Poltrona 19
57 Três meses
Notas iniciais
Eu sabia que todos os meus amigos estavam lá fora e que eu deveria estar com eles, mas o único lugar do mundo onde eu realmente queria estar naquele momento era exatamente ali, nos braços de Gabriel. Principalmente quando ele parecia disposto a nunca mais parar de me beijar. Bem, era o que eu queria, mas não conseguia evitar os pensamentos que invadiam minha cabeça. O que eu faria agora? Aceitaria voltar com ele? Ficaríamos juntos? Isso daria certo? Nossos amigos aceitariam isso? O que as pessoas falariam disso? Eu ficaria bem com isso? Depois de tudo? Foi como se a realidade me atingisse com tudo.
Eu acabei interrompendo nosso beijo.
— O que foi? — perguntou Gabriel parecendo preocupado.
Desviei o olhar do dele tentando ter mais racionalidade para pensar. Minha cabeça estava extremamente confusa.
— Eu acredito em tudo que li nesses papéis, Gabriel. Assim como acredito em tudo que você me disse. — comecei a dizer. — E eu também acredito de todo meu coração que você não seja uma pessoa ruim que queira machucar os outros, que queria me machucar. Mas o que você acha que deveria acontecer agora? Nós deveríamos agir como se o passado não existisse? Aparecer de mãos dadas no colégio e simplesmente ignorar todos os comentários que as pessoas vão fazer? Ignorar o que nossos amigos vão pensar disso?
— Foda-se o que as pessoas vão pensar ou falar, Isa. A gente vai deixar de viver o que queremos por causa de outras pessoas?
— É essa a questão, Gabriel. É fácil pra você falar, porque não é em você que vão jogar pedras. É em mim. Você é quem conseguiu sair por cima de tudo, mas eu? As pessoas vão mais uma vez me chamar de trouxa, rir de mim, inventar coisas sobre mim e minha vida, vão mais uma vez voltar a me olhar torto pelos corredores. E você não faz ideia de como é horrível estar num lugar assim.
— Mas você não pode dar moral pra essas pessoas. Não pode dar moral pro tipo de pessoa merda que de alguma forma tenta diminuir ou humilhar alguém. Principalmente porque você sabe que o que todo mundo diz não é verdade.
— Mas elas dizem. E elas dizem porque você fez isso, Gabriel. Não é algo que eu ou você vai conseguir apagar. E por mais que tudo que eu queria agora seja simplesmente ficar contigo como se tudo fosse simples e fácil, não é.
— E o que vamos fazer? — ele perguntou agora tão confuso quanto eu. Mas mais do que confuso, parecia chateado. — Se não for esquecendo o passado, como vamos reconstruir um futuro? Como vamos passar por cima de tudo isso? Porque é a única coisa que eu quero.
Eu respirei fundo e permaneci em silêncio ainda tentando organizar o turbilhão de pensamentos em minha cabeça. Gabriel segurou minha mão e fez com que eu olhasse para ele novamente.
— Eu faço o que você quiser pra que a gente supere isso e fique juntos. — ele insistiu.
— Então me prova, Gabriel. Prova pra mim e pra todo mundo que você não é só mais um babaca. — pedi. — Recupera minha confiança e tudo que você destruiu, porque eu preciso disso. Eu preciso da certeza de que não estou fazendo a coisa errada mais uma vez. Preciso ter certeza de que eu não to esquecendo a razão de novo. Me mostra esse Gabriel realmente disposto a lutar pela gente. Eu quero olhar pra você e saber que realmente confio em você. Dessa vez é sem mentiras e sem segredos, eu quero transparência em tudo.
— Tudo bem. Eu faço o que você quiser. — ele concordou. — Vamos pensar assim, que somos duas pessoas novas se conhecendo, porque de certa forma realmente somos. E eu prometo que vou fazer a coisa certa dessa vez.
— Não faça promessas. — o repreendi. Prometer uma coisa que se pode não cumprir, é uma coisa muito grave pra mim.
— Não, Isa, eu prometo. Eu prometo de verdade. Eu não vou te decepcionar de novo. Mesmo que a gente nunca mais fique juntos, eu vou ser a melhor pessoa que eu puder ser pra você.
Eu espero que de fato seja, porque não aguentaria outra decepção vinda de Gabriel.
— É melhor a gente voltar pra fora. — falei. Não posso esquecer que é meu aniversário e que todo mundo deve estar se perguntando onde eu estou, principalmente quando Gabriel também está sumido.
— Tudo bem. — ele concordou. — Eu posso só te entregar uma coisa antes? É um presente. Eu preferi não deixar junto com os demais.
— Ainda tem mais presente?
— É só uma coisinha simbólica. — respondeu Gabriel indo até minha escrivaninha e pegando um pequeno embrulho de presente que estava sobre ela. Fiquei indignada de não ter visto aquilo ali.
Ele entregou o embrulho em minhas mãos e eu abri apreensiva sem saber o que poderia ser. Dentro dele encontrei uma caixinha pequena de veludo que me revelou um colar rosa ouro, com um pingente de asa. Em seu centro havia uma pequena bolinha de cristal. Era muito bonito.
— Posso? — perguntou Gabriel como quem pedia permissão para pegá-lo. Eu assenti. Ele pegou o colar e logo em seguida pegou seu celular no bolso. — Acho que foi a coisa mais brega que eu já comprei em toda minha vida, mas eu já tive tanto medo de dizer essas três palavras que confesso ser libertadora a sensação de não sentir mais.
Eu não entendi o que ele quis dizer, mas não demorou muito para que entendesse. Porque de repente ele acendeu a lanterna do celular, a posicionou abaixo da bolinha de cristal do pingente e eu vi a mágica acontecer. Lá estava centenas de frases refletidas em meu teto.
— O que tá escrito? — perguntei curiosa.
— Eu te amo em cem línguas diferentes. — ele respondeu visivelmente envergonhado.
Sério, Gabriel? Sério? Ele prepara uma festa de aniversário pra mim, me compra um colar escrito eu te amo e espera que eu tenha racionalidade pra seguir a vida depois? Vai tomar no cu.
— Eu te odeio. — foi tudo que consegui dizer e ele riu.
— Espero que esse tenha sido seu jeito de dizer que gostou.
A resposta involuntária do meu corpo foi me esticar até ele e tocar seus lábios com os meus levemente. Era pra ser apenas um selinho, mas não percebi quem exatamente acabou aprofundando o beijo. Talvez tenha sido os dois. Mas felizmente, mais uma vez eu recobrei consciência e interrompi o beijo.
— A Leticia me contou que foi você que pensou e preparou toda essa surpresa e eu to muito feliz com tudo, de verdade. Muito obrigada, Gabriel. — agradeci. — Mas agora é realmente melhor você ir.
— Tudo bem. — concordou Gabriel. Ele deu um beijo em minha testa e saiu do quarto para voltar à varanda.
Antes de também voltar para fora uma coisa que fiz questão de fazer foi colocar meu mais novo presente no pescoço. Era de fato o presente mais brega que eu já havia ganhado, mas eu estava apaixonada por ele. Talvez seja porque no fundo a gente adora uma coisinha brega e clichê.
— Foto! — foi o que eu gritei quando reapareci na varanda. — Temos que tirar uma foto enquanto tá todo mundo aqui.
— Você fala isso agora que já tá todo mundo com cara de bêbado? — reclamou Leticia.
— É bom que ela transmite nossa essência. — respondi arrancando uma risada de todo mundo.
Se alguém percebeu que eu havia sumido por um tempo não falou nada. Todos apenas se levantaram e nós realmente nos juntamos para a tentativa de uma foto decente, que por acaso demorou muito para sair. Tirar foto em turma grande, usando o temporizador do celular, não é uma missão fácil. Principalmente quando de fato já estão todos bêbados. Sempre saia um falando, ou mexendo, ou falando e mexendo. Foram umas trinta tentativas até conseguirmos acertar. E eu resolvi postá-la logo em seguida. Fazia muito tempo que eu não atualizava minhas redes sociais e considerando que todo mundo é obcecado por isso nos tempos atuais, parecia até que eu não existia mais.
Confesso que dei uma travada quando percebi que claramente Gabriel estava nas fotos. É assustador pensar que as pessoas do colégio vão ver e é mais assustador ainda pensar no quanto vão comentar. Mas se tem uma coisa que ele tem razão, é que pessoas ruins são ruins nós dando motivos a elas ou não. E eu não vou deixar de viver minha vida com medo de comentários negativos. Acho que já amadureci o suficiente pra saber que o que importa é o que as pessoas que me amam pensam.
Bem, mas agora você deve estar se perguntando porque eu também não optei por ignorar todas essas coisas quando se trata de ficar com ele. Mas a questão é que aqui existem duas situações diferentes: existe o aceitar Gabriel como meu amigo e como alguém que faz parte da minha vida e existe o aceitar um relacionamento com ele. Eu já não vejo problemas para a primeira opção, mas para a segunda ainda não estou preparada. E a verdade é que nessa segunda não se trata sequer do que outras pessoas podem dizer ou pensar, se trata de eu estar preparada pra encarar de peito erguido. Eu preciso que ele me dê segurança e confiança para fazer isso.
Uma pessoa que também estava na foto e me deixou pensativa foi Vinícius. Eu estava realmente feliz por ele estar ali. Não somente ele, Lucas e Paola também. Eles são o grupinho mais deslocado e poderiam ter optado por simplesmente não vir, mas vieram. Principalmente quando tem pouco tempo que eu e Vinícius paramos de ficar de vez e quem organizou toda minha festa é outro cara com quem eu também ficava. Tenho certeza que não foi muito confortável para ele essa situação.
