira. Uma ideia ronda a minha cabeça, mas sou incapaz de acreditar que o destino brincaria comigo dessa forma, decido perguntar de uma vez.
— Vocês já se conheciam? – pergunto apontando de Lorena para Gabriela. Sinto um silencio constrangedor se instalar entre os três. Meu filho segura a mão da namorada e lhe lança um olhar que conheço bem. Eu olhava assim para Olívia quando queria tranquiliza-la. Não pode ser. Penso.
— Já papai – quem responde é Gabriela – conhecemos a Lorena à alguns anos, uns 6 ou 7. Quando passamos um mês de férias na fazenda do vovô. Ela também estava de férias por ali.
— Tem família em São João dos Milagres, Lorena? – tento parecer desinteressado, mas confesso que a resposta me assusta.
— Sim senhor.
Percebo sua tensão, Rafael sorri e completa.
— A Lorena é neta do Coronel Luiz de Andrade, papai – ele conta. E me olha, esperando a minha reação. Tudo o que eles sabem é que as nossas famílias passaram muitos anos em guerra declarada e que ainda hoje são inimigas. Meus filhos sabem que eu tive um grande amor no passado, mas não sabem quem foi, nem o motivo pelo qual não ficamos juntos. Saber que o meu filho está namorando com a filha da Olívia me tira do eixo por um momento. Tento me recompor, não quero que pensem que ficarei contra o namoro por causa das nossas famílias. Jamais seria capaz de fazer com o meu filho o que fizeram comigo.
Marina percebe que algo está acontecendo e leva a conversa por um caminho seguro o tempo quase todo. Falamos sobre a faculdade e os planos dos dois para as carreiras. Descubro que o marido de Olívia é um deputado federal em segundo mandato e que passa muito tempo em Brasília, Olívia fica mais tempo com o pai depois que ele adoeceu. Me retiro assim que posso alegando estar cansado do trabalho.
Fico um bom tempo na sacada do quarto olhando a noite, observando a lua e me lembrando de quantas noites nos deitamos na grama para ver as estrelas, em São Paulo a fumaça e as luzes nos impedem de vê-las. Foi assim que eu sempre imaginei Olívia, como uma linda e distante estrela, que um dia iluminou a minha vida, eu sabia que estava ali, mas não podia vê-la.
Sinto braços ao meu redor, Marina encosta a cabeça em minhas costas. Ficamos assim por alguns momentos.
— Isso vai ser um problema? – ela me pergunta baixinho – A guerra entre as famílias não acabou a dez anos?
— Isso nunca vai ser um problema meu bem. Eu nuca impediria o Rafa de ficar com a mulher que ele ama por uma briga sem sentido.
— Então o que houve? Você nunca reagiu assim, porque ficou desse jeito depois de saber que ela é neta do Coronel Luiz de Andrade?
— Meu bem olhe pra mim – a viro de frente para mim e encosto seu corpo no parapeito da sacada – Eu te amo, nunca duvide isso tudo bem? Você é a mulher que eu escolhi para passar o resto da vida.
— Por que está me dizendo isso Sérgio? – pergunta com os olhos marejados
— O meu amor do passado – começo a contar e a sinto enrijecer, preciso que ela saiba de tudo – É a mãe da Lorena. – Duas grossas lágrimas escorrem de seus olhos. Abraço a minha esposa tentando passar pra ela toda a confiança que possuo em nós, no nosso amor.
— O que aconteceu? – me pergunta depois de alguns segundos torturantes.
— Nossos pais não permitiram que ficássemos juntos, foi no auge da guerra entre eles.
Ela me abraça e segura minha camisa com força. Afago seus cabelos, e deposito pequenos beijos no topo de sua cabeça. Ela vai entender, vai ficar bem. Conheço a minha mulher, ela é forte, vai assimilar isso tudo. Só precisa de um tempo e da minha presença. Uma batida na porta chama nossa atenção.
— Posso entrar? – meu filho pergunta já com metade do corpo dentro do quarto
— Claro querido – ela responde limpando os últimos vestígios de lágrimas.
