Por Falta de Opção
6 6. A Vida de Lee
Notas iniciais
[Por: Rose Lee]
Quando você perde sua mãe aos 12 anos, vítima de uma bala perdida de um desses ladrões de rua, você começa a ver o mundo de outra maneira. Como não ver?
Eu era filha única e morava apenas com o meu pai, nós parecíamos mais dois estranhos, porque mal nos falávamos e ele estava sempre ocupando dando aula e corrigindo prova, passava maior parte do tempo sozinha perdida em pensamentos, lembrando quando minha vida era feliz, porque depois que perdi minha mãe, perdi também toda a felicidade. Ela era quem sustentava nossa família, depois que ela se foi, tanto eu, como meu pai, nós, bem... nos perdemos. Agora ele chega em casa, se tranca no escritório e só sai de lá pra dormir não sei que horas, eu passo o dia tentando arrumar algo o que fazer. É frustrante.
Comecei a andar com uma galera não muito aconselhável no segundo ano da escola, muitas pessoas me diziam pra parar de fazer isso e que eu acabaria me dando mal, eu não dei ouvidos, no fundo, eu me sentia bem com eles e desse jeito estava bom. Eram pessoas diferentes de todas as outras que já convivi, mas tínhamos algo em comum: éramos infelizes.
Todos tinham o seu lado sombrio da vida, sofrimentos, perdas, mágoas, ressentimentos, todas aquelas coisas que fazem você se perder no meio do caminho. Antes nós éramos pessoas boas, agora somos pessoas mal vistas pela sociedade só porque bebemos um pouco mais que os outros e consumimos algumas drogas. Nada de mais.
Eu estava quase depressiva, cheguei a pegar uma gilete para cortar os pulsos... mas não fiz. Um dia eu estava na casa um amigo – era lá que todos nos encontrávamos para fazer as coisas erradas – e lembro como se fosse hoje. Eu estava com meu típico cigarro na boca deitada em um dos pufes da casa do Ramon junto com alguns dos nossos amigos, e ela entrou pela porta com sua timidez e aqueles lindos olhos castanhos. Eu me apaixonei no momento em que a vi.
“Oi” ela disse acanhada e nós respondemos “o Ramon me disse pra vir” ela explicou.
“Você estava precisando de umas drogas” disse Ramon dando um tapinha nas costas dela.
“Senta aqui, vem experimentar algumas coisas” disse Liz do meu lado.
“O que você tem aí?” ela disse meio preocupada.
“Relaxa é só nicotina” disse Liz e a garota veio e se sentou do meu lado. Eu gelei.
“Então, qual seu nome?” perguntou Liz enquanto acendia um cigarro para ela.
“Ammanda e o seu?”
“Eu sou a Liz e ela é a Rose” apresentou Liz.
“Oi” eu disse tímida e vi Ammanda sorrindo de canto. Meu coração quase parou naquele momento.
“Oi, prazer em conhecer vocês” ela disse pegando o cigarro e Liz a ensinou a tragar.
“O que te traz aqui?” perguntou Liz e Ammanda respirou fundo.
“Eu perdi minha irmã mais nova há um mês e nós éramos muito próximas” ela respondeu e vi uma lágrima escorrer pelo canto do olho.
“Eu sinto muito” disse Liz.
“Também perdi alguém querido há um tempo” disse tentando reconforta-la.
“Obrigada, mas eu não estou aqui pra chorar, eu quero experimentar algumas drogas que vocês usam” ela disse tentando se recuperar.
O dia com a Ammanda tinha sido o melhor da minha vida até o momento, depois de um tempo estávamos conversando normalmente, na verdade, aquele frio na barriga ainda estava me incomodando. Nada parecido com isso tinha acontecido comigo antes, era tão estranho, mas de certa forma, era bom.
Ficamos drogadas aquele dia.
[...]
Eu comecei a ir com mais frequência à casa do Ramon só para vê-la, mas com o passar dos dias, eu não via mais a necessidade de usar drogas – afinal, todas que eu usava eram leves, eu não queria virar uma viciada como o Ramon era – eu não me sentia mais tão triste e deprimida, depois que a Ammanda entrou por aquela porta, ela, bem... me mudou.
Depois de umas semanas eu parei de ir tanto à casa do Ramon e eu e Ammanda passamos a nos encontrar na casa dela, nós nos falávamos todas as noites pelo celular até pegarmos no sono. Sempre que estávamos tristes ou se sentindo sozinha, nós ligávamos uma pra outra. Eu sentia medo de falar pra ela o que eu sentia, porque achava que não seria recíproco e isso talvez prejudicasse nossa amizade. Continuei calada, escondendo tudo o que eu sentia por ela.
Dezembro havia chegado e junto com ele vinha o famoso festival da laranja. Toda a turma que sempre ia para a casa do Ramon estava reunida – e sóbria – as barracas de comida, o parque de diversões e os shows de música estavam acontecendo todos ao mesmo tempo e num só lugar. Lembro que eu e a Ammanda corremos até a fila do bate-bate e descobri que ela era muito melhor motorista que eu, o Ramon tinha sido voluntário para sentar naquelas cadeiras de palhaço que quando você acerta o alvo a pessoa sentada cai na água. Ele tinha saído completamente ensopado dali. A Liz era sem dúvidas a melhor atiradora que eu conhecia, ela ganhou vários prêmios. O show do Linkin Park havia começado e junto com ele a introdução de Numb soou nas enormes caixas de som, toda nossa turma correu para perto do palco e pulamos tanto durante todo o show que meus pés criaram calos. A lua no céu estaria linda e prateada se não fosse pelas enormes nuvens negras que a cobriam. Choveu.
