Poltrona 19

18 Você me diria sua banda preferida?


Notas iniciais
Olha quem apareceu... Podem ficar felizes! Eu demorei pra caralho, né? Peço mil desculpas por isso. Mas o que importa é que hoje tem capítulo novo e está enoooorme, eu fiquei desesperada quando percebi isso. Noite de festinha, o que será que vai rolar? Hahaha Boa leitura meus lindos!

Finalmente chegou sábado e eu estava bem ansiosa para me divertir e esquecer a zica que foi essa semana. Passei esses dias em casa basicamente morrendo de tédio e cumprindo as atividades que minha mãe ordenou, afinal, melhor não contrariá-la. Quando liguei para o meu pai cancelando a programação do fim de semana, ele fez o drama no ano. Disse que tem mais de meses que eu só fico na casa da minha mãe, não saio com ele, não o vejo, que eu me esqueci dele, que não o amo mais. Ás vezes eu me pergunto como meu pai nunca ganhou o Oscar de Melhor Ator de Drama.

Eu tive de prometer que passaria a semana seguinte em sua casa para ele me deixar em paz. Mas uma verdade no meio disso tudo, é que eu estou ficando apenas na casa da minha mãe ultimamente, porque Natália saiu de casa. Minha mãe sempre foi mais próxima da minha irmã e eu mais próxima do meu pai. Então, quando Natália saiu de casa, ela visivelmente sentiu muito sua falta e acho que ela se sente sozinha. Eu indo pra casa do meu pai então, vai deixá-la no mínimo, deprimida.

Por isso, na sexta-feira a noite, ao invés de sair com meus amigos, eu chamei Natália para dormir na nossa casa. Acabamos fazendo uma noite de meninas, onde assistimos filmes de drama, comemos pipoca, pizza e brigadeiro. Resumindo: choramos enquanto engordávamos uns dez quilos. Também na sexta, foi a primeira vez que Gabriel deu sinal de vida desde a mentirinha que ele me contou. Ele me mandou uma mensagem às 4h da manhã, me chamando pra um rolê. Tudo que eu consegui pensar foi: “Cê ta me zuando, né?”. Pior do que ele ter mentido, não ter se desculpado e ter sumido, foi a cara de pau de me chamar pra sair às 4h da manhã, quando ele provavelmente estava no mínimo, bêbado. Então eu fiz a coisa mais sensata a se fazer: o ignorei.

Eu estava animada com hoje à noite, porque sempre gosto de ir a festas que vai tocar rock. Beber e ouvir musica boa, esta entre minhas coisas preferidas da vida. O fato de ser um pub que toca rock, também influenciou na decisão do meu look. Coloquei uma blusa de alcinha preta de veludo, uma calça preta cheia de rasgadinhos e calcei boots de salto, também preta. Coloquei colar, pulseira e anel apenas pras meninas não me enxerem o saco, por eu não estar usando nada delicado e feminino. Fiz a mesma maquiagem de sempre: olho escuro. Arrumei meu cabelo. E me dei por satisfeita.

Pena que meu humor se dissipou no momento em que cheguei na casa de Leticia, onde todos marcamos de nos encontrar para irmos. Aparentemente, as meninas decidiram que ir a um show de rock não influenciaria nada em suas roupas. Logo, Amanda colocou um vestido branco realçando ao máximo as curvas do seu corpo, como ela adora e um sapato azul de salto alto. Leticia colocou uma blusa branca, uma saia vermelha e um sapato de salto, também branco. Não preciso dizer que maquiagens, acessórios e cabelos, também não estavam nada simples, né? Eu preciso de amigas com mais senso. Ou sou eu que preciso me adaptar as regras da sociedade?

Quando chegamos ao local, felizmente a fila não estava tão grande, haviam umas trinta pessoas em nossa frente. Amanda estava certa, reconheci várias pessoas do colégio, que merda. Nós mal entramos na fila e os meninos já saíram pra comprar bebida, alegando que ainda demoraríamos pra entrar, o que é verdade. O pub abre às 23h, mas as pessoas costumam chegar cedo, porque geralmente a fila sempre fica grande demais e tem um máximo de pessoas permitidas no local.

Ficamos apenas eu, Leticia, Amanda e Vitor na fila, mas Amanda estava conversando no telefone com alguém que provavelmente se juntaria a nós, já que ela estava dando as coordenadas de onde exatamente estávamos. Não muito tempo depois, descobri que essa pessoa era a novata, vulgo Lorena. É oficial, não consigo chamá-la pelo nome, portanto seu novo apelido, ou não tão novo assim, será Novata.

Novata chegou parecendo um projeto de piriguete, ou um projeto de Amanda, usando um vestido e salto alto e acompanhada de outras duas garotas que não conheço. Ela e Amanda se cumprimentaram com abraços e gritinhos, me fazendo revirar os olhos.

– Você não faz ideia de quem eu vi na esquina, tomando uma cerveja. – disse Lorena assim que se soltou de Amanda.

“Seu cafetão?”, pensei.

– Ele? – perguntou Amanda com um sorriso largo no rosto e Lorena assentiu, então elas se abraçaram novamente e deram mais gritinhos. Ninguém merece.

– Ele está maravilhoso. – afirmou Lorena, separando as sílabas de “maravilhoso” para dar ênfase.

– Ele sempre está. – disse Amanda e elas riram.

