Poor Writer
2 Subindo
Notas iniciais
ABS
Sinto algo prender-se à minha garganta, e puxar toda a voz e força que eu tinha como uma pedra arranca a vegetação de um penhasco. É como se fosse um enorme caroço trancado em minha jugular, e eu simplesmente não posso mandá-lo embora agora. Faço algum ruído de concordância que nem mesmo percebo que fiz e em seguida encerro a ligação.
Vou até meu quarto e pego um cachecol roxo que havia deixado em repouso em cima de meu computador, amarro-o ao redor do pescoço e coloco meu tablet dentro de minha bolsa verde musgo a meia espalda juntamente com meu celular e fones de ouvido.
Enfio meus pés em um sapato que acho no meio do caminho e ouço o barulho da velha porta de madeira fechando-se atrás de mim. Praticamente corro para a saída do conjunto de apartamentos onde moro, e bato satisfeita a porta de ferro com pintura descascada.
O vento bate em meu rosto, e a leve iluminação solar acaricia minha pele. Esqueço-me do quanto ir para fora pode me ajudar na maioria das vezes; sentir o cheiro de gasolina em combustão por entre os carros me parece algo tão distante... aperto os olhos e sigo em frente. Caminho cerca de dois quarteirões, e ainda sim me parece pouco, mas é aonde eu pretendia chegar.
A placa antiga com tinta recém renovada é colírio para os meus olhos, e abro a porta com bordas de madeira como se fosse algo natural, e sou recebida com um delicado soar de sinetas douradas. Mei sempre adorou esse tipo de coisa. Ando até o final do corredor cor de abóbora e decido me sentar em um assento longo e acolchoado, que como todos, tem uma pequena mesa envernizada a sua frente. Tiro meu pequeno computador da bolsa e começo o que vim fazer.
Parecem palavras desconexas no início, mas sei aonde irão me levar.
Apartamento Colega de Quarto Dividir NYC
Em pouco tempo vejo diversos resultados, imagens, fotos, anúncios, entre outros. É uma longa procura a fazer, então ergo a mão.
-O que gostaria? — pouco tempo depois pergunta um rapaz, que apesar de não levantar meu rosto da tela, sei que se encontra poucos centímetros ao meu lado.
-Um mocaccino com bastante açúcar e dois bolinhos, por favor. — ouço-o anotando, a fricção da caneta cuja tinta está acabando contra o bloquinho amassado de folhas. Se ficar quieta posso até ver a cor da cola que une todas as folhas, vermelho, tenho quase certeza. Levanto o rosto da tela apenas para checar se é isto mesmo, mas o garçom já guardou o bloco de notas e estava se abaixando para retirar alguns guardanapos sujos de outra mesa, mas me sinto tentada a perguntar.
-Hey, você. Qual o seu nome? — ele demora a se virar – e também a perceber que falava com ele, o que é compreensível, já que há pessoas por perto- e franze as sobrancelhas, porém me responde brandamente.
-Rob... Robert, na verdade. — Rob passa a mão na testa e me encara com seus olhos mel esverdeados.
-Ah, ok. Obrigada, pode ir. — sorrio de canto e o cara revira os olhos.
Impressionante, realmente impressionante. Me seguro para não chamá-lo novamente, e apenas não o faço pois seria realmente incômodo. Inclino levemente a cabeça para olhar bem a posterioridade do jovem. Deus abençoe a América.
Batuco com os dedos na mesa e volto à minha pesquisa, achei três ótimos lugares, porém meus talvez-colegas-de-quarto mencionam restrições excessivas quanto ao consumo de substâncias ilícitas, e esse tipo de gente sempre é um porre. E, além disso, o aluguel não era nada que eu poderia custear.
Decido olhar meu celular, e vejo que tenho umas duas mensagens não lidas. As duas de Zac. Eu não entendo o porquê de ele querer tanto falar comigo, poxa, cuide da sua vida. Mas eu decido as abrir mesmo assim, mesmo sabendo que não é boa coisa.
Martie,diga que está tudo bem.
Quer almoçar na minha casa amanhã? Eu e você, 14h.
