Poltrona 19

17 Disk Faxina


Notas iniciais
E ai, pessoal! Olha como eu sou linda, postando capítulo novo para livrá-los de um sábado tedioso Haha Boa leitura!

Acordei com meu celular apitando, resmunguei e amaldiçoei meu despertador. Eu estava com muito sono, muito mesmo, não conseguiria me levantar e ir pra aula. Na situação em que estava demorei alguns minutos para perceber que: 1º) Eu não tinha programado o despertador porque eu não ia pra aula; 2º) O barulho havia cessado sozinho, ou seja, não era meu despertador.

Me obriguei a abrir os olhos e peguei meu celular. Eu havia apenas recebido mensagens no whatsapp e bufei de raiva ao ver o nome “Gabriel Fornazier”. O relógio marcava 3h45. Puta que pariu, por que eu acordei a essa hora com o barulho do whatsapp? Quero que o Gabriel vai se foder. Abri a conversa e vi o que ele tinha mandado:

“Foi mal não ter respondido aquela hora, por que perguntou onde eu tava?”

Li a mensagem e resolvi ignorar. Não basta me irritar, ele tem que me fazer perder o sono de madrugada. São quase 4h da manhã e eu tenho certeza que ele está chegando em casa agora. Caso contrário, ele não estaria acordado. O celular apitou de novo e o peguei por curiosidade.

Gabriel: “Vizualizado por último hoje às 3h45. Acordada por que? Não respondeu por que?”

Eu: “Acordada porque você não me deixa dormir e não respondi porque eu não deveria estar acordada”

Gabriel: “Mas como já está, pode responder”

Eu: “Fui pra um barzinho e ia te convidar”

Gabriel: “Porra, devia ter falado, eu tinha ido. Que barzinho?”

Eu: “Um ali no centro, frequentado bastante pela galera da faculdade, sabe? Encontrei teu irmão lá, o Bruno também, tua mina da vez, um monte de gente :)”

Ele estava online, mas se passaram minutos e ele não disse nada. Conseguia perfeitamente imaginá-lo encarando a tela do telefone, pensando na melhor coisa a dizer naquela situação. Eu deveria dizer “Nem tenta”, porque desculpa nenhuma ia funcionar. Então resolvi encerrar a conversa, antes mesmo dele responder.

“Não vou estar em casa amanhã. Boa noite.”

Fechei o whatsapp, coloquei o celular no silencioso e o enfiei debaixo do travesseiro. Queria muito saber o que ele diria, queria mesmo, mas tava na hora de parar de deixar o Gabriel ditar as regras do jogo. Me virei para o lado e fechei os olhos disposta a dormir. Queria dizer que consegui fazer isso imediatamente, mas é claro que não aconteceu.

***

13h20, sentada à mesa, com Elisa me servindo lasanha. Em qualquer momento de normalidade, eu estaria completamente de bom-humor, mas não era o que estava mostrando minha cara de bosta. Peguei meu celular ao acordar e Gabriel simplesmente não havia nem tentado inventar uma desculpa por ter mentido. E mesmo que eu tenha dito que não estaria em casa, meu subconsciente esperava que ele entendesse que eu só disse aquilo porque estava brava e então, ele aparecesse mesmo assim. Porém, já havia quarenta minutos que a aula acabou e já daria tempo dele ter aparecido se sua intenção fosse almoçar, então ele não apareceria.

Pra me deixar ainda mais de mal humor, quando acordei Elisa me mostrou um bilhete que minha mãe havia deixado para ela antes de sair de casa. No bilhete dizia:

“Elisa, você está liberada da faxina pelo resto da semana, faça apenas o almoço. Isabelle irá limpar a casa como forma de castigo. E não tente ajudá-la, irei almoçar em casa e se tiver arrumado algo, estendo o castigo dela. Beijos, Renatta.”

Elisa disse que queria me ajudar, mas que não tinha mesmo como. Portanto, ela cumpriu a ordem de minha mãe, quem fiz questão de ignorar quando apareceu em casa. Afinal, ninguém merece ter de arrumar uma casa inteira, depois de digerir os três pedaços de lasanha que comi. Eu odeio minha vida.

Me joguei sobre o sofá quando terminei o almoço e lá permaneci por mais de 1 hora. Elisa limpou a cozinha, porque alegou ser justo, já que foi ela quem bagunçou ao fazer o almoço. Eu não reclamei nem um pouquinho, pois era um cômodo a menos. Mesmo assim, só de pensar em levantar, a preguiça me dominava, eu virava pro lado contrário e lá permanecia por mais tempo.