Assim que elas terminaram o bate-papo à La Capricho, Lorena nos cumprimentou e apresentou suas amigas. Nem prestei atenção nas duas direito, só soube que uma chamava Vitória e a outra Nayara. Tanto faz, não pretendia ser sociável. Quando os meninos voltaram, eu tive certeza de que aquela seria uma péssima noite. Eles trouxeram apenas cerveja, porque todo mundo bebe cerveja, menos eu e eles não comprariam uma garrafa de vodka só para mim. Podiam ter comprado, eu não me importaria.

Eu estava visivelmente de mal humor, porque aparentemente fui a única que achou que deveria se vestir de acordo com a ocasião, teria que suportar Lorena e suas amiguinhas e tive de aceitar beber cerveja. Afinal, pra aguentar essa noite, serei obrigada a beber qualquer coisa. O pessoal começou a conversar e percebi que estavam tentando se socializar com as amigas da Novata, contando coisas que eles já haviam feito na sala de aula. Fiquei com tanto ciúme e tanta raiva, que agi com toda maturidade que eu tenho e: me isolei do grupo.

Fiquei observando o movimento na rua enquanto bebia minha cerveja. Pais trazendo seus filhos, algumas pessoas chegando a pé, grupinhos conversando, pessoas bebendo, outras fumando e algumas com os olhos grudados na tela de seus celulares. Meu coração acelerou quando olhei para o outro lado da rua e avistei Gustavo de mãos dadas com Carol, ao lado de Bruno. E Gabriel. Eu perdi o ar por alguns segundos e foi difícil decidir qual dos três meninos foi o motivo.

Gustavo estava usando uma camiseta xadrez com as cores vermelho, cinza e branco, uma calça jeans clara e um all star branco, ele estava tão fofo que eu colaria uma foto dele, no lugar do significado da palavra “fofo” em meu dicionário. Carol estava usando uma blusa cropped preta e um short jeans claro de cintura alta, nos pés uma botinha preta com tachinhas, que eu achei muito fofa. Ela estava linda, como sempre. Bruno estava com uma camiseta branca e um casaco azul marinho por cima, uma calça jeans preta e vans branco. Maravilhoso e estiloso.

É claro que me foquei no senhor “finjo que não ligo pra aparência porque sou sexy de qualquer jeito”, vulgo Gabriel. Cheguei a suspirar de tão lindo que ele estava, usando uma camiseta preta do Oasis, calça da mesma cor, um Nike branco nos pés e uma touca azul. Eu acho que se ele aparecesse de moletom e chinelo, eu ainda ficaria deslumbrada, mas ele estava incrivelmente lindo. E sexy. Esse cara não é desse mundo, não é possível.

Eles atravessaram a rua e meus olhos seguiram Gabriel que estava rindo. É engraçado como ele parece ter um jeito só dele até mesmo para segurar a garrafinha de cerveja. Pra andar. Pra rir. Pra tudo. Um jeito Gabriel de ser que funciona como um magnetismo, você se sente atraída sem nem perceber. Ás vezes tão atraída que vira repulsa, mas pelo pensamento de se sentir tão vulnerável.

Eles não seguiram para o final da fila como eu imaginei que fariam, seguiram para o começo, onde pararam em frente à entrada e ficaram conversando. Continuei os observando e torci para que meus amigos não percebessem o que eu estava fazendo. A maioria das pessoas que passavam por ali os cumprimentava, a grande maioria mulheres e a grande maioria dava mais atenção ao Gabriel. Pelo visto ele é mesmo popular e pelo visto cafajeste também, porque só isso explica esse tanto de mulher que ele conhece.

– Não é bancando a antissocial que vamos continuar próximos. – disse uma voz atrás de mim. Cheguei a pular de susto e depois olhei para ver quem era. Vitor.

– Ahn? – perguntei sem entender, dando o último gole em minha cerveja, então joguei a garrafinha no chão.

– Nosso grupo ta cada vez mais afastado e não é bancando a antissocial quando sairmos, que você vai colaborar. – explicou Vitor.

– Tanto faz, vocês já arrumaram alguém pra me substituir mesmo. – rebati.

– Sem dramas, Isabelle. Ela pelo menos se esforça para se integrar no grupo.

– Já disse, tanto faz, se estão incomodados simplesmente me ignorem. – respondi e sai da fila, indo em direção a um senhor vendendo bebidas. Ás vezes eu ajo estupidamente e sei disso, como agora, em que Vitor só estava pedindo que eu interagisse. Mas meu orgulho é muito maior que eu e no momento, também senti que se eu interagisse ou não, não faria diferença alguma.

Cheguei até o tal senhor e de alcoólico ele tinha cerveja ou ice. Pedi outra garrafinha de Heineken, porque apesar de ice ser melhor, eu ainda tenho uma dignidade a manter. Galera que bebe ice é muito zoada pelo resto. Paguei R$3,80 em 355ml de uma coisa que não gosto, fiquei frustrada. Dei um gole na bebida enquanto o cara pegava meu troco e depois guardei o dinheiro de volta em meu bolso. Quando estava saindo dali, ouvi alguém gritar meu nome e olhei para o lado, então avistei Carol acenando e caminhei lentamente até eles.

– Oi pessoal – cumprimentei generalizando, assim que me aproximei. Não queria cumprimentar um por um, para não ser obrigada a cumprimentar diretamente o Gabriel.