Por isso, logo depois de terminar de postar a foto, corri até ele. Queria dar mais atenção a ele, Lucas e Paola.
— Gente, vocês estão se divertindo? — questionei me sentando perto dos três. — Digam que sim, porque estou muito feliz por vocês estarem aqui. Isso foi muito importante pra mim.
— Nem estamos. — brincou Vinícius. — Isso aqui tá chato pra caramba. A gente queria ter ido embora umas 3 horas atrás, mas sabe como é né…
— Idiota. — o xinguei enquanto ria.
— É claro que estamos, Isa. Seus amigos são legais. Por que a gente não saiu mais vezes com a Leticia?
— Ela é incrível, não é?
Leticia estava lá o tempo todo conversando com eles garantindo que eles não se sentissem excluídos, como eu havia pedido no começo da festa. E aparentemente eles tinham se dado muito bem.
Eu continuei ali com eles por mais um bom tempo, mas depois de certo momento estava todo mundo praticamente em uma roda só conversando e rindo juntos dos mais diversos assuntos. Isso, até Carol nos lembrar de um pequeno detalhe.
— Ninguém aqui vai conseguir ir pra aula amanhã, né? — perguntou Carol.
— Aula? Amanhã não é domingo? — brincou Bruno, materializando meus pensamentos. Eu nem sequer estava me lembrando que amanhã ainda tinha que ir pro colégio. Estava jurando que era sexta ou sábado.
— Eu não apareço lá nem fodendo. — disse Gustavo.
— Pois bem, se até o Gustavo não vai, não tem porque a gente ir. Eu declaro oficialmente que amanhã é feriado. — decretou Bruno. E eu que não reclamaria.
Foi assim que a gente perdeu o limite e amanhecemos bebendo. As últimas pessoas a irem embora foram Gabriel e Bruno. Leticia e Amanda acabaram resolvendo dormir em minha casa mesmo. No dia seguinte só acordei com a voz estridente de minha mãe e a luz do sol cegando meus olhos.
— As bonitas podem tratar de ir almoçar porque já é meio dia e comida fria é horrível. — dizia minha mãe de algum lugar do quarto que não consegui identificar, pois meus olhos se negavam a abrir e encarar a claridade. — Além disso, levando em consideração que esse quarto está cheirando a álcool, o estômago de vocês deve estar implorando por comida.
— E água gelada. — ouvi Amanda resmungar.
Apenas alguns longos segundos depois quando meus olhos finalmente se abriram, enxerguei minha mãe abrindo a janela do quarto. É claro que tinha sido ela a abrir as cortinas.
— Você não deu folga pra Elisa? — perguntei. — Ela foi embora tarde ontem.
— Até dei, mas ela se negou a ficar em casa, porque disse que vocês acordariam com fome. Então levanta que ela fez panqueca, porque sabe que vocês amam.
Elisa é um anjo na minha vida mesmo.
Assim que minha mãe saiu do quarto levantamos parecendo três zumbis. Quando fui escovar o dente e olhei meu reflexo no espelho percebi o quão verdadeiramente destruída eu estava. Esse negócio de beber em casa quietinho não é uma boa ideia. Você não vê a hora passar, não vê o quanto bebeu, nem percebe que está ficando bêbada. De repente só não dá conta mais de falar, andar ou fazer qualquer outra coisa.
Foi só sair do quarto que senti um cheiro maravilhoso de comida. Apesar da ressaca confesso que meu estômago roncou. Eu e as meninas cumprimentamos Elisa e fomos para a mesa onde o almoço já estava disposto. Quando percebi que além de ter panqueca, uma das minhas comidas preferidas, Elisa também tinha feito suco de laranja da fruta para nós, quase chorei de emoção.
— Puta que pariu, nunca mais eu bebo! — resmunguei enquanto me servia.
— Alguém anotou a placa do caminhão que me atropelou? — brincou Leticia.
— Pensem pelo lado positivo, a gente poderia estar no colégio agora e felizmente não estamos. — disse Amanda. Isso era algo pelo o que eu tinha mesmo que ser grata, apesar de que nem Deus teria conseguido me acordar às 6h da manhã pra ir pra aula. Até porque 6h da manhã eu ainda não tinha sequer ido dormir
— Deveríamos estar, levando em consideração que o ENEM é em duas semanas. — lembrou Leticia.
Ao ouvi-la dizer isso percebi que esse ano me afastou tanto de Amanda que não sei nem quais são seus planos pós-colégio. Se ela vai continuar na cidade, se pretende se mudar, o que pretende fazer. O que me fez perceber que eu e Leticia não conversamos com ela sobre essa coisa de estarmos planejando nos mudar juntas. Por um breve instante me senti uma péssima amiga.
— Falando nisso, como estão seus planos pra faculdade, Amanda? — perguntei.
— Quais planos? — ela brincou.
— Não quer mesmo se mudar com a gente? — perguntou Leticia. — Seria tão divertido!
Ah sim. Leticia comentou. É por isso que ela é uma amiga mil vezes melhor que eu.
— Eu tenho pensado em tirar um ano pra viajar. — contou Amanda. — Fazer um intercâmbio e aprender uma outra língua ou fazer um trabalho voluntário. Alguma coisa que me dê um tempo antes de realmente decidir o que eu vou querer fazer pro resto da vida, porque tenho estado muito confusa com essas questões. Não é novidade pra ninguém que eu quero fazer Moda, mas tenho parado pra pensar sobre o mercado de trabalho e se essa é mesmo uma decisão boa, se eu não preciso ser mais realista, colocar meus pés no chão e escolher uma “profissão de verdade”. Tem batido aquele medo de fazer a coisa errada.
— Eu acho uma boa ideia. De verdade. — a apoiei. Se ela tem condições pra isso, o que infelizmente muitos não tem, não vejo por quê ela não agarrar essa oportunidade. — A gente tem que parar com essa mania de achar que está numa corrida contra o tempo. Se você sente que não tá preparada pra tomar essa decisão agora e você tem a oportunidade de fazer algo que te permita se entender melhor e pensar melhor no que você quer, pode ser uma boa ideia. Você pode, por exemplo, fazer um curso de moda mesmo, ter contato com essa parte mais prática e com pessoas do mercado que possam te aconselhar.
— Sim, foi o que a minha mãe me disse quando conversei com ela. Ela acha que eu ter contato com gente que já trabalhou com isso pode esclarecer melhor minhas ideias, porque ela acha que talvez seria melhor eu fazer algum curso como Jornalismo e me especializar em Jornalismo de Moda, sabe? Algo que me dê um leque maior de possibilidades no futuro.
— Também é uma boa ideia. — concordou Leticia.
— Mas não se cobre demais. — me apressei em dizer. Se tem uma coisa que aprendi nesses últimos meses com toda essa pressão de faculdade que eu e as pessoas ao meu redor tem vivido, é que se cobrar demais só piora as coisas. A gente acaba desesperado por tomar decisões e nesse desespero podemos optar por coisas que nitidamente não vão nos fazer bem. — Pense que no fim das contas você tem que fazer o que te faz feliz. A gente vai passar o resto da nossa vida trabalhando, então é melhor que seja algo que nos faça minimamente bem. Se não a vida vira uma tortura.
— Obrigada pelo apoio, migas! — agradeceu Amanda.
— Mas sério, nunca mais eu bebo. — repeti tentando mudar de assunto para que Amanda não ficasse desconfortável. Imagino que tudo isso deve estar a perturbando bastante.
— E enquanto ela dizia isso, já estava planejando a próxima saída, disse o narrador. — zombou Leticia nos fazendo rir.
Nós almoçamos com calma, depois voltamos para o quarto para cada uma tomar um bom banho, estávamos precisando disso. No fim apenas ficamos jogadas em minha cama conversando. Foi quando Amanda tocou no assunto Gabriel.
— Mas agora conta pra gente, você e o Gabriel se acertaram? — ela indagou. — Ele me mandou uma mensagem agradecendo pelo que eu fiz. O que me deixou um pouco aliviada, porque eu pensei que ele fosse ficar bravo por eu ter mexido nas coisas dele, mas foi por uma boa causa.
— Eu também preciso te agradecer. — admiti.
— Eu não fiz mais que minha obrigação.
— Fez sim, Amanda, e é preciso que você saiba disso. Eu poderia nunca ter descoberto tudo aquilo, então foi muito importante pra mim. E eu sei que não tem sido fácil pra você. Não precisa nem me dizer nada, porque eu sei que não tem sido. Na verdade esse ano todo não tem sido fácil pra nenhuma de nós duas, mas se tem uma coisa que eu percebo é que a gente renasceu muito mais forte e seguras de si. Tudo isso fez com que a gente percebesse quem somos, que aprendêssemos a nos dar valor e a perceber o que queremos.
“E eu sei que você tem muitos problemas e conflitos internos, mas você descobriu que o que você quer é se orgulhar de si mesma e das suas atitudes, o que tem te transformado em uma Amanda tão mais madura e evoluída que eu me orgulho muito. Mas você precisa entender que pra ser essa Amanda você não precisa estar sempre bem e forte, ok? Porque eu percebo tudo que você tem feito por mim e Gabriel, mas eu sei que você ainda gosta dele e que é difícil. Eu sei, Amanda. Era eu no seu lugar pouco tempo atrás. E por mais que eu queria mais que tudo na minha vida que você fosse feliz, meu coração estava apertado. Então não reforce mais ainda essa armadura que você veste pra ser forte, me deixa a te ajudar passar por isso. Lembre-se que nós somos amigas e vamos fazer com que tudo seja diferente dessa vez. Chega em mim e me diz quais são os seus limites, se você não quer que a gente toque no nome dele, se até mesmo precisa de um tempo pra assimilar tudo, porque se você me pedir pra eu continuar afastada dele até você estar bem, eu juro que faço isso.”
