Pop Star - Uma Estrela No Céu
44 O suspiro final.
Notas iniciais
Annelise foi direto para casa. Ela queria parar numa lanchonete e se empanturrar de porcaria, mas seus pais não permitiram.
Lizzie sabia que o fim estava próximo, e estava determinada a aproveitar cada segundo. Ela queria ver todos que conhecera, mas principalmente queria sua família toda reunida para um jantar de despedida. Lizzie disse isso à sua mãe, e ela começou a providenciar um grande jantar para toda a família.
Lizzie queria ir para o seu quarto, mas mal conseguia se manter em pé, então Rick a carregou até lá. Ela pegou seu notebook e começou a olhar o que as pessoas estavam falando de seu último vídeo, no qual anunciara que sua morte estava próxima.
As pessoas estavam loucas! Meio milhão de pessoas já estavam de luto e Lizzie ainda nem estava morta. O mundo inteiro estava triste, mas o que chamou a atenção de Lizzie foi outra coisa: milhares de mensagens em seu perfil no facebook. Ela começou a ler e responder carinhosamente uma a uma enquanto lhe restava tempo e paciência.
***
Ramonn estava largado no sofá assistindo uma saga de filmes em DVD, ele não acessava a internet há dias. Ele estava cansado de ficar stalkeando as coisas de Annelise, ele tinha decidido que queria que ela saísse de sua vida de uma vez por todas. Ramonn não estava só triste e decepcionado, ele estava furioso, ele falara varias vezes para quem quisesse ouvir que queria que Annelise sumisse do mapa.
Ele estava concentrado no filme, o mocinho e o vilão estavam numa treta séria quando de repente sua mãe entrou na sala e ficou na frente da TV.
Ramonn já ia protestar, mas percebeu que os olhos dela estavam cheios de lágrimas, e ela estava com cara de quem andara chorando.
– Você está bem, meu querido? — ela perguntou com cuidado.
– Estou. – respondeu Ramonn desconfiado. – Por que não estaria?
– Você não sabe? — ela engoliu o choro e o olhou fixamente.
– O quê? — perguntou Ramonn assustado.
– A Lizzie...
– Não quero saber dela, mãe. Eu já disse. – cortou Ramonn.
– Mas é importante você saber disso.
– Não tô nem aí pra ela, quero que ela suma da minha vida pra sempre! Não quero ver ela na minha frente nunca mais!
– Cala essa boca! – gritou sua mãe.
Ramonn a olhou assustado e sentou-se no sofá.
– Cala essa boca! Você está agindo como um perfeito otário! Egoísta!
– Mãe, o que foi?
– Ela está doente, Ramonn. Ela está morrendo.
Sabe a sensação de ser atropelado por um caminhão e depois um elefante sentar em cima de você? Agora multiplique por mil, e você teria uma idéia do que Ramonn sentiu naquele momento. Ele sentia que os elefantes pisavam nele só para se divertir ainda mais. Se Ramonn não estivesse sentado ele teria caído de cara no chão. Ele não conseguia falar, nem pensar. Só sentia, sentia dor, sentia raiva, sentia revolta, mas a pior coisa que ele sentia era remorso. Ele começou a tremer e balançava a cabeça.
– É um boato estúpido da internet. – ele conseguiu dizer. – Tudo mentira.
– Não é boato, filho. A própria Lizzie gravou um vídeo contando, sinto muito.
– Não, não!
A mãe de Ramonn puxou o celular e mostrou a ele o vídeo que ela recebera de uma prima. Lizzie contava tudo sobre sua doença, e seu quadro irreversível, e que tinha pouco tempo de vida.
Quando o vídeo acabou, Ramonn começou a chorar, chorou tanto que achou que seu corpo ia secar por completo. Sua mãe tentava consolá-lo.
– Sinto muito, filho.
– Ela não pode morrer,ela não vai morrer. – ele murmurrava.
– Seja forte, meu filho.
– NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!!! – Ramonn gritou.
Ramonn passara meses julgando Annelise, e agora ele sabia porque ela tinha mudado tanto. Ele falou coisas horríveis sobre ela. Ele jamais ia se perdoar por isso.
***
Annelise estava chorando novamente, era difícil ler as despedidas de seus fãs. Mas ela tinha que ser forte, tinha que aceitar seu destino.