— Está tudo bem?
— Sim. – ela tenta demonstrar uma tranquilidade que não temos no momento.
— Por que está chorando mãe?
— Nada filho, o papai e eu estávamos lembrando do passado, me emocionei, só isso – ela chega o mais perto da verdade, decidimos jamais mentir para eles sobre nada, se em algum momento dos últimos 20 anos ele tivesse me perguntado sobre o meu passado eu teria contado, como sinto que contarei agora. – Precisa de alguma coisa?
— Posso falar com você, pai? – ele pede preocupado. Preciso tranquilizar meu filho. Ele não merece a angustia que experimentei quando era jovem.
— Claro. Vamos para o escritório.
Marina acena com a cabeça num sinal de que vai ficar bem e eu sigo com ele. Não trocamos nenhuma palavra durante o trajeto. Assim que fecho a porta ele me olha ansioso. Sinto seu sofrimento, o conheço.
— Pai. Você não vai nos impedir não é? – ele pergunta logo de uma vez.
— Me responda uma coisa, com sinceridade – digo com firmeza, preciso ter certeza sobre o que eles sentem – se eu proibisse você aceitaria? Cumpriria minhas ordens e se afastaria dela? – ele abaixa a cabeça.
— Desculpa pai. Eu não posso fazer isso. Eu amo a Lorena, já tem muito tempo. Mesmo se você não permitisse eu ficaria com ela. – sorrio. Era exatamente essa a resposta que eu esperava ouvir dele.
— Eu nunca impediria filho – puxo-o para um abraço. Ele me abraça de volta e sinto o seu alívio. – Se você a ama só a faça feliz e seja feliz também, é tudo o que eu espero de você.
— Você ficou estranho no jantar. Eu fiquei com medo. Lorena está lá no quarto apavorada. – sinto um aperto no peito de pensar que nesse momento nossos filhos revivem a nossa história. Posso ver os olhos de Olívia marejados no nosso último encontro. O medo da separação que estava mais perto do que imaginávamos. – Pai. Eu vou pedi-la em casamento no domingo. – ele diz e tira uma caixinha de veludo vermelho do bolso. Me vejo nele 30 anos atrás, dessa vez eu vou garantir que as coisas terminem do jeito certo. Ele abre e me mostra o anel delicado de ouro branco com uma pedra. Um anel de noivado clássico, combina com ela.
— Eu quero que você saiba uma coisa filho – começo a dizer enquanto ando até o cofre e digito a senha – a disputa das nossas famílias não tem nada a ver com a minha reação no jantar. Isso é muito mais profundo. – entrego a ele a caixinha com as alianças e espero que ele entenda.
Me olha sem entender o porquê de lhe entregar aquelas alianças antigas, tira uma delas do lugar e olha a gravação. Vejo quando a compreensão toma conta dele. Ele me olha e depois volta a olhar a aliança.
— Pai. O seu amor do passado. Aquela história que ninguém nunca quis perguntar, mas sempre tivemos curiosidade em saber, é a mãe da Lorena? – não respondo, não confio em minha voz, apenas aceno com a cabeça positivamente. – A mamãe sabe disso?
— Eu acabei de contar pra ela
— Por isso ela estava chorando – constata.
Ficamos alguns minutos em silencio. Ele se senta em um sofá e eu no outro. Deixo que ele tome o tempo necessário para assimilar.
— Por isso olhou pra ela daquele jeito quando chegamos? Todos falam que ela se parece com a mãe quando mais jovem. – confirmo – Que loucura.
— Você já conhece a família dela?
— Ainda não, foi por isso que viemos até aqui. Lorena quer fazer um almoço no domingo para que as nossas famílias possam estreitar laços. Será na fazenda do avô dela. Eu pretendo fazer o pedido lá. Ela ainda não sabe. Queria que vocês fossem.
— Nós vamos dar um jeito filho. Vamos estar lá para comemorar o seu noivado.
— Será que o vovô aceitaria ir também?
— Bom, aí já é outra história.
Conversamos por mais um tempo. Sinto saudades de tê-lo em casa comigo para essas conversas. E agora meu garoto vai se casar.