– E ai, loira – respondeu Bruno.

– Não sabia que você vinha. – disse Carol me dando um abraço.

– Vim com meus amigos. – respondi assim que nos soltamos e apontei para eles. – Mas to pensando em ir embora.

– Por que? – perguntou Gustavo.

– To irritada, estressada e um caralho de coisas.

– Com o que? – Gustavo tornou a perguntar.

– Justamente com eles. – respondi e eles riram. – E com outras pessoas também. – completei mandando a indireta para Gabriel, que com certeza percebeu.

– Então ta tudo resolvido. – disse Bruno colocando o braço por cima do meu ombro. – Agora você ta com a gente.

– Não, eu realmente acho melhor ir embora. – respondi.

– Gabriel – gritou um dos seguranças, nos chamando a atenção. – Nós vamos abrir. – anunciou.

– Vamos, pessoal. – chamou Gabriel – E arraste ela, Bruno. Você não vai embora. – ele afirmou olhando diretamente para mim.

Bruno me guiou até a entrada do pub e só então percebi o que estava acontecendo, estávamos entrando antes que todo mundo. Gabriel cumprimentou o tal segurança como se eles fossem amigos há anos e então o cara se sentou de frente o balcão da entrada, onde controla a entrada do público. Como? Ao chegar na entrada, um segurança analisa sua identidade e depois te manda para o balcão, ai esse segundo segurança pega seus dados e te entrega um cartão, que é vermelho se você for menor de idade e preto, se maior. O cartão vermelho é bloqueado para consumo de bebidas alcoólicas.

Gabriel nem apresentou documento para o segurança e ele já entregou um cartão preto para ele, mas o mesmo continuou parado ao lado do balcão. Em seguida, Gustavo e Carol também cumprimentaram o segurança e aconteceu a mesma coisa, nada de documento, mas receberam o cartão preto. Então chegou a minha vez e a de Bruno, que não me soltou.

– E ai, Pedrão. – cumprimentou Bruno.

– Fala, Bruno. – disse o cara que descobri chamar Pedro e então olhou para mim. – Mina nova?

– Não, amiga nova. – respondeu Gabriel antes que Bruno dissesse algo. – E é naquele esquema, Pedrão.

– Você me quebra, Gabriel. – respondeu o cara rindo.

– Amigo é amigo, filho da puta é filho da puta.Vou até deixar umas cervejas pagas pra você lá no bar. – disse Gabriel e o segurança apenas balançou a cabeça negativamente ainda rindo.

– Você já tem cadastro aqui? – o segurança perguntou para mim.

– Sim. — respondi.

Ele perguntou meu telefone, verificou meu cadastro no computador e eu estava esperando ele dizer o de sempre: "Isabelle, todo menor de idade tem o cartão bloqueado para consumo de bebidas alcoólicas e caso seja pego bebendo, será retirado do estabelecimento", mas ele não disse. Simplesmente digitou algo no computador, pegou um cartão preto e me entregou sorrindo. Peguei o cartão sem entender nada e Bruno se despediu do segurança, então entramos. O segurança deveria ter me entregado o cartão vermelho, não o preto. E ele deveria ter me dado o sermão que dá em todos os menores de idade, mas não deu.

O pub não é grande e nem um desses lugares que te deixam de boca aberta. Na verdade é simples e aconchegante, o tipo de lugar que te faz sentir no seu quarto, quando tudo que você quer é ouvir música no volume máximo. As paredes são decoradas com pôsteres, discos e frases de renomados artistas do rock. Tem um palco no fundo, onde as bandas se apresentam. Apenas um bar e os banheiros. No segundo andar tem mesas, uma parte aberta que é o fumódromo, mais um bar e mais banheiros. Eu quase nunca fico no segundo andar, porque não fumo e sempre vou para assistir aos shows, não sentar e ficar conversando.

Fomos direto para o bar, onde o pessoal também cumprimentou os garçons. Eles conhecem todo mundo? Parece que sim. Eles pediram algo para beber e eu simplesmente me encostei de costas no balcão e me foquei na música que estava tocando, tentando reconhecê-la. “Hammer to fall” do Queen.

– Conheço muita gente nessa cidade. Principalmente seguranças de pubs e boates. — disse Gabriel parando ao meu lado.

– Foi por sua causa que ele me deu o cartão preto? – perguntei.

– Exatamente. – ele respondeu sorrindo. Agora tudo faz sentido. – E ele alterou sua idade no sistema, ou seja, sempre que você vier, vai poder beber livremente.

– Ah.

– De nada. – ele disse me encarando.

– Nunca te pedi favor. – respondi o encarando de volta e me virei para o bar, onde chamei o garçom e pedi uma caipirinha. Percebi que Gabriel ia rebater, mas Carol chamou a atenção de todos para ela.

– Posso pedir uma coisa? — perguntou Carol. Todos nós assentimos. — Vamos nos divertir essa noite? Divertir mesmo, como se não houvesse o dia de amanhã para termos ressaca moral.

– Tô dentro! — disse Bruno se sentando no balcão.

– E quando é que eu não me divirto como se não houvesse o amanhã? — perguntou Gabriel sorrindo e o pessoal riu.

– Mas vocês sabem que vai haver o amanhã, né? – perguntou Gustavo. — Logo, terá a ressaca moral, que é pior do que qualquer outra.