Ela não conseguia esquecer de Maia quando soube que ela estava doente. Lizzie lhe contara tudo, e Maia entendeu, entendeu melhor que ela mesma.
Maia lhe dissera que a vida é imprevisível, um dia estamos bem, planejando um futuro glorioso, e no outro as coisas desandam, mas que cabia a cada um decidir se lutava ou desistia. Maia escolheu lutar, lutou até onde conseguiu por sua família, lutou para realizar seus sonhos. E Lizzie não ia desistir.
De repente, Annelise teve uma idéia, que podia ser vista como genial ou completamente estúpida. Ela chamou Rick.
– O que houve?
– Tive uma idéia. Quero fazer um show de despedida.
– Não seja boba, você não agüenta fazer um show.
– Não seria um show completo, só umas músicas, umas palavras de despedida.
– Isso seria suicídio pra você. Você tem que ficar de repouso, tem que ficar aqui onde tem tudo que você precisa caso passe mal.
– Eu quero fazer isso, Rick. Eu vou morrer de qualquer jeito, qual a diferença um dia a mais ou a menos?
– Faz diferença pra nós, Lizzie. Nós vamos sentir sua falta.
Lizzie não havia notado antes, mas Rick estava completamente abatido.
– Seus pais estão sofrendo, e querem você aqui o máximo possível.
– Chegou a hora, Rick, nós sabíamos disso. Eu vou morrer, posso morrer deitada aqui nessa cama, ou posso morrer no hospital, mas eu escolho morrer de exaustão depois de fazer um espetáculo para os meus fãs. Não é só a minha família que está sofrendo.
– Vamos falar com seus pais. Pra quando seria o show?
– Amanhã. E eu não quero cobrar nada.
– Você ia faturar muito com esse show, seja onde for, vai lotar.
– Eu quero que lote, mas não preciso mais de dinheiro, Rick, e o que eu ganhei dá pros meus pais viverem bem o resto da vida, dá pra pagar a faculdade da minha irmã, dá pra comprar mais cinco casas, dinheiro não é problema.
– Ok, então. Veremos.
Rick saiu do quarto, ele foi falar com os pais de Lizzie, eles não queriam de jeito nenhum deixar a filha se matar de propósito, mas conhecendo a filha que tinham, sabiam que ela não ia mudar de idéia, impedir não ia adiantar.
– Só nos resta rezar para que ela fique viva depois desse show. – disse a mãe.
O pai de Lizzie enxugou os olhos.
– Nossa menina é forte, ela vai sobreviver a isso.
– Bem, a família já foi convidada para o jantar. Será hoje a noite. – disse a mãe de Lizzie. – E você já é da família, Rick, nem ouse ir embora.
Rick deu uma risada fraca.
– Eu não irei a lugar algum.
***
Às seis da tarde todos os familiares começaram a chegar para o jantar em família, decidiram chamar assim para que as crianças não se assustassem com a “despedida de Annelise”.
Todos os tios, primos e os avós de Annelise estavam presentes. Até os que moravam em outra cidade vieram. Lizzie estava toda arrumada, ela decidiu colocar uma peruca obviamente artificial, mas com uma cor natural, para dar a impressão de que ela não estava prestes a morrer.
Todos abraçavam Lizzie, a parabenizavam pelo talento e sucesso, ninguém estava tocando na palavra “morte”, e Lizzie ficou grata por isso.
Durante a sobremesa todos foram para o jardim, no improvisado salão de festas haviam cadeiras e mesas.E um palco, para que quem quisesse pudesse ir até lá falar algo para todos ouvirem.
Rick quis ir primeiro.
– Olá a todos, creio que não conheço todo mundo ainda. Eu sou o Rickardo Fortinelli, empresário de Annelise. Eu a conheci há alguns meses atrás e a convidei para participar de um desfile, ela achou que eu a estava ajudando, mas na verdade ela quem me ajudou, sem ela o desfile não aconteceria, eu perderia meu emprego, e Hugo teria um ataque cardíaco. Quando eu descobri que Annelise além de bela também tinha talento, não pude deixar isso passar. Meu sonho era se tornar conhecido pelo mundo expondo a arte, e Lizzie tornou isso possível. Eu era um homem solteiro, sozinho, que vivia trabalhando e sentia saudades de casa, mas quando Lizzie entrou na minha vida tudo mudou. Com ela pude realizar meu sonho, e ganhei uma nova família. – ele sorriu para os pais de Lizzie. – E ganhei também uma nova filha, uma filha que tinha seus momentos de patroa, mãe, amiga e cofrinho. – todos começaram a rir.
