Por Acaso.
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Passei por diversos carros até finalmente encontrar o meu bom, velho e amado carro. Certo, era exagero. Eu nem gostava tanto assim dele. Assim que entrei me olhei no pequeno espelho que havia ali, vendo que minha jaqueta de couro agora estava um pouco amassada, dando a entender que eu estava dormindo – ou que estava fazendo alguma outra coisa. Peguei o endereço que estava no celular e o coloquei no GPS, chegando no tal bar e estacionando no estacionamento do local. Desci do carro e entrei na minúscula fila que estava ali na frente, era provável que todo mundo já havia entrado.
– A entrada. – pediu o segurança, um cara alto com ombros largos e a pele visivelmente bronzeada pelo sol. Entreguei o tal papelzinho preto e entrei, meus olhos se acostumando devagar à luz fraca do bar.
Ao contrário do que eu imaginei, a lugar estava bem vazio. Cada um na sua mesa, alguns caras no balcão do bar e outros bem próximos ao palco, deviam ser fãs da banda há algum tempo. Me aproximei do palco para ver – e ouvir – um pouco melhor, e percebi que estavam fazendo um cover de Sex Pistols. Era uma boa banda, me trazia boas lembranças. Observei os membros da banda sem muito interesse e saí dali, procurando Kurt por entre as mesas cheias de gente. Como não consegui encontrá-lo, fui até o bar e pedi uma taça de vinho. Não sei por que eu sempre pedia vinho quando ia à esses lugares, deveria ser alguma mania minha. Pode-se considerar muito diferente, já que na minha adolescência eu bebia qualquer coisa que aparecesse na minha frente. Eu estava degustando a bebida doce quando senti uma mão fina tocar meu ombro de leve, vendo unhas pintadas de vermelho em dedos longos e cheios de anéis. Virei-me lentamente sobre o banco, dando de cara com uma mulher bem jovem, devia ter uns dezessete anos, me encarando com um sorriso discreto. Ela se sentou ao seu lado e cruzou as pernas, parecia estar querendo mostrá-las para mim, exibindo a meia arrastão preta e o short curto.
– Está acompanhado, Senhor? – ela perguntou, com a voz fina e estranhamente sexy. Tem certeza de que ela tem dezessete anos? Acho que não...
– Na verdade, estou esperando um amigo. Nada de mais. – respondi, dando outro gole no vinho e observando-a com um pouco mais de atenção: os cabelos cacheados em um vermelho vivo, os olhos delineados de preto e a boca carnuda. Tipo prostituta de filmes americanos, mas bem menos vulgar – Quer beber algo?
– Uma cerveja seria bom. – ela respondeu, e logo o balconista veio com uma Heineken em mãos.
Agradeci ao homem com um gesto de cabeça e voltei a olhar para a garota, com um sorriso surgindo nos lábios pela primeira vez.
– Você tem idade para estar aqui? – perguntei, enquanto ela ria baixinho.
– Na verdade não, mas eu sou prima do baterista da banda, dei um jeitinho de entrar aqui.
– Então você fingiu que veio vê-lo tocar, quando na verdade só queria ficar no bar flertando com qualquer cara que aparecesse?
A garota sorriu, inclinando-se na minha direção e mordiscando minha orelha, soltando um baixo sussurro logo em seguida.
– Você não parece ser qualquer cara. – ela sussurrou, voltando a se sentar normalmente sobre o banco de couro.
Eu ainda estava pensando em uma resposta quando vi Kurt chegar por trás de mim, colocando uma mão possessiva sobre o meu ombro. A garota nos olhou, confusa, e apenas deu um gole na cerveja. Me virei na direção de Kurt e seus olhos estavam um tanto vermelhos, o rosto corado em contraste com a pele branca.
– Esse é o amigo que eu estava esperando. – murmurei para a garota, anotando meu nome e telefone num pequeno papel para depois entregá-la. Ela sorriu, deu uma piscadela e logo se retirou, me deixando sozinho com um Kurt bêbado.
Kurt cruzou os braços e tirou a taça da minha mão, dando um gole que acabou com todo o vinho e largando-a sobre o balcão.
– O que você pensa que está fazendo? – perguntei para ele, arqueando uma sobrancelha de leve.
– Estou apenas irritado. Só isso, nada mais.
Suspirei, pedindo outra taça de vinho para o balconista e revirando os olhos para Kurt.
– Aconteceu algo ou foi só a cachaça que te deixou assim? – dessa vez, minha voz tinha um tom divertido, na esperança de fazê-lo se acalmar.
– Lembra que eu vim pra cá só pra ver um amigo tocar? – assenti, mesmo não se lembrando desse detalhe. Provavelmente ele nem havia me dito aquilo – Então. Ele ficou “doente” e foi substituído por um guitarrista cabeludo e exibido que está lá em cima nesse exato momento. Olha só pra aquilo! Ele se acha um Jimi Hendrix!
