Polícia, Estoure 2

1 Capítulo 1- Explosão de sentimentos


Jegue Chan, apreensivo se aproxima do seu Tio, o inspetor Bila e logo desabafa.

— Sabe, tio Bila... Estou muito preocupado com a Mei. Sendo policial, ela corre muitos riscos. Fica difícil até para sair nas ruas, fazer compras... ir ao shopping. Ir em shows e teatros, pois você sabe: Ela sempre frequenta esses lugares, porque a Mei só paga meia entrada.

— Bom pra ela.

— Eu sei. Tenho medo dela ser sequestrada enquanto estiver brincando de amarelinha na calçada.

— Deixa de ser marica, Cá Cuia- apelido carinhoso que o tio pôs no Jegue- você entrou pra polícia pra que? Sabe que tem que correr esses riscos! Além do mais pra que vão querer sequestrá-la? Com que dinheiro você vai pagar resgate se você é só um policial?

— Ah, tio. Você não tá entendendo. Não é por dinheiro, é por vingança. Ih, agora lembrei. Marquei de ir na casa dela, pra pegar ela, levar pra casa da tia dela, dar um beijo nela lá na casa da tia dela e depois me despedir dela...

— Ei, o que é isso? Quer matar o português?

— Mas nem falo português, nem ninguém aqui. Todo mundo aqui é de Hong Kong, falamos cantonês!

— Então tá. Seja como você quiser. É que eu estou com um pouco de dor de barriga, aí fico bruto, dando patada em todo mundo aqui do escritório.

Tio Bila não podia comer certos tipos de alimentos que eram oferecidos na DP, que seu intestino já começava a reagir de maneira agressiva. Fortes diarreias e acumulo gasoso. Por sorte, seu sobrinho não se incomodava, pois suas preocupações eram tantas que sua cabeça só andava nas nuvens. Se preocupava também com o Bila, pensando se caso ele fosse para os Estados Unidos (mais precisamente em Nova York), poderia abrir um supermercado. Merecia um descanso depois de tantos anos trabalhando na polícia, e caso resolvesse se casar poderia vender o supermercado e começar uma nova vida. E Cá Cuia com certeza iria visitá-lo de vez em quando. Claro, se controlando para não se envolver em brigas de gangues. Devido ao seu senso de justiça, não ia suportar ver arruaceiros tocando o terror sem fazer nada.

— Cá Cuia! bradou o inspetor Raymond.

— Ah... é... Sim, senhor! O que deseja?

— Desejo que pare de ficar viajando!

— Me desculpe, senhor.

— Bem, vai ver a Mei hoje?

— Estou querendo. Eu posso?

— Você quer?

— Sim...

— Quer mesmo?

— Sim, eu quero!

— Então vai logo, sua anta! Você já estava dispensado agora pela manhã! Fica aí perdido no tempo. Daqui a pouco chega o horário de você voltar para o trampo.

— Obrigado! sorrindo com brilhos nos olhos. Eu vou agora mesmo.

Cá Cuia deixa a sala do inspetor, animado. Tão depressa passa pelos colegas que nem percebe o que eles dizem.

Logo, abre a porta do seu Mitsubishi Colt Turbo preto e se acomoda na posição de motorista. Antes de dar a partida, remexe em sua coleção de fitas cassetes e encontra uma da banda Beyond, colocando pra tocar logo em seguida. Dirigindo, contempla a linda cidade de Hong Kong, naquele ano de 1988: com placas de propaganda em todos os cantos, cantores de rock fazendo shows a céu aberto e uma porção de pedestres com cara de sono. Jegue abastece o carro no posto e ao sair se depara com um rosto familiar.

— Está lembrado de mim? pergunta um sujeito, acompanhado por dois capangas que também usam terno.

— Pode me refrescar a memória?

— Eu sou aquele cara que você quebrou os óculos na porrada. Lá dentro do shopping. Tá lembrado?

