Poltrona 19

39 O que sua mente está insinuando?


Notas iniciais
OLÁ, SEUS LINDOS! Que saudade de vocês! E como é bom voltar e dar de cara com a recomendação da PizinhaBLDS me chamando de gênio! Quem me dera! Hahahaha Muito obrigada, maravilhosa! Gente, que perrengue pra esse capítulo sair, ein? Quem me acompanha no facebook viu que meu notebook estragou, minha internet deu problema, tudo que podia acontecer, aconteceu! Mas aqui estamos nós! Se lembram daquela playlist melancólica e depressiva que vocês usaram pra ler o último capítulo? Então dá play nela novamente e prepara o coração! Boa leitura a todos!

Meu olho estava vidrado no teto branco acima de mim e meus batimentos cardíacos pareciam acompanhar o ritmo do relógio pendurado na parede daquele quarto sombrio.

Tic tac. Tic tac. Tic tac. Tic tac. Tic tac.

Comecei a suar frio e sentir pânico. Minha respiração se tornando descompassada. Aquele barulho estava pouco a pouco tirando minha sanidade. Ele parecia ecoar pelo quarto. Não era o simples fato de não conseguir dormir com aquele “tic tac” contínuo e ininterrupto, que me incomodava. Era como me afobava saber o que esse barulho infernal demarcava. O tempo. A vida. A minha vida. A desgraça da vida que tanto desejei simplesmente conseguir dar um fim e acabar com a tortura que é viver assombrado, sabendo o quanto um único e simples, tic tac, pode mudar tudo.

Tic tac.

Me levantei da cama abruptamente e arrastei um banco até a parede com o relógio. Subi no banco, arranquei o relógio da parede e o arremessei pela janela, para fora daquele quarto de hospital. Agora sim voltei para a maca dura e desconfortável, na qual fui obrigado a passar mais uma noite, simplesmente por implicância do meu pai. Ou melhor, para passar por um acompanhamento psiquiátrico.

Quanto mais tempo ficava naquele quarto, mais pensava sobre tudo que acontecera. Me lembro de acordar e enxergar enfermeiras ao meu redor, mas me sentia como se não estivesse dentro do meu próprio corpo, porque não conseguia sequer falar qualquer coisa. Pisquei lentamente diversas vezes, enquanto o mundo parecia rápido demais ao meu redor, para que meu cérebro conseguisse acompanhá-lo. Enxerguei meu pai com seu jaleco e de repente o rosto vermelho de minha mãe surgiu sobre meu campo de visão, ela falou algumas coisas das quais não me lembro e então, apaguei.

Na próxima vez que acordei, consegui tomar consciência do meu entorno. E foi difícil pra caralho. Eu não havia acordado de qualquer coisa, havia acordado de uma tentativa de suicídio e lidar com o que viria, talvez fosse muito pior que ter tomado a decisão de fazer aquilo na noite passada.

Não sou egoísta. Me lembro do quanto chorei, enquanto com as mãos tremendo, colocava cada vez mais remédios dentro da boca, pensando em mil e um motivos para desistir. Pensando em Babi e em como queria que ela me perdoasse algum dia. Tentando me convencer de que Henrique cuidaria dela como cuida de mim, do seu jeito meio errado e distorcido, mas também foi assim que sempre cuidei dela.

Pensei em Henrique e no quanto ele se preocupa comigo. Pensei no que estaria fazendo com ele, o abandonando com dois buracos em sua vida e uma criança sob sua responsabilidade. Pensei em minha mãe e no que aconteceria com ela depois de tudo, pensei que ela possivelmente enlouqueceria de vez. Ela nunca mais foi a mesma desde a morte de Alice, como se tivesse construído uma armadura em volta de si, para impedir que desmoronasse a qualquer momento. E pensei até mesmo em meu pai, se ele se culparia por tudo que fez comigo em todos esses quatro anos.

Pensei em Gustavo, em Bruno e em Carol. Pensei em como queria que soubessem que foi por eles que consegui chegar tão longe, queria que não se sentissem culpados por não terem conseguido me impedir de fazer aquilo, queria de verdade, mais do que tudo, conseguir agradecê-los por terem sido minha âncora, mas eu sabia que não conseguiria. E pensei em Isabelle, juro que pensei, em como gostaria de pedir desculpa. Só isso, nada mais. Se tivesse uma última coisa a dizê-la, seria justamente isso: desculpa. Mas talvez eu não merecesse suas desculpas.

Pensei em muitas coisas, mas às vezes, não existem motivos o suficientes para te fazer ficar, quando tudo que precisa é ir. Durante anos fui obrigado a lidar com psicólogos e psiquiatras, que deveriam me convencer de que não devemos desperdiçar a dádiva da vida, pessoas que deveriam me mostrar como é absurda a ideia de desistir de viver, quando aparentemente sou extremamente sortudo por essa oportunidade. Pessoas lúcidas e com mentes sãs, que nunca atingiram o limite do suportável em seu íntimo.

Cheguei a ouvir algumas vezes que suicídio é para quem busca atenção, piedade ou pena. Chego a sentir vontade de rir ao me lembrar disso. Tudo que menos quero ou preciso, é de qualquer uma dessas três coisas. O suicídio é simplesmente a saída, entende? A vida é minha e não sou obrigado a vivê-la. Não sou. Quem determinou isso? Se eu não suporto estar aqui, se não suporto ter a consciência de quem sou, se não suporto minha própria mente, se não suporto absolutamente nada e cada dia parece uma amostra grátis do que seria o inferno, por que eu sou obrigado a continuar vivendo? Uma pessoa não se torna covarde por desistir. Muito pelo contrário, são poucos os que possuem coragem o suficiente para isso.

Eu não sei quem diabos imaginou que eu conversaria com qualquer psiquiatra daquela merda de hospital, mas por incrível que pareça, eles tentaram. Me obrigaram a falar com um imbecil, que por sua vez, me obrigou a contar o que tinha acontecido porque se não, não me liberaria. E eu sabia que ele tava falando sério, então falei coisas da boca pra fora, simplesmente para acabar com aquele inferno. Acontece que ele me irritou profundamente quando disse a seguinte frase:

– Devemos ser racionais, Gabriel.

– Está me dizendo que alguém que comete suicídio não é racional? Ou melhor, que o suicídio consegue definir se um ser é racional ou não? – indaguei indignado.

Não define, mas influencia, pois o ato em si é sim irracional.