Olhei para o palco, mas não consegui ver muita coisa. Apenas uma guitarra preta e cabelos negros cobrindo-a, juntamente com o rosto do guitarrista. Aquilo me lembrou algo... Algo que eu não queria pensar hoje. Voltei minha atenção à Kurt e ao vinho.
– Lembro que você me disse que eu viria aqui para beber, cantar e me divertir. Isso não vai rolar se você vir com seu mal humor pra cima de mim. – eu disse, fazendo-o sorrir um pouquinho.
Depois disso, pode-se dizer que tivemos a noite divertida que ele disse que teríamos. Eu conheci uma porrada de caras tatuados e cabeludos que se diziam amigos de Kurt, também conheci o baterista da banda e com ele estava sua prima gostosa que fez questão de me roubar uns beijos depois, quando saímos para fumar na parte externa do bar. Ela foi embora mais ou menos às 3h da manhã, junto com alguns membros da banda, e eu acabei ficando com Kurt e seus amigos lá por mais uma ou duas horas. Assim que Kurt vomitou no seu próprio pé, eu decidi que já estava na hora de ir pra casa.
Saímos do bar, ambos meio cambaleantes e sorridentes – apesar de Kurt estar MUITO mais bêbado que eu – e fomos até o meu carro. Eu não sabia se meu amigo bêbado havia vindo em um ou se ele ao menos tinha um carro, mas ele realmente não estava em condições de dirigir.
– Eu não posso ir pra casa assim, Artty! – ele gritou do banco ao meu lado, dando-me um novo e ridículo apelido.
– E eu não posso te levar pra minha casa. Não vou cuidar de caras bêbados. Nem pense nisso! – gritei de volta, fazendo uma curva exagerada com o carro e vendo Kurt bater com tudo na porta.
– Mas se minha mãe me ver assim, estamos fodidos! Você sabe, ela não vai te deixar trabalhar lá depois de você embebedar o filhinho dela...
Ah, porcaria. Meu emprego. Eu ainda teria que trabalhar no dia seguinte... Agora não vou mais, vou ficar cuidando de um cara que não tem noção da metade das palavras que diz, além de ter que cuidar de mim mesmo e aguentar a ressaca quando acordar.
– Por favoooooor – Kurt continuou, percebendo meu silêncio.
– Tá bom! Mas você vai dormir no banheiro, bem do lado da privada. Não quero meu carpete cheio de vômito e fedendo à suor. – respondi, tendo certeza de que eu me arrependeria disso mais tarde.
Finalmente chegamos ao apartamento, e graças a Deus Kurt já conseguia subir as escadas sozinho. Entrei no meu quarto e peguei algumas roupas enquanto ele estava no sofá, assistindo TV e comendo um pedaço da pizza que eu havia comprado ontem. Abri a porta do banheiro que havia no meu quarto e depois de entrar a tranquei, tirando as roupas que vestia e jogando-as no chão, para depois tomar um longo banho. Assim que senti que todo o suor, cansaço e preguiça havia saído do meu corpo, desliguei o chuveiro e vesti roupas limpas, escovando os dentes e secando o cabelo com a toalha.
– Você vai querer tomar banho? – perguntei à Kurt enquanto voltava para a sala, pendurando a toalha molhada na janela.
– Hm, acho que sim. Vou me sentir melhor depois disso, não vou? – ele me perguntou, com um sorriso meio bobo no rosto. Céus, ele realmente estava muito bêbado.
Depois que eu peguei uma toalha limpa, sabonete e algumas roupas minhas para Kurt, ele foi até o banheiro para tomar o seu banho. Fiquei atento ao barulho que saía de lá, se ele caísse no chão eu provavelmente ouviria e teria que socorrê-lo. Como o cara estava demorando demais no chuveiro, fui até a cozinha e preparei um café, voltando com a xícara para meu quarto e me deitando na cama, com a companhia de um bom livro, ainda ouvindo os chiados do chuveiro.
Depois de mais alguns minutos de leitura, o café já acabado e o chuveiro desligado, pude ouvir a porta do meu banheiro se destrancando e levantei os olhos assim que vi Kurt saindo dali. Para o meu espanto, ele estava apenas com a sua cueca preta, deixando todos os músculos, tatuagens e gotículas de água expostas pelo corpo. Arregalei os olhos e deixei o livro de lado, encarando-o.
– Mas que porra você pensa que está fazendo? – perguntei, ainda sem conseguir tirar os olhos de Kurt.
– Suas roupas são pequenas pra mim, e eu não queria vestir roupas sujas... – ele respondeu, deixando a toalha no chão e se aproximando de mim.
– Kurt, você pode, por favor, parar de subir na minha cama e sair do meu quarto?
Minha pergunta foi em vão. Logo Kurt já estava MUITO próximo de mim, exalando o cheiro do meu sabonete e inclinando-se na minha direção.
– Kurt... – sussurrei, novamente em vão. Por que eu não conseguia simplesmente dar um chute no cara e tirá-lo da minha cama?