— Não, Isabelle. — ela me interrompeu. — Essa é a última coisa que quero. Se tem uma coisa que eu percebi é que eu não gostava tanto assim de Gabriel, eu gostava mais da ideia de sentir que alguém gostava de mim. Mas eu só estava me enganando. Até porque quem tem que gostar de mim sou eu mesma e é o que você disse, eu tenho lutado pra conseguir tal proeza.
“É claro que tem sido um pouco estranho, porque foram tantas reviravoltas e tanta coisa que aconteceu rápido demais, que chega a ser um pouco difícil de acompanhar. Eu tava com ele pouco tempo atrás e bem, agora to aqui tendo a certeza de que ele é completamente apaixonado por você. Mas a história mudou, Isa. Daqui pra frente eu não sou mais a amiga que sem querer te atrapalhou a ser feliz, ok? Eu sou a amiga que vai estar do seu lado torcendo muito por sua felicidade. Então você não vai fazer nada por mim, vai fazer por você. Vai seguir seu coração e o que quer que seja que você decida sobre vocês dois, eu vou estar com você. E se você decidir que quer ficar com ele, eu quero saber tudo e quero vibrar cada mínima coisinha com você. É isso que melhores amigas fazem.”
Ouvi-la dizer aquilo me deixou absurdamente feliz. Depois de tudo que passamos esse ano, todos os conflitos, as brigas, os desentendimentos, é extremamente importante pra mim estar aqui agora com ela vendo que nossa amizade sobreviveu.
— Vocês podem parar com isso porque to ficando emocionada. — disse Leticia interrompendo o momento. — E eu quero ver essa tal carta que Amanda falou. É uma carta?
— Na verdade ele escreveu pra brincadeira que o professor de Literatura inventou. Mas acho que não tinha intenção que chegasse até mim.
Me levantei e fui até o guarda-roupa onde eu tinha guardado todos os papéis. Os peguei e entreguei para Leticia permitindo que ela lesse. Eu e Amanda apenas ficamos em silêncio esperando sua reação.
— Nossa! — foi tudo que ela conseguiu dizer ao terminar de ler. Não a julguei, eu também achei muita informação. — Nossa!
— Pois é. — completou Amanda.
— Eu juro que nunca, nunca mesmo, imaginei que a vida desse menino fosse tão… triste. — admitiu Leticia. — E isso tudo é muito bizarro, né? Porque um ano atrás a gente via ele andando pelo colégio e só conseguia ver o Gabriel que todo mundo conhece, ou que acha que conhece. O que parece feliz, nem aí com a vida, rodeado de amigos, com uma vida aparentemente perfeita.
— Esse foi o ano em que eu descobri que a gente não conhece ninguém de verdade. — comentei.
— Mas e aí? O que aconteceu? Vocês conversaram? Como estão? — ela disparou a perguntar toda ansiosa. — Meu deus, agora eu to curiosa! Eu falo que a vida de vocês parece roteiro de novela.
— Nós conversamos e esclarecemos algumas coisas, principalmente sobre nossos sentimentos, mas eu basicamente pedi tempo ao tempo. — expliquei. — Não dá pra só me jogar nos braços dele e fingir que temos uma linda história de amor nem um pouco problemática. Eu preciso que as coisas aconteçam com calma e que o tempo me mostre o que é a coisa certa a se fazer.
— Vai dar tudo certo, amiga. Tenho certeza disso.
As meninas foram embora umas 16h e eu fiquei sozinha em casa pensando sobre a vida, sobre tudo que aconteceu na noite de ontem, sobre eu e Gabriel e mais um milhão de coisas. Eu segurava impacientemente o pingente em meu colar o deslizando de um lado para o outro na corrente, enquanto me perguntava qual a decisão certa a se tomar daqui pra frente. Porque afinal de contas, a vida já foi sofrida demais para mim nos últimos meses para eu me dar o luxo de errar novamente.
Quando percebi por impulso já estava saindo de casa e indo até a única pessoa que talvez pudesse me aconselhar de um jeito que acalmasse — ou não — meu coração. Só restava saber se ela iria aceitar falar comigo. Mas no momento em que saí do taxi e entrei no lugar, percebi que eu poderia estar sendo bem inconveniente. Porém, agora eu já estava ali.
— Oi, Isabelle! Tudo bem? — me cumprimentou a recepcionista. — Você tem horário marcado hoje com a Carina?
— Na verdade não. — respondi. — Eu precisava falar rapidamente com a Lisa. Ela está?
— Está atendendo a última paciente do dia.
— Ok. Vou esperar lá fora.
Eu me sentei na escada em frente a recepção e fiquei ansiosamente esperando. Pensei um milhão de vezes em ir embora, mas decidi não ir. É aquele negócio né, o não eu já tenho, só falta ir atrás da humilhação. Brincadeira.
Não demorou muito para que eu ouvisse sua voz atrás de mim.
— Oi, Isabelle! — disse Lisa. Me virei para trás tentando dar meu melhor sorriso de cara de pau e a cumprimentei de volta. — Como posso ajudá-la?
— Bem… — comecei a falar na intenção de ir direto ao ponto. — Eu sei que como psicóloga você não pode me atender mais, mas você não está mais em horário de trabalho e eu adoraria ter uma conversa com uma amiga, digamos que um pouco mais velha e um pouco mais experiente sobre a vida.
Ela riu.
— Você é impossível, dona Isabelle. Vem, vamos comigo comprar um café e vamos conversando.
— Obrigada! — agradeci a seguindo.
— O que tem te angustiado a ponto de te fazer vir até aqui?
— Eu estou confusa. Muito na verdade. — admiti e comecei a contar de forma resumida, ou não resumida assim, todo o processo de reaproximação entre mim e Gabriel até chegar no momento de ontem. Durante esse tempo deu pra gente chegar numa padaria perto do consultório onde ela pediu o café, um pão de queijo e nos sentamos.
— E o que acontece é que depois de termos esclarecido tudo, depois do momento que tivemos por causa da Alice, depois de termos nos beijado, depois do que ele fez por mim no meu aniversário, depois da pessoa incrivelmente doce que ele tem sido, depois dessa carta… Foi como se ele tivesse aos poucos derrubando a barreira que eu coloquei entre a gente. Porque meus sentimentos por ele sempre estiveram aqui, não é a toa que todo o processo de superá-lo foi tão difícil e por isso o receio de deixá-lo voltar pra minha vida. Mas agora tudo mudou e se ele realmente me ama e eu amo ele, por que a gente não pode ficar juntos? Só que ao mesmo tempo, não posso esquecer que ele mentiu e me magoou. Então me parece errado na primeira oportunidade eu aceitar me jogar nisso tudo de novo de cabeça. Eu sinto que como mulher eu não posso ignorar tudo, sabe?
Ela assentiu como quem entendia meus pontos.
— Eu definitivamente não sei amar. — reclamei.
— Ninguém sabe. Amor não é conhecimento, é sentimento. — respondeu Lisa. — E bom, vamos lá, o que eu tenho pra te dizer como amiga e não como psicóloga… É não se cobre tanto. Quando se é jovem é muito difícil ser sempre certo, porque ainda temos pouca percepção do quanto somos responsáveis pelos sentimentos dos outros. Essa é a fase que estamos exatamente descobrindo que não se trata só de nós, que nossas falas e atitudes refletem no outro tanto quanto em nós mesmos. Gabriel cresceu sem uma figura familiar que o dissesse: “Ei, o que você tá fazendo é errado. Você já parou pra pensar nisso?”. Na verdade, ele cresceu principalmente com uma figura paterna muito errada, que o agredia fisicamente, verbalmente e psicologicamente, que maltratava e traía sua esposa. Isso mexe com a cabeça de um garoto que ainda não sabe bem quem é ou quais são seus valores.
“Então, o que paro pra pensar nesse momento é: Ele fez o que fez com a intenção de machucar? De se vangloriar pros amigos ou pra outras pessoas? Ele fez achando que o que fez foi certo? E não foi, ele errou sem saber a dimensão que isso tomaria e escolheu as formas erradas de sair disso. Mas isso não significa que ele seja uma pessoa ruim, com intenções ruins.”
“Ele errou? Errou muito. Mas o que acredito de coração que devemos levar em consideração é: ele aprendeu com isso? Aprendeu de verdade? Ele teve a capacidade de assumir seus erros e pedir perdão por eles? Porque não devemos apoiar os erros em hipótese nenhuma, mas devemos apoiar os aprendizados. Se deixarmos de acreditar na possibilidade das pessoas evoluírem e se tornarem melhores, estaremos deixando de acreditar que a humanidade possa ser algo melhor. Principalmente nessa idade, na adolescência, onde todos os dias é um grande aprendizado que nos leva a crescer e amadurecer.”
“O termo machismo e todas essas coisas ainda é muito novo para vocês e essa é uma das maiores falhas da nossa sociedade. É muito curto o tempo em que isso começou a ser implantado em escolas, em que começou a se debater e dialogar, para educar esses adolescentes desde novos. O machismo é tão presente em nossa sociedade justamente porque ele é uma construção social, porque nossos meninos crescem tendo suas atitudes machistas naturalizadas, tendo como exemplo figuras machistas. E enquanto essa construção não for bruscamente quebrada e modificada, enquanto principalmente nossos meninos não forem instruídos e educados a entender que a mulher deve ser tratada com tanto respeito quanto eles, o machismo não vai acabar. Eu acredito que esse é o grande desafio para enfim conseguirmos uma igualdade de gêneros: a educação. Porque a educação é muito falha no nosso país.”
