Notas iniciais
Escrevi esta história escutando "Don't Judge Me", acho tão linda T^T

Eu estava num quarto de uma hospedaria barata a perto de Pompéia com ele quando a fumaça começou a subir.

É verdade que já vínhamos sentindo os tremores havia algum tempo, mas mesmo assim não pensamos que fosse Vesúvio a causadora de tudo isso, mas aquilo não fazia sentido nenhum. Como fumaça poderia sair da ponta de uma montanha?

– Senhor? – Sua voz me chamou e ele parecia esconder o próprio medo.

A verdade é que ele, um mero mensageiro de estrutura frágil e rosto macio, estava tentando ao máximo parecer forte para mim, um senador que deveria estar naquele exato instante tratando dos detalhes do seu casamento.

Eu o olhei e seus olhos claros emoldurados por longos cílios estavam marejados a aquele ponto. Queria eu segurá-lo de que tudo estava bem, mas nem mesmo eu tinha certeza daquilo. Passei a mão nos seus cabelos escuros tentando sorrir, eu tinha um péssimo pressentimento sobre isso.

– Não acho que seja nada importante Lartius. – Meus dedos correram um lado de sua face. – Por favor, não fique tão assustado.

– Mas senhor... – Ele tentou falar e eu me sentei ao seu lado na cama de lençóis ásperos.

– Estou falando sério, está tudo bem.

Ele se calou e olhou para baixo enquanto eu acariciava sua nuca. Nossas roupas estavam dobradas em uma cadeira, mas mesmo assim eu tinha certeza de que com a qualidade daquele quarto, todas estariam empoeiradas quando as vestíssemos.

– Será que Vesúvio é igual Etna? – Sua voz era meramente um sussurro e eu me surpreendi com o seu conhecimento sobre Etna. – Eu digo... O que faremos se ela for uma montanha de fogo também?

Dava para perceber dele o medo de estar soando estúpido, mas suas palavras para mim fizeram sentido. Meu coração começou a bater mais forte com a possibilidade da destruição completa que aconteceria se aquilo fosse verdade.

– Senhor, deveria voltar para o seu lar. – Ele virou para mim e a luta que estava travando contra suas lágrimas era visível.

– Lartius...

– Estou falando sério, senhor! Sou apenas um mensageiro, não irei fazer falta a ninguém, mas o senhor deve voltar para onde se encontra sua noiva...

– Lartius! – Eu chamei sua atenção e ele se calou. Soltei um suspiro e admito que eu tinha um conflito interno acontecendo no mesmo instante. Eu havia pensado nisso, era de se esperar que qualquer homem parasse o que estivesse fazendo e voltasse para a sua família, mas mesmo assim... – Eu não posso.

– Senhor... – Seus ombros caíram levemente e eu sorri de lado.

– Fazemos encontros assim não faz apenas alguns dias e sim anos, Lartius. Você subestima o apreço que tenho por você. – Eu realmente queria dizer “amor”, mas, por Venus, eu não conseguia pronunciar aquela palavra. – Apenas os deuses sabem o quanto...

Nem ele e nem eu estávamos preparados para saber o final daquela frase. Acho que seu olhar me dizia que sentia exatamente o mesmo, mas era impossível. A deusa do amor nos fez de fantoches para a sua diversão e nossos sentimentos ao mesmo tempo em que não podiam ser negados não podiam ser aceitos.

– Estou surpreso que saiba o que aconteceu com Etna, Lartius.

– Tenho parentes em Messina, senhor, uma tia viúva para ser mais específico. Ela mandou notícias através de meu pai no verão passado dizendo que um grande desastre havia acontecido.

– Entendo...

De repente, o céu escureceu por completo e nós dois fomos para a janela. A fumaça havia coberto todo o céu. Lartius soltou um gritinho e eu o olhei, ele cobriu a boca com a mão e quando ia se preparar para pedir desculpas eu agarrei sua mão.

Logo, pedrinhas começaram a cair do céu.

– Por Júpiter. – Eu falei abismado com o que via. Estava caindo pedras do céu. Uma delas atingiu a janela e eu consegui a pegar. Era extremamente leve.

– Os deuses devem estar furiosos conosco, mas... O que nós fizemos?

Virei meu olhar para ele e uma lágrima solitária escapou descendo pela sua bochecha e assim que chegou a seu queixo ele começou a tossir.

– Lartius?!

– Eu... Estou bem, senhor. Por favor, não se preocupe comigo.

Aquilo estava ficando fora de controle.

– Venha, coloque suas roupas, nós vamos sair daqui.

– Mas senhor! Se alguém que o senhor conhecesse...

– Você realmente acha que eu estou preocupado com isso agora, Lartius? Estou realmente achando que esta montanha possa ser como Etna e se isso for verdade nós precisamos sair daqui ou seremos mortos.

Ele forçou seu braço para que eu o soltasse e balançou levemente a cabeça.

– Não posso. Isso pode acabar com sua carreira senhor. Eu não quero ser o causador disso!