Tive vontade de discutir com ele naquele exato momento, mas eu sabia que seria em vão. Aparentemente ser racional significa ser sensato de acordo com as leis, regras e costumes da sociedade. Aparentemente temos que aceitar a ignorância do próximo quanto a isso, simplesmente porque para eles somos pessoas desequilibradas que não são capazes de entender o que é certo e o que é errado. Porque por ele ter estudado alguns anos sobre a mente humana, ele sim pode definir o que é certo e certo é ignorar qualquer sentimento que se passe dentro de um ser humano, para que ele tome a escolha de acabar com a própria vida. Simplesmente não quis debater, porque ele teria seus argumentos prontos e nada do que eu dissesse, mudaria algo em seu ponto de vista.

Então, naquele momento, deitado sobre uma maca, com um estranho ao meu lado me fitando de cima a baixo, anotando coisas sobre mim, achando que me entende de alguma forma, me lembrei de algo que uma garota loira disse certa vez. No primeiro dia em que conversamos, na primeira vez em que olhei para ela e a enxerguei de verdade. No dia em que quando questionada sobre o porquê ela sonhava em ser uma psicóloga, Isabelle respondeu a seguinte coisa:

– Pois é, parece que “somos os únicos seres racionais e conseguimos a proeza de agir feito irracionais.”

Naquele momento percebi qual era a diferença do profissional sentado ao meu lado e da garota que sem diploma algum, foi capaz de me entender melhor que qualquer psicólogo que tenha me examinado. Nenhum deles possuem a pureza no coração que aquela garota possui. A pureza que faz ela olhar pro outro e se colocar no lugar dele. A pureza que nunca vi em qualquer outro ser humano.

Fechei os olhos e consegui me lembrar perfeitamente do rosto de Isabelle, quando ela entrou em meu quarto do hospital e seus olhos bateram em mim. Seus olhos estavam fundos, inchados e vermelhos, como quem havia passado a noite acordada, em prantos. E eu soube que era exatamente o que havia acontecido. Eu não imaginava que ela estaria ali, mas ela estava, esteve durante todo aquele tempo.

O que vi em seu olhar, quando ela começou a chorar instantaneamente e involuntariamente, foi tanta dor, que desde que abri meus olhos novamente foi a coisa que mais me fez sentir culpado pelo que sou, pelo que fiz. Por um breve momento fui capaz de fazer por ela, o que ela sempre fez por mim. Olhei para Isabelle e consegui me colocar no lugar dela. Foi ao fazer isso que senti o remorso me atingir em cheio. Senti tanto nojo de mim mesmo, que não me assustei quando ouvi ela dizer “acabou”. Muito pelo contrário, me senti mais mal ainda.

Senti tanto nojo de mim por tudo que tenho feito nos últimos meses, tanta raiva em saber que Isabelle não merecia sair daquela sala tão abalada quanto ela sairia, me senti tão horrível, que seria alívio demais deixar que ela acabasse tudo daquela forma. Eu merecia no mínimo que ela me odiasse pelo resto da sua vida, eu merecia todo o pior que pudesse vir dela e essa é a pior parte de tudo, não importa o que alguém faça a Isabelle, não é possível se esperar o pior dela. Essa garota não possui maldade no coração.

Eu juro que Isabelle destroçou meu coração naquele momento. Eu finalmente me situei naquele quarto de hospital e senti a realidade pesar nas minhas costas novamente. Não sei em que momento comecei a chorar, mas o fiz, porque os soluços daquela garota pareciam muito piores que os socos que meu pai me acertara na noite anterior. E quando ela se foi, quis tanto, mas tanto, que ela não tivesse ido, que não me restara duvida de que era exatamente o que eu devia fazer. Deixar Isabelle sair da minha vida e de preferência, fazer com que ela me apague de vez da sua história.

Ao me lembrar de tudo aquilo voltei a sentir falta de ar e tive de me sentar na maca para me focar em minha respiração e conseguir ter controle sobre ela. Não consegui. Me levantei disposto a sair daquele quarto e ir para qualquer outro lugar, mas quando abri a porta, paralisei.

De repente eu estava naquele mesmo cenário, quatro anos atrás. O mesmo corredor sombrio e extenso, no qual entrei ao seguir o som de gritos assustadores, iluminado o suficiente para que visse minha mãe ter de ser contida por médicos e enfermeiros, se debatendo, enquanto gritava como se buscasse por voz em sua alma: “Minha filha não está morta! Eu quero minha filha de volta! Tragam Alice de volta!”.

Tragam Alice de volta! Tragam Alice de volta! Tragam Alice de volta!

Essa frase se repetia em minha cabeça, enquanto me lembrava do momento em que sai correndo e invadi a sala em que colocaram o corpo dela: imóvel, gelado, sem cor. Senti novamente o arrepio me percorrer a espinha, senti novamente a náusea que me atingiu, senti novamente o desespero, a dor. Senti novamente que estava morrendo por dentro.

Cai no chão segurando minha própria cabeça, gritando e me debatendo. Não tenho certeza se mergulhei na escuridão de minha própria mente, que novamente se apagou ao recordar seu maior trauma, ou se as mãos que senti me segurarem me forçaram a apagar com sedativos. Só sei que apaguei, sentindo a dor mais real que carrego comigo, pior que qualquer dor física que já tenha sentido em toda minha vida.

Quando acordei já era dia, minha mãe estava sentada em um dos sofás do quarto, assistindo ao telejornal da manhã. Estava muito cedo. Assim que me mexi na cama, ela direcionou o olhar para mim e sorriu.

– Bom dia, meu amor!

– Bom dia. – respondi sem humor algum. – Quando vocês vão me deixar ir pra casa?

Ela respirou fundo e se levantou do sofá, para caminhar em minha direção. Não precisou que ela abrisse a boca para que eu soubesse que não gostaria nada do que ela diria.

– Precisamos conversar sobre isso. – ela disse, passando a mão por meu cabelo. – Seu pai quer que você passe uns dias na clínica psiquiátrica, só pra...

Tirei a mão dela de mim abruptamente e a encarei, dizendo o mais sério que pude:

– Se repetir isso, eu juro que saio desse hospital sem que ninguém me veja e você não vai me ver naquela casa nunca mais. Você sabe que eu to falando sério.

– Gabriel, nós precisamos tomar alguma medida. Seu pai está preocupado com o que pode vir a acontecer com você.

– Meu pai não dá a mínima pra mim! – rebati.

– Ele salvou sua vida, Gabriel!