Ouvi a campainha tocar e meu coração acelerou. Seria Gabriel? Ele é teimoso, é claro que seria ele. Levantei em um pulo, peguei a chave do portão e segui até ele. Quando o abri me surpreendi com o que vi. Não, não era Gabriel, era muito melhor. Era Leticia, Amanda, Vitor, Pedro, Alexandre, Arthur e Leandro, todos usando uniforme e carregando suas mochilas.

– Senhora Isabelle Nemitz, você solicitou os serviços do Disk Faxina? – perguntou Pedro me fazendo rir. – Pois saiba que não irá se arrepender, nós somos a melhor equipe da região.

– Vocês são inacreditáveis! – respondi abraçando um por um.

Uma coisa sobre velhos amigos, que eu amo, é que eles se sentem em casa quando estão na sua casa. Não é necessário essa parada de formalidade, de ser receptivo e não sei mais o que. Eles simplesmente se sentem a vontade. E é por isso que sorri ao ver todos entrando e jogando suas mochilas no chão da sala, se jogando sobre o sofá, abrindo a geladeira, bebendo água e etc.

– Vocês almoçaram? – perguntei me sentando ao lado de Alexandre no sofá.

– Sim, por isso demoramos. Como queríamos fazer uma surpresa, não poderíamos avisar e logo não teria comida pra essa manada aqui né, então comemos num restaurante perto do colégio. – explicou Leticia.

– Viemos a pé. Eu estou morta de cansaço. – disse Amanda jogada sobre o outro sofá.

– Larga de ser fresca, Amanda, é pertinho. – rebateu Pedro voltando da cozinha e se sentando em meu colo.

Quando estávamos todos sentados na sala, Vitor assumiu o controle da situação.

– Viemos na missão de ajudar Isabelle, então é melhor começarmos logo. Vamos dividir as tarefas. – disse Vitor. – Quartos são coisas pessoais, portanto, você pode ficar encarregada pelo seu quarto e o de sua mãe, Isa?

– Sim. – respondi. – E já devo avisar que a cozinha está arrumada.

– Ok!

– Eu posso ficar responsável pelo banheiro da Isa? – pediu Leandro e eu consegui entender o motivo pelo olhar que ele me lançou. Ele queria conversar.

– Pode ser. – concordou Vitor.

– Eu posso ficar com o banheiro da Renatta. – se voluntariou Arthur.

– E eu com o do corredor. – disse Pedro.

– Combinado! – concordou Vitor.

– Eu posso arrumar o quarto de visitas. – disse Leticia.

– E eu ficarei com a sala, porque ninguém melhor que eu pra arrumar o cômodo principal. Vou deixá-la impecável. – afirmou Amanda.

– Eu posso ficar com a varanda e a garagem. – disse Alexandre.

– Tudo bem. –concordou Vitor. – Tarefas divididas! Eu vou ficar com a parte da frente da casa, incluindo o precioso jardim da Renatta e quando vocês terminarem suas atividades, limparei o chão da casa toda, que tem de ser a última coisa a se fazer.

– Por que? – perguntou Arthur.

– Porque vamos nos locomover pela casa enquanto arrumamos, não adianta nada limparmos o chão e ai pisarmos num cômodo que ainda está sujo, depois pisar em um que já está limpo, sujando de novo. – explicou Vitor.

– Ah, faz sentido. – respondeu Arthur.

– E o escritório? – perguntou Alexandre.

– Ah, minha mãe não gosta que mexam lá, nem mesmo eu entro naquele lugar, então vamos deixá-lo quietinho. – respondi.

– Tudo bem. Então vamos começar! – ordenou Leticia e foi o que fizemos.

Houve uma disputa por panos, vassouras, rodos e produtos de limpeza, mas no fim conseguimos dar um jeito. Eu segui para o meu quarto junto com Leandro e começamos a cumprir nossas tarefas. Primeiro estendi minha cama e depois comecei a limpar os móveis. Tirava tudo do lugar, limpava e colocava de volta. Em certo momento Leandro apareceu na porta do banheiro, usando luvas e se apoiando num rodo.

– Eu terminei com ela. – contou Leandro e eu sorri.

– Eu deveria dizer: Não precisava? – perguntei.

– Não. – ele respondeu rindo.

– Que bom, porque eu estou bastante feliz. – afirmei rindo e ele voltou ao banheiro. – Ela não te merecia, Leandro.

