Pontos de Vista

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Uma história, diversos pontos de vista.
A capa é o Estalone te julgando.

Do ponto de vista do homem:

Conheci na fila do banco, outro dia. Puxei um papo, fiz ela rir, coloquei o carro na conversa e até dei uma esnobada quando ela se empolgou. Mulher adora homem que tem carro, e adora mais ainda uma esnobada. Essa não larga mais.

Ela se chama Neide. Só fui descobrir depois do segundo encontro. Ela tinha me falado, mas eu tinha esquecido, e não podia mais perguntar, né? Nenhuma mulher vai dar pra um cara que não lembra o nome dela.

Mas então, depois de algumas saídas e alguns chopes, e muita paciência, levei pra casa. Nem acreditei quando ela aceitou. Tava louco pra apertar aqueles peitos.

Chegando em casa eu já ataquei. Tiramos a roupa, se agarrando, joguei ela na cama, e meti o pau. Ela foi à loucura, lógico.

Depois virei pro lado e tentei dormir, tava meio acabado, mas a lazarenta não parava de falar. Acabei perdendo o sono.

Esperei ela dormir e, com muita habilidade, tirei meu braço debaixo dela. Por que será que mulher tem essa mania de prender o braço da gente pra dormir? Tive que puxar ele com o outro braço, porque aquele que estava debaixo dela não respondia mais.

Levantei e fui fazer um lanchinho. Pão com salame italiano, queijo prato e uma pitada de mostarda. O segredo é a gotinha de azeite de oliva, no salame. E o pão, que tem que ser de qualidade. Fiz um café com leite pra acompanhar. Queria suco, mas tinha acabado.

Meu gato ficou comigo na sala. Pois é, eu tenho um gato. O bicho é parceiro. Ele se chama Estalone.

Liguei a televisão na sala e assisti o corujão. Um filmaço do Charles Bronson: “Desejo de matar 2”. Acho que os outros que ele matou, foi sem desejo. Tapei a boca com a mão pra não rir muito alto da minha própria piada.

Voltei pro quarto quando tava quase amanhecendo. Deitei quietinho do lado dela, que nem percebeu.

Se não tivesse tão cansado, daria mais uma de manhã. Mas assim é bom, deixar ela com gostinho de quero mais. Essa volta, com certeza.

Antes de ir embora, ela me perguntou se eu queria fazer algo naquele dia, e eu disse que ia pensar. Não gosto de mulher grudenta. Na semana que vem, ligo pra ela de novo. Ela é bacana, acho que estou me apaixonando.

*** *** *** ***

Do ponto de vista da mulher:

Eu vi ele assim que entrei no banco. Ele também me viu, mas fingiu que não reparou. Ele tava vestindo uma calça jeans despojada, uma camisa faltando um botão e um sapatênis que não combinava em nada com a camisa. O cabelo meio desajeitado, aquela postura de homem que não está nem aí, sabe? Ai, meu tipo. Pena que era um pouco lento. Eu ficava mandando todos os sinais, encostava nele “sem querer”, até me inclinei pra mostrar o decote, e nada. Tava quase na nossa vez quando ele finalmente falou comigo. Disse qualquer besteira pra puxar assunto. Seu nome era Nico.

Ele tinha um papo estranho. Falou um negócio sobre um carro, que eu não entendi direito. Depois ele disse que adoraria me conhecer melhor, e depois que não sabia se ia querer sair, meio confuso. Sabe que homem indeciso não dá, né? Pensei que não ia pedir meu número nunca, eu praticamente tive que empurrar o papel pra ele. Mas, ai, ele era lindo, e eu tou na seca, né? Ele podia falar qualquer coisa que eu sairia com ele de qualquer jeito.

Ah e com aquele jeitão de homem bruto, deve ser uma loucura na cama.

Ele me chamou pra sair, e o carro dele tinha um cheiro estranho. Me levou num barzinho bem mequetrefe, e ficou falando sobre o trabalho dele. Chaaaato! Ai ai, as coisas que a gente tem que aguentar por uma trepadinha. Tá difícil achar homem, mas homem de verdade. Não da pra esperar muito, né?

No segundo encontro, o Nico me levou num restaurante. A salada tava horrível, e a carne, mal passada. Porque não me levou pra casa direto? Poxa, segundo encontro. Eu não sou freira, sabia? Não percebeu o decote, não? Acha que eu sairia com o peito quase pra fora se não quisesse nada? Pior foi no carro, acho que ele nem ia me pegar. Eu tive que praticamente agarrar ele. Eita homem lerdo. Mas fazer o que, ta faltando homem no mercado, não dá pra ser muito exigente.