— Quero que fique com elas – digo apontando a caixinha. Ele arregala os olhos. – Essas alianças foram feitas para unir um Pontes e uma Andrade a 30 anos. Use-as agora. Eu não sabia exatamente porque mantive comigo por todo esse tempo, agora eu sei. Quero que elas sejam suas. Elas vão unir você à mulher que você escolheu para amar, e vão selar a paz entre as famílias de uma vez por todas.
— Obrigada pai. Significa muito. Mesmo – ele me abraça novamente.
Voltamos aos nossos quartos e não consigo parar de pensar em como será esse almoço. Tenho apenas três dias para me preparar para revê-la, algo que eu julguei que jamais aconteceria.
Sábado pela manhã vijamos para Minas. Vamos em dois carros. Rafael e Lorena vão direto para a fazenda dos Andrade, Marina, Gabi e eu vamos enfrentar a fera. Não sei como meu pai vai receber uma notícia dessas, mas vai ter que aceitar.
Minha mãe nos espera na área da frente. Depois da seção de beijos e abraços ela puxa minha filha para a cozinha, dizendo que fez seus biscoitos e o bolo favorito do irmão. Toda vez que chegamos para visita-los é assim, ela agrada os netos o quanto pode.
Marina e eu seguimos até a sala de TV onde meu pai está em sua cadeira. O cumprimentamos e passamos poucos minutos a seu lado. Logo ele já pergunta pelo Rafa e temos que contar.
— Está na casa da namorada pai. Logo estará aqui.
— Casa da namorada. Rafael nem vem pra São João. Como é que vai ter namorada aqui? – lanço um olhar a Marina, ela balança a cabeça concordando. É melhor contarmos logo antes que ele chegue à conclusão sozinho.
— Então pai. O Rafa conheceu uma garota na faculdade lá em Curitiba. Eles estão namorando já tem um tempo, mas ele ainda não conhecia a família dela. Viemos conhece-los nesse fim de semana.
— E quem é a família dessa moça?
— Bom. Ela é filha do Deputado Osvaldir – Vejo sua testa avermelhar e o seu semblante se modificar.
— Você não vai fazer nada? Vai deixar ele namorar com uma Andrade? Vai deixar ele comprar uma aliança também, como você fez a trinta anos atrás. – abaixo a cabeça pedindo a Deus que me de paciência e serenidade, para conduzir esse momento.
— Eu vou pai. Não só vou deixar que eles namorem, como também dei minha benção para que eles se casem. Ele vai pedir no almoço amanhã. E nós iremos.
— Isso é um absurdo. Um absurdo – esbraveja
— Pai. Essa guerra já acabou faz tempo. Eu não vou separar os dois e o senhor também não. Não estamos mais na década de setenta.
— Você se esqueceu do que fizeram com você naquela época? Esqueceu do que essa gente é capaz? – ele pergunta nervoso. Olho para Marina que está pálida ao meu lado, ela não sabia dos detalhes.
— Pai isso já foi, já passou.
— Você não sabe o que é ter um filho à beira da morte. Não deixe Rafael se meter com essa moça. Eles tem o sangue ruim.
— Não tem não pai. Eu não vou fazer com eles o que fizeram comigo e com a Olívia. Eu vou garantir que eles tenham um dia lindo amanhã. Vão ficar noivos e em pouco tempo vão se casar, usando as alianças que eu fiz a 30 anos atrás e nunca entreguei pra mãe dela.
Não pensei muito nas consequências enquanto defendia o romance do meu filho, quase me esqueci do peso que minhas palavras teriam sobre minha esposa. Ela não merece sofrer, eu mesmo já tinha sofrido demais.
— Faça como você quiser. Mas não me peça pra aceitar isso com um sorriso porque isso não vai acontecer.
Balanço a cabeça e saio em busca de ar. Marina não vem comigo e isso me preocupa. Passo um tempo caminhando pelo gramado, não vou muito longe da casa, só preciso me acalmar. Tudo isso mexe demais comigo, preciso pensar melhor, calcular melhor para que ninguém se machuque ainda mais. Sinto uma mão delicada em meu braço.