“O que quero dizer com isso é exatamente que ele não teve essa educação e instrução dentro de casa sobre responsabilidade afetiva, porque infelizmente nunca tiveram responsabilidade afetiva com ele. É um erro que gera outro e outro e assim temos uma sociedade falha e psicologicamente conturbada.”
“Mais uma vez repito, não apoio muito menos defendo o que ele fez. É muito importante isso ser evidenciado como um erro que nunca mais poderá ser repetido. Mas eu acredito que o Gabriel teve sua grande lição e que ele realmente aprendeu. Ele abriu seus olhos. Ele olhou para si mesmo e de fato refletiu sobre o seu caráter, sobre o tipo de pessoa que ele é e agora ele tá tendo que lidar com o fardo das consequências de suas atitudes. E não é por isso que ele deva ser para sempre massacrado.”
“Como você mesma disse, você não está aceitando o que ele fez. O erro estaria aí, porque jamais seria aceitável. O erro estaria se você tivesse olhado para ele e dito: ok, tudo bem o que você fez. Porque não foi tudo bem e não foi e nem é justificável. Mas ter compreensão com um ser humano que teve a capacidade de assumir teu erro, que sabe com plena consciência que errou, pediu perdão e aprendeu, eu não acredito que isso seja errado. Aceitar o novo Gabriel que entendeu finalmente o que é sua responsabilidade afetiva, o que é respeito, o que é ética e valores, isso não é errado. Porque se temos a possibilidade de transformar um ser humano em melhor para que ele ajude outros a também serem melhores, nós devemos.”
“Então, repetindo, como amiga e não como psicóloga, eu não acho que você esteja errada em querer um recomeço. Em acreditar em um. Essa foi a primeira vez que ele teve de lidar com o amor de verdade. Pra mim vocês são apenas crianças, Isa. Vocês tão no começo da vida e estão desesperadamente tentando entender o que é ela. Estão errando na tentativa constante de acertar. E quando se trata do amor, eu sei o quanto é difícil pra vocês entender que negócio estranho e assustador é esse. É claro que daqui pra frente as coisas vão ter que mudar porque vocês vão ter de ser adultos, mas o Gabriel não é uma pessoa ruim. Eu sei disso. E é com base nisso que apenas você, seu coração e sua consciência terão de decidir se ele merece essa segunda chance. No fim das contas, eu não posso te aconselhar mais do que dizendo para ouvir teu próprio coração e seguir sua intuição.”
Nossa!
— Obrigada, Lisa. — agradeci. — Obrigada mesmo.
Aquela conversa foi como se um peso tivesse sido tirado das minhas costas, principalmente a culpa por querer viver novamente esse amor com o Gabriel. Porque tudo se tratava exatamente de entender que eu não estava aceitando tudo que ele fez de errado, eu estou aceitando sua mudança e evolução como pessoa. Eu também mereço me dar essa chance de descobrir quem é esse Gabriel novo e se vale a pena ficarmos juntos. Chegou a hora de definitivamente deixar o passado para trás e focar no futuro. É isso que eu quero pra mim agora.
Voltei para casa felizmente muito mais leve. Aquela noite eu ficaria em casa, porque no dia seguinte já tinha combinado de sair com o pessoal e meu fígado precisa de um descanso. Escolhi uma coletânea de comédias românticas pra me entreter e foi assim que fiquei, assistindo filme jogada na minha cama e comendo besteiras.
Era por volta de 1h quando minha programação foi interrompida e recebi uma mensagem que consegui ler na tela de notificações do celular.
Gabriel Fornazier: Sem sono?
Peguei o celular e abri a conversa. Tinha tanto tempo que não conversávamos pelo whatsapp que a última mensagem era de meses atrás.
Eu: Sim. E você?
Gabriel Fornazier: Também.
Deixa eu te perguntar, o que você vai fazer domingo?
Eu: Que horas?
Gabriel Fornazier: A tarde.
Eu: Vou almoçar na minha vó. Por que?
Gabriel Fornazier: E amanhã?
Eu: A tarde nada. Só a noite que marcamos de ir na baladinha, né.
Gabriel Fornazier: Podemos fazer algo?
Eu: Tipo o que?
Gabriel Fornazier: Surpresa kkkkk
Eu: Anão, Gabriel kkkkk
Gabriel Fornazier: Eu te busco umas 14h, pode ser?
Eu: Tá. Mas você pode me dizer pelo menos que tipo de roupa usar?
Gabriel Fornazier: Alguma confortável.
Eu: Ok. Mais nenhum spoiler?
Gabriel Fornazier: Não kkkk
Eu: Aff. Tá bom então.
Gabriel Fornazier: Eu vou tentar dormir, porque combinei de sair com a Babi amanhã cedo :(
Nossa, ele tá mesmo em casa numa sexta-feira?
Eu: To indo também. Boa noite!
Gabriel Fornazier: Boa noite, dorme bem! Até amanhã!
E foi assim que eu combinei de sair com Gabriel para algum lugar que não faço ideia de qual seja. Fiz até questão de realmente ir dormir pra não ficar ansiosa demais pensando nisso. O que não adiantou muito, já que no dia seguinte acordei não era nem 10 da manhã. E espontaneamente. Pelo menos consegui fazer uma média com a minha mãe e almoçar com ela e o namorado. Desde que conversamos sobre ele e eu prometi que seria mais tranquila quanto ao seu relacionamento dos dois, não tive de fato muitas oportunidades para fazer isso. Ela ficou extremamente contente em me ver o tratando bem e amigavelmente.
Logo depois do almoço já fui pro meu quarto na intenção de me arrumar. Tomei um banho, arrumei meu cabelo, passei maquiagem e só depois fui me vestir, isso porque eu não fazia ideia do que usar. Na intenção de não surtar resolvi focar no confortável que Gabriel havia dito, por isso optei por um macacão curto floridinho e calcei um tênis. Peguei minha bolsa e uma blusa de frio apenas por, bem, nós morarmos em Curitiba e apesar de o céu estar aberto, a qualquer momento poder começar a maior tempestade do século.
Gabriel chegou na porta da minha casa pouco antes do horário combinado. Agradeci mentalmente por ter começado a arrumar cedo e já estar pronta. Assim que entrei no carro a primeira coisa que fiz foi olhar como ele estava vestido para saber se eu tinha errado muito no look. Pra minha sorte ele estava usando uma roupa básica e fresquinha também, no caso camiseta, bermuda e tênis. Ser homem é muito mais fácil, né?
— Animada para o nosso passeio? — perguntou Gabriel assim que o cumprimentei e fechei a porta do carro.
— Estaria se eu soubesse para onde vamos. — respondi e ele riu.
— Você vai gostar.
Fui o trajeto inteiro tentando adivinhar para onde íamos. Esse negócio de sair com Gabriel novamente, sozinhos, sem saber o que faríamos, me deixava aflita. Eu não conseguia parar de pensar no que ele tinha planejado e o que ele pretendia com tudo isso. Iríamos pra um bar? Um restaurante? Eram tantas as possibilidades. E foi apenas quando já estávamos chegando que eu me toquei.
— Nós estamos indo pro Tanguá? — questionei. Ele não respondeu, mas sorriu.
Tanguá é um dos parques mais famosos de Curitiba e definitivamente o mais bonito. Desde criança eu sempre adorei visitá-lo. Ele é localizado em uma antiga pedreira e meu pai adorava me contar a história de que por muito pouco não se tornou uma usina de reciclagem de caliça e lixo industrial. O que teria sido um verdadeiro desastre ambiental, já que além de esplêndido ele garante a preservação da bacia norte do Rio Barigui, bem próximo à sua nascente.
Quando Gabriel entrou em seu estacionamento comprovando que eu havia acertado meu palpite, agradeci por estar de tênis. O parque é muito grande e não faço ideia de quais são os planos dele. Se formos andar muito certamente irei cansar.
Assim que estacionamos o carro e descemos, Gabriel caminhou até o porta-malas de onde tirou o que eu diria ser uma cesta de piquenique, porém térmica. Basicamente uma versão evoluída das típicas cestinhas de madeiras que nem devem existir mais.
— Uma cesta? A gente vai fazer um piquenique, é isso? — indaguei.
— Mais ou menos. — respondeu Gabriel. — Para de ser ansiosa.
Impossível, pensei sozinha.
— Você tem uma coisa com os pontos turísticos dessa cidade, né? — disse enquanto caminhávamos rumo a entrada do parque. — Jardim Botânico, Torre Panorâmica, Parque Tanguá…
Gabriel riu.
— São pontos turísticos por algum motivo e certamente não é porque são feios. — ele respondeu.
— Ok, isso é um bom argumento. — tive que concordar. Principalmente porque assim que atravessamos o portão, me peguei mais uma vez vislumbrada.
Quando eu digo que o Tanguá é bonito, eu não estou brincando. Começando pela entrada superior, onde estávamos. Nela você encontra logo de cara o Jardim Poty Lazzarotto. Um jardim com um enorme espelho d’água, muitas fontes, e que em algumas épocas do ano fica todo florido. No final dele tem um belvedere de três andares, que é uma espécie de castelinho, com um mirante de onde você consegue ver toda a parte inferior do parque e boa parte da região. É absolutamente lindo. Mas ao contrário da maioria dos visitantes, minha parte favorita sempre foi embaixo. Nela tem uma enorme área verde que funciona como área de proteção ambiental, de onde você consegue ver todo o paredão da antiga pedreira e ainda uma cascata de 65 metros de altura que começa no mirante e deságua em um lago.