Kurt continuou se inclinando e subindo na cama até estar em cima de mim, segurando meus pulsos com as mãos fortes e me encarando com seus olhos claros. Eu, por outro lado, sentia-me hipnotizado. Por que eu não consigo fazer nada? Por que não consigo sair daqui? Minhas perguntas foram interrompidas quando ele me beijou. Com força, forçou passagem com sua língua e logo estava explorando todos os cantos da minha boca, fazendo-me sentir seu gosto e, de uma maneira meio louca, retribuir o beijo.
– Não faça isso... – implorei, assim que o beijo acabou. Fechei os olhos e, quando os abri de novo, o que eu vi fez meu coração se despedaçar.
Dessa vez não era Kurt que estava ali. Era Chris. O meu doce e amado Chris. Seus cabelos escuros caíam sobre o meu peito enquanto o seu próprio se movia com a respiração forte. Os olhos coloridos estavam cravados nos meus, e seu sorriso torto de que eu tanto me lembrava estava em seus lábios rosados. Pisquei outra vez e para a minha tristeza, Chris havia sumido. Eu estava com Kurt, o ruivo e tatuado – e bêbado – Kurt.
– Deixe-me cuidar de você, Artty. – ele sussurrou no meu ouvido, abrindo o zíper da minha calça e tirando-a, jogando para qualquer canto do quarto. – Eu sei que você quer isso...
“Eu quero isso. Mas não quero com você”, pensei, enquanto Kurt tirava a minha cueca e eu o via se abaixando, despejando beijos lentos na minha barriga até chegar ali. Bem ali. Para a minha surpresa, eu já estava ereto quando Kurt começou a me chupar. Era uma sensação estranha. Quente, molhada, deliciosa, mas com a pessoa errada.
O ruivo continuou ali, chupando, beijando e dando leves e torturantes mordidas, enquanto eu apenas tentava abafar meus gemidos baixos mordendo os lábios. A essa hora, eu já havia me rendido. Cabelos longos e negros pairavam sobre meus olhos vez ou outra, a bebida no meu cérebro estava me fazendo alucinar. Mas se eu não podia ter Chris, por que não Kurt?
– Ande logo com isso. – resmunguei, a voz rouca por conta da excitação.
Kurt sorriu e passou as mãos pelas minhas coxas, continuando a sua torturante sequência de chupar – lamber – morder o meu membro. Depois de algum tempo fazendo aquilo e mais alguns gemidos contidos, Kurt parou e se esticou até o meu rosto, voltando a me beijar enquanto roçava o seu próprio membro no meu. Como aquilo podia ser tão bom? Ele me obrigou a lamber alguns dedos da sua mão e quando se deu por satisfeito, mordeu meu lábio com um sorriso travesso.
– Você é virgem, Artty? – ele perguntou, enfiando um dos dedos na minha entrada e ouvindo um resmungo baixo vindo de mim. Sim, eu nunca havia sido fodido por um cara.
Outro dedo, depois outro, e logo havia três dedos me penetrando, a dor dando lugar ao prazer de um modo que parecia ser impossível. Kurt tirou os dedos dali e segurou minha cintura, agarrando as minhas pernas e colocando-as sobre os próprios ombros, me olhando com uma expressão faminta. Devagar, Kurt começou a me penetrar. Primeiro a dor, depois o prazer. Era essa a sequência, e eu esperava ansioso pelo prazer. Depois de algum tempo parado para que eu me acostumasse, Kurt começou com as estocadas. Céus, meus olhos reviravam de dor e eu cravei as unhas sobre o lençol, sentindo lágrimas quentes descendo sobre a minha bochecha. Aquilo doía, e doía muito. Abri os olhos por alguns segundos, apenas para ver novamente os fios negros voando na minha direção, enquanto Chris – na verdade, Kurt – se balançava sobre mim, finalmente a dor me abandonando a dando lugar ao prazer. Outra estocada, mais forte, me fez soltar um gemido alto e rouco, o que pareceu fazer Kurt enlouquecer. Abri os olhos novamente apenas a tempo de vê-lo saindo de mim e me fazendo ficar de quatro, voltando a dar estocadas fortes e precisas, que atingiam o meu ponto fraco e me contorciam de prazer. Por mais que não fosse Chris, aquilo era delicioso.
Da mesma maneira que eu, Kurt parecia estar se divertindo de uma forma inacreditável com tudo aquilo. Com uma das mãos fortes, ele segurou a minha bunda e com a mão livre comçou a me masturbar, arrancando novos suspiros e gemidos dos meus lábios. Quando ele parecia não aguentar mais, deu uma última estocada e eu logo senti algo se espalhando dentro de mim, aquele líquido viscoso e quente me invadia. Ao sentir aquilo, acabei gozando também, e ambos caímos sobre a cama, exaustos. Kurt saiu devagar de dentro de mim e se deitou ao meu lado, puxando o lençol sobre os nossos corpos e adormecendo com o cansaço.
Eu, por outro lado, não adormeci tão depressa. Eu estava dolorido e triste, pensando que tudo aquilo deveria ter acontecido com a pessoa que eu amo, e não com meu melhor amigo. Droga, por que eu sempre fazia a coisa errada?
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