– Impedir meu coração de parar de bater não significa necessariamente salvar minha vida. Às vezes pode ser justamente o contrário. – respondi me levantando da maca e seguindo em direção ao banheiro. Entrei no mesmo e bati a porta com força, a trancando em seguida e me sentando no chão, encostado na mesma. Preciso ir embora desse lugar infernal. Preciso ir embora dessa cidade, ir embora pra longe. Longe de tudo, de todos. Eu só queria fugir.

Aproveitei para tomar um longo banho e quando sai do banheiro, Babi estava no quarto com minha mãe. Fiquei feliz em vê-la, mesmo que não quisesse ela naquele ambiente. Quando soube que ela passou a noite de sexta inteira naquela hospital, sendo acalmada por minha mãe, me senti verdadeiramente péssimo. Queria que tivessem escondido tudo dela, mas como poderiam? Possivelmente jamais me perdoarei pelos danos psicológicos que estou causando a ela. Eu sei bem no que resultam esses danos.

– Trouxeram seu café da manhã. – avisou Babi animada, correndo em minha direção para me dar um abraço.

– Sabe o que eu queria mesmo? – disse após abraçá-la. – A comida da Ana! Eu não aguento mais essa comida sem graça e sem sal.

Ela riu e ouvir o som de sua risada, foi como ter um breve momento de paz. Ana é nossa empregada e sempre cozinha tudo que pedimos. Todas as manhãs eu me sento à mesa e já esta tudo preparado, então enquanto eu como, ela enche um copo térmico de café para que eu possa ir tomando no caminho até a escola. Estou realmente sentindo falta dela.

Babi ficou comigo durante todo o resto da manhã e minha mãe foi resolver umas questões pendentes, de acordo com ela. Pelo menos ela não tocou mais no assunto sobre a clínica. Ela reapareceu apenas na hora do almoço, para me avisar que eu teria consulta à tarde:

– Entramos em contato com a Lisa e ela virá conversar com você hoje a tarde, depois decidiremos o que fazer.

Lisa é minha psicóloga, me atende há quatro anos e é possivelmente a única pessoa que me entende um pouco. Eu gosto dela, aprendi a gostar, mesmo que no início tenha tido muita resistência para ir as consultas ou me abrir. Ela nunca forçou a barra, nunca me tratou como se eu fosse um coitado, ao mesmo tempo em que nunca tratou meus problemas como se fossem frescuras. Eu gosto de como ela diz o que precisa ser dito, não importa o quão dura tenha de ser comigo para isso.

Por isso aceitei numa boa conversar com ela, mesmo que soubesse que não seria nada fácil. E de repente, lá estava eu, deitado em minha maca, esperando ela aparecer para me atender. Quando ela abriu a porta, pareceu ter se formado um nó em minha garganta.

– Você anda muito mimado! – disse Lisa assim que me viu. – Agora sou eu que tenho de me locomover até você? Isso não ta nada certo.

– Desculpa. – pedi sorrindo.

Ela se ajeitou em uma poltrona ao meu lado e começou a arrumar todas as suas coisas. Então enfim olhou para mim e sorrindo, fez a pergunta que detesto responder.

– Como você está?

– Bem. – respondi indiferente. Não era nem mentira, nem verdade. Apesar de tudo, eu estava me sentindo normal naquele momento.

– Deitado nessa maca desconfortável, no mesmo hospital em que seu pai trabalha, porque um passarinho me contou que você teve uma overdose? – disse Lisa sarcasticamente. – É claro que você ta bem, não é mesmo? Quer jogar xadrez?

– Eu odeio quando você utiliza o meu sarcasmo contra mim mesmo. – respondi bufando, mas sorri logo em seguida. – E você, como está?

– Estou ótima! Como foi de aniversário? Teve festinha, bolo, docinhos? Ganhou muitos presentes?

– Para com isso, Lisa! – pedi começando a rir. – Que saco!

– Eu comprei um presente pra você. – ela contou, finalmente voltando a falar serio. Lisa tirou um embrulho da bolsa e me entregou. Era pequeno e fino, quase no formato de uma nota de dinheiro. O peguei e abri. Era um vale de uma loja de instrumentos. – Comprei um violão pra você, pode ir buscar quando quiser.

Coloquei o papel ao meu lado e encarei o teto acima de mim. Eu não toco violão desde que Alice morreu e Lisa sabe disso. Era o passatempo preferido dela. Nós fazíamos aula juntos e eu sempre aprendia a tocar suas músicas preferidas, porque ela achava bonitinho.

– Não preciso nem comentar, né?

– Ah, precisa sim! Você tem muito o que comentar! – disse Lisa. – Deixe-me ver por onde começamos... Que tal me contar como foi a semana passada?

– Normal. – respondi.

– Hum... Meu café também está normal, mas você saberia me explicar o que isso significa, por gentileza? Se ele está quente ou frio? Doce ou amargo?

– Na verdade poderia sim. – rebati. – Significa que ele não está nem quente nem frio, nem doce nem amargo, está simplesmente normal.

– Mas se eu tomo café amargo todos os dias, ele se torna normal pra mim, você não acha?

Odeio como ela sempre tem uma resposta na ponta da língua. Bufei e comecei a falar. Eu não teria outra opção mesmo.

– Te vi na segunda, fui pro colégio todos os dias, na terça fui pra Isabelle depois da aula, quarta busquei minha irmã no balé e a levei pra comer sanduiche e na quinta fui pro bar de sempre. – contei. – Nada de interessante, relevante ou diferente.

– E na sexta?

– Depois do bar o Gustavo e o Bruno foram lá pra casa e dormiram lá. Matamos aula, comemos muita porcaria e jogamos videogame. Também o de sempre. – respondi.

– E depois disso? – insistiu Lisa. Não sei porque ainda tento fugir, mas eu sempre tento. Respirei fundo e comecei a abrir o jogo.

– Eu inventei pros meninos que tinha uma consulta com você e eles foram embora. Eu só queria ficar sozinho um pouco, quieto na minha, mas é claro que isso deu merda. Comecei a pensar demais e quando percebi estava entrando no quarto de Alice, mesmo sabendo que não deveria ter feito aquilo. Estava tudo lá, sabe? Tudo. E doeu tanto. Olhar pra todas aquelas coisas me deu uma sensação de vazio tão grande. A velha sensação de inconformismo, injustiça, desamparo e descrença na vida, me atingiu em cheio.

“Por um breve momento fui capaz de imaginá-la ali, entrando no quarto subitamente e me enchendo de abraços e beijos que me fariam mandar ela parar de ser tão melosa, mas ela insistiria dizendo que aquele era o meu dia e era o dia em que ela precisava me amar mais do que o normal. Fui capaz de imaginar todas as surpresas que ela aprontaria comigo, fazendo com que aquele dia fosse de alguma forma especial, diferente, tão Alice. E aí obviamente não suportei todos esses pensamentos.”

