Poltrona Marrom.

1 Sinta o peso da morte.


Notas iniciais
Eu não sou louca, só gosto de coisas tristes.
Não terá continuação, NÃO PERGUNTEM ¬¬
A intensão era puxar pro conto, eu gosto de contos.
A vida não é frágil? As parcas devem rir da nossa cara.
Boa leitura.

Ele ainda estava sentado naquela poltrona velha que lhe fizera companhia nos longos anos após a morte de esposa. Era muito jovem quanto ela morreu, ela tinha 21 e ele 25. Estavam casados há quase um ano e se amavam de um jeito que muitos consideravam estranho, mas se amavam e era isso que importava.

Ela morreu afogada na piscina de casa, usava um vestido vermelho e botas pretas. Ela estava boiando de barriga para baixo quando a encontraram, o rosto preso em uma eterna expressão de horror, nos olhos tinha a chave de um mistério que nunca seria explicado.

Ninguém soube dizer o que fazia na piscina. Ela sabia nadar, ele lembrava da lua de mel que passaram em um hotel a beira mar. Os dois nadaram e mergulharam juntos.

Disseram que ela se suicidara.

O homem envelheceu anos em apenas 3 meses. Foi nessa época que pegou o hábito de sentar-se na poltrona marrom reclinável e olhar a janela.

Passaram-se 20 anos e ele estava ali, no mesmo lugar e com a mesma expressão vazia, mas muito mais vazia desta vez.

Ainda dava para sentir o cheiro de café e biscoitos que vinham da casa vizinha. Ainda dava para ver o espírito preso na biblioteca suja de pó. Lamentava a dor do passado e a dor de agora, era lamentável.

Ele, que sonhou em ser poeta. Que quis tocar jaz, rock, e até bossa nova. Ele, o homem que dissera que viajaria o mundo, acabou assim, com a expressão carrancuda e os olhos vidrados na imagem da janela velha, que dava para o muro da vizinha. Que triste.

Que triste, que triste. A vida era uma mistura de jaz e gozo. Branco e vermelho. Uma combinação perfeita.

A sala sombria ficava escura com a chegada da noite, ninguém descobriria o velho sentado com uma faca cravada no crânio até o meio-dia do dia seguinte.

O menino pequeno de boné virado chegaria, bateria na porta e veria que estava aberta e então entraria. O filho mais moço da vizinha gordo do 708 entraria na casa e o encontraria na biblioteca. Chamaria seu nome e ele não responderia. Afinal, mortos não falam, ou talvez falem, as aquele não diria nada. Ele puxaria o ombro e a cabeça cairia de lado, sangue pingando da ferida profunda manchariam a mão do garoto. O menino ficaria em choque, mas não gritaria. Choraria ali mesmo, de medo, de surpresa, de nojo. Choraria sozinho a morte que não entendia, choraria a beira do desespero a dor da vida, depois correria, vomitaria nas roas e tulipas de dona Anna e correria pela rua gritando como louco.

- Morto, morto, morto – era só o que diria.

Um velho amargo de coração frio, com uma faca atravessando o crânio. Essa seria a manchete do dia seguinte e todos ficariam alarmados. Trancas novas seriam providenciadas pelos vizinhos. Cachorros ferozes lotariam jardins. A polia procuraria o culpado, mas não achariam uma maldita pista.

Murmurinhos vagariam a cidade por semanas, e depois o velho seria enterrado no túmulo em cima da mulher que amou.

Levaria consigo a imagem da morte e um segredo sombrio. Um segredo que acorrentou sua alma ao mais profundo lago de fogo e enxofre dentro do inferno.

O diabo riria, dele, de nós.

No fim ele sempre ri da nossa ignorância bruta. Somo a miséria, a escória, o nada. Maldita raça de mentirosos e covardes, e o diabo riria e riria.

A vida é o que fazemos dela. Temos nossos segredos, nossos medos, nossas posses e outras pessoas. A morte é que nos faz, não temos escolha, não a queremos, não levamos nada e ainda acabamos sozinhos, servindo de alimento aos vermes que levam a pouca miséria que somos nós.

Tudo é tão trágico que sinto vontade de chorar, e rir.

Notas finais
Escrevi isso ouvindo Beethoven, não é triste?
Espero que tenham gostado e não esqueçam de comentar u.u
- Cora
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!