— Ah... estava defendo o Jumen Chou? Bem feito! Quebro de novo se achar ruim. Quanto custou esse aí?

— Fica na sua, tira! Vim dar recado do meu chefe.

— E ele ainda está vivo? Depois de tanto murro que eu dei no bucho dele?

— Sim. Por enquanto. Graças a você, seu animal, ele agora só tem três meses de vida. Você lascou com a saúde do "véi". Só uma pessoa sem coração faz isso com um pobre empresário, que levava sua vida honestamente. Tudo isso por uma promoção no seu emprego, não é mesmo? Achei foi bom, otário! Virou guarda de trânsito! haha! Cadê o apitinho? "prrrr"!

— Se manca, ô! Empresário honesto uma ova! Um traficante safado daquele, querendo dar uma de bonzinho diante da lei. E outra: A Celina entregou todas as provas contra o seu "patrãozinho" que estava naquela maleta pra polícia. Isso já é o suficiente pra provar que ele é mais sujo do que bico de urubu!

— Você está certo. Eu sei que estou exagerando, que estou babando ovo de mais do Jumen Chou e tudo mais... mas a verdade é que ele mandou vim aqui pedir desculpas.

— Pedir desculpas? Como assim?

— Quando ele recebeu o diagnóstico de que teria apenas três meses de vida restantes, ele refletiu sobre a vida, o que tem feito dela e outras coisas. Ele amadureceu durante esse tempo e resolveu levar uma vida honesta. Abandonou os negócios ilegais, e vai investir o dinheiro em fundações de caridades.

Os olhos do homem já estavam ficando úmidos. Jegue Chan fica indignado, sem entender as mudanças de atitude do seu antigo rival. Fica totalmente sem reação. O homem estende os braços e se aproxima.

— Seu Cá Cuia! Vem aqui e me dê um abraço fraterno! Acabou nossas rivalidades!

— Bom... é estranho pra mim. Mas tudo bem.

Corresponde o abraço.

— Vocês não tem mais nada contra mim?

— Não, não temos. A lei agora é a nossa ideologia.

Sem graça, Cá Cuia se despede e continua a viagem de carro. Mas se desvia do caminho e dirige até a casa de Jumen Chou. Porém, ao invés de usar a campainha e esperar abrir o portão, salta o muro e ao pisar do outro lado é recebido por dois capangas.

— Boa tarde, policial Cá Cuia! Veio visitar o chefe? perguntam sorridentes.

Mas Jegue espanca os dois e os derruba no chão. Os empregados ficam assustados, e ele prossegue com a invasão. Quebrando a vidraça da mansão, móveis, gritando com todos e empurrando a enfermeira, se aproxima de Jumen Chou.

— Choooou! Acabei de quebrar sua casa, bati nos seus homens, e resolvi te infernizar!

— Mas porque, jovem? O que foi que eu te fiz agora?

— Como você é cínico, seu velho estúpido!!! Quer que eu traga dinamites e exploda seus carros de luxo?

— Tudo bem, meu filho. Como quiser. Eu te fiz muito mal, é natural que tenha essa revolta toda.

— Sua mãe era uma mulher muito vulgar!

— Como é que você sabe?

— Não vai se incomodar com isso?

— Não. Ela teve seus erros, mas eu gostava dela mesmo assim. Era minha... cof... cof... minha mãe.

— Chou!

— O que é, meu filho?

— Você é corno!

— Eu sei. O pior é que eu traía muitas modelos com quem me relacionava. Era justo!

— Você não se ofende com nada?

— Claro que sim! Com o mal que te causei, e para a sociedade também.

Jegue começa a chorar. Andando de um lado para o outro, ansioso.

— Eu não te entendo, velho! Tchau!

Jegue volta ao volante, ainda ouvindo Beyond e arrasado por dentro. Não esperava por essa reviravolta tão inesperada em sua vida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.