“Peguei meu skate e saí de casa sem destino. Comprei bebida e mais cigarros, fui para todos os lugares dos quais gosto pra ver se me sentia bem, mas percebi que ironicamente todos os lugares em que gosto de estar são justamente naqueles em que fico sozinho. E sozinho não tenho controle sobre meus pensamentos. De repente me peguei imaginando como absolutamente tudo seria se ela ainda estivesse aqui. Primeiramente, eu não estaria sozinho e me sentindo tão desamparado, porque não gosto de estar assim, só não gosto de estar com outras pessoas quando elas não entendem o que é ter um buraco dentro de você.”

“Me perguntei se ela teria seguido seu sonho de cursar Arquitetura e Urbanismo ou se simplesmente teria decidido que seu sonho era outro. Se todas as quintas eu iria pro bar com a galera da faculdade e ela estaria lá com nós, rindo e falando mal da vida, dando conselhos pra Carol, que seria sua bixete no ano seguinte. Imaginei ela se fingindo de brava por eu dar em cima de todas as suas amigas, mesmo que a própria me apresentasse todas elas.”

“Me perguntei se sentiria ciúmes dela com qualquer cara que ela ousasse se envolver e se no final das contas, ela teria se envolvido com Gustavo. Se ao invés de namorar Carol, Gustavo teria namorado minha irmã. Me perguntei se iríamos a festas juntos e eu teria de acabar a noite segurando seu cabelo para que ela pudesse vomitar, tentando esconder a cena de meus pais e livrá-la do belo sermão que tomaria. Se ela faria o mesmo por mim. Se daríamos festas escondido em casa quando nossos pais viajassem, como todo mundo faz.”

“Me peguei imaginando como eu seria. Se talvez teria conhecido uma garota legal e dado uma chance de verdade para ela, uma garota como a Isabelle. Imaginei, inclusive, que ela iria gostar muito de Isabelle e que as chances das duas se tornarem melhores amigas seriam extremamente altas. Imaginei se nos reuniríamos em algum lugar qualquer e ouviríamos as reflexões da Isa, sem que elas me doessem tanto.”

“Pensei se eu teria vivido de verdade e gostado de viver. Se ainda estaria me matando de estudar para cursar Medicina e se ingressaria na universidade junto com Gustavo, seríamos da mesma sala e depois trabalharíamos juntos, exatamente como nossos pais. Se seríamos obrigados a atender o Bruno de graça e ainda bancar ele nas bebedeiras da vida, porque nada venceria os argumentos dele de que um doutor ganha o triplo que um mero engenheiro, dois então nem se fala. Aliás, será que Alice se renderia as cantadas de Bruno ou eles continuariam a se implicar? E essa implicância era afinal amor reprimido, como no caso dele e de Luiza?”

“Me perguntei se ela ainda gostaria das mesmas bandas, se seu quarto teria os mesmos pôsteres colados na parede, se ela ainda teria a mania de colocar um incenso pra queimar. Se ela teria virado hipster, hippie, indie, rockeira ou quem sabe até gostasse de sertanejo universitário. Me perguntei quem teria se tornado Alice Fornazier e a resposta obvia, é que eu nunca saberei.”

“Me perguntei, pensei, imaginei, mas nada daquilo aconteceria e é tão duro ter de aceitar isso. É tão duro ter de conviver com esse ‘e se’. Tão duro fechar os olhos e procurar pela presença dela de alguma forma, mas não encontrar. Ter de viver de lembranças e perceber que pouco a pouco, o tempo vai levando a clareza dessas lembranças de nós e que por mais que amemos com todo nosso coração aquela pessoa, percebemos que seu rosto e sua voz não são mais tão nítidos em nossas memórias.”

“Chorei tanto pensando em todas essas coisas e de repente percebi que não havia apagado, como comumente acontece. Não apaguei porque por um breve momento fui capaz de perceber que o tempo não somente me roubou Alice, como pretende roubar de mim suas lembranças. Percebi que talvez um dia ainda tivesse de conviver com o buraco cavado em meu peito, mas talvez nem sequer me lembrasse mais de quem ela foi. Percebi o quanto a vida pode ser cruel. Percebi que jamais me conformarei e jamais entenderei. Mas acima de tudo, percebi que mesmo que eu passasse a vida inteira tentando acostumar com a dor e com a falta que ela me faz, eu jamais me acostumarei. Então doeu, pra caralho!”

Lisa não me interrompeu por nem um segundo enquanto eu dizia tudo aquilo e quando acabei, percebi que estava chorando novamente. Não era fácil para mim colocar tudo aquilo pra fora, mas eu precisava.

– Você percebe o que está implícito em tudo isso, Gabriel? – indagou Lisa e eu apenas neguei com a cabeça. – A sua própria vontade de viver. Tudo aquilo que você seria, se por um acaso, se permitisse ignorar a dor. Mas pra você, fazer isso seria como se livrar de um pedaço dela, porque você não consegue associá-la a todos os momentos bons e felizes que viveram, você sabe o quanto ela te fez feliz, mas só consegue associá-la a dor e sofrimento. Você precisa mudar isso.

– Mas é porque dói! – rebati colocando minhas mãos sobre meus olhos e os apertando com força. – Dói!

– Claro que dói e eu não preciso repetir aquilo que te digo em todos esses anos. Não preciso te lembrar que o tempo não cura e que ele não tem essa função. Mas mesmo que ele não cure a falta, você precisa permitir que ele diminua a dor. Percebe o quanto você age como uma criança teimosa? Daquelas que enfia o dedo na ferida sempre que ela está prestes a cicatrizar?

“Você precisa entender que tem de seguir em frente e que isso não significa deixá-la no passado, porque isso não vai acontecer. As pessoas que amamos jamais vão embora, porque elas continuam dentro da gente. Você receia seguir com sua vida, como se isso fosse finalmente dizer o adeus para ela que você nunca disse, mas isso não vai acontecer. Alice continuará a ser uma parte de você até o ultimo dia de sua própria vida, Gabriel.”

“O luto é mais que um direito de quem perde alguém e esse processo de luto é necessário para a reconstrução do sujeito que sofre a perda. É um processo solitário, assim como é vivenciar qualquer dor, e durante esse processo enquanto a vida de todos ao redor do enlutado parece continuar, a do mesmo parece seguir em outra frequência, quase que como se estivesse em uma realidade paralela. Você, Gabriel, jamais se permitiu sair dessa realidade. Você jamais se permitiu vencer o luto.”

