Notas iniciais
Aviso importante: este capitulo é narrado pelo Armando.

Acordei com o celular apitando perto da minha cara. Havia salgadinhos por toda a área, inclusive na minha cara. Minha mão estava presa em um saco de Doritos, bolei na cama e quase caí. Vi que tinha latas de Coca e Sprite pelo chão perto das embalagens de barras de chocolate.

A minha festa foi boa. Boa e solitária.

O celular apitou novamente. Era uma mensagem no chat do facebook, uma mensagem de Lizzie:

“Armando, você me faria o maior favor do mundo? Vou te contar o que rolou.

Eu ia pegar o avião pra voltar pra casa hoje de manhã, mas todos os vôos foram cancelados por causa das chuvas aqui em SP. Eu tô desesperada, vou perder aula, e isso não pode acontecer porque sou bolsista. Se eu falar sem uma justificativa válida (doença ou morte), posso até perder a bolsa. Então o plano é o seguinte: Eu peguei uma gripe muito forte aqui e não posso viajar até estar melhor, vou até arranjar um atestado. Só preciso que você,Ramonn e Thays convençam os professores disso.

Provavelmente vou poder pegar um avião hoje a noite ou amanhã de manhã.

Ah, e deu tudo certo na gravação, quer dizer,nem tudo, mas depois te conto.

Obrigada, bjbj.

PS: Pede pro Ramonn entrar no face dele e me respondeeeeeeeeeeeer, pfv, vlw.”

Eu estava realmente confuso, estava cheio de salgadinho e Lizzie pediu minha ajuda.

O meu lado ruim começou a pensar coisas ruins.

“Ela só te pediu ajuda porque a Thays ta sem celular e o Ramonn não respondeu, você era a ultima opção dela.”.

Tirei esses pensamentos da cabeça. Afinal, eu não era um exemplo pra sociedade.

Eu tinha 16,pesava 120 quilos, era mais branco que um copo de leite e usava óculos e aparelho. Sempre que eu ficava envergonhado minhas bochechas ficavam rosadas e isso sempre era motivo de piada. Eu comia no mínimo cinco pacotes de Doritos por dia, e tomava quase dois litros de refrigerante. Eu tinha um problema sério de sabetudismo que irritava as pessoas, e como se não bastasse tudo isso meu sobrenome é Gordênio.

Isso mesmo. Gordênio.

É realmente um sobrenome cruel, eu sei. Mas infelizmente eu não podia mudá-lo.

Meu pai é sócio de uma das empresas mais ricas do Brasil, a Tecidos BRA. Meu pai é meio irmão do pai de Mayra.

Resumindo a história, o primeiro marido daminha avó morreu, e ela se casou com um cara chamado Antônio Gordênio. E foi desse cara que eu herdei o sobrenome, mas o tio Valdir é quem tem o nome famoso. Valdir Brandão de Mello, um dos homens mais ricos do país.

Meu pai, Luis Antônio, era sócio da empresa do irmão, o que nos rendeu uma vida tranqüila cheia de luxo.

E você deve estar pensando que meu pai é gordo também. Se enganou. Meu pai é obcecado por academia, é o jeito dele de relaxar.

Minha mãe tem um emprego que leva muito a sério: gastar o dinheiro do meu pai,e na maioria das vezes com coisas que nem precisamos.

E depois disso vinha eu. Um adolescente gordo, extremamente inteligente, mas apesar disso era rejeitado por todos.

Na outra escola em que eu estudei eu sofria bullying o dia inteiro. Os meninos me cutucavam, me empurravam, jogavam comida em mim e me xingavam muito.

Rolha de poço.

Baleia.

Gordo rico.

Gordênio. Se bem que esse era meu nome, mas eles usavam como se fosse o pior dos apelidos.

Mas eu sabia que no fundo toda essa implicância era inveja. Eu tinha muito dinheiro, sempre tive tudo o que quis, e tirava as melhores notas na escola. Talvez eu nunca precisasse trabalhar na vida, mas eu não queria viver à sombra de meu pai, até porque a sombra dele não cobria nem metade do meu corpo.

Eu já estava de saco cheio daquela escola, que na verdade era um internato em outra cidade. Passávamos a semana inteira lá, e só íamos pra casa no fim de semana, Mayra estudava lá também. E isso complicava minha vida, porque apesar de ser minha prima ela era uma das pessoas que mais me zoavam.

Fiquei furioso com ela quando ela insistiu que todos deveriam ir vê-la no maldito desfile. Estragou minha noite de sábado ( que era a noite de jogar vídeo game até desmaiar de sono), para ver um bando de garotas egocêntricas de exibindo numa passarela.

Fiquei realmente furioso, mas meu pai decidiu que eu ia, que uma noite sem jogar não ia me matar. Ele estava certo, naquela noite eu conheci alguém que podia mudar minha vida.

Assim que ela começou a cantar eu soube, Annelise seria uma estrela, seria muito famosa, e eu precisava ser amigo dela.

Eu queria muito ser amigo de uma celebridade, eu achei que se isso acontecesse as pessoas iam parar de pegar no meu pé, e quem sabe iam até me querer por perto.

Me aproximei de Annelise por um motivo egoísta. Mas já estava feito. Quando ela subiu naquele palco e o cara falou o nome dela, tratei de procurar seu sobrenome no folhetinho que deram pra gente com o nome das modelos falando das roupas que estavam usando. E BUM!

Achei: Annelise Ribeiro.

