Política da Boa Vizinhança
7 Aqueles Tremendões Lá Esperando
Notas iniciais
Uma vez, eu assisti Hancock com a Jade. Eu me apaixonei pelo herói politicamente incorreto. Lembro-me que ele enlouquecia ao ser chamado de otário. Essa única palavra era capaz de despertar sua fúria de um modo, como uma alavanca de ira. Eu sempre me questionei se as pessoas realmente têm uma alavanca de ira, algo dito que é capaz de tirá-las do sério e cegá-las por conta da raiva.
Eu não tinha uma alavanca de ira. Eu sempre fui tranquila e satisfeita e, o que não me agradava, entrava por um ouvido e saia pelo outro. Eu era o que chamo de ser imune. Mas depois daquela visita a quitanda da Dona Helena, eu criei uma alavanca.
Amanda.
— Noiva? – chorou Jade, desconsolada – Ele tem uma noiva?
— Tem – respondi – Amanda.
— Deus, até o seu nome é irritante.
— Ela não é irritante – reclamei – Pelo contrário, ela é até legal demais. Na verdade, eu não sei porque estamos falando sobre isso.
— Estamos falando sobre isso porque você ganhou um vizinho lindo, gostoso, dono de um sorriso safado e de uma moto cara e que, aparentemente, te acha bonita – ela tentou imitar – Uma linda mulher.
Joguei um travesseiro em sua cara, o que a fez rezingar. Estávamos nos arrumando para irmos a festa na praia da Renata na casa de Jade e eu contei para ela sobre Otávio e sua noiva. Ela já o tinha visto antes e teve a mesma reação de Renata, mas Jade vinha mais frequentemente na minha casa, o que a fez... conhece-lo mais. E quando ela soube sobre Amanda, fez maior onda.
— Você precisa de um namorado – declarou ela, mais uma vez.
— Esse papo de novo...
— De novo, sim. As únicas paixões que você já teve na via foram os personagens principais de cada livro que você leu.
— Mas eu me apaixonei, não é? Isso não conta?
— Não, não conta. Você não pode apresentar um personagem para sua mãe como seu namorado. Nem andar de mãos dadas com ele na frente das solteiras invejosas e, o pior: você não pode beijá-lo.
— Você parece mais preocupada com a minha vida social do que eu.
— Claro, eu sou sua amiga e você sabe que eu te amo, mas eu já tive namorados e você, não. Andamos tanto juntas que eu tenho certeza que as pessoas pensam que eu sou bissexual.
— Eu acho que não – discordei – E eu não quero me amarrar a alguém.
— Você vive dizendo isso – ela curvou mais os cílios com o pincel do rímel – mas toda garota de dezessete, quase dezoito, anos precisa de um namorado.
— Sabe, eu não sou de seguir modinha.
— Não foi o que pareceu quando eu te achei escondida numa dispensa com um garoto.
Isso me calou por alguns segundos e Jade levantou a sobrancelha em desafio – Eu e Arthur estávamos nos escondendo da polícia, assim como você fez com Matheus.
— Você sabe muito bem o que eu e Matheus fizemos.
— Jade! – exclamei – E você sequer se lembra.
— Não importa.
Sai da cama, pondo minhas sapatilhas emprestadas por Jade, que, como um presente do destino, calçava o mesmo número que eu. No princípio, me assustei com o rosa claro e delicado que o vestido que ela me deu para usar, curto o suficiente para me impedir de abaixar, mas longo o suficiente para me permitir sentar sem precisar puxá-lo para baixo. Ela não deixou que eu tocasse num espelho até que tivesse terminado de me arrumar, o que me fez estar apavorada quase a tarde inteira.
Mas, no fim, eu não estava tão diferente, apenas... melhorada. Meus cabelos ainda eram os cachos rebeldes que tinham liberdade de expressão, porém meus olhos estavam ressaltados por um lápis azul escuro quase preto. A tonalidade da maquiagem nas minhas pálpebras realçava o castanho não-claro-porém-visível dos meus olhos e meus lábios cheios brilhavam com a falsa cor rosa natural. Nem meus cílios escaparam.
— Você está linda! – disse a mãe de Jade, invadindo o quarto.
— Obrigada, tia.
— Eu sei que sou uma artista – elogiou-se Jade, curvando-se para ninguém.
— Certo – respondeu sua mãe, que parecia não acreditar na filha louca que tinha – A Dulce não vai dormir em casa, então pediu para que Laís dormisse aqui – tia Raquel olhou para Jade antes que ela pudesse pular em contentamento – Regras, então: nada de bebidas aqui, nada de barulho de madrugada aqui, nada de garotos desconhecidos aqui e nada de “só seis da manhã” aqui.
— Certo – respondemos juntas.
— Perfeito. Como eu pus muita regra, um alívio: Dulce me disse para Laís estar de volta à meia noite.
— O que? – reclamou Jade – É muito cedo!
— Eu sei – respondeu titia – Por isso, vocês têm até as três para estarem aqui. Não se preocupem, vou fingir que arrastei vocês para casa antes mesmo das onze.
Jade correu para a mãe, beijando-a nas bochechas até tia Raquel gargalhar e segurar a filha longe de seu rosto. Tínhamos um segredo em relação as nossas mães: elas sempre faziam a mesma coisa, nos permitiam fazer coisas que a outra nos proibiria de fazer; se a Jade tivesse se arrumado na minha casa e a minha mãe fosse aquela que ditaria as regras, ela também aliviaria no horário, achando que a mãe da Jade seria rígida demais.