– Eu não consigo. – sussurrei, começando a me sentir afobado.

– Você quer continuar a contar sobre aquele dia? – indagou Lisa, percebendo o quanto comecei a me sentir desconfortável.

– Pode ser. – respondi respirando fundo para conseguir prosseguir.

– O que aconteceu depois desse momento em que passou sozinho, pensando em tudo isso?

– Eu estava naquela praça em que costumo ir andar de skate e levar Babi para brincar. Tava sentado na arquibancada e nessa altura do campeonato, já tinha bebido muito mais do que eu devia. Tava bastante bêbado e entrei no estágio da raiva. Depois de perceber tudo aquilo que eu havia percebido e que ela jamais estará aqui novamente, comecei a sentir raiva de mim, do mundo, da vida, de tudo. Cada minuto pior que o outro. Cada instante mais insuportável que o anterior. Comecei a me culpar novamente pela morte dela, a pensar no quanto tudo isso é injusto, cruel e juro que estava prestes a entrar em colapso, até que ela me encontrou.

– Ela quem? – questionou Lisa.

– Isabelle. – respondi e levei longos segundos para prosseguir. – Ela me encontrou, mas eu não queria ser encontrado. Não naquele momento. Eu já estava com muita raiva de mim mesmo e quando olhei para ela, foi como se tudo se intensificasse. Então eu fui estúpido, porque precisava afastar ela, mas ela insistiu e nós discutimos.

– Por que você precisava afastar ela?

– Porque não é justo comigo! Ela sempre me faz acabar confessando coisas que eu não devia dizer, ela invade minha mente. Ela me enlouquece, entende? Porque eu acabo dizendo e depois me arrependo.

– E por que se arrepende? – insistiu Lisa, como se tivesse a intenção de me forçar a dizer algo que eu estava me negando a dizer. E eu sabia que uma hora ela acabaria conseguindo.

– Porque eu não posso deixar que ela me conheça de verdade. – confessei.

– Você raramente aceita falar da Isabelle e é a segunda vez, nessas raras ocasiões, em que me diz isso. Então me responda você, quem é o cara que Isabelle conhece?

Essa é uma daquelas perguntas que ela me faz que sempre me coloca pra pensar por um longo tempo, porque simplesmente não sei responder.

– O Gabriel popular do colégio, que apesar disso tem seu grupinho seleto de amigos e... – hesitei, pensei e então prossegui. – Que apesar de continuar vivendo, não gosta nada disso. O cara transtornado que perdeu a irmã e que por isso não somente desenvolveu problemas psicológicos com os quais tem de lidar todos os dias, como também é por isso que se fechou e não se abre com ela.

– Certo... – disse Lisa e então lançou uma pergunta muito pior que a anterior. – E quem é o verdadeiro Gabriel Fornazier?

Eu encarei o teto e senti um nó se formar em minha garganta. Olhei assustado para Lisa e ela apenas sorriu assentindo. Eu sou esse cara. Eu sou exatamente esse cara.

– Não, não, não... – repeti em estado de negação. – Eu nunca respondo as suas perguntas, nunca digo pra ela do que gosto e do que não gosto, nunca conto nada sobre mim.

– Porque o cara transtornado que perdeu a irmã e desenvolveu problemas psicológicos, se fechou. – disse Lisa, repetindo exatamente as palavras que eu havia usado. – Ela não precisa que você diga mais nada, porque esse é você.

Eu fiquei sem reação. Meu intuito sempre foi me esconder completamente de Isabelle e eu tinha falhado feio.

– Agora a grande questão é: Você insiste em esconder algo dela, que na verdade não é o seu verdadeiro eu. Então o que é? Não seria, quem sabe, algo que você também está escondendo de si mesmo?

– O que você está insinuando? – perguntei de repente me sentindo completamente desconfortável. Eu queria me levantar e sair daquele quarto sem ter de dar satisfação nenhuma.

– Eu não estou insinuando nada. – respondeu Lisa. – O que é que sua mente está insinuando ao me fazer essa pergunta?

– Você está querendo me fazer pensar que estou apaixonado? – perguntei, sabendo o quanto aquela ideia era idiota e ridícula. O cômodo ficou completamente em silencio e eu demorei para perceber que Lisa não havia respondido, então olhei para ela e ela estava apenas me observando, com o queixo apoiado na mão, que por sua vez estava apoiado no braço da poltrona. Em seu rosto havia um sorriso satisfatório, que me incomodou bastante.

– Tudo que eu sei sobre a Isabelle e você, é que ela é uma amiga sua com quem você acabou ficando algumas vezes. – disse Lisa. – Como eu poderia ter pensado isso? Foi você quem pensou.

– Não! – neguei. – Então o que diabos você estava insinuando?

– Que você tenta negar para si mesmo que ela te dá vontade de viver.

Ca-ce-te. Eu fiquei tão sem graça que simplesmente voltei a encarar o teto em silêncio. Eu nunca falo sobre Isabelle, porque a verdade é que ela está certa, existe sim algo que eu quero esconder dela, que não somente quem sou eu – o que eu jurava que estava fazendo até então. Algo que não tive coragem de confessar nem sequer para Lisa e que por isso, ela sabe a mesma versão sobre nós dois que qualquer outra pessoa: que somos apenas amigos, com o pequeno acréscimo de que ficamos algumas vezes. Ela não sabe quantas vezes isso aconteceu e que na verdade fora durante meses.

Lisa sabe bastante sobre a personalidade de Isabelle porque nas vezes em que a citei, tive de descrevê-la completamente, mas de fato, nunca entrei em detalhe nenhum que a levasse a pensar que eu poderia estar apaixonado. Ter algum tipo de sentimento sim, mas estar apaixonado não. Não sei porque diabos pensei que ela estivesse insinuando isso e é exatamente por esse motivo que “O que é que sua mente está insinuando ao me fazer essa pergunta?” ficou ecoando em minha cabeça.

– Falta muito pra acabar a sessão? – perguntei não mais querendo conversar.

– Na verdade não temos um limite de tempo hoje, temos o dia todo para conversar.

Que merda.

– Mas podemos encerrar o assunto Gabriel e Isabelle, que tal? – sugeriu Lisa e se ela sugeriu, estava dando para perceber que eu fiquei tenso. Ela sempre aceita mudar de assunto quanto percebe que não me sinto bem para continuar. Que merda maior ainda.

– Pode ser. – concordei, porém irritado comigo mesmo.