— Papai – chama minha filha.
— Sim princesa
— Já acalmei o vovô – sorrio pra ela. Se existe alguém capaz de acalmar e derreter o coração do Coronel João Pontes, esse alguém é a Gabi. – Mamãe está chorando no quarto, não quis me meter, acho que é você quem tem que ir até lá.
— Eu sei querida. Só estava me acalmando um pouco. Não quero magoar a sua mãe. – olho para a minha filha de apenas 21 anos, mas que mostra uma maturidade incrível – você sabe que eu amo sua mãe não sabe?
— Claro que eu sei papai. Vemos isso no jeito como se olham. Talvez ela precise ser lembrada. Não é fácil lidar com isso tudo. Ela está insegura, com ciúmes. Vamos encontrar o grande amor da sua vida amanhã de manhã e pra sempre ela vai ser uma parte das nossas vidas, eles vão se casar, seremos uma família só.
— Eu vou lá querida. Vou lembrar a sua mãe do quanto a amo. – planto um beijo em sua testa e caminho de volta para a casa onde cresci em busca da minha mulher.
Abro a porta do meu quarto devagar, ela está sentada na cama de costas para a porta, percebo seu choro silencioso pelos movimentos dos seus ombros. Me sento atrás dela e a puxo para mim. Deixo que chore toda a sua dor, me culpo por tê-la causado. Minutos depois sinto-a se acalmar. Mantenho-a em meus braços é importante que ela me sinta próximo.
— Mais calma? – Ele não abre a boca, apenas acena com a cabeça. – Me desculpe. Eu sei que não devia, mas esse assunto ainda mexe comigo.
— Você ainda a ama? – pergunta sem me olhar.
— Eu amo você.
— Não foi isso que perguntei Sérgio. O que você sente por ela?
— Não sei meu bem. Não sei. – essa não é nem de longe a resposta que ela esperava de mim, mas juramos ser sempre sinceros um com o outro. Mesmo sendo doloroso mexer no passado, se tivesse contado para ela toda a história teríamos evitado esse sofrimento.
— Eles te machucaram? Na época? O que aconteceu realmente?
— O pai dela mandou que me dessem um corretivo – conto – Apanhei de 3 caras e permaneci por um bom tempo jogado na grama da fazenda do vizinho – ela estremece – meu tio me encontrou quase morto, passei muito tempo me recuperando.
— Você acha que eles podem fazer mal ao Rafa? – pergunta me olhando alarmada.
— Não. Tenho certeza que não. O Coronel Luiz de Andrade era o cabeça de tudo. Nada de mal vai acontecer ao Rafa. Não precisa se preocupar. – ela aquiesce e volta a se encostar em mim.
— Como vai ser amanhã? – Me pergunta depois de um longo tempo em silêncio.
— Nós vamos até lá e vamos conhecer a família da Lorena. Vamos mostrar a eles o quanto gostamos dela e que ficamos felizes com essa união.
— Tenho medo que você descubra que ainda a ama. Vocês nunca mais se viram. E se esse reencontro fizer o amor renascer?
— Eu não sei o que vai acontecer meu bem, não tenho nem ideia de como vou me sentir quando reencontrar a Olívia depois de 30 anos. A única coisa que eu posso te garantir é que eu te amo, você é a mulher que ficou do meu lado, que construiu uma vida comigo. Que revezou as noites de plantão pra cuidar das crianças. A Olívia foi o meu primeiro amor, mas você é o último, eu te amava no dia que nos casamos, te amo hoje e vou te amar amanhã, independente do que vai acontecer nesse almoço. Confia em mim, confia na nossa história, no nosso amor. Vai ficar tudo bem.