Pra minha felicidade foi exatamente para lá que fomos. Descemos pelas escadarias do mirante, até chegar em uma parte coberta por árvores onde nos sentamos. Gabriel havia pensado em tudo. Levou um pano para estendermos no chão e não ficarmos pinicando por causa da grama, além de muita comida e bebida. Dentro da cesta tinha pão de queijo, sanduíche natural, brownie, bolo de chocolate, suco e água. Fiquei imaginando ele organizando aquilo tudo na intenção de me agradar.
— Posso perguntar qual seu plano me trazendo pra cá? — indaguei quando já estávamos sentados e comendo.
— Eu só quero que a gente tenha um tempo pra conversar sozinhos, coisa que a gente não tem há muito tempo. E sei lá, apesar de a maioria das coisas já terem sido esclarecidas entre nós, eu quero que não fique nenhuma pendência em aberto e acredito que talvez você ainda tenha algumas perguntas pra me fazer.
Confesso que fiquei feliz com sua atitude. Ele estava de fato se esforçando. E como estávamos ali para isso, resolvi começar.
— Ontem eu estava pensando em uma coisa. — comecei a falar. — Quando você me contou tudo que tinha acontecido entre nós, eu te perguntei se você gostava de Amanda, porque você tinha escolhido ficar com ela. Você me explicou que gostava, mas que não era apaixonado e que fez tudo aquilo tentando fazer a coisa certa. Enfim… A gente já conversou sobre isso. O que eu quero saber é, mas em algum momento nessa história toda você chegou a se interessar de verdade por ela?
— Não sei. Quer dizer, não sei em qual sentido você quer saber. — ele respondeu. — No começo eu sentia sim atração por ela e achava ela uma garota legal, tanto que quis me envolver. Mas no sentido amoroso não, nunca me apaixonei por Amanda. O que percebo hoje é que com o tempo eu fui criando um carinho muito grande por ela, mas como amigos e não como algo a mais. Porque a Amanda é difícil, mas quando você se aproxima o suficiente percebe que tudo isso é só porque ela tem muitos problemas. No fundo ela é tão frágil quanto qualquer outra pessoa. Só que ela construiu uma barreira em volta de si que quem não a conhece ás vezes só consegue ver uma garota fútil, o que ela não é.
— Sim. Ela cresceu muito sozinha. Essa coisa de ser filha única e dos pais sempre terem trabalhado tanto pra dar tudo que ela queria, fazia com que eles não ficassem muito em casa e ela não teve muito convívio familiar. É por isso que ela meio que desenvolveu uma necessidade de agradar pra aproximar as pessoas, pra chamar a atenção dos pais e ter amigos. Se desdobrava em mil e uma personalidades pra que todos gostassem dela. Era a pessoa que fazia de tudo pelos amigos, que tentava cuidar de todos os problemas dos pais. Mas nunca parava pra pensar exatamente em si mesma. Só que isso confundiu ela muito, porque hoje ela não sabe exatamente quem é. Ela sabe quem ser pra todo mundo, menos pra si mesma. É por isso que ela continua construindo essa imagem de garota perfeita, porque foi isso que ela aprendeu a fazer a vida inteira.
— Hoje, com tudo que já aconteceu, eu juro de todo meu coração que quero muito que ela seja feliz. Quando a gente conversou sobre acabar tudo entre nós e que ela estava visivelmente mal, eu pedi perdão pra ela, porque eu não quero magoá-la. Mas eu sei que é difícil pra ela perceber que eu realmente sou apaixonado por você e que espero que a gente algum dia fique juntos, então também pedi pra que ela não se cobre tanto pra ficar bem, porque ela precisa entender que a vida é um porre mesmo em diversos momentos e que ela não precisa segurar a barra de tudo como se fosse a princesa de Genovia.
Apesar do assunto ser sério, acabei dando uma risada anasalada com a última parte.
— Fico feliz que você tenha tido essa conversa com ela, porque eu também tive. — contei. — E eu cheguei nesse assunto com você exatamente por isso. A Amanda é minha amiga, uma das minhas melhores amigas. Então se for pra gente fazer isso, seja lá o que estamos fazendo, eu quero que tudo esteja bem e resolvido entre nós três.
— Eu também quero, Isa. Eu tenho muita consideração pela Amanda. Eu quero ser amigo dela e quero muito nunca mais atrapalhar a amizade de vocês.
— Que bom!
— Agora minha vez. — disse Gabriel chamando a atenção para si. — Você e o Vinícius tiveram alguma coisa séria mesmo?
— Não chegou a ser um namoro, mas foi quase. E apenas porque eu não queria me enganar, muito menos enganar ele, sobre já estar completamente bem com tudo e comigo mesma pra poder realmente entrar em um relacionamento sério e seguir a vida. Mas ele foi uma pessoa muito incrível pra mim. No meu processo de recuperação ele teve muita paciência comigo, respeitou meu tempo e meu espaço, tudo isso sem em nenhum momento deixar de me dar todo o suporte que eu precisava pra ficar bem. Então, mesmo que eu tenha entendido que eu não fui tão apaixonada por ele quanto... eu fui por você, me doeu muito deixar ele.
— Eu não vou negar que sinto ciúmes dele, porque isso é uma coisa meio inevitável. — confessou Gabriel. — Mas eu sou muito grato por tudo que ele fez por você. Dói ter que admitir que ele foi mais por você do que eu fui.
— Acho que eu não colocaria as coisas assim. — discordei. — O que eu vivi com Vinícius foi completamente diferente de tudo que vivi com você. E mesmo com todas as merdas que aconteceram, você me fez bem, Gabriel. Me fez feliz. Então não tem essa de quem foi mais por mim. Não é o tipo de coisa que quero comparar, porque cada um foi importante pra mim de alguma forma. Mas fico feliz que você reconheça a importância dele na minha vida, porque eu pretendo mantê-lo próximo de mim o máximo possível. Nossa amizade vai ser algo com o que você vai ter de lidar.
— Tudo bem, de verdade. Até porque eu não tenho que mandar em amizade nenhuma sua, Isa. E quem sabe a gente não vira amigos também… Ele me tratou muito bem no seu aniversário.
Me parecia uma ideia bastante estranha e improvável, mas não seria de todo ruim. Na verdade seria um sonho eu, Gabriel, Amanda e Vinícius, todos bem um com o outro e convivendo como bons amigos.
— Antes de mim e de Amanda, você já se envolveu com outras garotas. Nunca teve uma que despertou algo a mais em você? — voltei a perguntar.
— Tinha uma garota com quem eu ficava ás vezes. Éramos uma espécie de fodinha fixa um do outro. Acabou que de tanto transar criamos uma certa intimidade e eu gostava da companhia dela, de conversar com ela. Confesso que eu cheguei a cogitar levar nosso rolo a sério, mas não deu certo. Foi só começarmos a passar mais tempo juntos que eu percebi que a gente não tinha nada a ver.
Eu acho que sei de quem ele está falando, porque uma vez Bruno me mostrou ele conversando com uma garota loira na balada e me contou uma história parecida com essa. Mas não importava quem era, importava uma coisa...
— Vocês ainda tem contato?
— Não. — ele respondeu.
— Entendi. E você tem ficado com alguém?
— Também não.
— Sem mentiras, Gabriel. — pedi. Eu quero de fato transparência entre nós dois.
— Não, eu juro. — ele confirmou com veemência. — Por que, você tem?
— Não, acho que já tive problemas demais com homens esse ano.
Demais mesmo. Não sou nem louca de arrumar mais complicação pra minha vida amorosa.
— Mas sério, eu to focado em outras coisas na minha vida, Isabelle. Na minha saúde, na minha família, em consertar certas merdas que eu fiz, sabe…
— E você tem ido na psicóloga?
— Sim. Uma vez por semana. Ela tá bem feliz com isso tudo. Por eu ter melhorado meu relacionamento com meus amigos, com minha família e principalmente comigo mesmo. Por eu estar focando nos estudos também, claro.
— Que bom! E já que você tocou nesse assunto de família, como tem sido desde que você mudou? — perguntei. — Você tem tido contato com seu pai?
— Só vi ele uma vez, porque ele foi buscar a Babi pra irem tomar sorvete. Mas não perdi meu tempo nem cumprimentando. — ele respondeu com uma visível mágoa na fala que me angustiou. — Meu pai foi muito ruim pra gente, é triste de certa forma me sentir aliviado por não ter mais que conviver com ele, sabe? É frustrante saber que deveria ser diferente. Que ele tinha que ter sido um pai de verdade, como o seu é pra você. Acho que eu só quero distância por agora.
Eu fico verdadeiramente irritada quando me lembro de tudo que o pai de Gabriel já causou para ele. Principalmente porque ainda é o pai dele e é claro que no fundo, tudo que Gabriel queria é que eles pudessem ter uma relação boa. Na verdade, que eles pudessem apenas voltar a ser a família que eram antes da morte de Alice.
— Mas minha mãe tem sido ótima com a Babi e isso me deixa feliz. — ele prosseguiu falando e foi só então que percebi que não havia respondido. Mas eu nem sabia o que responder. — Tem tentado ser mais presente pra mim também, o que chega a ser um pouco estranho, mas tudo bem.
— Por que estranho?