– Vamos voltar para o momento da praça. – disse Lisa. – O que exatamente aconteceu depois que ela te encontrou?

– Ela ficou preocupada, porque percebeu que eu não estava nada bem e como eu disse, tentei de tudo para afastá-la. Disse muitas coisas que não deveria ter dito, mas o que parece ter machucado ela de verdade foi quando eu disse que gostaria de nunca tê-la conhecido. E ela respondeu a altura.

– O que ela disse?

“Pelo menos dessa vez eu sei que não deu certo não foi por minha causa. Foi porque ninguém conseguiria lidar com o erro e estrago que é você” – contei, me lembrando exatamente de cada palavra que ela disse. Lisa permaneceu em silêncio, me dando espaço para continuar quando eu quisesse. Mas não consegui.

– Como você se sentiu? – ela questionou.

– Com 14 anos novamente. – respndi sinceramente. – Tão desestruturado quanto quando jogaram a primeira pá de terra sobre o caixão de Alice. Em todos esses quatro anos, ninguém nunca me olhou como ela. Ninguém nunca me olhou como se eu não fosse um erro ou algo estragado. Infelizmente, nem mesmo você, Lisa. Você me vê como um erro que tem concerto, mas não deixo de ser um erro. Ela foi capaz de olhar para mim e mesmo com todos os meus problemas e defeitos, mesmo apesar de tudo e quando eu digo tudo, tenho plena consciência de que isso significa muito, mesmo assim, ela não foi capaz de me enxergar como algo estragado, ela conseguiu de coração me enxergar como o concerto. O concerto de sua própria vida.

“Quando eu estava prestes a apagar, na festa de aniversário do Bruno, eu olhei em seus olhos e pela primeira vez em todos esses quatro anos, vi algo que nunca tinha visto antes. Vi pela primeira vez alguém me olhar como se eu não fosse uma bomba-relógio prestes a explodir a qualquer momento, como se precisassem ter cuidado para não mexerem em um fio errado que pudesse foder com tudo. Ela me olhou como se me entendesse, me olhou e disse “Você consegue. Respira devagar, ta tudo bem”, como se acreditasse naquilo e de alguma forma eu sabia, que ela de fato acreditava. E pela primeira vez eu pensei que sim, ta tudo bem. Tudo bem chorar, tudo bem doer, tudo bem simplesmente não conseguir suportar, porque existem feridas que levam tempo pra cicatrizar. Pela primeira vez fui capaz de pensar que, talvez, algum dia, eu realmente consiga e tudo realmente fique bem. Pela primeira vez em quatro anos.”

“Então, quando naquela praça, ouvi ela me chamar das duas coisas que jamais esperei que ela dissesse, foi como se eu percebesse que tudo não tinha passado de uma grande ilusão. Nada vai ficar bem e eu nunca vou conseguir, esse sou apenas eu, o cara que jamais conseguiria ser o concerto de alguém, porque eu não tenho concerto.”

– Foi nesse momento que você decidiu que simplesmente não valia mais a pena?

– Não sei. – respondi. – Só me lembro de ter ficado mal, entrar dentro de um taxi e ir embora pra casa, porque eu não sabia mais pra onde ir. Só que foi tudo tão rápido. Eu fiquei remoendo todas essas coisas na minha cabeça durante todo o caminho e quando cheguei em casa, estava com uma raiva do caralho, tava com raiva por perceber que eu não tava mal com a Isabelle, tava mal comigo mesmo. Tava mal por ser assim e por saber que ela tava certa.

“Eu lembro de ter começado a surtar e então de repente o Henrique apareceu, tentou conversar, me acalmar, mas não tava dando certo. Aí sim eu acho que aconteceu o ápice de tudo. Meu pai apareceu, viu a situação do meu quarto, viu a minha situação e começou a gritar comigo loucamente. Quando eu percebi, ele veio pra cima de mim e me agrediu.”

– Como exatamente foi isso? – indagou Lisa.

Eu não queria mesmo falar disso, mas ela não me deixaria em paz. Se eu não falasse hoje, seria pressionado a falar em algum momento e queria muito acabar com esse assunto logo. Então, comecei a me lembrar de tudo e a contar exatamente como foi:

O que ta acontecendo aqui? – perguntou meu pai, surgindo na porta.

– Nada, pai. – respondeu Henrique. – A gente ta conversando, só isso.

– Você quebrou seu quarto de novo, Gabriel? – ele perguntou entrando no mesmo e olhando com raiva para todas as coisas que eu havia quebrado. – Tu ta achando que eu trabalho pra bancar esses teus surtos? Pra mobiliar esse quarto sessenta vezes no mês, porque tu acha que tem direito de pagar de moleque rebelde que bebe e chega em casa quebrando tudo? Isso aqui custa dinheiro, seu imbecil! – ele disse pegando o braço de uma das guitarras que ficava pendurada em minha parede, mas que agora estava despedaçada, e arremessou longe.

– Pai, deixa isso pra lá! – pediu Henrique. Dava pra perceber o desespero dele ao tentar evitar que aquilo virasse uma merda maior ainda, mas era impossível. Agora não tinha mais volta.

Meu pai olhou pra minha mochila jogada sobre a cama, me olhou e começou a andar em direção a ela. Naquele momento eu desesperei.

– Não mexe nas minhas coisas! – gritei ao mesmo tempo em que ele pegou a mochila. Tentei arrancar de suas mãos, mas ele me empurrou e a abriu.

Tinha muita coisa dentro daquela mochila e ele foi tirando uma por uma e jogando em cima da cama. Moletom, pacote de comida, garrafa de bebida, maço de cigarro e por fim ele achou o que queria. Maconha.

– Você é o maior desgosto que eu já tive na vida! – ele disse segurando o pacote em mãos.

– Isso não é dele, pai. – intrometeu Henrique.

– Cala a boca, Henrique! Cala a boca que eu não sou nenhum trouxa! – gritou Maurício. – Eu vou te internar e te manter bem longe da sua mãe e da sua irmã, Gabriel.

Dessa vez ele me tirou do sério.

– Vai o caralho!disse pausadamente, o encarando.

– Como é que é? Tu ta me desafiando, Gabriel?

– To não, Maurício. – respondi, dizendo o nome dele da forma mais irônica possível. – Eu to apenas te avisando que a qualquer momento eu vou sumir dessa casa e levar a Bárbara junto comigo. Vamos ir pra bem longe de você e a única pessoa que vai sobrar nessa casa pra continuar te aturando vai ser minha mãe, que se deus quiser, uma hora se toca do filho da puta que você é.