Ela não me respondeu, só passou os braços em volta de mim e permaneceu assim por muito tempo. Saímos do quarto quando minha mãe nos chamou para o jantar. Nesse momento toda a família já sabia do enredo de novela mexicana que estávamos vivendo. Reunidos na grande edícula que meu pai mandou construir pouco antes do acidente, meus irmãos, cunhadas e sobrinhos comentavam sobre as voltas da vida. Todos silenciaram quando nos aproximamos. Se a pele dourada da Marina não deixava transparecer o quanto estava abatida, seus olhos o faziam. Estavam vermelhos e inchados denunciando sua tarde de choro.
Agimos como se o dia de amanhã fosse um outro qualquer, sem qualquer grande evento. Em outras circunstancias seria uma verdadeira festa. O primeiro neto a ficar noivo, minha mãe estaria exultante, meu pai orgulhoso. Mas não é o caso. Meu pai não quer que ele faça o pedido, minha mãe ainda não esqueceu os momentos de angustia que passou durante a minha recuperação. E meus irmãos sabem o quanto toda essa história pode nos afetar.
Tento me distrair com meus irmãos, tento passar segurança à Marina. Não preciso que toda a família sofra, o meu sofrimento já é o suficiente. Depois de muitas horas quando meus irmãos se preparavam para voltar para suas casas escuto o som do carro do Rafa estacionando. Ele entra sozinho, com um grande sorriso. Sei que falou com os pais dela, e eles devem ter aceitado, afinal quem não aceitaria? Quem dera tivesse um cara como o Rafa para se casar com a Gabi e com cada uma das minhas sobrinhas.
Eles e os primos conversam e brincam. Enfim os jovens parecem se animar com a ideia de que em breve teremos um casamento. Meus irmãos se aproximam, param um de cada lado.
— Como você está com tudo isso? – me pergunta Antonio, o irmão do meio.
— Não sei Toni – respondo com sinceridade
— E a Marina? – dessa vez a pergunta vem do outro lado, João Júnior, nosso caçula.
— Está mal, mas vai se recuperar. Ela é forte. Vai ficar bem.
— Estamos aqui cara. Não vamos deixar nada acontecer com o Rafa.
— Não precisa se preocupar Junior. Eles não vão fazer nada. São outros tempo.
Ficamos em silencio olhando nossos filhos que mesmo tento crescido distantes fisicamente sempre foram grandes amigos.
— No fim eles ficaram todos felizes com esse lance de casamento. Não imaginei que o Rafa fosse se casar tão cedo – comenta Toni.
— Também não, achei que o Fred fosse engravidar alguém e ser o primeiro a casar – brinca Júnior.
— Não me admiraria se aparecesse algum filho dele perdido por aí – brinco – seu filho não pode ver uma saia.
— Ele não é louco – responde Toni – Sabe que a mãe dele lhe arranca um pedaço, e um meu também. Vocês sabem como ela é brava.
Rimos. Meus irmãos são felizes. Encontraram suas parceiras perfeitas, Toni e sua Rosa, parecia tão doce e delicada quanto a flor, na verdade se mostrou a mulher mais determinada que conheço. Só ela mesmo pra colocar ordem na bagunça que era a vida do meu irmão e controlar todos os 4 filhos que tiveram, principalmente porque vieram com a mesma personalidade do pai e nenhum juízo. Júnior por outro lado encontrou Raquel quando os dois passavam por um momento difícil. Ela viúva e com uma filha pequena, ele acabava de ser abandonado pela noiva porque descobriu que era estéril, se apaixonou por mãe e filha, adotou a menina e logo em seguida mais um casal de irmãos órfãos. Tenho orgulho das pessoas que são.
Aos poucos eles recolhem suas proles e nos desejam boa sorte. Já é madrugada quando enfim vamos para cama. Marina se aninha em meu peito e logo adormece, o dia foi cansativo e ela merece uma boa noite de sono. Já eu, não consigo parar de pensar no dia de amanhã. Tento avaliar meus sentimentos, mas está tudo tão confuso. O tempo todo me pego lembrando dos seus olhos, do som da sua risada, dos nossos momentos juntos. Quando a madrugada começa a ceder lugar ao dia eu enfim adormeço com os olhos da minha Olívia em mente.
Acordo sozinho na cama. Encontro Marina no banheiro secando os cabelos com o secador. Não me deixa chegar muito perto dela, diz que já está atrasada e me coloca para fora mandando tomar café.