– Não se a gente beber o suficiente pra não se lembrar depois. Se eu não lembro, eu não fiz. – respondi e eles riram.

– Mas qual a graça de beber pra não lembrar? Tem mesmo é que beber, fazer muita coisa louca e morrer de vergonha depois, porque essas são as melhores histórias pra contar. – disse Bruno. – E pra isso, eu sugiro uma rodada de tequila.

– Tudo bem, eu topo. – concordei.

– Essa noite vai ser louca. – afirmou Bruno e chamou o garçom, pra quem pediu cinco doses de tequila. Eu estava a fim de beber, mas não estava muito a fim de virar tequila, porém, se a intenção é ficar bêbados, não existe opção melhor.

– A propósito, hoje é cover do que? – perguntei.

– Clássicos do rock. – respondeu Gustavo. – Oasis, Beatles, Rolling Stones, Queen, Pink Floyd, Guns e outros. Esse lugar vai lotar.

Eu olhei para trás e percebi que já havia entrado bastante gente, aposto que vai lotar mesmo. O garçom trouxe nossas doses e entregamos o cartão para que ele computasse os valores, mas antes mesmo do cara sair de lá, Carol ordenou que ele computasse duas em cada e pediu que ele trouxesse mais uma rodada. Sendo que a gente nem havia bebido a primeira. Isso não vai prestar.

– Preparados? – perguntou Carol e antes dela terminar de falar, Bruno virou a dose, sem sal, limão, nem nada. – Bruno, era pra virarmos juntos. – ela reclamou.

– Foi mal, eu não sabia. – ele respondeu rindo e ela apenas bufou. – A gente faz isso na próxima rodada.

– Ta bom. – ela disse visivelmente contrariada.

Nós viramos a primeira dose e eu fiz careta ao sentir o gosto da tequila descendo pela minha garganta. Só uma coisa dessas pode fazer o gosto de um limão, se tornar bom. Quando o garçom trouxe a segunda rodada e entregou nossos cartões, deu até desanimo, eu não queria virar mais uma, mas me esforcei por Carol. Nós viramos a segunda dose todos juntos e dessa vez sim, Carol ficou satisfeita e feliz.

– Vamos pedir mais uma rodada? – pediu Carol animada. Não, alguém diz que não, por favor.

– Amor, que tal não gastarmos todo o nosso dinheiro em tequila no começo da festa? – sugeriu Gustavo. Obrigada!

– Mas eu quero estar bêbada quando o show começar. – argumentou Carol. – Nada melhor que assistir a um show de rock totalmente bêbada.

– Desde que seja apenas um cover num pub qualquer, porque imagina ir no show dos teus ídolos e depois não se lembrar de nada por estar bêbado. – rebateu Gabriel.

– Eu acho que chorava em posição fetal. – disse e eles riram.

O garçom apareceu trazendo a caipirinha que eu pedi quando cheguei e até me assustei, nem me lembrava de tê-la pedido. Ele pediu desculpas pela demora e disse que foi porque imaginou que eu fosse beber as doses com meus amigos primeiro, respondi que não tinha problema. Me sentei em um banco de frente ao balcão e fiquei encarando meu copo enquanto o pessoal conversava.

– Vai ficar grilada comigo até quando? – perguntou Gabriel se encostando no balcão, ao meu lado.

– Não sei. – respondi sem olhá-lo.

– Foi mal, cara. – desculpou-se Gabriel. — Eu só não queria dizer que tava num bar, vai que você queria me chamar pra algo... Provavelmente desistiria se eu dissesse que estava.

– Tudo bem. – respondi. Não pareci muito convincente e sei que Gabriel percebeu, mas é que eu realmente ainda estava chateada. Só que não tem motivos pra eu continuar chateada com isso, então logo passa.

Gabriel puxou um banco e também se sentou, estava segurando uma garrafinha de Heineken. Permanecemos em silêncio e começou a tocar uma música que gosto muito, “Snow” do Red Hot Chili Peppers.

– Qual sua banda preferida? – perguntei olhando para Gabriel. Ele sorriu e deu um gole em sua cerveja, então me olhou com a sobrancelha arqueada.

– Você me diria sua banda preferida?

– Claro que sim. – respondi. — Por que não?

– Você me contaria seus segredos mais secretos? Seus pensamentos mais íntimos? E seus sentimentos mais profundos? – ele indagou em um tom irônico que não compreendi o motivo.

– Acho que não.

– Então você não me diria qual sua banda preferida. – ele respondeu indiferente. Continuei a encará-lo tentando raciocinar sobre o que ele havia dito e após alguns minutos ele riu e me olhou. – Sua banda preferida diz tudo sobre você, Isa. – explicou. – O estilo musical, as letras das músicas, tudo isso, diz muito mais sobre você do que pode imaginar. Expõe sua personalidade, quem você é, quais são seus sonhos. É exatamente o mesmo que contar seus segredos mais secretos, seus pensamentos mais íntimos e seus sentimentos mais profundos.

– Uau. – foi tudo que eu consegui dizer e ele sorriu convencido. – Acho que preciso ouvir mais Oasis para descobrir mais sobre você. – afirmei.

– Quem disse que minha banda preferida é Oasis? – ele rebateu.

– Quem disse que não?

– Morra sem saber. – respondeu Gabriel me fazendo rir.