– Não é como se eu valesse muita coisa, mas é, mereço coisa melhor que ela. – ele respondeu do banheiro.

– Pra mim vale muita coisa sim. – rebati.

– É por isso que eu te amo. – disse Leandro colocando a cabeça para fora do banheiro e me mandando um beijo.

– Ah, agora eu entendi tudo. – disse Arthur entrando no quarto com a roupa toda molhada. – Você cansou da Bianca e agora vai me roubar a Isabelle, faz todo sentido. – completou tirando uma das luvas que estava usando e tacando em Leandro que estava rindo.

– Porra, me descobriu, foi mal cara. – respondeu Leandro. – E você tava lavando um banheiro ou tomando banho? – perguntou zombando.

– Eu não sei lavar um banheiro sem fazer bagunça. – explicou Arthur. – É tipo a Isabelle fazer algo que não acabe em desastre, ta ligado?

– Por que sempre sobra pra mim? – perguntei irritada e eles riram.

Arthur entrou no banheiro e o vi saindo de lá com o rodo que Leandro estava usando. Leandro tentou contestar e eu quase chorei de rir assistindo a cena de dois caras brigando por um rodo. É, amigo de verdade é aquele que troca uma boa soneca durante a tarde para arrumar sua casa. Isso é raro pra caralho.

Leandro acabou cedendo o rodo e Arthur voltou satisfeito ao seu serviço, mas alguns minutos depois Leandro saiu e voltou trazendo um outro rodo.

– Roubei do Pedro. – ele respondeu sem eu ao menos ter perguntado.

Aparentemente ele havia terminado sua tarefa, já que alguns minutos depois ele foi devolver o rodo ao Pedro e ai voltou para o quarto. Ele se ofereceu para me ajudar, mas eu estava quase terminando e recusei, então ele simplesmente se sentou e ficou me observando.

– Você e o Arthur já conversaram sobre ter ficado? – perguntou Leandro me pegando de surpresa. Quase deixei o porta-retrato que estava limpando cair no chão e era uma foto minha com Leticia e Amanda.

– Não. – respondi seca, colocando a foto de volta em seu lugar. Não estava afim de continuar esse assunto.

– Pois deviam. – ele rebateu.

– Acho que não existe necessidade. – argumentei.

– Vocês se beijaram, Isabelle. Você e o Arthur. Repito, você e o Arthur. Depois de anos! E diz que não existe necessidade?

– É, não. – respondi.

– Ah ta... E quando vai existir? Quando acontecer de novo?

– Não vai acontecer de novo! – respondi exaltada.

– Por que não? – perguntou Leandro, no exato momento em que eu peguei outro porta-retrato. Nele havia uma foto minha com os quatro meninos. Eu sentada no meio, Arthur e Leandro ao meu lado direito, Alexandre e Pedro ao meu lado esquerdo. Era uma foto espontânea em que estávamos todos rindo e eu, com a cabeça tombada sobre o ombro de Arthur, que estava segurando minha mão.

Eu adorava aquela foto porque sentia vontade de rir toda vez que a olhava. E ela me fazia lembrar que a grande verdade dessa vida, é que ninguém consegue ser feliz sozinho. Me fazia lembrar da importância dos meus amigos em minha vida, afinal, um momento só é inesquecível quando compartilhado com alguém. Uma história só é realmente boa, quando você a conta com risadas em uníssono.

– Vou ver se alguém ta precisando de ajuda. – avisou Leandro e eu percebi que eu não respondi sua pergunta. Eu não tinha uma resposta para ela.

Não muito tempo depois eu terminei de arrumar meu quarto e segui para o quarto da minha mãe, que seria bem mais fácil de limpar, já que ela é organizada. Fui até o banheiro apenas para ver se Arthur ainda estava ali, mas o banheiro estava vazio e completamente limpo. Quase todos já deveriam ter terminado suas tarefas, já que apenas eu fiquei responsável por duas coisas. Ouvindo as vozes pude constatar que a maioria estavam na sala.

– Me procurando? – ouvi Arthur perguntar e olhei para trás, só então percebendo que eu ainda estava parada na porta do banheiro. Ele estava segurando um rodo e um pano. – Achei melhor secar o banheiro, minha mãe sempre me xingava quando eu não fazia isso.

– Tanto faz. – respondi seguindo até a escrivaninha. Percebi que ele se assustou com minha resposta e nem entendi porque fui tão seca, acho que apenas agi por impulso.