— Eu não to acostumado com ela querendo saber como eu to, como foi meu dia, o que eu preciso, como estão meus amigos, como estão meus relacionamentos... Essa coisa de repentinamente ela querer cuidar de mim e da minha vida, sendo que eu sempre fiz isso sozinho... Sei lá…
Eu assenti como quem compreendia.
— Mas isso é bom, Gabe. Ela quer mostrar que se importa.
— Eu sei.
— E o Henrique? Como ficou com isso tudo? A separação dos seus pais, a mudança e tudo mais?
Eu nunca mais tinha visto Henrique e confesso que me dava um frio na barriga lembrar que ele foi provavelmente a primeira pessoa que tentou me alertar sobre toda a merda que estava acontecendo entre mim e Gabriel.
— Ele apoiou também. Até porque como ele mora sozinho, não afetou muito ele. Então apenas tem tentado dar suporte pra minha mãe e ido a visitar sempre que dá.
— Eu to muito feliz com essas coisas dando certo pra você. — disse com total sinceridade. Eu estava mesmo. — Eu sei que sua família é importante pra ti.
— É mesmo. — ele confirmou sorrindo.
— Mas ein, agora uma pergunta séria. Seu plano era realmente que fosse só um rolê good vibes com frutas e bebidas não-alcoólicas? Porque não é todo dia que faz esse calor todo em Curitiba e lá no deck eles vendem chopp gelado, sabe…
Gabriel riu.
— Tá vendo, eu tento levar uma vida tranquila, mas ninguém deixa.
— Nós dois sabemos que você adorou essa ideia.
O deck é uma lanchonete que tem na beira do lago e que é um ótimo lugar pra sentar, comer e beber com amigos ou a família. Eles vendem de tudo: petiscos, porções, almoço, sobremesas, drinks, cerveja, chopp… Tudo mesmo. E foi pra lá que fomos. Estava um pouco cheio por ser sábado, mas conseguimos encontrar uma mesa. Pedimos um chopp que virou dois e virou três e passamos o resto da tarde conversando e rindo sobre besteiras. Era estranho, porque nem parecia nós. Quer dizer, não parecia a Isabelle e Gabriel que passaram do céu ao inferno de um jeito que parecia impossível algum dia simplesmente nos sentarmos juntos novamente pra beber e se divertir com a companhia do outro. Eu estava muito feliz.
Quando o dia começou a escurecer, Gabriel se apressou em fechar a conta porque alegou que ainda tínhamos mais uma coisa para fazer antes de ir embora. E já meio alterada ele me fez subir de volta toda a escadaria do mirante, onde paramos e descobri do que se tratava. O pôr do sol. A vista do sol se pondo ali era absurdamente linda e fantástica. Por um breve momento me esqueci de que estava a poucos km do centro de uma capital como Curitiba.
— Bonito, né? — comentou Gabriel.
— Muito.
E foi isso, foi tudo o que dissemos. Eu abracei seu braço, deitei minha cabeça em seu ombro e ficamos em silêncio apenas observando a noite chegar sorrateiramente. Foi quase decepcionante naquele cenário e momento ele não ter tentado nada, mas me deixou feliz ver que ele estava de fato respeitando meu tempo.
Só saímos dali quando já havia anoitecido e o frio chegado. Até porque ainda tínhamos mais um rolê pela frente. Quando Gabriel me deixou na porta de casa fiz questão de o agradecer por tudo.
— Hoje foi incrível, Gabriel. Obrigada.
— Não precisa agradecer. Nos vemos daqui a pouco?
— Com toda certeza.
Quando entrei em casa não encontrei minha mãe. Mandei uma mensagem perguntando onde ela estava e claro que era com o namorado. Ela passa tanto tempo com ele que parece uma adolescente apaixonada, mas não julgo. Apenas avisei que iria sair novamente e me joguei na cama com preguiça de me arrumar. Porém, não deu tempo sequer de cochilar. O pessoal queria ir mais cedo pra porta da balada pra fazermos um esquenta. Se você não conhece a expressão, é quando jovens buscando economizar resolvem se reunir antes do rolê para beber bebida mais barata e já chegar alcoolizado, mas na verdade quando acabam entrando bêbados no lugar decidem que querem beber ainda mais e gastam ainda mais e ficam muito ruins. Ou seja, não é uma boa ideia.
O que estava fazendo de calor durante o dia estava fazendo de frio a noite, por isso ao me arrumar coloquei uma roupa mais fechada. O difícil é que quando chega dentro da balada e lota você quase morre de calor. Essa é a triste realidade de sair nessa cidade. Mas foi assim mesmo que fui.
Apareceram as mesmas pessoas que estavam no meu aniversário, inclusive Vinícius, Lucas e Paola, o que me surpreendeu. E pra minha felicidade, Amanda não havia convidado a Novata. Muito provavelmente por saber que não gosto dela e por estarmos nesse processo de reaproximação. Isso foi bom, porque por estarem apenas pessoas que eu gostava ali, foi uma noite tranquila e divertida. Bebi, dancei e conversei muita asneira com todo mundo.
O que eu preciso confessar é que ficar bêbada perto de uma pessoa por quem você se sente extremamente atraída, mas não pode ficar, é algo muito difícil. O que certamente estava acontecendo comigo na presença de Gabriel. Mas enquanto eu redobrava meu autocontrole, se estava sendo difícil para ele, ele não deixou transparecer, já que não tentou nada a noite toda. Me tratou de forma completamente respeitosa, como se eu fosse qualquer uma das outras meninas. Pelo menos sei que amanhã vou agradecer por ele estar levando tudo que eu disse tão a sério.
Naquela noite eu não aguentei ficar até tão tarde, fui embora por volta das três da madrugada. Mas pra quem estava bebendo desde a tarde, até que eu durei muito. Acordei no dia seguinte com meu celular tocando. Era meu pai avisando que meio dia passaria para me pegar. Eu tinha esquecido completamente que tinha combinado de almoçar na minha vó.
Levantar da cama não foi nada fácil, porque novamente eu estava com uma puta ressaca. Minha única motivação foi lembrar que eu iria almoçar a comida da minha vó. Mesmo que naquele momento meu estômago embrulhasse só de pensar em comida.
Eu fiz questão de colocar o vestido que ela havia me dado exatamente de presente de aniversário. Eu sempre amei girassóis por sua causa. Quando criança ela me falava que era uma flor que significa felicidade e eu acho incrível seu caule girar sempre posicionando a flor na direção do sol. É como se ela buscasse sempre por luz e é exatamente isso que to precisando pra minha vida. Luz.
Meio dia em ponto meu pai de fato buzinou na porta da minha casa e fomos. Quando chegamos na casa da vovó, todos os meus familiares já estavam lá. Eu nunca vou entender por que esse povo chega tão cedo se a comida mesmo só vai sair lá pras 15h.
Segunda-feira no colégio quando o primeiro horário começou me senti bastante aflita. Não somente eu, mas todos os alunos da sala. Isso porque o professor de Física fez questão de nos lembrar sobre a chegada do ENEM, que seria nos dias 26 e 27 de novembro, além do vestibular da UFPR que já é no fim de semana seguinte. Ele estava avisando que daqui pra frente o colégio irá ministrar aulões de revisão de todo o conteúdo programado para cair nas provas. Achei que tinha me livrado de passar o dia todo no colégio, mas lá vou eu voltar a estudar igual uma maluca.
E foi exatamente disso que eu e todo mundo conversamos durante o intervalo.
— Daqui pra frente nunca mais teremos paz, né? — divagou Bruno. — Agora que realmente chegaram os vestibulares ninguém vai parar de falar nisso, o que claramente só me deixa mais nervoso.
— Eu to preocupado pra caralho. — confessou Gustavo.
— Nem fala. — concordei. — Tenho refletido sobre meu ano letivo inteiro e me arrependido de não ter estudado mais.
— Se vocês estão preocupados pensa eu que claramente não levei os estudos tão a sério esse ano e decidi que vou mesmo escolher Medicina. — contou Gabriel. Vi uma expressão de surpresa atingir o rosto de todo mundo, mas não como se fosse uma surpresa ruim e sim uma surpresa muito boa.
— Sério mesmo, Gabe? — perguntou Carol sorrindo.
— Sim. — ele confirmou.
— Nossa, to muito feliz com essa decisão sua. Tenho certeza que você tem chance de ser aprovado. Você é muito inteligente e sabe disso. Nunca precisou estudar muito, porque você pega as coisas muito rápido.
— Isso é verdade. Não fica se cobrando demais, porque cada um tem um jeito de estudar. — disse Gustavo. — Eu fico horas e horas com a cara enfiada em livro pra aprender e memorizar mesmo as coisas. Você lê ou escuta o assunto uma vez e pega de primeira. Não é a toa que suas notas são uma das melhores da sala.
— Ah, mas sei lá. É Medicina, gente. Não é qualquer curso. — rebateu Gabriel nitidamente preocupado. Eu entendo ele, não é qualquer um que consegue passar num curso como Medicina.
— Vamos todos começar a vir nos aulões a tarde. — convidei. — Eu vou vir, porque me ajudou muito no último bimestre. E se for do jeito que tava sendo, pode ser bom pra vocês também.
— Acho que é uma boa. — aceitou Gabriel. O resto do pessoal também.
Com isso, na própria segunda-feira nós já ficamos a tarde e permanecemos indo durante toda a semana. As aulas estavam sendo todas nos auditórios, pela quantidade de alunos interessados. O que acabou sendo bastante divertido, já que juntava as turmas e eu estava novamente assistindo aula com Leticia, Amanda e Vitor. Confesso que ás vezes virava bagunça, mas no geral estava sendo muito bom pra todo mundo.