Ah, e ele usou exatamente a mesma roupa do primeiro encontro, menos a camisa. Descobri por que o sapatênis nunca combina com suas roupas: é porque ele só deve ter esse um, ai fica difícil combinar com todas as outras roupas. Se a gente continuar se vendo, eu compro um pra ele. Ta precisando mesmo de alguém pra ajudar ele com o visual. É tão bonito, mas não se valoriza.

No terceiro encontro ele me perguntou onde EU queria ir. Eu disse que qualquer lugar estava bom, e ele não se ligou, acredita? Ele perguntou de novo e eu disse que queria algo tranquilo, intimo, que ele não precisava gastar dinheiro comigo, e o idiota sugeriu um bar de sinuca. Acredita? SINUCA!! O taco que eu quero é outro, meu filho.

Então eu disse que eu sabia cozinhar e tals … na verdade eu odeio cozinhar, mas quem sabe assim ele se ligava … e o retardado começa a falar da mãe dele. DA MÃE! Tava quase desistindo, mas então pensei que já tinha vindo até aqui, e puxa, quando ele me pega com aqueles braços fortes, ai, eu derreto. Então eu falei que a gente podia ficar em casa mesmo. Foda-se. Só falando direto pra ele entender. Burrinho, tadinho. Mas ele é legal, e tem um bom coração.

Chegando na casa dele, o cara fica lá parado, me olhando. Tá esperando o que? O convite chegar pelo correio? Dei meu sorrisinho mais safado e ainda fiz um “vem-vem” com o dedo pra ele se mexer. Até que finalmente o cidadão entendeu.

Ele me pegou, firme, me deu aquele beijão de tirar o fôlego. Ah, finalmente. Pelo menos ele tem pegada, sabe? Ele se enrolou um pouco pra tirar a roupa, devia estar nervoso. Mas dai, já tava ali mesmo né? Deixei a vergonha de lado e arranquei as roupas. As minhas e as dele.

De repente a gente tropeça e um negócio arranha meu calcanhar. Era um gato, acredita? Quase pisei no bichinho. Eu adoro bichos, e o gato dele era muito fofo, e acho que ele gostou de mim. Estalone, o nome do gatinho. Acho tão fofo homem que tem animaizinhos. Significa que ele sabe cuidar dos outros, não é?

Ele me levou pra cama, me beijou inteira. Foi lindo. Ele tem aquele jeitão bruto dele, mas é carinhoso. Me beijava e me tocava, me deixou louquinha. Como tava começando a demorar muito, eu ataquei a cueca dele. Era de uma marca que eu nunca ouvi falar, e tava cheia de furinhos perto do elástico. Fingi que não vi pra ele não ficar envergonhado.

Eu tinha vestido uma lingerie nova, que comprei pra ocasião. Com rendinhas, e a calcinha é fio dental, e o maldito quase rasgou, e nem olhou pra ela direito.

Bom, estávamos na cama, né, maior clima, ele babando todo em mim, eu apertando aqueles braços e ombros. Desci a mão e peguei no pau dele. Confesso que esperava um pouco mais, a julgar pelo tamanho do pé. Acho que essa teoria tá furada. Mas enfim, não era nada demais, mas também não importa. Não era pequeno, era normal. Lógico que eu sussurrei no ouvido dele “como é enorme, será que vai caber em mim?”. Ele ficou louquinho.

Então, duma dessas, rolando na cama, de repente escuto um barulho bem alto e o Nico grita. Era o Estalone, tadinho. Ele tinha subido na cama e o Nico rolou por cima dele. Fiquei com uma peninha do Estalone, mas acho que não machucou ele, não. Depois o Nico tirou ele do quarto e fechou a porta.

Bom, voltamos pra cama, e pros beijos, e tals. E eu toda animada nas preliminares, né? E ele já pulou pra cima e queria meter. Tive que segurar ele e mandar colocar camisinha, pelo menos. Fala sério, né, nem te conheço. Tudo bem que eu tomo pílula, mas hoje em dia, tem que se cuidar. Vai saber.

Eu achei que ele ia dar a camisinha pra eu colocar nele, mas ele mesmo colocou rapidinho, e deitou em cima de mim, e me beijou. Loucura. Ele beija muito bem. Ah, e geme tão bonitinho. Ele tem aquela voz grossa, sabe, mas geme fininho. Uma graça. Enfim, ele foi devagar, o que foi ótimo, porque pra mim já fazia um tempo, né. Gente, que loucura. Não sei se foi porque eu tava na seca, mas foi bom demais. Pena que foi rapidinho.

Quando eu tava me animando, ele já terminou, acredita? Eu tentei reanimar o bendito, provoquei ele um pouco, e nada! Ele rolou pro lado e queria dormir. Poxa, custava fazer um oralzinho pelo menos?

