Poor Writer
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Notas iniciais
Eu guardei o guardanapo no qual Robert desenhou, e oh, que surpresa, tinha um número de telefone anotado do outro lado da folha. Dobro de forma pouco cuidadosa o pequeno retângulo de papel e o coloco no bolso traseiro de minha calça, eu posso ligar pra ele depois. Já arrumei a maioria de minhas coisas, tudo em ordem como nunca esteve antes.
Ironicamente não, erroneamente não. Sinto aquele leve beliscão no estômago me deixar com uma espécie de vertigem e tontura, e sei que a ambivalência dessa situação ainda vai me tirar dos eixos. E o que não iria? Às vezes parece que sou mais leve que uma folha de papel, e qualquer leviano sopro de ar pode me fazer levantar voo e seguir sem rumo, pairando por aí. É estranho, e não deveria me sentir mais assim... E o engraçado é que, se não fosse assim, tudo o que eu sentiria ia ser falta. Falta do abstrato, falta da constante variável que me torna uma nômade emocional.
Mordo o lápis amarelo número 3 que deixei apontado e pronto em cima de minha escrivaninha, e em uma tentativa de súplica uso-o pra rabiscar freneticamente a folha de papel à minha frente.
Nada, nada, nada. Sei exatamente o que falar, mas nao sei o que poderia dizer. Por que dizer o que quero falar? Talvez no final não haja diferença de qualquer forma, talvez eu devesse apenas relaxar e esquecer tudo aquilo.
Bato de leve com as unhas na testa e procuro a minha bata cor de abóbora no meio da bagunça que deveria ser um guarda-roupa, faço-a escorregar pelo meu torso e troco de calça em alguns segundos.
É, Charlie, você ainda tem trabalho a fazer.
Pego a menor quantidade de coisas necessárias e rumo até a casa de Zac.
Ao andar pela calçada, começo a rir comigo mesma. Eu precisaria mesmo me sentir mal por isso? Ele é meu melhor amigo, e eu o amo, e se ele sabe que é o melhor pra ele, por que eu discordaria?
Não consigo. Calo a minha mente e ando no mais completo silêncio, apenas com o som dos carros e de minha alpargata desgastada atritando contra o asfalto em uma ápera e particular sinfonia, ritmada a cada passo meu, a cada direção que tomo.
Aperto o pequeno botão do interfone na portaria do prédio, enquanto suspiro em proporções desiguais a cada pequeno intervalo de tempo.
–Quem gostaria? – pergunta Zac, com a voz levemente afetada pelo aparelho de som.
–Eu, seu viadão, abre logo. – respondo de pronto, e consigo ouvir sua risada pelo interfone, e logo o bipe de abertura da porta da frente. Empurro-a e adentro o prédio, pegando o elevador até o quarto andar. Desço de lá meio em transe, e atravesso o corredor até apertar a campainha.
Ding dong.
Zac abre a porta, e ao olhar pra ele me sinto desmoronar sobre mim mesma. Avanço sobre ele com meus pulsos e unhas e gritos, e sem me dar conta do que faço. Só percebo o que ocorreu quando ele está com os braços ao redor de mim e meus olhos ardem, ficamos assim por pouco tempo, até que eu ouço algo.
–Zachary, está tudo bem aí? Acho que ouvi gritos. – diz uma doce voz feminina que parece ter vindo de trás dele. Ah, não.
–Está tudo bem, Lu, é só uma amiga. – ele responde ao mesmo tempo em que a tal aparece um pouco atrás dele e me cumprimenta com um simpático sorriso. E devo admitir, que adorável ela era.
Me solto do abraço de Zac e envolvo a adorável moça em meus compridos e longilíneos braços descobertos. Ela é tão macia.
Inalo o cheiro de cereja de suas madeixas escuras, e faço carinho na pele macia de sua bochecha direita. Um tanto difícil não gostar de alguém se a pessoa é incrivelmente adorável.
–Meu nome é Lucy, tudo bem? – diz ela, tentando esconder o fato de estar sendo sufocada por mim, falando perto de alguma passagem de ar que conseguiu achar no meio do meu abraço assassino.
–Tudo, só tava tentando matar o seu noivo por ter escondido uma coisa tão fofa como você de mim por tanto tempo. – falei, sorrindo daquela forma estranha que eu sempre faço. Lucy me responde com uma expressão confusa.
–Ah, na verdade foram apenas alguns meses. – e ela cora enquanto sorri, com as bochechas tao salientes que nao deixavam seus olhinhos azuis ficarem abertos.
–Entendo. – digo, olhando para os dois, eles formam um casal... fofo.
–Mas eu já estou de saída. – diz Lucy, segurando a mão do meu amigo –Aproveitem o almoço, até mais. Prazer em conhecer.
–Até. – abano de leve enquanto ela sai e dá um beijo rápido de despedida em Zac, antes de fechar a porta atrás dela. Praticamente no instante em que a porta foi fechada, ele coloca as mãos na cintura e ergue as sobrancelhas. “Fale” é o que ele me diz, sem falar nada.
–Você não podia. – eu digo, levando a mão aos olhos.
–O que eu não podia?
–Isso – digo apontando para a porta. – Poxa, sem nem pelo menos ter avisado antes, sem nem ter... nada. Aonde a conheceu?
Ele coça a testa e suspira antes de responder, e noto o cabelo castanho escuro curto com um aspecto desleixado, e sua barba mal feita. Ele nao era assim.
–Eu só queria ter certeza antes, Charlie, só isso. – ele gesticula.
–Tudo bem. Qual é o almoço?
–Lasanha, e nem venha me dizer que ficou ruim, expert em cozinha italiana.
Dou de ombros.
–Não sou expert, mas a gente acaba entendendo mais de certa culinária se nasceu em seu país de origem, certo?
–Certo, sabichona.- ele bate com a ponta do dedo no meu nariz e eu o abraço colocando a cabeça em seu peito. Levanto a cabeça ao ver que ele me olha, com o rosto inclinado para baixo, e faço uma coisa que nem sei como seria capaz de caracterizar: burrice, idiotice, ou complta impulsividade?
Toco meus lábios nos dele e os movo devagar, coloco a mão em seu rosto enquanto sinto a nossa sintonia errante e complicada tocar, e ao mesmo tempo ela é tão pura. Abraço a nova aspereza de seu rosto com a palma de minha mão e o acaricio, como me fez falta. Sinto como se tudo fizesse sentido novamente, até Zac me afastar de forma suave.
Não entendo a expressão em seu rosto, e também nao sei o que eu mesma deveria expressar. Então faço o melhor a ser feito, viro as costas e vou embora.
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