Rick olhou atentamente para Lizzie.
– Obrigado por brilhar na minha vida, sua pirralha mandona. Eu amo você.
Lizzie correu até o palco e o abraçou.
– Obrigada você, Rick. Se sou quem sou hoje é graças a você. Te amo, carinha da maquiagem. – ela sussurrou em seu ouvido.
Lizzie voltou para sua cadeira, e Rick também. A maioria dos parentes de Lizzie já havia falado algo quando Diego decidiu ir.
– Oi, eu sou o Diego, sou da banda da nossa estrela. Eu quero dizer que esperei por você por quase quatro anos da minha vida. Eu era cantor há alguns anos, Rick me encontrou e ia me lançar no mundo da fama, mas em um dos primeiros shows recebi uma critica negativa, e me fechei para o publico, não consegui mais cantar, só continuei a tocar os instrumentos porque eu amo fazer isso. Rick não desistiu de mim, disse que quando uma grande estrela aparecesse, eu seria da banda dela, demorou, mas você apareceu, você me aceitou, me apoiou e me ajudou a superar os meus medos. Você foi a minha inspiração durante todo esse tempo, e saiba que jamais vou esquecer tudo o que passamos juntos, vou lembrar de cada detalhe com todo o carinho. – Lizzie corou nessa hora, pois sabia que ele estava falando dos beijos. – Eu te amo, Annelise.
Diego deu uma batida de leve no próprio peito, e desceu do palco assoviando.
De todas as pessoas que falaram, os pais de Lizzie foram os mais melosos. Contaram as travessuras que ela fazia na infância, contaram todos os seus defeitos, e tudo de errado que tinha feito, mas falaram também coisas boas, falaram o quanto ficaram felizes quando ela nasceu, o quanto ela tornou a vida deles feliz e completa, o quanto ela os encheu de orgulho sendo sempre a primeira da turma, tirando notas boas, e quando fez o mundo inteiro conhecê-la. Lizzie sabia de tudo aquilo, mas foi muito bom ouvir cada palavra novamente.
Já era quase uma da manhã quando as pessoas começaram a ir embora, depois de todos os abraços e palavras de conforto, Annelise foi dormir, pois teria um grande show no dia seguinte.
***
Lizzie acordou bem cedo até, ela não estava com sono, mas seu corpo protestava sempre que ela tentava se levantar. Então ficou deitada pensando na morte quando se lembrou que fizera algo horrível! Ela esqueceu de convidar seus amigos para a despedida da noite anterior. Lizzie se sentiu péssima, e resolveu ligar para eles e convidá-los para almoçar em sua casa.
Ela ligou primeiro para Armando.
– Lizzie, meu Deus do céu, achei que você ia morrer sem falar comigo. – ele disse.
Lizzie riu.
– Seu bobo, sinto muito por não ter ligado antes. Eu quero que você venha para a minha casa hoje, é um almoço de despedida.
– Vou sim, mas e o show?
– Farei o show, e você está mais que convidado.
– Ok.
– Até mais.
Lizzie desligou o celular e ligou para Thays e Sofia ao mesmo tempo, como costumavam fazer nos velhos tempos.
As duas ficaram felizes por poderem se despedir da amiga, e disseram que iriam para almoçar.
Lizzie ligou para Hallyna.
– Tem certeza? — perguntou Hallyna quando Lizzie a convidou para o almoço.
– Claro, sua boba. Quero me despedir da minha melhor amiga.
Hallyna começou a chorar.
– Eu vou sim, Lizzie. Vou me arrumar.
Agora só faltava uma pessoa para quem Lizzie deveria ligar. Mas ela estava com medo de fazer essa ligação. Ramonn devia estar destruído com essa noticia, mas mesmo assim, ela pegou o telefone e discou o número dele.
Ela ligou três vezes e ninguém atendeu, ela estava começando a ficar preocupada quando resolveu ligar para a casa de Ramonn. A mãe dele atendeu.
– Alô?
– Dona Helena? O Ramonn está?
– Lizzie? Você está bem?