Na mesa da cozinha descubro que minha mãe conseguiu convencer meu pai a ir conosco. Afinal é o primeiro neto a ficar noivo. Gabi me conta que a mãe está nervosa, que acordou cedo para se arrumar, e foi acordá-la logo em seguida para pedir opinião sobre qual vestido deveria usar, quer estar linda para o almoço de noivado do filho. Na verdade todos sabemos que ela está insegura.
Nos arrumamos e perto das onze da manhã estou sentado em minha cama vendo minha bela esposa terminar de calçar os sapatos.
— Você está linda – elogio – Não precisava caprichar tanto. É só um almoço – digo.
— É o noivado do meu filho, não posso chegar com cara de médica que acabou de entregar um plantão de 12 horas.
Sorrio e a abraço. Essa mulher é incrível. A maquiagem suave, os cabelos curtos com cachos bem modelados, o vestido com estampa de girassóis, os sapatos de salto grosso, toda elegância de uma médica conceituada, que nunca precisou de ninguém para conquistar seu espaço. Que não devia se sentir ameaçada por uma história do passado, mas sente e mesmo assim continua doce e disposta a enfrentar. Como ela pode não ver como é maravilhosa? Eu nunca a trocaria, por mulher nenhuma, nem mesmo por Olívia.
Seguro firmemente em suas mãos e saímos do quarto. Meus pais estão na sala, ele não me parece contente, mas está lá a minha espera, vamos juntos até a casa dos Andrade. Gabi e Rafa entram no carro dele e eu acomodo meu pai no banco de trás do meu carro.
No caminho até a fazenda dos Andrade sinto minhas mãos suarem, tantos anos que não faço esse caminho. Passo pela entrada da fazenda da família Nakao. O portal continua o mesmo, as mesmas cores vermelho, branco e preto. Sempre parecendo recém-pintado, da última vez que passei por esse portal quase não voltei com vida.
Mais alguns minutos e chegamos à grande entrada da fazenda Andrade. Eles ficaram ainda mais ricos, Coronel Luiz controlou a política na cidade em quase todos os mandatos até o seu AVC, primeiro com seu genro, depois com outros pupilos. Agora, pela primeira vez em muitos anos, São João dos Milagres tem um prefeito sem ligação com as Famílias Andrade ou Pontes.
Andamos por alguns minutos no caminho de pedras que leva até a casa. Estaciono na lateral e saio para ajudar meu pai a se sentar em sua cadeira. Enquanto o empurro em direção à casa, Marina prende seu braço ao meu. Nos olhamos e sussurro um eu te amo.
— Ainda não acredito que isso está acontecendo – começa a ratear o Coronel João Pontes. – Onde já se viu um Pontes pedir uma Andrade em casamento. Na minha época isso não acontecia.
— Nós sabemos papai. – respondo apenas.
— Que vergonha. E eu ainda estou assim. Preso nessa cadeira de rodas. Nem posso andar. Pareço um derrotado.
— Menos pai. Acostume-se. Quando eles se casarem vamos frequentar muito essa casa. Vai ver seus bisnetos brincando por esse gramado. Eles serão de Andrade Pontes e seremos todos uma família só.
Olho para Marina, ela me sorri, acho que, como eu, imaginou a cena, um pequeno garotinho agitado como o Rafa correndo por ai.
Empurrar a cadeira de rodas pela grama não é a tarefa mais fácil, por isso demoramos alguns minutos para chegar até a entrada da casa. Agradeço por ter apenas um degrau para dar acesso é grande varanda. Ela está na porta a nossa espera. Os mesmos olhos vivos e assustados que acompanham os meus sonhos a 30 anos. Os cabelos estão mais curtos, ela não é mais uma jovenzinha de 17 anos, mas ainda é a menina que eu amei.
Vejo seus olhos marejarem, ela me olha fixamente. Como eu, parece não acreditar que estamos aqui frente a frente. Minha doce Olívia, 30 anos depois e eu ainda te amo como naquela época.
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