– Com medo de que eu descubra quem você realmente é, Fornazier? Ou apavorado por estar em desvantagem? Pois você não faz ideia de qual é minha banda preferida? – perguntei em um tom de superioridade.

– Eu deveria te lembrar de que eu já vi a playlist do seu celular. E tudo indica que sua banda preferida seja Coldplay. – ele afirmou. – Quem está em desvantagem, Nemitz?

– Mas que saco, você é insuportável! – respondi.

– É, acho que é mesmo Coldplay. – disse Gabriel rindo. – Interessante.

– Agora que você sabe, esse é o momento em que você me diz se a sua é Oasis ou não.

– Por que eu faria isso? – ele perguntou e eu o fuzilei com o olhar, mas tudo que recebi como resposta foi uma alta gargalhada.

– Eu te odeio, Gabriel. – afirmei.

Nós continuamos bebendo e conversando sobre futilidades, até que Bruno surgiu do nada e eles começaram um papo que eu preferi não me intrometer. O assunto era basicamente “Tem tanta mulher gostosa aqui, que eu acho que morri e fui pro céu”, palavras do próprio Bruno. Eu nem tinha percebido que ele foi dar uma volta, mas aparentemente ele foi e apenas quando reapareceu que resolvi olhar pra trás, percebendo que o pub já estava cheio pra caralho. Já devia ter passado bastante tempo desde que chegamos.

Pedi outra caipirinha para o garçom e comecei a ficar preocupada quando percebi que já é minha quarta caipirinha. Primeiro porque percebi que estou bebendo rápido demais, depois com a quantidade de dinheiro que trouxe.

– Vamos dar uma volta. – ordenou Bruno me fazendo levantar do banco. Nem contestei, mas percebi que já estava um pouco tonta, mesmo assim, não abandonei meu precioso copo.

Começamos a andar pelo lugar e eu avistei meus amigos num canto conversando, Vitor também me viu e fez cara de desaprovação. Eu poderia ter me arrependido, mas vi a Novata abraçada com Pedro e fiquei com muito mais raiva do que estava antes. Quero mais é que vai todo mundo tomar no cu.

– Ta vendo aquela guria ali? – perguntou Bruno me despertando de meus pensamentos. Olhei na direção que ele estava apontando e vi uma loira usando um vestido bem curto.

– A loira?

– Essa mesmo. – ele respondeu. – Eu já peguei, o Gabriel já pegou, o Caio já pegou e a cidade inteira. Mais rodada que bolsinha de puta.

– Ou seja, mais rodada que a própria bolsinha. – disse e ele riu.

Andamos mais um pouco e ele me apontou uma outra garota, dessa vez era uma morena com as pontas do cabelo pintadas de loiro. Tão bonita quanto a loira.

– Comi no banheiro da casa do Caio. – contou Bruno. – Péssima no sexo oral. – completou e eu ri muito. – Ah, e a amiga dela... – disse apontando para uma guria de cabelos castanhos e cacheados. – Comi também, na mesma noite.

– Puta que pariu, Bruno.

Ele me guiava pelo meio da multidão, observando todo mundo ao seu redor e secando descaradamente algumas gurias, até que me parou e apontou outra garota, essa por sua vez era ruiva e pra mim, a mais bonita das que ele mostrou.

– Peguei, comi, repeti e recomendei. – disse Bruno sobre a garota e eu gargalhei.

Continuando nossa tour e ele me apontou várias outras garotas. Loira, morena, ruiva, alta, baixinha, todo tipo possível, o Bruno já pegou. Mas engraçado eram seus comentários sobre onde as comeu, se eram boas de cama ou não, se o sexo oral foi bom ou não, quais posições fizeram... Ele chegou a apontar para uma guria e contar que ela pediu pra eles fazerem sexo anal, não foi nem ele, foi ela. Eu fiquei uma meia hora rindo sem parar.

Eu nem sabia que Bruno já pegou tanta mulher assim e cheguei a pensar que talvez não haja mais mulher pra ele pegar nessa cidade, mas ele explicou que a maioria da galera ali era da escola e que ele já pegou muita guria da escola. Só que também tinha bastante garota que não era da escola e ele também pegou, então ele simplesmente disse: “Eu sou popular, gostoso e bom de cama, fazer o que?”

Durante essa tour nós fomos no bar duas vezes para pegarmos mais bebida, ou seja, eu estava na sexta caipirinha, não esquecendo das duas tequilas... E bem animadinha. Mas já fazia um tempo que minha última havia acabado e eu já tava começando a ficar frustrada, até que Bruno me apontou algo que eu não queria ter visto. Uma garota loira, conversando com o Gabriel. Ela era muito bonita, o tipo de garota que um cara para pra reparar a bunda, cuja por acaso, estava quase de fora devido ao tamanho da sua saia.

– Essa eu nunca peguei, mas tenho muita vontade – disse Bruno.

– Nunca pegou por quê?

– É fodinha fixa do Gabriel e sabe como é, caras respeitam mais fodinhas fixas dos amigos do que namoradas. – ele explicou e senti raiva pra caralho.

Uma menina apareceu e cumprimentou Bruno, então ele começou a conversar com ela e até agradeci, eu precisava de um tempo pra controlar minha raiva, que estava tanta que eu nem entendi. Eu não conseguia desviar os olhos do casalsinho que estava conversando animadamente, rindo e tudo mais. Fodinha fixa... Eu quero minha mão fixada na cara dele. E dela também.