– Por enquanto sim, graças a Deus. Mas a senhora deve saber que não me resta muito tempo.
– Eu soube, eu sinto muito.
– Tudo bem, vai dar tudo certo, mas eu quero falar com o Ramonn antes que meu tempo acabe.
– Ele está trancado no quarto desde ontem, não quer abrir de jeito nenhum.
– Que droga.
– Sinto muito.
– A senhora pode tentar dizer a ele que eu vou fazer um almoço de despedida e quero que ele venha?
– Direi a ele.
– Convença ele a vir, por favor. Sei que ele deve estar furioso comigo, mas eu preciso falar com ele.
– Farei isso, minha querida.
– Muito obrigada.
Lizzie desligou, e ligou brevemente para suas colegas de desfile, Andressa, Ariella, Samara, Gabrielle e Suzzane, se despediu delas, mas não as convidou para o almoço, ela queria que fosse apenas entre ela e seus melhores amigos. Lizzie também ligou para Luana, a garota com quem fizera um dueto em São Paulo, Luana estava muito abalada com a noticia, e disse a Lizzie que tentaria ir ao seu show.
Embora seu corpo ainda protestasse, Lizzie se levantou, tinha que dizer a mãe dela que marcara um almoço com os amigos.
A mãe de Lizzie não recebeu a noticia muito bem, mas acabou concordando.
Lizzie foi se arrumar. Duas horas depois as pessoas começaram a chegar.
Hallyna chegou primeiro.
– Hayy! – disse Lizzie e a abraçou.
– Lizzie! – Hallyna começou a chorar.
Segundos depois, Armando, Sofia e Thays chegaram juntos.
Armando chorava mais que todos, agarrava Lizzie, e fazia um drama imenso. Sofia e Thays estavam um pouco mais contidas, mas Lizzie conhecia o jeito delas, dava pra ver no olhar que elas estavam tristes.
O almoço estava quase pronto. Eles estavam gravando um vídeo fazendo palhaçadas, mas estavam com cara de choro. A campainha tocou, e o coração de Lizzie acelerou, ela achou que fosse o Ramonn, mas era só o Rick.
Ela o apresentou a eles brevemente, e Rick foi falar com Diego.
Minutos depois a campainha tocou de novo, mas Lizzie não quis ir atender. Então Armando foi.
Lizzie estava com o rosto enterrado no ombro de Hallyna, rindo de sua sapatilha, quando levantou o rosto, viu Ramonn bem na sua frente. Uma explosão de sentimentos tomou conta de seu corpo, ela não sabia se ria, chorava ou dava um tapa na cara dele. A única coisa que conseguiu dizer foi:
– Ramonn.
– Liz. – ele disse.
Ela se levantou e o abraçou.
Ela o abraçou forte, era tão bom estar ali nos braços dele novamente, que ela não sabia como havia agüentado tanto tempo longe dele. Ela o agarrou forte, e ele a agarrou como sempre fazia. Lizzie se perdeu tanto no momento que estava prestes a beijá-lo, e foi quando viu Rick e Diego descendo as escadas, ela se afastou rapidamente de Ramonn corando.
– Que bom que você veio. – ela conseguiu dizer.
– Eu nunca deixaria de vir.
Todos almoçaram juntos, inclusive Rick e Diego. Todos estavam satisfeitos, a conversa estava agradável, mas Lizzie ainda tinha um último show antes de partir.
Ela pediu que seus amigos fossem ao show. E eles disseram que não perderiam por nada. Ela os levou até a porta, eles foram embora, mas não Ramonn.
– Sinto muito, — ele disse – fui um imbecil com você. Se eu tivesse sido um namorado melhor, mas compreensivo e menos egoísta, você não teria passado por isso sozinha.
– Eu não estava sozinha, Ramonn, mas foi bem difícil sem você. Eu achei que se eu me afastasse você ia me esquecer, e não ia sofrer tanto quando eu morresse.
Ramonn achou que Annelise falou aquilo com muita frieza. Mas não disse nada.
– Eu nunca vou te esquecer, eu te amo. — ele disse e segurou sua mão.
– Me prometa que vai seguir em frente, me prometa que vai arranjar uma namorada legal e que vai ser feliz.
– Como vou ser feliz sem você? Esses meses foram os piores.