– Você me respeita, seu imbecil! – gritou Maurício andando em minha direção e começou a me bater. E como sempre, eu apenas fiquei quieto, aceitando cada murro, por Alice. Porque eu prometi pra ela que jamais levantaria a mão pros meus pais. Jamais. No dia em que nós dois, completamente assustados, vimos meu pai e meu avô brigando.

Dava pra sentir o cheiro de álcool exalando dele, enquanto descontava a raiva em mim e Henrique tentava de toda forma possível tirá-lo de cima de mim, o que fazia com que ele acabasse de certa forma apanhando também. Mas apesar de sentir a dor de cada vez que meu próprio pai me acertava, minha mente estava longe.

– Ainda bem que ela não sobreviveu, pra ver o monstro que você se tornou. – disse com sangue escorrendo da boca, mas olhando no fundo dos olhos do homem na minha frente. Aí ele me acertou com força, força o suficiente pra me fazer cair no chão, me remoendo. Mas dessa vez Henrique pareceu ter chegado em seu limite, porque ele puxou meu pai com força e o empurrou pra longe.

– Sai agora daqui antes que eu chame a polícia pra você! – gritou Henrique. – Eu to cansado de você! To cansado de ver você tratando o Gabriel como se fosse culpa dele a morte de Alice, porque não foi! To cansado desse assunto! Tu é a droga do pior pai que alguém já teve, tu não é nem metade do homem que esse “moleque”, como você mesmo o chama, é!

– Abaixa o tom que essa daqui é minha casa! rebateu Maurício.

– Você não sabe o que é ser pai. – disse Henrique com desgosto exposto em sua expressão, em sua voz.

– Não, eu não sei o que é sentir orgulho. – respondeu Maurício se virando pra sair dali. Mas antes dele sair, eu precisava o lembrar de algo.

– Quando foi a última vez que você me deu feliz aniversário, pai? – perguntei, tendo de forçar minha voz para sair. Ele parou por um breve instante e então voltou a andar, mas nem sequer olhou pra trás.

Fora quatro anos atrás. Eu respondo pra você.

– Você sente falta do seu pai, Gabriel? – indagou Lisa.

– Não, apenas ódio. – respondi sem nem ter que pensar. Era por causa dele metade dos hematomas que eu tinha no corpo agora.

– Mas você percebe o poder que ele exerce sobre seu emocional?

– Eu não quero falar do meu pai, Lisa.

– Tudo bem. – ela concordou, mesmo que tenha ficado nitidamente insatisfeita e diria que até irritada. Mas eu sabia que não era comigo, era com meu pai. Lisa abomina profundamente as atitudes do meu pai. – Vamos prosseguir...

– Foi nesse momento. – contei, antes mesmo que ela fizesse qualquer pergunta. Porque me lembrei do ódio que senti e me lembrei que simplesmente não queria mais. – Assim que meu pai saiu do quarto o Henrique tentou me ajudar, mas não deixei. Mandei ele sair também e disse que tudo que eu queria era ficar sozinho. Menti dizendo que se precisasse dele, eu chamaria. E assim que ele saiu do quarto, desabei a chorar feito criança. “Isso é coisa de maricas”, teria dito meu pai, como costumava dizer quando eu era criança e ainda completava com um “homem não chora”. Ah, chora sim, pai! Quando a vida bate, todo mundo que apanha chora e chora pra caralho!

“Então me levantei, procurei pelos mil remédios que tenho e tomei um por um, usando a água da pia do banheiro, enquanto me olhava no espelho e repensava minha vida inteira. Repensava tudo aquilo que já tinha lhe dito. Cara, eu me olhei no espelho e vi o quanto estava acabado. Só não tava mais acabado que minha própria vida.”

“Eu me olhei naquele espelho e não sabia quem eu era, mas sinceramente, eu já não queria saber. Eu olhei pra mim mesmo e não consegui me imaginar sobrevivendo a nem mais um minuto. Não conseguia imaginar um futuro. Nunca consegui. E eu provavelmente devo ter tomado muito mais remédios do que o planejado, porque foi rápido. Eu estava andando pelo quarto e de repente comecei a me sentir mal. Comecei a suar, senti náusea, não conseguia respirar e então, me lembro apenas de ter caído e tido alucinações.”

– Você se lembra dessas alucinações? – perguntou Lisa e eu apenas assenti com a cabeça. – Poderia contar?

– Eu vi ela. – contei extremamente constrangido, me virando na maca para a direção oposta a Lisa. – Alice sorriu pra mim de uma forma tão doce, passou a mão pelo meu rosto e me desejou feliz aniversário. Eu consegui ouvir sua voz perfeitamente, sentir seu toque, como se ela realmente estivesse ali. Então ela disse que me amava e disse que estava tudo bem. E a única coisa que senti quando estava prestes a perder a consciência, foi felicidade, porque naquele momento, soube que estava de fato tudo bem.

Acabei chorando novamente, em silencio, com o olhar fixado na janela daquele quarto. Dessa vez Lisa me deixou quieto por longos e longos minutos, me dando o tempo necessário para que eu voltasse a me sentir bem. Como se isso fosse possível. Mas ela acreditava.

– Desculpa, Lisa. – pedi.

– Pelo que?

– Você não teria falhado se eu tivesse conseguido, você foi a melhor psicóloga que já tive. Eu só não consigo imaginar como alguém no meu lugar teria forças para conseguir continuar.

– Eu não teria falhado, Gabriel. – disse Lisa. – Eu falhei.

Não sei porque, mas as palavras dela me doeram de verdade. Não podia ser culpa dela não conseguir me convencer a continuar vivo. Ela fora a única pessoa capaz de me convencer a isso durante todos esses anos. Só é impossível quando pessoas destroem todo o trabalho que ela tem comigo. Será que ela será julgada, como eu serei?

– A pior parte disso tudo, é saber quantas pessoas ainda terei de encarar por essa escolha. – confessei. – O ser humano tem liberdade de escolha para cometer o suicídio. Foi uma escolha minha. – disse finalmente olhando para ela.

– Quando somos emocionalmente perturbados, nossa percepção da realidade é tão distorcida pela angústia, que a liberdade de escolha é praticamente inexistente, Gabriel. Se todas as pessoas decidissem cometer suicídio quando suas vidas prometessem mais sofrimento do que prazer, quantas pessoas você imagina que ainda estariam vivas?

Foi assim que ela concluiu nossa conversa, me deixando completamente sem resposta. E então, enquanto eu estava mergulhado em meus próprios pensamentos, ela disse algo que eu não queria ouvir.

