Ponte Entre Mundos

1 Capítulo Único (?)


Notas iniciais
"Que suas estrelas sejam repletas de mundos, e que muitos outros estejam conectados aos seus. Boa leitura."

Sentaram-se em cadeiras de praia sob um manto negro coberto de estrelas. Estavam no jardim, aos fundos da casa. Era uma noite tranquila e tudo o que se ouvia eram os goles ruidosos de ambos, e um cachorro vira-lata que latia eventualmente.

Entre eles, descansava o telescópio que haviam passado a tarde montando. Ao terminarem, já era noite e estavam cansados demais para tentarem descobrir novos mundos. Por isso estavam ali, sentados bebendo. Cerveja para um, e refrigerante para o outro.

— Pai?

— Hm...?

— O que você acha que são as estrelas?

O homem ficou em silêncio por um momento.

— Aglomerados de gases e metais pesados que-

— Você sabe que não é isso que eu quis dizer.

O homem sorriu, de certa forma orgulhoso da perspicácia do filho. Permaneceu em silêncio por mais algum tempo, observando o céu estrelado até o garoto virar a cabeça em sua direção. Ele simulou um ronco como se houvesse caído no sono e quase se afogou quando uma garrafa de refrigerante foi despejada sobre seu rosto.

— Seu moleque! — Ele se levantou esfregando o rosto com as mãos e procurando pelo garoto, que gargalhava já bem longe dali.

— Certo, certo. Vem comigo. Quero te mostrar uma coisa.

Ainda desconfiado, o garoto o seguiu a certa distância. Entraram na casa passando pela porta de correr. Quando passaram pela cozinha o homem apanhou uma toalha de rosto para secar a barba do restante de refrigerante. Pai e filho dirigiram-se ao porão.

Lá embaixo, um velho baú foi aberto com uma chave, um par de palavrões e um punhado de desculpas. De lá de dentro, o homem retirou um embrulho retangular coberto por um pano do qual as traças já haviam se banqueteado. O trapo foi afastado e, sob a luz amarelada de uma lâmpada no porão, o garoto vislumbrou um quadro que nunca soubera existir.

Cores antes vívidas agora estavam desbotadas. Círculos amarelos de diversos tamanhos cobriam boa parte da pintura. Dentro de alguns desses círculos havia um ou dois pontos negros. No centro do quadro, tinta vermelha foi usada em abundância, guiada por linhas retas. Do lado esquerdo, figuras geométricas eram unidas em um padrão caótico, como em um mosaico cujo desenho era irreconhecível para o garoto. No canto inferior direito, o autor se identificara usando cinco letras maiúsculas.

E•P•F•S•S

— O que você vê? — O adulto indagou.

— Uma pintura abstrata? —Um tapa na nuca — Ai!

— Quanta falta de criatividade! Venha, vamos voltar lá pra fora. Vou lhe dizer o que eu vejo.

Os dois estavam de volta às cadeiras de praia. O homem bebia mais uma garrafa de cerveja que pegara da geladeira no caminho. O filho, vendo isso, passou a se perguntar quantas garrafas de refrigerante ele precisaria tomar pra começar a ver coisas naquele quadro também.

— Veja! — Seu pai apontava para um dos círculos amarelos — Você acha que consegue ver esses círculos como sóis?

O garoto acenou, não muito convencido.

— E se os círculos amarelos são sóis — Ele deslizou o dedo indicador pela pintura até posicioná-lo sobre um círculo amarelo que possuía dois pontos negros dentro de si — Então esses pontos são...?

— Planetas! — O garoto subitamente entendeu.

Ou achou que havia entendido. Outro tapa estalou em sua nuca.

— Mais do que isso! São mundos! — O menino o encarou, ainda ressentido pelo tapa e esfregando a região atingida.

— Não vejo diferença nenhuma!

— Tá bom então, sabichão. Pra responder aquela tua pergunta vou te contar uma história. Acreditar ou não, aí é contigo.

— Existe uma lenda que diz que para cada pessoa que nasce, uma estrela é criada. Tenho certeza de que você já ouviu em algum lugar que o universo está em constante expansão. Isso porque novos bebês estão sempre nascendo, certo? Então, enquanto os humanos existirem, o universo continuará se expandindo — O pai fez uma pausa para beber mais alguns goles.

— E os "mundos"? — O garoto fez uma voz afeminada ao pronunciar a palavra.

— Eu já ia chegar lá. Cada pessoa, então, é uma estrela. Os mundos que giram ao redor dessas estrelas representam as estórias criadas por essas pessoas. A maioria das pessoas mal tem um asteroide formado. Já pessoas como Martin e Tolkien possuem mundos incrivelmente grandes e complexos orbitando suas estrelas.