– Você vai ter que se virar, Ramonn, logo logo não estarei mais aqui, e a sua vida não vai acabar por isso.
– Lizzie, eu não quero te perder pra sempre. Me desculpe por tudo, por favor. Me desculpe por ter sido um idiota, e por ter falado tantas besteiras sobre você.
– Eu te perdôo, seu idiota. – ela sorriu.
Ramonn a beijou. Lizzie correspondeu, mas o empurrou de leve logo depois.
Ela sorriu e soltou sua mão.
– Vá se arrumar para o show. – ela ainda estava segurando o portão para ele sair.
– Eu irei.
Ramonn foi embora, e Lizzie voltou para casa para se arrumar para o show.
O show estava marcado para as 5 da tarde no estádio de futebol da cidade, pois este era o maior lugar para um evento desse porte. Como era de se esperar, lotou tão rápido que perderam a conta de quantas pessoas estavam lá dentro.
Lizzie fez a abertura do show cantando Um Poema.
Depois da música Lizzie disse o que queria dizer para seus fãs.
– Eu quero agradecer a todos que dedicaram um tempo a mim, que vieram até aqui para se despedir. Quero agradecer a vocês por terem me dado a oportunidade de ser uma grande estrela, eu posso até ter talento, mas sem vocês, meus fãs, eu não seria ninguém importante.
Os fãs aplaudiram e gritaram. Lizzie ergueu o braço e eles pararam.
– Obrigada de verdade, eu amo todos vocês. Eu espero que compreendam o motivo de eu não ter contado tudo isso antes. Eu não queria causar dor a ninguém, pelo contrário, quero causar alegria, mas em breve, sei que todos estarão chorando pela minha morte. O meu último pedido para vocês é que não me esqueçam, lembrem sempre de mim. Porque, aonde quer que eu vá escutarei eternamente seus aplausos e elogios.
Todos começaram a aplaudir loucamente.
Agora, a ultima música para vocês.
– Diego, rapazes, — ela olhou para a banda. – foi um prazer cantar com vocês.
Eles começaram a tocar I am.
Lizzie começou a cantar.
Logo depois da música, Lizzie encerrou o show, falou rapidamente com a imprensa, e saiu andando até o carro, escoltada pelos seus seguranças, quando viu uma pessoa familiar perto do carro.
Uma loura bonita, usava um vestido branco e salto alto, o batom vermelho brilhava em seus lábios.
– Mayra? — disse Lizzie.
– Oi, Lizzie.
– Oi, o que tá fazendo aqui?
– Vim te pedir desculpas. Sinto muito, de verdade. Cada segundo que passamos juntas eu estava tentando te prejudicar e te colocando para baixo. Eu não devia ter feito isso, não foi certo, mas você estava certa, só fazia para chamar atenção.
– Está tudo bem, Mayra. Eu te perdôo.
– Mesmo? Mas eu fui uma bruxa com você.
– Passado é passado. E eu perdôo você. Sempre soube que você era mais que uma menina mimada que se gabava pelo dinheiro do pai. E você me provou isso, provou ser esperta e inteligente, você podia ter ganhado a competição.
– Verdade, mas acabei entregando.
– Você é boa pessoa, bem lá no fundo. – Lizzie riu.
– Me perdoa de verdade?
– Só se você me prometer que não fará com ninguém o que fez comigo, nunca mais.
– Prometo. Eu descobri que não tinha amigos, as pessoas só falavam comigo por interesse ou por medo.
– Imagino.
– E você tentou me avisar, e eu não dei ouvidos.
– O que importa é que você reconheceu seus erros e quer mudar.
– Sim. – ela olhou para baixo. – Sinto muito pelo que vai acontecer contigo.
– Eu já aceitei, estou bem.
– Você é mais incrível do que eu pensava.
Lizzie se aproximou de Mayra e a abraçou, Mayra retribuiu o abraço.
– Obrigada, Annelise Ribeiro.
Mayra sorriu e foi embora.
Lizzie voltou para casa, onde seus pais a receberam com abraços, Rick e Diego chegaram juntos com ela, era impossível para todos esconder a cara de preocupação.
Lizzie se arriscara demais fazendo o show, ela se desgastou muito, dava pra ver o quanto estava cansada.
– O que foi, gente? Eu tô bem. Tô bem. – disse Lizzie.
