Por Falta de Opção
2 2. Brummemkamp, Kamp
Notas iniciais
Ao acordar pela manhã, fiz minha higiene matinal e tomei café com Ziena. Ela era uma pessoa incrível, nunca liguei que os nossos pais admirassem mais ela, outra pessoa, com certeza seria revoltada e rebelde por causa disso, não eu. Sei que todos temos nossas diferenças e defeitos, claro que as vezes eu gostaria de ser mais notada, mas na maioria das vezes prefiro ficar assim no meu canto, sou muito reservada e gosto disso. Acho que nasci na família certa.
Passamos o dia em casa, colocando o assunto em dia e organizando minhas malas – que não eram poucas. Lembramos quando éramos crianças e do último natal que passamos juntas, Eu não havia percebido, mas estava com mais saudades dela do que acreditava estar, eu gostava de estar em sua companhia, nós duas nos completávamos, tínhamos personalidades bem diferentes, mas, fisicamente não tinha quem não dissesse que não éramos parentes.
O dia não demorou a passar, já que ficamos ocupadas a maior parte do tempo organizando minhas coisas, mas não foi um dia chato, só foi mais calmo que o anterior. Nem me dei conta que o sol já tinha se despedido no céu e nem do quanto eu estava cansada. Quando me deitei na cama pra respirar um pouco, senti minhas costas estremecerem e a vontade de continuar ali deitada era muito tentadora, felizmente para meus ouvidos ouvi Ziena exclamar que a última caixa havia sido esvaziada.
“Finalmente descanso” exclamei feliz ainda esparramada na cama.
“Nem me fale” suspirou ela sentando na cadeira do lado “eu não sabia que você tinha tanta coisa” ela resmungou visivelmente cansada.
“Só temos ideia das coisas que temos, quando temos que tirar tudo de um lugar e levar para outro”.
“Verdade, faz tempo que não sei o que é isso” ela disse pensativa e sua barriga estremeceu “ouviu isso? É o som de uma pessoa com muita fome” nós rimos.
Nos levantamos e fomos pra sala/cozinha – esse era um dos meus lugares preferidos na casa. Por quê? Por que apesar de ser a fusão de dois cômodos distintos, era um ambiente alegre e colorido com paredes amarelas, um sofá grande e fofo de veludo vermelho com um tapete carmim também felpudo e uma linda estante com fotos e relíquias, na parede um painel de madeira que dava lugar para a TV, atrás do sofá perto da entrada do corredor, tinha o balcão de madeira com espaço para no mínimo 4 pessoas sentadas naquelas bancos altos estofados, do lado oposto do balcão havia o que nós chamávamos de “cozinha”, uma geladeira de porte médio, com fogão, micro-ondas e máquina de café, na varanda que se abria com duas portas de correr tinham algumas flores e o cavalete de pintura de Ziena junto com sua maleta de tinta, as vezes ela preferia pintar ao ar livre, a sala/cozinha também tinha alguns quadros feitos pela minha irmã, e uma cortina grande num tom de verde água que poderia cobrir a vista da varanda – me dirigi ao balcão ao lado do fogão e comecei a preparar o macarrão enquanto a esfomeada fazia seu molho de queijo preferido, em pouco mais de meia hora a comida ficou pronta, nos servimos e começamos a devorar.
“Então...” comecei dando a última garfada “você e o Paul...?” perguntei timidamente.
“Ah não, somos amigos” ela disse com a boca cheia.
“Hm...” suspirei encarando o meu prato lembrando que teria que lava-lo.
“E você?” ela perguntou depois de engolir.
“O que têm eu?” a encarei.
“Tá com alguém?”
“Eu estava a uns meses, mas... não deu certo” eu contei relembrando meu último relacionamento.
“Sinto muito” ela me olhou triste e se levantou para lavar os pratos.
“Não sinta, foi melhor assim” me esforcei com um sorriso e fiquei feliz por não ser eu a lavar a bagunça “eu vou tomar banho, quando voltar te ajudo a guardar tudo” ela concordou e eu saí.
Mais tarde entrei no quarto – agora devidamente arrumado – para dormir e fiquei encarando o teto pensando nas coisas que eu havia deixado em Washington: um ex-namorado que eu realmente gostava e uma ex-melhor amiga a qual flagrei aos amassos com ele, sem contar com os amigos que se distanciaram por saber que eu me mudaria e as pessoas cretinas que passaram a vida inteira falando qualquer coisa de mim, em resumo, o que deixei em Washington? – Nada,
[...]
Algumas semanas se passaram e eu estava me apaixonando por Jacksonville e pela Flórida, foram dias realmente incríveis, fomos com os amigos da Ziena para a Disney no final de semana passado e eu recomendo a todos que também façam essa viagem. Eu e o Adam nos tornamos amigos e ele é bem parecido comigo, até gostamos das mesmas séries, eu estou me sentindo uma pessoa renovada aqui, estou mais solta e me divertindo mais. Hoje eu percebo o quanto eu era chata e parada. Ainda gosto ficar no meu canto reservado, mas as vezes é bom você se distrair e fazer coisas novas com pessoas diferentes.
Amanhã começa uma nova etapa: universidade. E cada vez que penso nisso sinto um embrulho na barriga, eu estou muito nervosa e ansiosa, esperei meses por esse dia e ele finalmente chegou. Não vou mentir que estou morrendo de medo, afinal, é algo desconhecido, mas o Adam me garantiu que as coisas por lá são melhores do que acredito ser. Ele faz o mesmo curso que eu vou fazer – arquitetura – mas ele está uns anos a frente, mas me prometeu que me ajudaria se eu precisasse.
Acho que essa noite não vou grudar o olho, só com expectativa de como será amanhã. É impossível não criar expectativa, o medo é se decepcionar, mas o Adam me garantiu que valia a pena, acho que ele merece esse voto de confiança. O sono demorou a chegar, eu perdi a conta de quantas vezes embolei na cama, mas depois de um tempo, comecei a ficar sonolenta e cochilei, – não durou muito.
*celular toca*
“Argh” acordei e tateei a cabeceira do lado da cama e peguei o celular e olhei no visor: Recebendo chamada de Adam — ? “Alô?” atendi.
“Kamp – ele me chamava assim desde que falei meu sobrenome, Brummemkamp, ele achou que era muito grande e difícil e resolveu mudar – achei que você precisava de palavras de incentivo já que suas aulas começam hoje” ele disse feliz e eu pude imaginar o seu sorriso torto do outro lado da linha.
“Hoje?” dei uma pausa e olhei a hora – 00:00 – ri.
“Já são meia noite” ele disse rindo também “e eu queria ser o primeiro a te desejar boa sorte e que estarei de esperando no portão de entrada amanhã”.
“Idiota, obrigada. Sério que vai me esperar? Duvido” eu aticei,
“Duvida? Quando você chegar daqui a algumas horas eu quero ver você continuar pensando assim” ele rebateu.
“Você nunca saberá”.
“Claro que eu saberei”
“Adam, você ainda não lê mentes” falei como se fosse óbvio.
“Você nunca saberá” ele me imitou.
“Idiota” eu ri “boa noite”
“Boa noite, Kamp. Te vejo amanhã” e desligou.
–x-
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