— Ok, acho que estou começando a entender. Mas e a Terra?

— Como assim?

— Se cada pessoa é uma estrela e suas criações são planetas... Nosso sol é a estrela de quem?

O homem abriu um largo sorriso diante do questionamento do filho.

— Não sei. Sinceramente nunca havia pensando nisso antes. Mas quem sabe? Se existe mesmo um Deus, então talvez o sol que a terra orbita seja a estrela dEle.

O garoto pensou sobre aquilo. Olhou pro quadro e apontou:

— E o resto das coisas na pintura?

— Está vendo essa parte vermelha aqui no centro? — O menino assentiu — Isso é um tapete vermelho. Vê como ela se estende como uma escadaria aqui na frente? Isso é uma via que liga os mundos de todas as pessoas. Mas não são todas que podem utilizá-la. Apenas pessoas escolhidas, criadores poderosos que muitas vezes sequer conhecem essa lenda. Simplesmente a percorrem. Como se ela estivesse lá desde sempre.

O garoto gostou da explicação. Estava procurando algo que o velho não soubesse explicar, mas ele estava se saindo bem até ali.

— E essa parte aqui? — Ele apontou para o aglomerado de formas geométricas coloridas no lado esquerdo da pintura — Também faz parte do tapete vermelho?

— Não, esta é Tiamat. Uma dragonesa interdimensional. Ela vaga pelos extremos do universo devorando planetas dos primeiros humanos nascidos. Ela avança lentamente em direção à Terra. A constante expansão do universo retarda sua eterna viagem em nossa direção, mas ela é incansável e dizem que no final dos tempos, Tiamat devorará a Terra.

O garoto sorriu. Não porque apreciasse ser devorado por uma dragonesa-interdimensional-gigante-devoradora-de-mundos, mas por estar satisfeito com a criatividade do pai em criar uma estória como aquela a partir de um quadro.

— Por que você não pendura o quadro? Por que ele fica guardado lá no porão?

— Bem — O pai sorriu meio sem jeito — Digamos apenas que sua mãe não se dava bem com o autor desta tela. Acho que ela me mataria se soubesse que ainda a tenho.

O garoto sorriu diante do segredo compartilhado.

— Não se preocupe. Seu segredo está a salvo comigo.

E recebeu um sorriso em resposta.

— Vamos. É melhor nós guardarmos isso — Ele levantou-se e pegou o quadro — Sua mãe deve estar para chegar e se eu for pego com isso, vou acusar você de ser meu cúmplice!

— O quê?! — O garoto correu atrás de seu pai, que entrava em casa.

Longe dali, sobre o topo de um arranha-céu, numa luxuosa cobertura, uma mulher se punha de pé em frente à parede de vidro que lhe servia de janela. O cômodo estava repleto de cavaletes e pinturas cobertas. Pinturas estas que a trouxeram até ali.

Era uma bela mulher, na casa dos trinta anos. Pele morena, corpo delgado e um cabelo cheio e enrolado, cortado na altura dos ombros, emoldurando um rosto de finos traços. Seus belos olhos cor de amêndoas, naquele momento enchiam-se de lágrimas, enquanto seus lábios finos curvavam-se num sorriso. Ela segurava uma caixa cheia de papéis, todos escritos com a mesma letra corrida. Ela terminou de ler a página que estava por cima e deteve seus olhos na assinatura do remetente. Apenas quatro letras.

P•J•S•S

Em uma casa de dois andares, com um quintal nos fundos, um homem cuja estrela possuía muitos mundos olhou uma última vez para o céu estrelado, enquanto uma criança lhe fazia prometer que não o entregaria à sua mãe.

Entre as estrelas, um tapete vermelho surge unindo dois mundos.

Notas finais
Obrigado por ler. Se você já chegou até aqui deixe seu comentário. Eu admito que também prefiro não comentar muitas das vezes. "Eu não sei o que escrever", "Meu comentário não faz diferença", "Olha quantos comentários! Ninguém vai se importar se eu não comentar..."
Já pensou se todos pensassem assim? Não haveria comentário algum! Seu comentário faz sim a diferença. Eu sei que é clichê, mas é verdade quando dizem que seu comentário nos faz crescer.
Então depois de todos esse apelo, não me deixe na mão. Comente. Diga o que achou. Se foi bom, comente! Se foi ruim, comente! Se foi péssimo, comente! Só não seja um leitor fantasma. Ninguém gosta disso. #fikdik
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