Os longos cabelos castanhos da Ammanda ficaram quase pretos, minha blusa branca ficou transparente, a chapinha da Liz estragou e o coitado do Ramon continuou encharcado. Depois de umas 2h de música e chuva nós andamos até a praia, cerca de 10 pessoas – era mais ou menos esse o tamanho de toda a turma – o mar estava se acalmando depois de uma forte tempestade. Eu e a Ammanda estávamos abraçadas morrendo de frio. Naquele momento a vontade de beija-la foi quase incontrolável. Percebi que teria que falar, não poderia mais continuar sentindo aquilo só pra mim, e se ela não sentisse o mesmo? Eu tinha que tentar, tinha que contar pra ela.
“Ammanda, eu preciso falar com você” eu disse pausadamente com o estômago já começando a revirar.
“Pode falar” ela disse sorrindo.
“Vamos nos afastar um pouco do pessoal e eu digo” disse e ela concordou. Andamos até uma pedra enorme que tinha na areia e nos sentamos.
“Agora deixa de mistério e conta logo” ela insistiu.
“É complicado...” comecei encarando o mar.
“Eu estou ouvindo” ela continuou.
“Desde o primeiro dia que te vi lá na casa do Ramon, eu...” cruzei os braços e encarei o céu “não sei como vou conseguir te dizer isso” eu disse finalmente a olhando.
“Rose” ela disse segurando minha mão “tá tudo bem, tudo que você quiser falar, pode me contar” ela encorajou.
“Eu sei Ammanda, mas essa coisa é diferente” eu disse soltando minha mão da dela.
“Se você não me falar eu nunca saberei se é mesmo tão difícil assim” ela disse me encarando com aqueles lindos olhos castanhos.
“É que...” tentei falar “Eu...” gaguejei e aquele frio na boca do estômago se espalhou para o meu corpo todo “É que eu estou apaixonada por você, Ammanda” disse o mais rápido que consegui e desviei o olhar do dela.
“Rose” ela sussurrou meu nome e puxou meu rosto de volta pro dela — eu petrifiquei nesse momento “eu também estou apaixonada por você, sua boba” ela disse sorrindo e eu juro que naquele momento o mundo poderia acabar e eu não perceberia. Como assim? Ela também sentia o mesmo? A quanto tempo? Por quê? Onde? Quando? – minha mente pensou tudo em cerca de um milésimo e então aconteceu algo que não sei explicar como foi, mas minhas mãos agiram com vida própria e quando me dei conta havia puxado a Ammanda e estávamos derretidas num beijo. Ainda pude ouvir o som dos fogos de artifícios explodindo no céu anunciando o final da festa.
Aquele foi – de fato – o melhor dia da minha vida.
[...]
Alguns meses se passaram e minha vida com a Ammanda era infinitamente perfeita e completa. Estávamos felizes juntas e ela me fazia tão bem. Eu estava amando pela primeira vez. A sensação era... inexplicável. Eu e meu pai voltamos a nos dar bem e ele aceitou meu relacionamento com a Ammanda, diferente dos pais dela. Apesar de tudo, minha vida estava começando a ter um sentido – mas não durou muito.
Em junho, antes de completarmos 6 meses de namoro, recebo uma ligação desesperada da mãe de Ammanda às 3:30 da manhã. Ela havia sofrido um acidente de carro e tinha acabado de entrar na sala de cirurgia com sintomas de traumatismo craniano. Corri imediatamente pra lá, mas infelizmente, ela estava muito fraca e não resistiu à cirurgia. Meu mundo desabou – pela segunda vez.
Alguém que eu amava havia sido tirado de mim – de novo – comecei a me perguntar se Deus existia, e se existia, porque ele insistia em me tirar pessoas que eu amava? Então porque me fazia ama-las se iria me tira-las depois? Por quê? Por quê ele havia tirado a Ammanda de mim? Por quê logo ela? Poxa, eu a amava tanto e nem tive a chance de dizer isso.
Eu voltei a me drogar, dessa vez de verdade mesmo, meus amigos tentavam me consolar, mas nada adiantava tudo só lembrava ela. Até um dia vi meu pai desesperado aos prantos me implorando que parasse que ele entendia minha dor, mas que eu não poderia me destruir desse jeito, ele também não queria perder alguém que ele amava. Então comecei o tratamento na clínica de reabilitação. Depois de uns meses recebi a carta da FSU. No primeiro dia conheci uma menina engraçada que estava perdida – ela me lembrava alguém, mas eu não lembrava quem era.
Quando cheguei em casa, vendo algumas fotos antigas, percebi que a garota que havia conhecido me lembrava minha mãe. Fisicamente não, mas algo nela me fazia lembrar dela. Comecei a chorar e fui ate a casa do Ramon, quando cheguei lá, ele estava com uma galera realmente barra pesada, desses que tinham até arma escondida. Eu não me importei, eu tinha voltado a estaca zero, lembrando da minha mãe e de Ammanda. Pedi o Ramon para ficar uns dias lá. Havia prometido ao meu pai que não veria meus antigos amigos de novo – não cumpri.
Os dias se passaram e o chefe da gangue foi cobrar dinheiro de droga pro Ramon – ele não tinha como pagar, então nos levaram até um lugar para fala com o dono do tráfico e explicar que não poderíamos pagar, acabaram me levando também porque estava junto. Depois de explicar pro homem de terno, só lembro de ter apagado.
–x-
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