Gabriel estava mesmo empenhado em estudar. Prestava atenção em absolutamente tudo e o que me impressionou é que ele realmente pegava as coisas muito rápido, do jeito que os meninos falaram. Isso me fez perceber que eu sempre soube que ele era inteligente, mas não tinha noção do quanto. Eu, por exemplo, que vivo aos trancos e barrancos com as exatas, estava recebendo muita ajuda dele.
Tudo isso também serviu para nos aproximar mais. Estudando o dia todo juntos, acabava que a gente conversava muito mais. E é claro que eu comecei a perceber olhares das pessoas em nós. Conversando com o Bruno descobri que muita gente estava especulando sobre nossa recente amizade. Mas era só isso, amizade. No dia a dia Gabriel sequer flertava comigo, fazia brincadeiras ou qualquer coisa do tipo.
Estava indo tudo muito bem até chegar sexta-feira quando estávamos todos no auditório prestando atenção na aula de Biologia. O professor falava sobre genética, quando um assunto me chamou a atenção.
— Eritroblastose fetal é uma doença hemolítica causada pela incompatibilidade do sistema Rh do sangue materno e fetal. Ela se manifesta, quando há incompatibilidade sanguínea referente ao Rh entre mãe e feto, ou seja, quando o fator Rh da mãe é negativo e o do feto, positivo. Quando isso acontece, durante a gestação, a mulher produz anticorpos anti-Rh para tentar destruir o agente Rh do feto, considerado “intruso”.
Olhei involuntariamente para Amanda, que estava sentada na mesma fileira que eu, e percebi que ela também estava atenta em cada palavra que o professor proferia.
— Uma vez produzidos, esses anticorpos permanecem na circulação da mãe. — ele continuava a explicar. — Caso ela volte a engravidar de um bebê com Rh positivo, os anticorpos produzidos na gravidez anterior destroem as hemácias do feto. Para compensar essa perda, são fabricadas mais hemácias, que chegam imaturas ao sangue e recebem o nome de eritroblastos. O primeiro filho, portanto, apresenta menos risco de desenvolver a doença do que os seguintes, porque a mãe Rh- ainda não foi sensibilizada pelos anticorpos anti-Rh. No entanto, na falta de tratamento, esses anticorpos produzidos na primeira gestação podem destruir as hemácias do sangue dos próximos fetos Rh, podendo ocorrer a morte do feto durante a gestação ou após o parto.
— Professor… — chamou Amanda, o interrompendo. — E qual seria o tratamento para evitar a morte do feto?
— Bom, o primeiro passo é realizar o diagnóstico. — ele começou a responder. —A pesquisa de anticorpos anti-Rh por meio do teste de Coombs indireto é o principal exame a ser realizado durante o pré-natal de mãe com Rh negativo cujo parceiro é Rh positivo, ou que tenha recebido uma transfusão de sangue inadequado. Esse exame deve ser repetido mensalmente para verificar a existência de anticorpos anti-Rh.
“Em caso positivo, a mulher precisa tomar uma dose de 300 mg de gamaglobulina anti-Rh, um concentrado de anticorpos que combate os antígenos Rh. A aplicação deve ser feita por via intramuscular após 72 horas do parto do primeiro filho, após aborto espontâneo ou induzido ou gravidez ectópica. Como os anticorpos da imunoglobulina destroem as células Rh positivas do feto, a mãe não produzirá anticorpos anti-Rh. Desse modo, na gestação seguinte, o feto não desenvolverá eritroblastose. Administrar outra dose de imunoglobulina na 28ª semana de gestação pode representar uma medida adicional de segurança.”
Quando ele terminou de respondê-la, sua expressão atingiu traços tão tristes que me doeu, porque eu sabia exatamente o motivo. Agora tudo fazia sentido. Não demorou mais que alguns segundos para ela juntar suas coisas, se levantar e sair. Leticia me olhou nitidamente preocupada e sem saber o que fazer, ela também havia entendido tudo.
— A gente vai atrás dela? — ela perguntou. Eu apenas assenti e comecei a também juntar minhas coisas.
— O que aconteceu? — perguntou Gabriel preocupado.
— Eu explico depois, preciso ir. — respondi já pegando minha mochila e me levantando para sair logo atrás de Leticia.
Não foi difícil encontrar Amanda, ela estava sentada em um banco no pátio. Não estava chorando, estava apenas de cabeça baixa e perceptivelmente magoada. A princípio apenas nos sentamos ao seu lado e respeitamos seu momento. Talvez porque no fundo não sabíamos o que falar. Mas de repente, vi Gabriel vindo em nossa direção. Ele se aproximou e se sentou no chão em frente a Amanda, colocando sua mochila no chão ao seu lado.
— Quer me contar o que aconteceu? — ele perguntou olhando diretamente para ela.
Amanda respirou fundo e exitou um pouco, mas acabou começando a falar.
— Após engravidar de mim minha mãe ainda engravidou mais duas vezes e sofreu dois abortos espontâneos já no fim da gestação. Nós nunca soubemos o motivo deles terem ocorrido. Quer dizer, médico nenhum teve a competência necessária para realizar os procedimentos corretos para isso. E sempre foi muito frustrante essa falta de respostas, porque todas as gestações eram saudáveis e os fetos cresciam aparentemente bem. Mas aí do nada, acontecia. E bem… Se você prestou atenção na aula, já deve ter entendido.
— Incompatibilidade sanguínea. — concluiu Gabriel. Ela apenas assentiu.
Eu conseguia entendê-la perfeitamente porque deve ser extremamente frustrante descobrir que algo ensinado a qualquer aluno do ensino médio, não se passou pela cabeça da porcaria de médico nenhum durante as gestações de sua mãe.
— Tem gente que acha que é bobeira, sabe? Eu sofrer por essas coisas. Porque eu nem tive contato com meus irmãos pra ficar lamentando a morte deles. — Amanda continuou a falar. — Mas ninguém sabe como é. Ninguém teve que acompanhar a gestação da sua mãe, ver sua barriga crescendo sabendo que existe uma vida ali dentro, ouvir os batimentos cardíacos, comprar mobília e roupas, pra nada. Ninguém teve de esperar todo o momento do parto, apenas pra segurar um bebê morto nos braços. Ninguém sabe que depois de tudo isso você ainda é obrigado a ir na merda de um cartório registrar essa criança como se ela fosse ser alguém, para logo depois de sair do cartório você ter que ir enterrá-la. Ninguém sabe como é voltar pra casa e não saber o que fazer com todas as coisas que estão lá. E ninguém sabe como é ter de segurar toda a barra, porque por mais que você esteja triste, a mulher que carregou esse bebê dentro de si por meses e meses, está com o psicológico completamente destruído e precisa de você. Ninguém sabe. Principalmente, quando do nada você descobre que tudo isso não era pra ser assim, que houve um culpado. Principalmente, quando você se sente sozinha o tempo inteiro.
Quando ela parou de falar pudemos ver as lágrimas acumularem em seus olhos e caírem sem permissão, mas ela fez questão de limpá-las com pressa. Gabriel segurou suas duas mãos.
— Quando minha irmã morreu, eu passei quase toda parte do tempo pensando em como tudo poderia ter sido diferente. — ele começou a dizer quase que numa forma de desabafo. — Não conseguia deixar de pensar em como a simples decisão de um imbecil em não diminuir a velocidade do carro e atravessar um sinal vermelho, acabou com a vida dela e destruiu a de toda minha família. Eu nutri muito ódio dentro de mim sabendo que havia um culpado por aquilo. E carreguei esse sentimento ruim por anos e anos e anos.
“Até que eu finalmente entendi que carregar essa tristeza dentro de mim não ia mudar o que aconteceu e ficar penando nos “e se’s” é só uma forma de autodestruição. E olha, eu demorei muito pra entender. Isso não faz mais do que algumas semanas. E eu te garanto, foi um processo longo e doloroso. Mas infelizmente a vida é assim e nós não temos controle sobre o que já foi, apenas do que será. O que podemos fazer é levantar a cabeça e seguir em frente. Principalmente, porque você não está sozinha, Amanda. Você nunca esteve.”
Quando ele disse essa última parte fez questão de olhar para mim e Leticia, fazendo com que ela também olhasse e nos puxasse pra um abraço.
— Ai deus, o que seria de mim sem vocês, ein? — disse Amanda bastante emocionada. Eu a abracei de volta, mas a verdade é que naquele momento quem havia a ajudado de verdade fora Gabriel. Por isso sorri agradecida para ele.
Apesar de Amanda ter ficado visivelmente melhor, ela decidiu ir embora para casa e eu entendia completamente. Ela com certeza não tinha cabeça pra voltar a estudar. E voltar pra sala pra continuar a ouvir o professor falando sobre aquele assunto não seria nada legal. Leticia que morava perto de sua casa também decidiu ir embora para que elas dividissem um táxi. Eu e Gabriel acompanhamos as duas até a entrada e ficamos lá até elas entrarem no carro e irem.
— Obrigada pelo que fez. — agradeci à Gabriel assim que sobramos só nós dois.
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— Você vai voltar pra aula? — questionei.
— Não. Por que?
— Podíamos fazer alguma coisa então, porque também não vou voltar.
— Quer conhecer meu apartamento novo? — convidou Gabriel. — Lá tem cerveja.
— To começando a realmente achar que somos alcoólatras. — falei o fazendo rir, mas a verdade é que eu estava tentando arrumar tempo pra pensar. Porque eu preciso admitir, a primeira coisa que pensei com seu convite foi: eu e Gabriel, na sua casa, bebendo? Qual a chance disso dar certo? Mas pela postura que ele tem tido comigo, eu duvido que ele tente alguma coisa. Então, seja o que deus quiser.