Sua mãe a tocou.
– Você está gelada, Annelise!
Lizzie percebeu tarde demais que seu corpo parara de corresponder aos seus comandos, ela sentiu uma dificuldade imensa de respirar. Ela sentou no sofá.
– Alice, Alice. – ela sussurrou.
Diego correu para buscar a irmã mais nova de Lizzie, segundos depois os dois desceram correndo as escadas.
Lizzie tocou o rosto da irmã, que estava meio adormecida.
– Eu amo você, irmã, seja boazinha.
– Te amo, Lizzie. – disse Alice.
De alguma forma Alice sabia que era a ultima vez que a irmã falaria com ela. E começou a chorar baixinho.
Rick e Diego deitaram Annelise no sofá.
– Mamãe. Estou partindo.
– Não, não. – disse a mãe.
– Pai...
– Eu sei, filha. – disse o pai.
– Eu amo você, pai. Eu amo você, mãe. Obrigada por tudo.
– Diego. – Lizzie apertou sua mão. – Siga seus sonhos, não tenha medo, ninguém pode dizer o que você pode ou não fazer.
Diego assentiu com os olhos cheios de lagrimas.
Ele beijou a mão de Annelise.
– Eu te amo. – ela sussurrou.
– Eu te amo. – ele sussurrou de volta.
Lizzie sorriu e deu um assovio fraco.
Diego se afastou e se encolheu no canto, começou a chorar e soluçar.
– Rick, meu maquiador mais top. – ela riu.
– Minha pequena grande estrela.
– Obrigada por tudo. Eu amo você.
– Obrigado, minha querida, eu te amo.
Rick beijou sua testa e se afastou para que seus pais pudessem abraçá-la.
Eles a abraçaram e choraram.
Lizzie estava suportando toda a dor bravamente, ela queria agüentar até o ultimo segundo.
Ela conseguiu sorrir para eles abraçando-os, e segurando a pequena mão de Alice.
– Agora eu sou uma estrela no céu. – disse Annelise.
E fechou os olhos, e não mais os abriu.
***
Annelise não sabia o que esperar da morte, ela ficara apavorada durante meses. O que acontece depois que alguém morre? Ela vai pro céu? Ou a alma fica vagando pelo mundo, observando as pessoas sem poder falar com elas?
Lizzie ficara com essa duvida, ela sempre achou que na hora de sua morte ela entraria em pânico, que não conseguiria se despedir de sua família, mas quando a hora chegou, ela conseguiu, manteve a calma e se mostrou firme e forte. Ela estava muito pior do que parecia, mas não queria que sua família a visse agonizando até a morte, o socorro nunca chegaria a tempo,e Lizzie poderia morrer calma e feliz por se despedir, ou gritando, e tentando respirar a todo custo apenas piorando a situação. Ao seu ultimo suspiro ela viu que fez o certo. As outras pessoas? O mundo lá fora? Isso não importava mais, nada mais importava, naquela noite, Annelise Ribeiro se fora, levando consigo o coração de milhares de pessoas do mundo.
***
No momento em que Lizzie fechou os olhos, Rick sabia que ela nunca mais ia abri-los. Ele caiu de joelhos e começou a chorar, ele estava desesperado, ele imaginava a dor que os pais de Lizzie estavam sentindo.
Diego estava no canto encolhido e tremendo, já não havia mais lágrimas para chorar, ele soluçava e balançava a cabeça, se recusando a acreditar que sua amiga partira para sempre.
Rick caminhos até Diego, os dois se abraçaram e não disseram mais nada.
Alice estava deitada no outro sofá, chorando e tremendo, seu pai estava ao seu lado, abraçando-a e tentando fazê-la acreditar que ia ficar tudo bem. “Mas como posso dizer uma coisa dessas?” Ele pensou.
“Minha filha acaba de morrer e eu achando que um dia as coisas voltarão a ser normais.”
A mãe de Lizzie gritava e segurava a mão da filha, gritava para ela acordar, a abraçava e balançava seu corpo inerte. Isabel não conseguia aceitar que sua filha se fora. Annelise era a menina mais doce do mundo, um pouco mimada, mas era a melhor filha que ela poderia querer, só lhe trouxera felicidade e orgulho, e agora estava partindo desse mundo de uma forma tão terrível.
Por fim, Rick enxugou os olhos e se levantou.