Peguei meu Iphone, e acessei a internet, entrei no facebook e achei seu perfil rapidamente, descobri onde ela morava, onde estudava, com quem namorava, e quantos anos tinha.

Depois disso parei pra apreciar sua bela voz que sem duvidas ia fazer sucesso pelo Brasil. Quando ela saiu do palco fui falar com ela. Ela me olhou estranho, mas não porque eu era gordo, era só porque não me conhecia.

E quando apareci em sua escola na semana seguinte ela me tratou muito bem, me acolheu e me apresentou aos seus amigos, e não pareceu sequer chateada quando eu disse que queria ser amigo dela porque ela seria famosa.

Enfim, se ela pediu a minha ajuda eu iria ajudá-la.

Apareceram mais mensagens no grupo da nossa turma no whats.

A história era bem louca.

Um gato pegou uma doença grave e contagiosa que o IBAMA ainda não sabia como tratar, acontece que o gato, de alguma forma conseguiu entrar na nossa escola. O que não era novidade, a escola estava cheia de gatos. Enfim,a direção da escola divulgou a foto do gato e deu ordens para não tocarmos nele de jeito nenhum. Chamar um dos disciplinas ou seguranças o mais rápido possível.

A doença do gato era muito contagiosa, e provavelmente era degenerativa pro gato e letal para seres humanos.

Joguei o celular pro lado e sai catando o lixo do meu quarto. Tomei um banho e fiquei jogando até a hora de almoçar para ir pra escola.

***

Encontrei o Ramonn na portaria, chamei seu nome e tive que correr um pouco pra alcançá-lo.

– E ai. – disse ele.

– Oi. – eu disse. – A Lizzie ta presa em São Paulo.

– Como é? — ele ficou preocupado. – Presa??

– Não presa na cadeia, ela só não pode voar pra cá hoje por causa das chuvas.

– Que droga! Eu fui trabalhar hoje, não vi nenhuma rede social ainda.

– Ela pediu pra você olhar teu face. Mas ela pediu pra gente convencer os professores de que ela tá doente em São Paulo, uma gripe de leve. — eu disse.

Ramonn já estava com o facebook logado em seu celular.

– Aqui ela disse que os pais dela ligaram pra diretora avisando, mas que mesmo assim a gente fale com os professores.

– Beleza. – eu disse. – Vou achar a Thays e pedir a ajuda dela.

– Ok, eu vou contar pra Sofia. – ele disse e saiu correndo pelo corredor.

Ah... a Thays. Eu só conhecia ela há uma semana e ela me encantou completamente.

Ela gostava das mesmas coisas que eu, e era sempre muito legal comigo. Andei pensativo pelo pátio quando avistei Thays um pouco afastada das outras pessoas brincando com um gato, ela estava tentando fazer ele se aproximar.

De repente me lembrei do gato raivoso e entrei em pânico. Mas logo me acalmei, passaram o fim de semana inteiro falando do gato raivoso, Thays não seria louca de tentar pegar no sabendo que isso poderia matá-la.

Mas espera aí! A THAYS TAVA SEM CELULAR!!! ELA NÃO SABIA DO GATO!!!

Sai correndo o mais rápido que podia, eu não podia gritar porque isso podia assustar ela e assustar o gato, e o gato poderia atacá-la, ela estava balançando a mão e batendo de leve no chão para o gato de aproximar. Eu estava a cinco metros de distância.

O gato estava avançando devagar, eu corri mais rápido, eu estava ficando sem ar. Minha gordura não me deixava correr rápido.

Tudo pareceu acontecer em câmera lenta. O gato estava muito perto de Thays, mas ela ainda não tinha tocado nele, eu estava mais perto dela e do gato, ela estava aproximando a mão do gato.

Mas isso aconteceu rápido: Empurrei Thays pro lado e pulei em cima do gato.

Respirei aliviado por dois motivos. 1: Thays não tocou no gato. 2: Minha pele estava toda protegida pelo casaco, logo, também não toquei no gato.

Thays gritou. Um bando de alunos se juntou ao redor para ver o que era. Eu ainda estava deitado em cima do gato.

– SAIA DE CIMA DELE, ARMANDO! FICOU MALUCO?? — gritou Thays.

– Era o gato raivoso! – gritou uma garota que eu não conhecia. – A Thays ia tocar no gato raivoso e o gordo salvou ela!

– O quê? — disse Thays.

Os seguranças apareceram pra me ajudar a levantar, um estava com luvas e uma gaiola nas mãos. Assim que sai de cima do gato, o homem pegou ele e jogou na gaiola.

– Não sei como, mas o gato está vivo. – o homem disse para mim.

– O Armando é um herói! – gritou Eduardo.

A platéia havia crescido um pouco, as pessoas começaram a gritar meu nome.

– ARMANDO! ARMANDO!

Thays ainda me olhava chocada enquanto Hallyna contava pra ela sobre o gato.

– Você podia ter morrido se o Armando não tivesse feito isso. – ela disse calmamente.

Thays veio até mim com os olhos cheios de lágrimas.

– Obrigada, Armando.

Ela me beijou nos lábios.

A multidão estava gritando “EEEEEEEEEEEHHH” e aplaudindo.

Eu me senti o cara mais sortudo e mais feliz do mundo. Se ela me beijou era porque gostava de mim.

Uma garota gostava de mim, a primeira em todo o mundo.

E isso não tinha preço.

Notas finais
Foi só pra vcs conhecerem um pouco mais o Armando e saber das verdadeiras intenções dele com a Lizzie, saberem um pouco mais sobre quem ele é. Espero que gostem :3