Uma buzina chamou a atenção da tia Raquel, que nos deixou só para pularmos na cama como duas crianças. Jade nos fez parar antes que nos desarrumássemos, me fazendo sentar na cama e tirando um cacho rebelde do meu rosto. Ver que ela, mesmo sendo mais nova que eu, me fez pensar em Carlos Ruiz Zafón:
''Cresci no meio de livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó cujo cheiro ainda conservo nas mãos.''
O orgulho de conservar uma amizade concreta por tantos anos me chutou o coração e a parte interna dos olhos. Respirei fundo para que esse chute não virasse lágrimas, e abracei a cintura dela.
— O que foi, Laís?
— Nada. Eu só fico feliz de você ser minha amiga.
— Somos irmãs separadas pelo sangue, lembra? Não se preocupe, não deixarei com que sua vida fique triste sem minha presença marcante.
Soquei sua barriga e ela riu, sempre mais forte e mais resistente do que eu. Tia Raquel entrou no quarto, dizendo que a pessoa que buzinara estava nos chamando. Franzimos a testa e entortamos a cabeça juntas, para a diversão de tia Raquel.
— Se eu fosse vocês – sugeriu ela – não demoraria. Deixar aqueles tremendões lá esperando...
Corremos até a janela da sala e vimos o carro de Arthur parado na porta, com ele no volante. Matheus estava no carona e eles pareciam estar rindo de uma lembrança divertida. Jade me puxou para longe da janela e me abraçou – Muito obrigada por ser a amiga que arranja gatos com veículos!
Eu queria até responder, mas o espanto não deixou, então apenas ri. Jade pegou sua sandália branca e calçou, criando um lindo contraste entre sua pele e o calçado. Andamos até a porta em sentimentos diferentes; Jade parecia querer correr até o carro enquanto eu me arrastava com vergonha de Deus sabe o quê.
Uma vez lá fora, os meninos nos viram e saíram do carro. Matheus andou até Jade e agarrou sua cintura nada fina. Ela tinha finalmente descoberto o número dele na camisa branca e eles passavam a madrugada inteira conversando. Arthur veio até mim com as mãos nos bolsos e de cabeça um pouco baixa, mas não tão baixa a ponto de esconder o sorriso que sua boca vestia.
Senti as bochechas esquentarem, mesmo que ele nem tivesse me olhado ainda. Quando já estava na minha frente, ergueu a vista e grudou seus olhos nos meus, alargando mais seu sorriso.
— Boa tarde, leoa.
Baixei os olhos ao ouvir o apelido – Boa tarde.
— Renata me deu o seu endereço – falou – Disse que você não tinha carona. Achei que seria legal vir te pegar.
Tentei não estremecer ao escutar ele falando sobre me pegar. Estava claro que ele não estava sendo cafajeste, mas ele ser cafajeste como Matheus estava sendo com Jade naquele momento não parecia tão ruim. Eu imaginava aquela boca rosa e todos os seus efeitos desde que ela ousou se aproximar da minha.
Entramos no carro e Matheus anunciou que precisava comprar alguns petiscos para Renata. Jade sugeriu a quitanda da Dona Helena, praticamente na esquina da rua. Cinco segundos e estávamos lá. Matheus seguiu com Jade segurando uma cesta para a seção pequena de salgados.
— Laís! – exclamou Dona Helena, vindo em nossa direção – Você está linda!
— Obrigada – respondi, envergonhada.
— E quem seria este belo rapaz aqui? – ela pousou a mão em meu braço – Deve ser muito especial para ganhar sua atenção.
A ideia de enfiar a cara no chão não soava tão ruim. Arthur virou-se para Dona Helena, se apresentando e beijando sua bochecha, para o deleite total da velha.
— Já provou ser um cavalheiro. Cuide bem do meu anjo – exigiu saindo.
Arthur focou sua atenção em mim e sorriu – Acho que já ganhei a benção para ser sua companhia esta noite, senhorita.
Ri, querendo mais que nunca aquele corredor escuro e aquelas cervejas para matarem o meu embaraço — Então, como veio parar na casa da Jade? – questionei, tentando mudar de assunto – Você, com certeza, não sabia onde ela morava.
— Sai perguntando por aí – ele chegou mais perto e enrolou um cacho meu em seu dedo indicador, puxando de leve e soltando, observando ele voltar ao ser modo mola – Fiz questão de te achar. Eu não perderia uma noite inteira ao seu lado.
Ele segurou o meu queixo e ergueu minha cabeça, para que eu pudesse admirar seus olhos de gato. Desceu seu rosto bem próximo ao meu e beijou o canto da minha boca, que se abriu sem que eu desse permissão.
— Você é preciosa demais para que eu não a encontrasse, leoa.
Dizendo isso, ele segurou a minha mão e me guiou até o carro, onde Matheus e Jade se agarravam de leve e ignoravam o resto do mundo. Entrei e pus o cinto. Quando Arthur ligou o carro, olhei para a quitanda, sem focar em nada, mas com o maior dos sorrisos.
Sorriso esse que minguou um pouco ao se deparar com Otávio encarando Arthur com olhos semicerrados. Assim que me encarou, baixou a cabeça e fui sumindo a medida que Arthur dirigia em direção à praia.
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