Poor Soul
1 Único
Notas iniciais
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Pairava sobre a copa das árvores – grandes árvores sombrias e velhas – da floresta; sempre escura, sempre fria, sempre vazia. Todos os dias, fosse como fosse, aquela ave estranha sempre passava por ali; não cantava, não grunhia, só batia suas grandes asas negras pelo céu acinzentado. Talvez também se sentisse como eu; sempre triste, sempre só... talvez só sentisse um pouco de pena, ou talvez não sentisse mesmo nada.
Que vinha ele buscar aqui? Comida para um planador como ele não havia, companhia para alguém livre como ele não havia; nada havia ali – senão meus sonhos desfeitos e minha memória apagada – que pudesse chamar sua atenção, mas ainda assim sempre ouvia o som de suas asas planando sobre as árvores, tão perto e tão longe de mim. O frio, o clima sempre mórbido e a chuva fina – como um choro abafado e silencioso – faziam-me companhia todos os dias... e eu já nem lembro mais como é que vim parar aqui, afinal, já faz tanto tempo que não vejo a luz do Sol. Só existe uma coisa da qual ainda lembro, e lembro bem; havia um homem, e havia eu, e não houve mais nada. Como saber se tudo fora um sonho, um pesadelo ou só meu mal fadado destino? Não sabia se o que me doía era resultado do que o estranho me fizera, ou se era só meu peito constatando meu falecimento. Quando acordei já não havia homem algum; nem Sol, nem casa, nem nada... só aquela ave estranha planando lá em cima. Queria, ainda que uma só vez, ir até ela e perguntar quê vem ela fazer aqui. Infelizmente, desde que me encontro aqui, jamais a vi descer ou se aproximar; mantém sempre uma distância suficiente pra me intrigar o pensamento, e nada além disso... e também eu não poderia chamar por ela; também lembro, não sei como, que me perdi de minha voz depois que cheguei aqui... como poderia aquele pássaro, voando lá tão longe, saber que espero ansiosa suas visitas? Como poderia eu saber se ele vem aqui me visitar porque se importa, ou só porque espera que os restos que jazem logo ali se decomponham para que possa devorá-los? Como saber se quem jaze logo ali é o homem sem rosto que me prendeu aqui, se o que sobrou dos meus sonhos de menina, ou se sou eu mesma que me recuso a deixar este lugar? Enquanto penso, a chuva chora por mim as lágrimas que meu peito frio não pode desaguar; enquanto reconstituo meus primeiros passos rumo ao fim, aquele pássaro paira lá em cima esperando ansioso pelo dia em que me levará contigo. .
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