Ponto De Atração
9 Um Pretendente Ciclope (ou nem tanto)
Notas iniciais
[Jeremias]
Deixar aquela Harley Davidson desde a primeira missão em Athenas fora uma ótima ideia, agora eu não precisava atravessar meio estado de ônibus ou qualquer outro meio público de transporte. O que, diga-se de passagem, é muito perigoso, contando o número de mortais que utilizam desses meios também.
Minha Harley preta ainda estava em bom estado, porém muito suja. Ela ficara escondida atrás do arbusto do primeiro “o” do letreiro e ninguém havia tocado nela nesse tempo.
Peguei uma camiseta velha minha e tirei o pó de minha moto que voltou a ficar mais apresentável, coloquei alguns suprimentos em baixo do banco, no caso de perda da mochila e arrumei meu arco e flecha de modo que ficasse mais fácil de usar, caso necessário.
Dei uma última olhada no letreiro, subi na moto e acelerei para junto de Arin, que precisava de minha ajuda.
Havia muitos carros na estrada e eu não pensava muito quando o quesito era quebrar centenas de regras de trânsito, como atravessar no sinal vermelho, fazer ultrapassagem pelo lado ilegal e andar pela calçada. Arin estava em perigo e não eram algumas multas que me fariam ir mais devagar.
Se bem que as multas iriam para o verdadeiro dono da moto...
Vi o sol entrar em seu pico alto no céu e o vi começar a cair novamente, começando a se pôr ao longe até que finalmente cheguei na rua Long Street, no beco 42 e com a praça em frente ao beco. Estacionei a moto num lugar estratégico que facilitaria uma fuga eminente e entrei no beco.
Ao contrário do que Arin dissera, o beco estava claro e pude reparar em cada detalhe, desde os insetos e ratos que andavam por ali, até pelos corpos semiconscientes dos drogados que viviam na rua. Andei o que me pareceu um tempo infinitamente grande até que encontrei uma bandana preta presa numa lata de lixo. Mas não era uma bandana qualquer, era a da Arin, com o cheiro do shampoo dela e tudo. Uma pista de que eu estava no caminho certo.
Essa pista me animou e comecei a caminhar mais rápido, olhando em cada lixeira até que encontrei Lumus, a espada de Arin, andei mais a frente, mas logo ali o beco acabava. Voltei e comecei a socar as latas de lixo dali, mas nenhuma se abria numa passagem, até que a quarta que eu soquei deu certo.
Uma passagem enorme se abriu e fiquei parado um instante pensando em o que eu faria a seguir, pois matar dois ciclopes adultos já estava fora de cogitação, então eu tinha que ter um plano.
Olhei numa lixeira e encontrei uma folha de papel quase nova, rasguei no melhor círculo que pude e comecei a catar qualquer lápis, giz, caneta ou material que eu pudesse colorir um olho único.
Achei um pedaço de carvão e fiz a íris ocular, mexi mais um pouco e encontrei uma caneta verde meio quebrada, colori com verde ao redor do preto e peguei um elástico de uma meia velha e coloquei o olho entre meus dois olhos, como um ciclope. Era infantil e idiota meu plano, mas isso era o melhor que eu tinha no momento.
Guardei as armas na mochila para não assustar os ciclopes e segurei apenas uma adaga perto ao meu corpo, pulei no buraco e cai para dentro da caverna dos ciclopes.
Quando meus pés bateram no chão de terra firme fiquei pasmo ao ver uma casa. Mesa, cadeiras, cozinha, sofá... Tudo como numa casa normal de pessoas normais. O problema é que os ratos pendurados de cabeça pra baixo no teto, os ossos acumulados num lado e as armaduras penduradas como quadros nas paredes de terra não deixavam o lar com cara de normal.
A enorme porta com grade, como uma sela também não deixava o lugar muito aconchegante.
- Ora, ora... Quem temos aqui?- Uma ciclope falou vindo de um canto da sala.
Virei-me e dei de cara com uma enorme e gorda ciclope segurando uma espada, que usava como faca pra cortar uns pedaços de carne que eu esperava que não fossem humanos.
- Oh! Um ciclope jovem! Rajá venha cá! Primula arranjou um marido!- A ciclope gritou para um ciclope que deveria ser o marido dela.
- Que há Rani? Falou que Primula tem um marido?- Rajá apareceu no cômodo quase nu, tirando um pedaço de pano que cobria as partes íntimas.
- Sim! Olhe!- Rani apontou para mim.
Rajá se aproximou e começou a me analisar, me virando de um lado para o outro e me cutucando, por sorte os dois bobalhões não descobriram meu olho fajuto de carvão e caneta.
- Bom... Eu hum... Vim desposar Primula... – Falei meio inseguro.
- Sim! Que ótimo! Primula não vai mais fugir agora!- Rajá disse.
- E não vamos mais precisar comê-la!- Rani disse batendo palmas.
- Comê-la?- Falei meio incerto de poder perguntar algo.
- Ora jovem, donde é que você vêm?- Rajá começou a explicar ao mesmo tempo em que comia um rato- Quando uma filha não tem um marido aos quinze anos de vida ciclope ela deve ser comida pela família, pois não vai servir para nada na comunidade ciclope. É assim que as coisas são, mas Primula vêm fugindo faz dois anos e agora, veja só, ela tem alguém!
- É...
- Venha, vou te mostrar onde Primula está- Rani me puxou- Aliás, como é seu nome?
- Ogrr- Respondi com um grunhido.
- Ogrr... Gostei- Falou Rani ainda me puxando em direção a cela que provavelmente guardava Arin muito bem trancada.
- Aqui estamos. Primulinha! Temos um marido para você!- Rani falou abrindo a cela e me empurrando para dentro.
- O quê? Não! Não quero nada nem ninguém!- Arin começou a gritar lá de dentro e sacou um pedaço de madeira e começou a bater em minha cabeça e costas, deixando cair o olho falso.
- Ai! Arin! Pare!- Falei em meio a dor.
Imediatamente Arin parou de me bater e me abraçou.
- Ah, Jer! Me desculpe! Não sabia que você é que era meu marido ciclope!
- Ai, tudo bem. Tudo bem com você, eles te machucaram?
- Não, só me colocaram aqui e falaram que me comeriam em breve, e agora como vamos sair?
- Não sei, só sei que sou seu marido e que isso te salvou de ser comida pelos ciclopes.
Arin me abraçou forte e senti calor de amor nesse abraço.
- Obrigada mesmo Jer, não sei o que eu faria sem você. Mas eu não preciso de um guarda- costas, então nem pense que agora você é meu protetor, ainda sou filha de Ares garanhão.
- Okay, okay. Então o que vamos fazer?
Arin começou a andar de um lado para o outro até que encontrou uma falha dos ciclopes. Rani havia se esquecido de fechar o cadeado que trancava Arin e agora nós podíamos simplesmente sair dali e fugirmos.
- Muito fácil... – Arin comentou.
- Também acho, mas não há outra opção- Falei abrindo a mochila e tirando nossas armas de lá.
- Lumus! Obrigada Jer! Não sei o que seria de mim sem essa espada.
- Eu sei- Falei pegando duas lâminas de ouro imperial que eu havia pego do Chalé um.
- Então vamos- Sai na frente de Arin para enfrentar o que estivesse em nossa frente.
- Espera!- Arin falou correndo pra cima de mim e colocando o maldito olho falso no meio da minha testa- Para o caso de algo acontecer, você inda é ciclope.
- Obrigado.
- Vamos- Arin me deu um leve empurrão e então fomos para dar de cara com dois ciclopes nos esperando para uma reuniãozinha em família.
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