— Tudo bem. — concordei. — Mas só porque é sexta-feira.
— Justo.
Nós chamamos um taxi e fomos. Não demorou muito para chegarmos em frente ao prédio com uma fachada extremamente bonita, que por acaso agora era ainda mais perto da minha casa. Assim que entramos Gabriel cumprimentou o porteiro e seguimos para o elevador, onde ele apertou o último andar.
— Não me diga que você se mudou pra uma cobertura. — provoquei e em resposta ele apenas riu. — Ai, Gabriel, eu invejo muito sua vida.
Só pela fachada do prédio, por ser uma cobertura e claro, por ser a família Fornazier, eu tinha certeza de que seria um apartamento extremamente bonito, mas é claro que me surpreendi. Assim que entramos dei de cara com uma sala enorme composta por móveis e decorações em tons claros que transmitia uma sensação de tranquilidade e amplitude. As paredes do lugar, ou o que deveriam ser as paredes, eram longas janelas de vidro que permitiam a iluminação natural entrar e que em conjunto ao piso de porcelanato fazia com que o lugar parecesse ainda maior do que já é. Uma das coisas que mais me chamou a atenção foram vasos de planta extremamente bonitos compondo a decoração, trazendo mais vida pro ambiente, pureza e frescor. Tudo era tão bonito e elegante que eu moraria tranquilamente apenas naquela sala.
— Parece que eu to dentro do pinterest. — comentei. Gabriel novamente riu.
— Quer conhecer o resto? — ele convidou.
— Com toda certeza! — aceitei. Bom que vou fazendo anotações mentais de como quero minha casa no futuro. Isso, claro, se algum dia eu tiver metade do dinheiro que eles tem. O que me parece um pouco improvável.
Antes de sairmos da sala não deixei de notar a enorme escada que com certeza dava acesso a um segundo andar. Quer dizer, era isso ou a entrada pro céu ficava ali mesmo. Mas brincadeiras à parte, só fiquei impressionada que não bastava ser uma cobertura, é óbvio que era uma cobertura duplex.
Gabriel me guiou por todo o restante do lugar que seguia essa linha de clareza e tranquilidade. A sala de jantar, a cozinha, os banheiros e até a lavanderia. No andar de cima estavam as três suítes. Sim, isso mesmo, três. Até a Babi que não deve nem saber tomar banho sozinha tem um banheiro só pra ela.
A suíte de Patrícia que me limitei a observar pela porta seguia mais ou menos o mesmo padrão do piso inferior, mas nele pude ver tons mais escuros de marrom. Agora já o quarto dos outros dois moradores foi onde vi mais cor, isso porque cada um deles seguia a personalidade de seu próprio dono.
O quarto de Babi apesar de possuir mais elementos rosas, era todo colorido. Transmitia uma certa alegria que se parece muito com a menina que ela é. Já o quarto de Gabriel era todo composto por tons azuis, principalmente um azul marinho que estava presente na parede atrás de sua cama, em sua colcha e diversos outros objetos. O quarto era mais simples do que o quarto em sua antiga casa, mas ainda muito aconchegante. E sua estante de discos logicamente estava lá com todos eles exibidos.
— Quando você disse que sua mãe queria um apartamento mais simples e aconchegante eu tinha imagino uma coisa mais no padrão da maioria da sociedade, sabe... Não isso...
— Ainda é grande mesmo. — admitiu. — Mas é bem menor que nossa antiga casa.
— E é lindo, eu gostei muito.
— Também tenho gostado. Principalmente da área externa, vem quero te mostrar.
A área externa era uma varanda gourmet não muito grande, mas que parecia ser um conjunto de conforto, elegância e praticidade. Nela tinha uma área de refeições coberta, com a churrasqueira disposta ao lado da pia de apoio e uma mesa de madeira com oito cadeiras. Na área descoberta, disposta em um deque de madeira se sobressai uma piscina revestida inteiramente com pastilhas de vidro na cor verde. Ao seu redor tem um mobiliário estofado próprio para área externa, composto por chaises estofadas e pufes. E em absolutamente todo o lugar, você encontra plantas.
— É pequena então não dá pra fazer uma super festa com amigos, mas dá pra tomarmos umas cervejas.
— É incrível, Gabriel. O apartamento todo é. — elogiei caminhando até a borda. Chegando lá defini minha parte preferida de todo aquele lugar. Acho que eu realmente me apaixono por vistas.
— Sabia que você ia gostar. — disse Gabriel se juntando a mim e também olhando para a cidade ao nossos pés. Bonita, cinza e caótica.
Nós nos sentamos ali na própria varanda, mesmo que estivesse na cara que iria chover a qualquer momento. Gabriel pegou cervejas e alguns petiscos para nós e ficamos conversando besteiras. Falamos sobre sua mãe que descobri estar trabalhando, sobre Babi e como ela tem ficado cada vez mais esperta, sobre minha mãe e o namorado, nossas famílias e mil outras coisas. Até Stop resolvemos jogar, mas não demorou muito pra eu me estressar perdendo e desistir de continuar.
— O que mais você tem vontade de tatuar além de “What If?” — ele perguntou se esparramando ao meu lado no sofá.
— Você lembra disso?
— Claro que lembro.
Tínhamos conversado sobre isso em um dia qualquer de bobeira exatamente como esse. Só que muito tempo atrás.
— Uma borboleta. — respondi.
— Clichê. — ele rebateu, mas puxou meu braço para si e com a caneta que estava na mão começou a rabiscar algo.
— Eu sei. Destruíram meu sonho de tatuagem. Todo mundo tem uma hoje em dia.
— Mas por que você queria tatuar uma borboleta?
— Ela simboliza a metamorfose. — expliquei, finalmente percebendo que ele estava desenhando exatamente uma borboleta. — E bem, eu gosto da ideia de que estamos constantemente evoluindo e nos transformando.
— É, se parece com você. — admitiu Gabriel. — Eu vou fazer uma tatuagem esse fim de semana, quer ir me acompanhar?
— Sério? O que você vai fazer?
— Vou tatuar “Isabelle, Amor Eterno”. — ele brincou me arrancando uma risada.
— Vai ficar linda, tenho certeza. — respondi entrando na brincadeira. — Mas sério, o que vai ser?
— Lá eu te mostro.
Gabriel sempre com suas surpresas e mistérios. Certas coisas nunca vão mudar mesmo.
Fomos surpreendidos pela chuva que até então só ameaçava cair, mas que de repente desabou do céu. Não nos levantamos, porque a parte em que estávamos era coberta, mas ventava bastante e começou a fazer muito frio. Gabriel assim que terminou o desenho em meu braço ficou quieto observando as gotas de chuva que nos impediam de ver o resto da cidade agora.
— Posso te fazer uma pergunta? — ele pediu se sentando direito. Percebi pelo modo impaciente com que mexia nas próprias mãos que estava um pouco nervoso com o assunto que começaria.
— Pode. — permiti um tanto quanto curiosa.
— É que como o ENEM é semana que vem, não tenho conseguido tirar isso da cabeça. Na sua casa, a Leticia comentou em algum momento que vocês pretendem fazer faculdade em outra cidade. Você vai mesmo?
Confesso que senti um aperto no peito. Não estava esperando por aquela pergunta. Nem sequer tinha percebido que eu não havia comentado sobre isso com muitos amigos. Como por exemplo, o Gabriel.
— Eu pretendo. — respondi. — Mas tudo vai depender de como a gente vai ir nas provas e do que vai ser mais viável pra gente. Acho que tá meio que na mão do destino.
— Entendi.
Naquele momento percebi que ir embora era uma ideia fascinante quando estava tudo tão errado, mas agora que está tudo dando certo novamente meu peito se apertou ao pensar em dizer adeus pra tudo e todos que amo.
— Isso seria meio que daqui no máximo uns três meses, né? — ele insistiu no assunto. — Quando todos os resultados já tiverem saído…
Apenas assenti.
— E você? — resolvi perguntar. Eu precisava. — Não pretende sair de Curitiba, né?
— Não. — ele respondeu sem nem me olhar. — Eu preciso cuidar da minha irmã.
E então, nós dois voltamos a ficar em silêncio, cada um perdidos em seus próprios pensamentos. Mas percebi que provavelmente ele estava pensando no mesmo que eu: a gente não tem mais tempo pra tentar dar certo. Seria estupidez acreditar em nós quando daqui três meses a gente vai estar vivendo vidas completamente diferentes, em lugares diferentes, sendo pessoas diferentes.
Até porque mesmo que a gente decidisse em algum momento ficar juntos, nossa vida não é nenhum filme onde eu vou estar no aeroporto quando entendermos que a gente não vive um sem o outro e eu desistir de ir embora. Isso jamais vai acontecer. Eu preciso construir minha vida e ele precisa construir a dele, e infelizmente elas estão seguindo rumos diferentes.
Então é isso? No final das contas realmente estamos fadados a não ter um futuro juntos?
— Três meses não é melhor que nada? — ele disse, assim, repentinamente. Olhei em sua direção e quando meu olhar alcançou o dele meu coração saltou dentro do peito. Quem eu to querendo enganar mesmo? Eu tenho sido racional até demais e todo mundo sabe que bem, não é assim que Isabelle funciona. Por isso, não me arrependo de eu mesma tê-lo puxado pra um beijo um pouco desesperado que ele retribuiu na mesma intensidade. Pro meu coração, nesse momento, três meses é sim melhor que nada.
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