Respirei fundo e pensei “tem paciência, quem sabe de manhã tem mais”.

Mas tirando isso, o resto foi perfeito. PER – FEI – TO. Ai, ele é tão carinhoso, e bonzinho. Perguntou se eu tava com fome, falei que não. Dai deitamos abraçadinhos.

Aham, abraçadinhos. Parecia um filme. Deitei no ombro, fiquei fazendo carinho no peitoral dele, e ele com o braço sob minha cabeça, me fazendo cafuné, até a gente dormir. Foi lindo. Ele é tão fofo, sabe? Ah, ninguém é perfeito, né?

Eu dormi como uma pedrinha. Também, com aquele homem do lado. Acho que me sinto segura, sabe? Ele me passa uma coisa boa. E ele não ronca, nem se mexe muito. Sabe que eu tenho o sono muito leve, e não acordei a noite toda. Ele é tão quietinho, uma maravilha. Dormimos abraçadinhos a noite inteira. Inteirinha.

De manhã, eu acordei toda animada pra namorar ele mais um pouquinho, mas tadinho, ele ainda tava muito cansado. Disse que é o trabalho.

Confesso que fiquei um pouco chateada de ele não levantar e me levar pro trabalho. Eu trabalho mais cedo que ele, sabe? E ele nem levantou. Mas tudo bem, foi só a primeira vez, e ele parecia mesmo muito cansado.

Só achei estranho aquele cheiro de salame.

Se eu sairia com ele de novo? Não sei ... acho que a gente não combina.

*** *** *** ***

Do ponto de vista da gata.

Você não acredita o que meu homem aprontou. Levou uma sirigaita pra casa. Posso com isso?

Ai, ai, as coisas que uma gata tem que aguentar.

Eu lá, bem tranquila, tomando meu leitinho, e ele me chega com aquela piranha. E pior, chegou com ela e nem falou comigo. Nem um “oi”, nem um carinho, nem me deu minha ração. Nada! Assim não dá.

Eu ainda tentei ir até eles, pra dialogar, sabe? E a vagabunda pisa em mim. PISA!! Arranhei o calcanhar dela com gosto, mas sabe como é, com minhas unhas cortadas, não faço mais o mesmo estrago que antigamente.

Dei um grito, né, e sabe o que aquele homem ingrato fez? Nada. Continuou se atracando com a piranha. Uma pouca vergonha. E na minha frente.

Mas o pior você ainda não sabe. Adivinha pra onde eles foram? Pra MINHA cama. Pois é. Foram fazer sem-vergonhice na minha cama, na cama onde a gente dorme juntos toda noite.

Fiquei puta, ne? Subi na cama também, imagina, eles que saíssem de lá. Acredita que o sem-vergonha rola pra cima de mim e quase me esmaga?? Podia ter me matado!

E depois?? Depois me tira do quarto e fecha a porta. Na minha cara! Poxa, depois de tudo. Fiquei tão triste. Tão deprimida. Isso é jeito de se tratar uma gata? Me fala! Homem não presta mesmo.

Ai, de noite, depois de ter usado ela, ele sai do quarto e vem me pedir desculpa, com a cara mais lavada. Safado. Ah, ele sabe que eu não resisto quando ele me faz um cafuné. Maldito.

Depois ele me fez um lanchinho, com salame, que ele sabe que eu adoro. Me deu duas rodelinhas. Me deitou no sofá e me deu atenção até amanhecer. Ficou me fazendo carinho. Bem feito pra aquela vagabunda, passou a noite sozinha. Procure outro, querida, esse aqui é meu.

*** *** *** ***

Do ponto de vista do sapatênis.

Eu posso não ser o mais bonito. Eu posso não ser o mais jovem. Mas, porra, eu faço meu trabalho. Ninguém pode reclamar.

Você acha que eu gosto quando ele me calça com aquela meia fina preta? É um crime! Me sinto abusado. Estuprado! Mas eu me resigno, e aceito. Nem todos foram feitos para brilhar, e faz milênios que eu não sei o que é uma graxa.

O que mais me deixava triste, na verdade, era a saudade. Vocês não sabiam disso (como poderiam?) mas eu já amei. Sim. Euzinho. Já fui um sapatênis muito apaixonado. Muito.

Eu era tão jovem, tão inocente. Eu via o mundo como um chão de possibilidades. E eu estava na moda.

Foi na loja, no shopping popular. Ao me colocarem na vitrine, logo ao meu lado, estava ela. Tão simples, tão linda, tão singela.

“Qual seu nome, sandalinha?” foi a primeira coisa que eu perguntei para ela. E ela me respondeu: “Azaleia”.