Eu queria dizer tanta e qualquer coisa, mas só consegui responder:
Tudo bem Z, te vejo lá.
E então repousei meu telefone em cima da mesa e guardei meu tablet dentro da bolsa. E posicionei ambos os meus cotovelos na mesa, um paralelo ao outro. E coloquei meu rosto entre as minhas mãos. E bem, eu coloquei tudo pra fora.
Meus pulmões pulsaram para colocar seu interior para fora, e minha coluna vibrou como se aspirando virar ao contrário; enxergar ardia, porém o que ardia mais era a minha certeza de ter estado errada durante esse tempo todo. Eu não conhecia Zac, ele não era ele mesmo enquanto estávamos juntos. Ele era um desconhecido para mim.
Minha visão embaçada logo torna-se negra de uma vez quando fecho ambos os olhos e bato o cotovelo forte na mesa, afasto o corpo do objeto e encaro Robert em silêncio, enquanto ele tenta de alguma forma colocar meu pedido na mesa.
-Anda logo. — eu falo, fingindo indiferença. Passo a mão, absorta, em uma tentativa vã de livrar meu campo de visão dos perturbadores granulados translúcidos da dor, das lágrimas, da ardência.
Robb coloca com o menor dos ruídos, a caneca e o prato com os bolinhos em cima da pequena bancada e me encara, com o cabelo desarrumado caindo nos olhos. Ele ainda segura a bandeja de prata, a qual usou para trazer meu pedido, em uma das mãos, ao mesmo tempo em que anota uma coisa em seu bloco de notas. Que vem a estar com a parte da cola virada para mim! Era vermelha, eu sabia! Sorrio de orelha a orelha ao constatar isso, e não deixo de permitir escapar um pequeno ruído alegre, minha risada. Eu gosto de estar certa, sempre.
Quem não gosta?
O garçom para de anotar e olha em meu rosto por um breve momento. E como se tivesse feito isso apenas para lembrar-se de algo, olha novamente para o pequeno espaço limitado ao qual chama de folha e volta a rabiscar sobre ele.
O rapaz retira a pequena folha de seu lugar de origem, com um som imperceptível e rápido, como o de um zíper se abrindo e a coloca bem a minha frente. Se vira, e vai cumprir seus demais afazeres.
Pego a superfície granulada, aonde a caneta demorou-se mais ou pressionou mais por algum motivo, enfase, talvez. Passo meus olhos úmidos pelo desenho desleixado e sorrio. A segunda vez no dia, talvez isso venha a ficar melhor. Limpo meus cílios levemente molhados com a barra do casaco e olho na direção onde Rob está. Ele dá um leve sorriso.
Então pego a caneca com meu mocaccino e o saboreio no meio de um leve curvar de lábios, e ele está doce como mel. E os bolinhos estão fofos como as nuvens, e eu estou retardada feito uma garota de treze anos, eca. Ou pior, igual ao namorado que tive quando eu tinha treze anos. Faço uma careta só em pensar nisso.
Olho novamente para o desenho desajeitado do cara. Linhas perdidas em um sentido vertical, todas meio tortas, e em um enigma que apenas alguns entenderiam, vão todas infinitamente para cima. E uma figura geométrica que beira o absurdo encontra-se apoiada, quase sustentada pelas linhas.
Dou uma mordida no bolinho com recheio de avelã que estava pedindo para ser saboreado, e tenho a maior das certezas.
Abro a capinha de meu Android e continuo com a procura para o lugar certo, e barato. Até que me deparo com o que parece ser exatamente o que procuro:
Apartamento Centro Tamanho Médio
Requisitos: ajudar em tarefas, metade do aluguel pago. Sem barulho após 10 pm e sem gatos.
Interessados entrar em contato pelo e-mail abaixo.
E foi o que eu fiz, mandei um e-mail para o cara do anúncio, não sabia exatamente o que escrever, mas foi basicamente o meu contato, e que eu estaria esperando ele contatar para conversarmos melhor. Passei a mão pelo cabelo que escorria até meus ombros e fiquei um tempo parada em silêncio.
Eu estou em uma montanha russa que só vai para cima, meu amigo.
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