Enquanto limpava os móveis e Arthur secava o banheiro, fiquei pensando no que Leandro havia dito. Não dá pra simplesmente fingir que ficar com o Arthur foi uma coisa normal, porque não foi. Talvez fosse necessário conversarmos, até pra aliviar essa tensão que sinto toda vez que ele está perto. Mas conversar o que? O que eu vou dizer? “Oi, cara, então, vamos falar daquela noite em que nos pegamos?” Não, eu não faria isso.

Arthur saiu do banheiro e passou por mim sem dizer uma sequer palavra.

– Ui, revoltadinho. – disse quando ele saiu do quarto.

– Cade sua maturidade, Isabelle? – ouvi Arthur perguntar e levei tanto susto que deixei o telefone que estava segurando, cair no chão.

– Desculpa, não era pra você ouvir. – respondi sem olhá-lo e colocando o telefone de volta no lugar. Me senti extremamente constrangida.

– A gente vai conversar, Isabelle. Assim que todo mundo for embora. – ele avisou e saiu do quarto em seguida.

Não preciso dizer que permaneci tensa o resto do dia, não estava nem um pouco ansiosa para essa conversa. Quando terminei minhas obrigações, todos também já haviam terminado, então ficamos na varanda esperando Vitor limpar o chão.

– O que vamos fazer esse fim de semana? – perguntou Pedro deitado no chão.

Eu me lembrei do convite do meu pai para ir na fazenda, me lembrei de ter aceitado o convite, mas eu simplesmente não queria mais ir. Então resolvi não falar nada, porque mais tarde ligaria para ele e cancelaria tudo. Ele provavelmente ficaria com muita raiva, mas eu queria que todos os meus amigos fossem e não estava afim de convidar o Gabriel a passar um fim de semana inteiro comigo. Sem contar que eu não havia pensado que meus dois grupos de amigos não se gostam, ou seja, o que eu iria fazer? Era melhor cancelar mesmo.

– Vai ter uma festa muito maneira num pub. – respondeu Amanda. – Vai ter rock e todo mundo vai, ou seja, nós também vamos.

– Só tem um problema né, querida, o pub vai abrir pra menores de dezoito anos? – perguntou Leticia.

– Até onde eu sei vai sim, só que vai ser naquele esquema que nunca dá certo, só maiores de idade terão as comandas liberadas pra consumo de bebida alcoólica. – disse Alexandre.

– O que faz essa galera achar que isso daria certo? – perguntou Leandro. – É só tu pedir pro amiguinho maior de dezoito ir lá com a comanda liberada dele e comprar a bebida pra ti, como nós sempre fizemos.

– Eles não querem saber se ta dando certo ou não, eles só querem tirar a culpa das costas. – respondi. – Se tu ta pedindo pro seu amiguinho comprar ou não, o problema é seu. No final se algum menor morrer de cirrose ou qualquer coisa do tipo lá dentro, eles vão deixar claro que não forneceram bebida pra ele, ele que burlou o sistema.

– Faz sentido. – concordou Leandro.

– Mas vai ter muito pirralho lá se for liberado pra qualquer um assim. – reclamou Pedro.

– Não, mas quando é assim só entra maior de dezesseis, óbvio. – afirmou Amanda.

– Então fechado? – perguntou Leticia.

– Sei não. – respondeu Arthur que se manteve calado durante toda a conversa.

– Como assim, pau no cu? – indagou Leandro.

– Se a Amanda disse que conhece muita gente que vai, significa que muita gente do colégio vai. E tem muita gente ali que eu não to afim de ver. Aliás, já sou obrigado a ver a cara daquele povo cinco vezes por semana, no fim de semana também já é demais. – respondeu Arthur.

– Ah, larga de ser chato. – reclamou Amanda. – Até o Vitor vai.

– Sabe que eu ando compartilhando da opinião do Arthur... – afirmei.

– Não só a opinião, né. – zombou Amanda. Foi inevitável, todos riram. E também foi inevitável, todos ficaram sem graça ao perceberem que eu e o Arthur permanecemos sérios. A questão é que uma piadinha que constrange os outros, sempre é engraçada, mas quando você é o constrangido, não há graça nenhuma.

– Bom, eu vou de qualquer jeito, vou pegar altos gatinhos de bom gosto musical, me divertir e ser feliz. – disse Amanda tentando concertar a situação.

– Verdade né, cara com bom gosto musical é tudo que eu to precisando na minha vida. – disse Leticia.

– Uns gatinhos usando camisetas de banda, umas calças largas, tênis de skatista, usando toquinha e boné, todo tatuado...