Ah Azaleia. Amor da minha vida. Jamais a esquecerei. Aquelas tiras, aquela sola. E o salto? Ah, aquele salto! Na medida. Não era baixo nem gordo demais, como aquelas sapatilhas recatadas e sem sal. Também não era alto, comprido e fino, como aqueles sapatos vulgares e desequilibrados. Ah não. A minha azaleia era perfeita. Doce Azaleia.

Como fui feliz naquela vitrine. Todos os dias eram uma lua de mel. Eu e minha Azaleia. E o mundo ao redor podia explodir. As pessoas iam e vinham. Outros sapatos iam e vinham. E nós ali. E nosso amor seria eterno.

Até o dia, o fatídico dia, em que minha Azaleia foi tirada de mim. Arrebatada da vitrine por uma vendedora sem escrúpulos. Ninguém pensa no coração dos calçados. “Jamais te esquecerei” ela pôde me dizer apenas, enquanto era levada para ser calçada por uma loira gordinha.

“Pra presente” a gordinha disse. Devia ser mesmo. Minha Azaleia foi um presente para o mundo. E um presente para minha vida. A dor da separação, e a saudade, sempre me consumiram, e ainda assim eu não me arrependo de nada. Melhor ter amado, e perdido, do que viver sem saber o que é o amor. E eu tive a grande alegria, o enorme privilégio, de ser correspondido na minha paixão. De ter sido correspondido por minha Azaleia.

Eu? Eu permaneci mais algumas semanas naquela vitrine, implorando para ser levado. Permanecer sozinho naquele local, no local onde partilhei os melhores momentos de minha vida, me trazia lembranças dolorosas. Até que foi colocada sobre mim uma placa: “promoção”. Vejam a que fui rebaixado.

Não tardou até que esse paquiderme que me calça me comprasse e me levasse dali.

Pois então, estava eu sendo pisado por aí, como sempre. Exausto. Já fazia umas duas semanas que eu não tinha um dia sequer de folga. Explorado até o limite, triste destino. Mas aquele dia foi diferente.

Ao descer do carro e trocar os pedais pelo chão, vi uma mulher se aproximar. O som de seus passos me pareceu familiar. Mal pude acreditar em meus olhos. Era ela!

Sim. Quase tive uma síncope ao vê-la. Meu sorriso não cabia no bico. Meu coração queria saltar por entre os cadarços. ERA ELA!! AZALEIA! AZALEIA!!

Que presente inesperado do destino. O mesmo destino que por grande parte de minha existência apenas riu-se de minhas desgraças, me presenteava agora com um reencontro com a criatura mais maravilhosa de toda criação. Ah, Azaleia. Mais linda do que nunca.

Eu poderia perder as solas naquele momento, no momento em que vi seu sorriso por entre suas tiras de couro, e eu morreria um sapatênis realizado.

Mal sabia eu o que dizer-lhe. Mal me continha em mim mesmo. Azaleia partilhava de minha alegria. Dizia-me das saudades que sentiu, do quanto desejou esse reencontro. “Tanto quanto você” dizia ela. “Impossível” respondia eu.

Caminhamos lado a lado, voltamos ao carro, e, oh sorte prodigiosa, fomos para a casa de meu pisador.

E enquanto o mencionado pisador consumava sua luxúria, como fazem os mamíferos animalescos, eu e Azaleia ficamos lado a lado, como antes, aos pés da cama. E tivemos mais uma, uma provavelmente última e derradeira, noite de amor.

Dilacerem-me as calçadas, mordam-me os cães, não mais me importo. Minha existência está completa. Meu coração está em paz. Com meus últimos suspiros exclamarei: “fui o sapatênis mais feliz já fabricado.” Obrigado, Azaleia. Obrigado, meu amor.

*** *** *** ***

Do ponto de vista da cama.

Eu acho uma pouca vergonha. Imagine você, ficaram pulando em cima de mim. Ainda bem que foi rápido. Até que tenho sorte, há camas que sofrem muito mais. Mas o meu sonho, meu sonho mesmo, era ser sofá. Oh, inveja.

*** *** *** ***

Do ponto de vista do salame.

Aquele vagabundo me comeu!

*** *** *** ***

Do ponto de vista da camisinha.

Achei essa história muito gozada.

*** *** *** ***

Do ponto de vista da cueca furada.

Eu não tenha nada a declarar. NADA!!

Notas finais
Espero que tenham gostado.
É uma experiencia que eu fiz, achei que seria legal imaginar a mesma história contada por pessoas ou coisas diferentes.
Comentem pra eu saber o que acharam.
Comenta agora!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!