– Eu sei que vocês não querem saber disso agora, mas é preciso levar o corpo dela, e providenciar o enterro que ela merece.
O pai de Lizzie levantou o rosto.
– Tem razão, não podemos deixá-la aqui. Querida...
Isabel começou a chorar ainda mais.
– Não, não, não, minha filhinha. Acorde, acorde. Por favor, acorde!
O pai de Lizzie fez um sinal para Rick. Rick pegou o telefone e fez as ligações necessárias, minutos depois, profissionais chegaram e levaram o corpo de Lizzie. Deixando-os sozinhos na sala, com olhos inchados e coração partido.
***
Rick não estava com cabeça para mais nada. Ele só queria comer uma trufa do sono e apagar, e acordar 12 horas depois com Annelise jogando água em sua cara e o chamando de idiota, mas Rick sabia que isso não ia acontecer. Ele fez o que tinha de fazer.
Publicou uma nota em seu twitter, anunciando a morte de Lizzie.
Segundos depois, o tweet foi visto por quase meio milhão de pessoas. Todos já esperavam por isso, mas a dor foi a mesma que seria se não soubessem.
Ramonn estava chegando em casa, ele fora para a casa de Armando depois do show, pois a mãe dele insistiu que eles deveriam comer algo saudável, então ele, Hallyna, Thays e Sofia, tiveram que comer legumes e salada de frutas sem leite condensado.
– Desculpa, pessoal. – murmurrou Armando sem que sua mãe ouvisse.
Já eram quase nove da noite quando ele chegou em casa, seu pai estava na sala com seus irmãos.
– Filho, eu... – seu pai não conseguiu continuar o que quer que fosse dizer.
– Aconteceu alguma coisa? — perguntou Ramonn.
– Vá até o quarto, fale com sua mãe, eu não consigo...
O pai de Ramonn estava aparentemente abatido, os olhos úmidos como se tivesse chorado. Mas seu pai raramente chorava, devia ter acontecido algo muito ruim para fazer seu pai chorar.
Ramonn não questionou mais, andou até o quarto de seus pais. Onde encontrou sua mãe chorando.
– Mãe? O que houve?
– Sinto muito, meu filho, eu não sei o que te dizer.
De alguma forma, Ramonn soube que ela estava falando de Lizzie.
– Não. – disse Ramonn firmemente. – Ela está viva, mãe. Eu acabei de vê-la, ela estava tão linda no palco.
– Eu sinto muito, mas é verdade. – disse ela.
– As pessoas não tem o que fazer, devem ter inventado, mãe. Ela estava muito bem, ela não...
Ramonn não conseguiu dizer a palavra “morreu”, ele tinha muito medo de pensar nisso. Ele vira Lizzie tão bem, feliz e calma, parecia tão saudável quanto ele.
– Rick, o empresário dela, contou pelo twitter, assim que ela chegou em casa teve uma parada respiratória. Ela conseguiu se despedir da família antes de partir.
– Não, mãe, por favor, não me diga isto. – Ramonn já estava aos prantos.
– Eu queria que fosse mentira, mas não é.
– Não,não.
Ramonn não gritou, não tentou se machucar, não tomou nenhum remédio pra dormir. Ele apenas decidiu ficar parado no canto até que aquela dor toda passasse.
***
O dia estava lindo, o sol brilhava, o céu estava azul, estava um vento bom. Um belo dia para ir à praia, fazer um piquenique com a família, levar as crianças para um parque aquático. Todos deveriam estar vestindo suas roupas de praia, arrumando comidas, e preparando o guarda sol. Mas estavam todos vestindo suas roupas pretas, e se preparando para o enterro.
Isabel mal pregara os olhos a noite inteira. Só chorou e chorou, ela só queria acordar desse pesadelo, e que Lizzie a abraçasse mais uma vez. Ela se recusava a acreditar que sua menina tão linda e talentosa estava morta, até vê-la num caixão.
Lizzie estava com um vestido rosa e brilhoso, estava tão bem maquiada, com lábios vermelhos, parecia estar dormindo, mas Isabel sabia que não.
Muita gente da família aparecia para tentar confortar os pais de Annelise, mas não havia nenhum jeito no mundo que os fizesse esquecer aquela dor.