Bruno despediu da garota e se virou para mim, mas antes mesmo que ele pudesse dizer qualquer coisa, o agarrei pela camiseta e olhei no fundo dos seus olhos, com nossos rostos bem próximos.

– Bruno, me embebede. – ordenei.

– Mas você já está bêbada. – ele rebateu.

– Não, eu preciso beber até sair daqui de quatro.

– Eu adoraria que você ficasse de quatro na minha cama.

– Atenda ao meu desejo que com certeza o seu também será atendido. – disse séria.

No mesmo instante um sorriso malicioso surgiu em seu rosto e ele respondeu:

– Você sabe como convencer um cara a te obedecer.

Dito isso ele nem sequer me deixou responder, apenas tirou minhas mãos de sua camiseta e me puxou em direção ao bar. Ele pediu algo que não consegui ouvir e quando o garçom sumiu, se virou em minha direção.

– Vai ser por minha conta, mas só te conto o que é, depois que você beber.

– Tanto faz, eu bebo qualquer merda que tenha álcool. – confessei.

–Vixe, o que rolou, loira?

– Acredite, tu não vai querer mina problemática desabafando. – respondi.

O garçom voltou trazendo dois copos de dose com um líquido verde. Nunca tinha visto bebida dessa cor. Bruno pegou um dos copos para si e me entregou o outro.

– É forte. – ele avisou. – Mas agora não te deixo mais desistir.

– Nem pretendia. – rebati.

– Vira de uma vez e depois respira fundo. – aconselhou e foi o que eu fiz.

Virei a bebida e depois coloquei o copo em cima do balcão, enquanto sentia o líquido descer queimando pela minha garganta. Era realmente muito forte e eu fiz caretas sem receio.

– Que porra é essa? – perguntei ainda de olhos fechados e me acostumando com o gosto em minha boca.

– Absinto. – ele respondeu. – Ou carinhosamente conhecida por fadinha verde.

Abri os olhos e vi que ele também tinha virado o copo.

– Vai mais uma? – perguntou sorrindo.

Eu pensei um pouco e acabei aceitando, então ele pediu mais duas doses, que viramos juntos. Eu não sabia qual o teor alcoólico daquela coisa, mas foi o que faltava para eu ficar completamente bêbada. Eu e Bruno saímos do bar, carregando mais bebida, é claro, e seguimos na direção de dois pufes desocupados. Me joguei sobre um e ele se jogou sobre o outro ao meu lado. Tombei a cabeça para trás e fiquei curtindo a música que estava tocando.

– Ta vendo aquela gostosa ali, usando um short que parece uma calcinha e uma blusa tão decotada que era mais fácil ela já vir mostrando os peitos? – perguntou Bruno apontando descaradamente para a tal garota. Se eu fosse um homem realmente a definiria como gostosa. Branquinha dos cabelos pretos lisos e longos, rostinho de patricinha, usando batom rosa e unhas da mesma cor. Tudo que ele disse sobre suas vestimentas também eram verdade.

– Sim. — respondi.

– Geme pior que atriz de filme pornô e mesmo assim aturei os gemidos dela por quase seis meses. – ele disse e eu obviamente, ri muito.

– Vocês ficavam? – perguntei olhando para ele.

– Namoramos. – respondeu Bruno e depois deu um longo gole em sua cerveja.

– Puta que pariu. – gritei. – Você já teve namorada, Bruno? Você namorou a piriguete ali?

– Acredite se quiser. E foi o máximo de tempo que fiquei num relacionamento.

– Tu gostava dela? – perguntei curiosa. Parece o tipo de pergunta idiota a se fazer, mas hoje em dia, nem sempre um casal que ta junto se gosta de verdade. Não entendo isso.

– Ah cara, a gente brigava por coisa demais, ta ligado? Porque ela sabe que é gostosa, tem o ego grande, é orgulhosa e gosta de pisar em homem. Mas eu também sei que sou gostoso, eu também tenho o ego grande, também sou orgulhoso e pisar em mulher é minha especialidade. – ele afirmou e eu ri. – Então tu pode imaginar como era difícil. Sem contar que ela sabe ser irritante e é ciumenta pra caralho. Mas no fim eu curtia sair pra tomar uma cerveja com ela, falar merda e depois ter uma fodinha garantida. Em geral dava pra esquecer os problemas e isso é o que prova que tu gosta de alguém de verdade. Então eu gostava sim, mas acabou né e agora é meu dever sair por ai falando que o boquete dela não é bom.

Eu ri muito. Aliás, acho que não dá pra ficar sério em uma conversa com o Bruno.

– E não é mesmo? – perguntei pra descontrair.

– Muito pelo contrário, essa daí nasceu pra chupar. – ele respondeu e eu gargalhei.

– O Gustavo e a Carol estão juntos há quanto tempo? – perguntei aproveitando o assunto de relacionamentos.

– Vai fazer um ano mês que vem.

– Sério? Eu achava que era mais. Eles são aquele tipo de casal...

– Irritante. – interrompeu Bruno.

– Ah, eles são fofos.

– Mas parecem até que casaram. Isso é irritante. São meus melhores amigos, mas... Irritantes. E mano, antes de tudo acontecer, eu nem imaginava que um dia eles pudessem ter um relacionamento.