– É praticamente impossível que eu consiga continuar te atendendo, Gabriel.

– Por que? – indaguei me sentando na maca abruptamente.

– A partir do momento em que você tentou suicídio, meu tratamento não é mais visto como qualificado para você. Além do seu uso excessivo de álcool e envolvimentos com substancias ilícitas. Eles dirão que você é um caso que deve ser passado imediatamente para a psiquiatria.

– Eles vão me internar, não vão? Eles vão, Lisa? – perguntei desesperado. Lisa apenas assentiu. – Por favor, eu te imploro! Não deixa eles fazerem isso! Por favor! Por favor, Lisa! Por favor!

– Eu te prometo que vou tentar, mas eu duvido que conseguirei convencê-los. Seus pais precisam autorizar e eles irão. Eu só estou aqui hoje, porque eles precisavam que você contasse a alguém tudo que aconteceu e eu sou a única pessoa em quem você confia.

– Eu sou maior de idade agora! Meus pais não poderiam decidir isso por mim, não é? – perguntei com esperança, a merda da esperança.

– Você é considerado psicologicamente incapaz de tomar esse tipo de decisão.

Desgraça! Senti o desespero tomar conta de mim. Eles não podem me internar, não podem fazer isso comigo. O desgraçado do meu pai disse que faria e ele vai conseguir. Ele vai me tirar a Babi, vai me tirar minha vida, vai me tirar tudo.

– Me desculpe, Gabriel. – pediu Lisa e eu percebi pelo seu tom de voz o quanto ela estava verdadeiramente triste.

– Eu vou te ver novamente?

– Eu te visitarei. Prometo.

Ela me deu um abraço e saiu do quarto, me deixando completamente sem chão. Essa foi definitivamente a pior consulta da história da minha vida. Eu não podia aceitar isso, precisava fazer alguma coisa. Minha saída era conseguir convencer minha mãe, mas eu jamais conseguiria fazer aquilo naquele hospital, naquela situação.

Me levantei da maca determinado de que precisava tomar alguma atitude. Abri a porta do quarto e quando ia sair no corredor, vi uma roda de pessoas que contavam com Lisa, minha mãe e outros médicos.

– Ele não irá responder a um tratamento psiquiátrico agora! Interná-lo não é a solução! Eu preciso continuar o meu tratamento! – gritou Lisa.

– Até ele tentar suicídio novamente e obter sucesso? – rebateu um homem.

– Eu acompanho o paciente há anos, tenho todo o seu histórico e conhecimento da sua personalidade. Sei muito bem que ele não aceitaria se submeter a uma internação, vocês vão apenas agravar o quadro. Eu preciso prosseguir. Tudo que eu preciso agora é contato com as pessoas envolvidas em seu ciclo e principalmente com o Doutor Maurício Fornazier, que acha que está fazendo alguma coisa pelo filho, quando é nitidamente o principal responsável por todo o transtorno que causa ao mesmo. Ele por acaso conta que agride o garoto com frequência? Quem precisa de atendimento imediatamente é ele e se aquele homem não aceitar estar contribuindo pro tratamento de Gabriel, eu serei obrigada a tomar outras medidas!

Foi estranho sentir mais orgulho daquela mulher que é apenas minha psicóloga, do que da mulher parada ao seu lado que se diz ser minha mãe. Foi doloroso perceber que ela estava ali lutando por mim, mais do que minha mãe já fez em qualquer momento.

Lisa saiu andando a passos largos e pesados e todos ao seu redor a acompanharam, enquanto continuavam aquela discussão. Voltei para dentro do quarto e comecei a revirar tudo. Lembro de minha mãe ter trago uma mochila com coisas minhas, como escova de dente e outros objetos pessoais. Vesti uma blusa de frio que tampou todos os meus curativos, tive de permanecer com a maldita calça do hospital, calcei um tênis que encontrei e coloquei a mochila nas costas.

Abri a porta do quarto com o coração acelerado. Era minha única chance. Eu conhecia aquele hospital inteiro, isso tinha que me dar vantagem. Levantei meu capuz e comecei a andar rapidamente pelos corredores, sempre de cabeça baixa na tentativa de evitar contato visual com qualquer médico ou enfermeira, uma vez que sendo filho de um dos médicos, é impossível que não me reconheçam.

Eu consegui chegar na recepção, mas sabia que dali seria impossível sair, estando com a calça daquele lugar. Então inspirei, tomei coragem e assim que a porta que separava a parte interna do hospital da recepção se abriu para uma pessoa passar, eu sai correndo. Passei por aquela porta e atravessei a recepção correndo, como se minha própria vida dependesse daquilo. Foi irônico pensar que apenas horas depois de ter tentado acabar com minha própria vida, eu estava tentando lutar por ela. Mas acreditem em mim, ser internado a força, não é viver.

Ouvi gritos atrás de mim, mas consegui sair do hospital e quando o fiz, não parei de correr por nada. Estava difícil respirar e difícil correr, mas corri até conseguir ficar longe daquele lugar e então comecei a andar, ainda não disposto a parar. Não sei por quanto tempo andei, mas apenas uma meia hora depois me arremessei em um gramado. Revirei minha mochila e não achei um centavo sequer, não achei meu celular, não achei nada. Eu não tinha o que fazer ou para onde ir.

Me levantei com raiva e comecei a chutar tudo que vi pela frente, inclusive a desgraça da mochila. Até que avistei um orelhão. Eu poderia ligar pra alguém! Meu irmão? Meus amigos? E se eles estivessem com raiva de mim? E se também achassem que a única solução que tenho é ser internado? Se já estiverem de saco cheio de mim? Encostei a testa no telefone em minha frente e comecei a chorar. Eu to na merda. Eu to completamente sozinho.

De repente me veio algo na cabeça e em um impulso, tirei o fone do gancho e comecei a discar um número. Chamou umas cinco vezes até que a musiquinha irritante da ligação a cobrar começasse a tocar e pra minha surpresa, a pessoa deixou ela ir até o fim.

– Alô. – atendeu a pessoa e meu coração parou. Ela era minha única esperança.

– Eu preciso de você, Isa. – disse com a voz completamente rouca, em um tom suplicante, desesperador. – Eu preciso de você.

Notas finais
Me mandem comentários que agora consegui responder todos que faltavam e vou voltar a responder na hora! AI QUE AMOR! AHHH, E ME ADICIONEM NO SNAP: kpettrova (COM DOIS T!) Beijinhos! Amo vocêeeees!