– É, vocês me convenceram! – afirmei e elas riram.

– Combinado então. – disse Pedro.

Quando Vitor terminou sua tarefa, se juntou a nós na varanda, onde permanecemos até anoitecer. Todos deitados no chão e conversando sobre futilidades, o que sabemos fazer de melhor. Minha mãe chegou em casa e ficou bem satisfeita com o resultado, mas a melhor parte foi eles terem afirmado que não ajudaram com nada. Meus amigos são realmente os melhores. Mentira. Assim que ela saiu, Pedro disse: "Você ta devendo uma cerveja pra cada um". E eu sei que eles cobrariam.

Foi engraçado ver a cara da minha mãe quando viu o Arthur. Ela obviamente o conhece, ele não saia da minha casa. Ela também sempre gostou muito dele e acho que desconfiava que rolava algo entre a gente, mas eu nunca confirmei, nem pretendia. Só que agora ela tem pelo menos a certeza de que já ficamos e sua expressão foi mais ou menos como "minha filha quase foi expulsa do colégio por ter te beijado". Foi engraçado.

Um por um meus amigos acabaram indo embora, mas quem eu realmente queria que fosse, parecia não estar disposto a fazer isso. Leticia foi a primeira, sua mãe que foi a buscar. Amanda foi logo em seguida e deu uma carona para Alexandre. Pedro e Leandro foram juntos de ônibus e quando Vitor avisou que sua mãe havia chegado, meu coração acelerou.

Me chamem de mal educada ou o que for, mas não levei ninguém até o portão. Quase nunca faço isso, só com pessoas de quem não sou muito íntima. Porém, eu queria muito acompanhar Vitor, mas ficaria muito óbvio o motivo e no fim, nem adiantaria, porque eu teria de voltar e encarar o Arthur. Então permaneci deitada no mesmo lugar.

– Fazia tanto tempo que eu não vinha na sua casa, que foi até estranho estar aqui novamente. – afirmou Arthur.

– Imagino. – respondi e o assunto acabou ali mesmo.

Longos minutos se passaram, até que Arthur rompeu o silêncio e foi direto ao ponto.

– Como ta a situação entre você e o Gabriel? – perguntou.

– Eu não quero falar disso, Arthur.

– Mas eu quero. – ele rebateu. – Se o que aconteceu aquela noite entre a gente não significou nada pra você, significou pra mim.

– A gente parou de ficar. – disse me referindo ao Gabriel. Eu preferia falar disso do que falar sobre os sentimentos do Arthur por mim. Percebi que ele demorou a entender do que eu estava falando.

– Tu deu um fora nele? – indagou Arthur e eu não respondi, apenas continuei fitando o teto, enquanto o silêncio preenchia o ambiente. – Ele te deu um fora? – ele perguntou quase gritando.

– Ele não me deu um fora, ele só decidiu parar de ficar comigo, Arthur, só isso. – murmurei.

– Ele te deu um fora. – ele repetiu nervoso, se levantando. – Não acredito que tu deixou aquele cara te dar um fora.

– Qual o seu problema? – perguntei irritada, me levantando e o encarando. – Eu estava com o Gabriel e você reclamava, eu não estou mais e você continua reclamando.

– Não está porque ele não quer, porque se quisesse, estariam. A questão é essa! – rebateu Arthur, me deixando sem resposta. Eu odeio ficar sem respostas, eu odeio perder discussões, eu me odeio.

– Tanto faz, Arthur. Vai embora, por favor. – pedi.

E ele foi. Ele foi embora, me deixando ali sozinha, perdida em meus próprios pensamentos. O Gabriel não me deu um fora... Ou deu? Ele desistiu de mim porque disse que eu sou incrível demais. Incrível demais. Qual a porra do sentido nisso? Que tipo de pessoa desiste de outra porque ela é incrível demais?

Me sentei no degrau que separava a varanda da grama e acabei chorando, meus soluços se misturando ao barulho do vento forte, que acertava meu rosto quase como se me desse um tapa na cara. Eu não sou incrível demais. Gabriel me deu um belo fora e eu consegui fazer Arthur perder a paciência comigo. Eu sempre me importando com as pessoas erradas e afastando as pessoas certas. Dizem que todo mundo tem um dom, o meu é ser idiota.

Notas finais
A vida da Isabelle é uma confusão, né? Puta que pariu. Se eu fosse ela já teria enlouquecido. Obrigada por terem lido e até o próximo :D