– Por que? – perguntei. Difícil não imaginar os dois juntos.

– O Gustavo era o tipo de cara tímido sabe, então sempre teve dificuldade pra chegar em mina, só chegava quando realmente se interessava por uma. E ele é bonitinho, fofo, nunca levava um fora. Já a Carol nunca foi nem tímida, nem extrovertida, ela é normal. Tava ali na dela, curtindo a vida dela, pegava um ou outro, chegou a ter rolo com alguns, já teve outro namorado. Mas éramos melhores amigos e eles nunca mostraram interesse um pelo outro, até porque a Carol era fodinha garantida do Gabriel.

– O que? – perguntei literalmente gritando. Bruno riu enquanto olhava minha cara de espanto.

– Sim, loira, eles se pegavam. Foi o Gabriel que tirou a virgindade dela. – contou Bruno. Eu estava tão chocada que não consegui nem responder. – De início eles eram só amigos mesmo, amigos pra caralho, de verdade. Ai um dia estávamos brincando de um jogo e um cara desafio os dois a se pegarem. Rolou. Depois um dia eles ficaram bêbados e rolou de novo. Depois de novo. Depois eles transaram. Depois de novo. E ai virou uma amizade colorida. – explicou.

– E quando entrou o Gustavo nessa história?

– Eles chegaram à conclusão de que era melhor parar com isso antes que afetasse a amizade, ai eles pararam. Carol conheceu um cara que magoou ela, então nós saímos pra beber, ela bêbada começou a chorar e desabafar, Gustavo serviu de ombro amigo e de repente eles se beijaram. Ele levou ela pra casa nessa noite, ela queria algo mais e acredite se quiser, ele recusou a transa alegando que ela estava bêbada, tinha medo dela estar agindo assim somente pelo efeito do álcool e etc. É claro que ela achou isso a porra da coisa mais fofa do mundo. – ele disse revirando os olhos. – Também é claro que o clima ficou constrangedor entre os dois. Mas ai na festa seguinte rolou de novo e depois na próxima e na outra e ta rolando até hoje.

– A vida é engraçada. – foi tudo que eu consegui dizer.

– É mesmo, Gabriel tirou o cabaço da namorada do melhor amigo dele. – disse Bruno rindo e eu acompanhei.

Quando paramos de rir e o silêncio preencheu o ambiente, precisei criar coragem para fazer a pergunta que queria. Já estávamos no assunto, mas mesmo assim me parecia estranho perguntar.

– E o Gabriel? Já teve namorada?

– Nunca. – ele respondeu indiferente. – Não sei como ele consegue a proeza de se envolver com um milhão de garotas e não se apaixonar.

– Mas ele nunca se apaixonou? – perguntei curiosa.

– Ah cara, esse assunto é complicado, acho que ai já é mais fácil tu perguntar diretamente pra ele. Gabriel tem uma vida conturbada, a gente nem pergunta mais, só respeita. Quando ele quer falar, a gente ouve. Quando ele não quer, a gente toma umas.

– Por que todo mundo só fala do Gabriel como se ele fosse um grande mistério?

– Porque ele é e essa é a chave de tudo. Ser um mistério faz parte das consequências de viver a vida perturbada dele e é o que mantém ele vivendo do jeito que vive, mas enfim.

Eu não preciso nem dizer que tinham um milhão de perguntas na minha cabeça, mas Bruno não parecia disposto a respondê-las, ou entregar o melhor amigo, então achei melhor ficar calada. Mas o fato de o Gabriel ser um enigma ambulante está me irritando cada vez mais.

– E tu, já namorou? – perguntou Bruno.

– Não, só rolo.

– Garota esperta, continue assim. – disse e eu sorri, mas ainda estava pensando em tudo que ele disse sobre o Gabriel. Ultimamente quase sempre eu estou pensando no Gabriel.

Vi um movimento no palco e percebi que cinco caras estavam sobre o mesmo, pegando seus instrumentos. Provavelmente era a banda e provavelmente o show começaria. A galera começou a ir na direção do palco e eu e Bruno fizemos o mesmo, ou eu achei que estávamos fazendo, já que Bruno não parava de andar. Descobri que ele estava procurando nossos amigos, que estavam bem próximos do palco, quase em frente.

Chegando até o pessoal, comecei a reparar nos integrantes da banda e percebi que eles eram bem bonitinhos. O vocalista era o mais lindo de todos, realmente uma gracinha. Ele pegou o microfone e começou a testá-lo, assim como o resto da banda com seus equipamentos. Quando terminaram, o vocalista apresentou a banda, ganhou a atenção do público e então começaram o show.

A banda era muito boa e os caras tinham presença de palco, o tipo de banda que tem tudo pra fazer sucesso. Eu me diverti muito durante o show e eles tocaram várias músicas que eu gosto. Também tocaram algumas que eu não conhecia, mas eu não parei de pular em momento algum. Quer dizer, exceto durante as músicas lentas, em que você grita e quase chora repensando sua vida.

Descobri que Carol é uma ótima companhia de show, nós cantamos, gritamos, pulamos, dançamos e curtimos juntas. Só não era também durante as músicas lentas, em que geralmente ela ia se agarrar com Gustavo. Mas eu tinha Bruno e como o álcool e boa música fazem milagres, me esqueci que estava com raiva do Gabriel e também curtimos o show juntos. Na verdade, acho que me toquei do quanto era ridículo eu ficar com tanta raiva quando o motivo era puro ciúme.