Já no cemitério, muita gente ainda chorava, o corpo estava sendo enterrado, alguns familiares de Lizzie tentaram dizer algo para todos, para que se confortassem, mas não ajudou.
Armando estava perto da cova, chorando ajoelhado no chão, ele chorava mais que Isabel.
– Minha amiga... – ele murmurrou.
– Eu sei. – disse Thays chorando também.
Ela tentava se manter forte para ajudar Armando. Mas estava difícil.
Sofia estava ao seu lado, chorando baixinho. Hallyna estava com Alice nos braços, ela tentava distraí-la para que não voltasse a chorar.
Ramonn estava mais acabado que todo mundo, ele estava agarrado à mãe, chorava feito uma criança.
Rick não conseguia mais responder nenhuma pergunta, não conseguia falar com mais ninguém, nem por educação. Nem percebeu que uma senhora se aproximava dele.
– A morte mata mais a nós do que a quem morre. – disse ela.
– Mamãe?
Rick a abraçou. E chorou ainda mais.
– Mãe, isso dói tanto, ela era como uma filha pra mim.
– Eu sei, meu querido. Eu sabia que estava sofrendo, por isso vim assim que soube.
– E o papai?
– Está procurando um lugar para estacionar.
– Obrigado por vir.
Rick continuou agarrado à sua mãe. Até seu pai aparecer.
Diego estava perto de uma árvore, longe de todo mundo. Estava vestido em um terno preto, os cabelos estavam soltos e caiam em seu rosto e grudavam em suas bochechas por causa das lágrimas, mas ele não se importava. Ele estava tão triste que nem notou quando ela se aproximou até que ela tocou seu ombro.
Diego se levantou num salto, e olhou quem era. Mas quando viu não pôde acreditar.
– Lyah? — ele disse incrédulo.
– Diego! – ela o abraçou.
– O que está fazendo aqui? — ele a abraçou de volta.
– Achei que estivesse precisando de uma amiga. – ela disse puxando uma mecha de seu cabelo loiro para atrás da orelha.
– Preciso muito. – ele enxugou os olhos.
Lyah o abraçou, e deixou que Diego chorasse em seu ombro.
Quando o enterro acabou, as pessoas começaram a ir embora. Os pais de Lizzie estavam acabados, cansados, e tristes.
– Para onde nós vamos? — perguntou Alice.
– Vamos para casa, minha querida. – disse seu pai.
***
Dias depois da morte de Annelise Ribeiro, ainda não se alava em outra coisa. Lizzie não era lembrada só por seu talento, mas também por sua bondade. Ela ajudara a salvar muitas pessoas com câncer, mas não conseguiu salvar a si mesma.
Ramonn não conseguia aceitar isso, ele sabia que logo as pessoas iam esquecer de Annelise, de tudo que ela fizera, e ele não ia permitir que ninguém a deixasse cair no esquecimento. “Seja feliz.” Ela dissera a ele. “Siga em frente”. Ramonn iria fazer isso.
Ele abriu o navegador e logou em seu facebook.
Apareceu um vídeo com mais de 10 milhões de acessos.
“Uma homenagem à grande Annelise Ribeiro”.
Ramonn deu o play.
Ele reconheceu a melodia da música I am. A última música que Annelise cantara na vida.
Quem começou a cantar a letra foi uma garotinha pálida, com grandes olhos castanhos, ela era careca, mas parecia feliz, ela usava uma camiseta que dizia “Eu venci o câncer”.
Quem cantou a outra estrofe foi uma garotinha asiática, ela não tinha os dois dentes da frente, não devia ter mais que nove anos,e usava a mesma camiseta.
E as estrofes seguintes foram cantadas por crianças diferentes, que usavam a mesma camiseta, e no refrão, varias crianças, meninos e meninas cantavam.
No final do vídeo, havia uma mensagem escrita.
“Todas essas crianças conseguiram vencer câncer graças as doações de Annelise Ribeiro, e seremos eternamente gratos a ela por isso.”
E apareceu uma linda foto de Lizzie abraçando Maia, ao lado da foto havia seu nome e duas datas:
Annelise Ribeiro Moraes.
0221999
0162015
Ramonn não ia desistir de fazer todos lembrarem de Lizzie todos os dias, ela merecia isso.
Ele ia dar um jeito para que tudo o que ela fez não fosse em vão. Ele tinha um plano.
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