– Se vista agora! – Eu não estava acreditando no que estava ouvindo. Mesmo que fosse verdade, pelo amor dos deuses, estava caindo pedras do céu e o dia tinha virado noite, eu estava mais preocupado com a segurança daquele “mero mensageiro” do que a minha reputação.

Eu o forcei a colocar as roupas simples que tinha e rapidamente fiz o mesmo. As pedras eram leves e havia uma biga perto dali. Eu estava com medo de algo ter acontecido com o cavalo e que não tivéssemos chances de sair, mas não custava tentar.

– Senhor, por favor! Há muitas pessoas correndo nas ruas!

– Pelo amor de Júpiter, Lartius! Apenas faça o que eu estou falando!

– Tenho certeza de que conseguirá sobreviver, senhor, mas se me levar eu apenas irei o atrasar!

– Você não entende que eu não conseguiria viver se te deixasse aqui! – Eu gritei não dando a mínima para quem estivesse escutando. – Desde quando o toquei pela primeira vez nunca mais deixei de pensar em como seus lábios são macios e sua voz doce, Lartius, entenda que se você for embora a minha vida não tem mais sentido!

Por um momento nós ficamos em silêncio apenas escutando as pedras baterem no teto de madeira e no chão de pedra. Minha respiração estava ofegante e eu comecei a tossir. Algo dentro de mim parecia apertar meus pulmões e eu sabia que se não saíssemos dali logo tudo ia acabar.

– Por favor, Lartius...

Lágrimas desciam em abundância pelas sua bochechas agora vermelhas e a penumbra que o céu coberto causava era quebrada pela fraca luz da lamparina. Ele passou os dedos trêmulos pelo rosto e assentiu.

– Ótimo, pegue minha mão. Nós teremos que correr.

Saímos pela janela mesmo e as pedras batiam sem parar em nossas costas. Ao nosso lado um homem de túnicas vermelhas caiu no chão e não tive tempo para parar e olhar o que tinha acontecido com ele. Achamos a biga e Lartius me ajudou a tirar as pedras dela, ainda bem que o cavalo não havia sido atingido.

– Para onde vamos senhor?

– Para longe.

Ele me olhou e eu simplesmente fiz o cavalo andar.

Estava complicado guiá-lo com tantas pedras no caminho e em um momento quando estávamos a alguns quilômetros de Pompéia, o cavalo parou. Não importava o que fazíamos ele não andava.

– Senhor...

– Passe a me chamar de Octavius. “Senhor” está começando a me irritar profundamente. – Eu o ajudei a sair da viga e dava para ver até onde aquela densa fumaça ia. – Venha, nós temos que correr.

Ele começou a tossir e eu segurei sua mão. Quando seus pés tocaram o chão e eu o soltei, ele desabou. Vendo que ele estava fraco demais, eu o coloquei em minhas costas e comecei a andar.

O único problema é que eu não estava em condições de aguentar seu peso e o meu também. Olhei para frente vendo uma pequena área iluminada pelo sol e pedi para que Venus nos ajudasse por que se foi seu filho que causou isso, ela tinha que resolver.

Eu não estava pronto para perder o amor da minha vida.

– Nós vamos conseguir Lartius. – Eu tossi e me forcei a andar. – Apenas mantenha os olhos abertos. Mantenha... Os olhos abertos.

– S-senhor... – Ele tossiu mais e eu não o respondi. – Octavius...

Escutar a voz dele rouca e fraca daquele jeito não tinha um efeito bom em mim. Seus lábios pronunciando meu nome em vez de senhor me faziam feliz, mas ele parecia estar a beira da morte.

– Não se atreva a fechar esses olhos, Lartius.

– Eu te amo.

Tosses e senti um líquido quente em meu ombro. Eu torcia para que aquilo não fosse sangue e foi a minha vez de derramar lágrimas.

– Eu também e por isso você tem que ficar acordado.

– N-não sei... Sei se vou...

– Pois trate de conseguir! – Eu chorava agora copiosamente e meus soluços doíam em meus pulmões. Tossi pesadamente e eu o senti rir levemente.

– Obrigada. – Quando ele disse isso meu coração na hora parou.

– Lartius? – Eu o chamei, mas tanto sua tosse como sua voz haviam parado. – Lartius!

Eu o tirei de minhas costas e ele caiu no chão com força. Me ajoelhei ao seu lado e tudo o que estava acontecendo a minha volta ficou em câmera lenta.

As pedras caindo ritmicamente nas minhas costas e na minha nuca, o céu escurecendo seu rosto, a minha tosse. O sangue na minha roupa, no canto de sua boca e saindo da minha própria. As lágrimas atingindo sua pele macia que agora estava coberta pela poeira cinza do céu.

Aquilo era o Inferno.

Gritei em meio à dor no meu peito. A emocional e a física. Eu estava perdendo a única coisa que realmente importava para mim. Isso era um castigo dos deuses? Será que eu havia feito algo ruim e há anos resolveram me castigar usando de uma das maiores fraquezas do ser humano?

Não importava mais.

As perguntas não importavam mais. As respostas não importavam mais.

Minha vida não importava mais.

Notas finais
Deixem-me comentários dizendo o que acharam desta pequena one-shot :)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!