Começou a tocar a música mais clichê do Oasis, “Wonderwall”. Instantaneamente eu olhei para o Gabriel, que estava com um sorriso largo no rosto. O vocalista começou a cantar, então ele ergueu a garrafinha de cerveja, fechou os olhos e começou a cantar junto, enquanto balançava a cabeça. Ele pode tentar negar, desconversar, mas agora eu tenho certeza de que Oasis é sua banda preferida. Não somente por sua camiseta ou sua playlist, mas pelo tamanho do sorriso que ele abriu durante todas as músicas da banda.

Esperei a música terminar e então me aproximei dele.

– Eu já sei qual sua banda preferida. – disse – Mas será que sou mesmo capaz de descobrir quem você é lendo as entrelinhas de uma música? – perguntei e ele me olhou com um sorriso torto nos lábios.

– Talvez sim. Mas será que é essa mesmo a pergunta pra qual você ta procurando resposta?

– Você me deixa frustrada. – afirmei.

– Você me deixa frustrado. – ele rebateu e eu fiquei muda. – Por que esse interesse em tentar me entender? Ás vezes algumas perguntas, tem respostas que preferíamos não ter encontrado.

Eu me virei para frente em silêncio e encarei o palco. Senti alguém passar o braço por cima do meu ombro e eu sabia que era Gabriel. Ele deu uma risada e beijou a lateral da minha cabeça.

– Não tente bancar a psicóloga comigo, Isa. Eu aposto que você já tem seus próprios problemas, não cabe a você cuidar dos meus também.

– Mas e se você for um dos meus problemas, Gabriel? – perguntei irritada, olhando para ele.

– Eu cai fora justamente pra isso não acontecer. – ele respondeu.

– Não, você não caiu fora. – rebati me lembrando do seu jeito comigo durante todo esse tempo, desde que paramos de ficar.

– Sim, Isabelle, eu cai fora. Você não caiu. – ele respondeu dando ênfase ao “você”. Aquilo foi basicamente o mesmo que dizer: eu sei que você ainda me quer. Fechei a cara no mesmo momento e tentei me desvencilhar dele, mas o mesmo não deixou. – Esquece isso, vamos beber e se divertir. – pediu. – Até porque tem uma música que quero cantar com você.

– Qual? – perguntei curiosa.

– Na hora você vai saber. – ele respondeu.

E eu realmente soube.

Continuamos a assistir o show, até que a banda começou a tocar uma música que me era familiar, eu demorei alguns segundos para reconhecer a música. Live Forever, do Oasis. A música que eu e Gabriel cantamos no colégio, compartilhando os fones de ouvido e sem nem nos conhecermos direito. Levantei os braços e dei um grito, quando fui surpreendida por alguém que me pegou no colo e me rodou.

– Live Forever. – gritou a pessoa e eu descobri quem era. Gabriel. Comecei a rir e ele me colocou no chão, quando tudo continuou girando e eu quase cai. Isso só não aconteceu porque o próprio Gabriel me segurou enquanto ria. Não é uma ideia muito inteligente rodar alguém que está bêbada, mas achei tão engraçado que continuei rindo. – Maybe I don't really want to know how your garden grows, 'cause I just want to fly — cantou Gabriel o mais alto que conseguia.

– Lately, did you ever feel the pain? In the morning rain as it soaks it to the bone? – cantei os versos que sei de cor e então fechei os olhos.

– Maybe I just want to fly. I want to live, I don't want to die. Maybe I just want to breathe. Maybe I just don't believe Maybe you're the same as me. We see things they'll never see. You and I are gonna live forever. – cantamos juntos o refrão e eu comecei a rir. Rir de nós, da situação e de algo que eu nem soube o motivo, mas eu estava feliz e rir pareceu a melhor coisa a se fazer.

Gabriel estava cantando como se nunca mais fosse precisar de sua voz, usando todo o ar de seu pulmão, com o braços levantados e tão animado que parecia estar em um show de verdade do Oasis. Eu fiquei apenas o observando enquanto intercalava sorrisos com risadas. Então, ele abraçou minha cintura e me rodou de novo, depois segurou meu rosto com as mãos enquanto eu tentava fazer a tonteira passar e continuou cantando.

– Maybe I will never be all the things that I want to be, but now is not the time to cry, now's the time to find out why I think you're the same as me. We see things they'll never see. You and I are gonna live forever – cantou Gabriel me olhando e eu sinceramente, esqueci do mundo ao meu redor. Naquele momento eu senti como se realmente pudesse viver para sempre.

Ele me abraçou de lado e então fechei meus olhos e me deixar levar pelo momento, pela música e pela sensação de euforia. Cantei como se aquele fosse o último dia de minha vida, minha última chance de sentir a felicidade que eu estava sentindo. Uma sensação tão boa que você não é capaz de entender ou de explicar, apenas sentir. Cantei alto, como se eu tivesse uma mensagem muito importante para dizer ao mundo.

– We're gonna live forever – gritou Gabriel.

– We're gonna live forever – repeti.

Notas finais
E então... O que acharam? Eu sinceramente achei esse final muito fofo! Espero que tenham gostado e até o próximo capítulo (prometo que não demorarei)