Polly

1 Obsessão


Notas iniciais
Sabe o que dizem né? Primeira impressão é a que fica. Por isso, espero de verdade que gostem desse capítulo, para que vocês possam me acompanhar ao desenrolar da trama.
Vocês podem achar um pouco doentio, mas vou logo explicando. A história está dividida em duas partes, e a primeira é contada pelo ponto de vista do estuprador. A segunda parte (com mais ação) será contada pela Polly, a vítima.
Mais uma vez, espero de verdade que gostem. Leitores fantasmas por favor apareçam, não sejam tímidos. E enfim... boa leitura!

– Presente!

Ela respondeu mais uma vez à chamada, com sua voz grossa demais para uma garota de doze anos. Aliás, tudo nela é avançado demais para sua idade. Incrível como maturidade e inocência estavam presentes nela. Mas ela era assim. Essa era Pollyana.

Eu devo ser mesmo um masoquista. Um homem de trinta e oito anos, que sente as mesmas coisas insólitas que eu, não deveria dar aulas em um colégio como esse recheado de ninfetas. A maioria das vezes eu conseguia disfarçar meu súbito desejo por elas.

Mas Polly, a minha Polly era diferente delas. Talvez por isso tenha me chamado tanto a atenção. Não era mimada como as outras estudantes, filhas de pais que podiam pagar a mensalidade absurda, e todos os caprichos de suas bonecas, como se fosse uma bandagem tapando sua ausência. Polly era uma bolsista dotada de uma inteligência invejável. Ela sempre conquistava o que queria.

E no momento estudar no Colégio para garotas Bertha Fritz era o que mais queria. Um dos colégios internos mais prestigiados da Região Sul. No entanto não vejo esse colégio com a cara dela. Pollyana parece um pássaro pronto para alcançar voo se alguém não prendê-lo rapidamente. Talvez por isso seus pais fanáticos por religião aprovaram tanto o colégio. Tradicional, rigoroso e muito religioso. Uma perfeita gaiola para prender sua filha com olhos de águia.

Na verdade, não sei ao certo por que aceitei um emprego aqui. Estava tão apavorado em Londres quando Elisah disse que carregava um filho meu, que embarquei no primeiro voo e tratei de ajustar minha nova vida aqui.

E cá estou eu há onze anos. Ninguém me conhece de verdade. Afinal, se soubessem que eu sou agnóstico eu já estaria no olho da rua há muito tempo. E leciono História. Uma matéria considera por muitos cansativa, entediante. Mas para Polly não. Ela ouve atenta, e até arrisco excitada à minha aula. Sempre apta a responder. Seu braço alvíssimo erguido e uma resposta bem formulada na ponta da língua.

Essa é a melhor hora do dia. O meu maior e mais sujo prazer. Observá-la. Com a turma inteira, inclusive ela com as mentes viradas para o teste, fica mais fácil admirá-la sem ser flagrado. E ao praticar tanto esse hábito, acabei por saber quase tudo sobre ela.

Ela sempre sentava na quinta carteira ao canto da janela. Não poderia ser ela mais cruel. Era ali que os raios fracos de Sol, acompanhados da fria brisa vinda da serra irradiavam-na. Iluminava dando-lhe uma aparência ainda mais angelical. Seus louros cachos inocentes se tornavam mais dourados. Sua boca levemente rosada, ainda desconhecida de outros lábios, me é tão fascinante. Tudo em sua aparência poderia se passar por inocente a não ser por um detalhe.

Seus olhos. E nesse exato momento ela os lançara para mim. Acabara de concluir o teste. Levanta-se lentamente, mostrando todo o uniforme: uma blusa branca de mangas curtas com o brasão do colégio, uma saia xadrez vermelha que roça em seus joelhos e sapatilhas pretas.

– Terminei professor Marcus. –Ela deposita o teste sobre minha mesa, lançando-me um meio sorrido e aquele olhar intimidador.

Os olhos. Pequenos, porém grandes em matéria de magnetismo. Negros mesmo, sem porém. Negros como a noite que encoberta os criminosos e seus segredos. Nunca será possível ver suas pupilas dilatarem. O que combina muito com Pollyana, porque nunca ninguém a viu apavorada.

Fui tomado pelo súbito desejo de ser o primeiro a presenciar isso.

– Muito bem, Polly. Pode se sentar. –Eu disse, observando-a voltar para o seu assento, para os raios de sol.

Rapidamente ela retira de sua mochila um exemplar de “Pollyana”. Seu livro favorito, lido por minha sugestão.

E a cada página virada, ela adentrava mais na história. Seu rosto totalmente absorto, os olhos baixos escondidos pelos grandes cílios, a caneta levada aos lábios...

O que há de errado comigo?

Por que a visão de uma aluna tem esse poder sobre mim? Sou tão medíocre a ponto de não controlar essas sensações? Juro ser capaz de ouvir meu coração bater frenético. Engraçado, sempre pensei que tivesse um coração de pedra, mas o som mais se parece com madeira. E que coração irritante!

– Professor? Não vai abrir a porta?

Era Nina, convenientemente a melhor amiga de Polly, que me despertou de meus devaneios com sua voz enjoativa. Foi quando me dei conta de que o ruído irritante provinha da porta.

– Entre. –Ergui a voz ignorando por completo Nina.

A porta se abriu lentamente revelando a presença de Edith.

– Com licença, professor Marcus. –Ela sussurrou timidamente, como se tivesse feito algo vergonhoso ou errado.

Edith era a única pessoa pela qual eu sentia pena. É dois anos mais velha do que eu, o que quer dizer que ela vive a mesma vidinha há quarenta anos. É a pedagoga do colégio, e cuidar do mesmo tem sido a única preocupação de sua vida, depois que seu marido a largou por não poder lhe dar o seu tão amado filho.

E pensar que em algum lugar, Elisah carrega um filho meu. Fruto de uma aventura juvenil em Londres. Devem achar que sou um monstro por largar uma garota grávida, e fugir para outro país. Mas não se preocupem, ainda vem muito por aí. A maldade do ser humano é do tamanho do universo.

Mas voltando há onze anos, onde larguei Elisah grávida em Londres. Eu estava é fazendo um favor à criança. Não, eu nunca poderia ser pai. Só tive o mau exemplo do meu “pai”, se assim posso chamar. E apesar de ser um ser humano deplorável, não acho que meu filho mereça passar pelo mesmo que eu. A genética ruim dos Miller uma hora tem que acabar.

Mas deixemos de lado os meus devaneios e ouvimos o que a coitada da Edith tem a nos dizer.

– Bom dia meninas! Primeiramente peço desculpas por interromper a aula do querido professor Marcus. Eu vim falar a respeito da viagem ao Rio de Janeiro.

Bastou a palavra “viagem” ser mencionada que o burburinho excitado se espalhou pela sala feito epidemia.

– Meninas! Atenção. Como sabem, a viagem custará caro, e como eu sei que a família de algumas garotas não pode arcar com as tarifas, propus o seguinte: vocês farão doces, guloseimas, e venderão. Mas vocês é que terão que fabricá-los.

Pollyana e outras bolsistas como ela sentiam-se culpadas por isso. A insatisfação no rosto das outras garotas abençoadas desde o nascimento pela fada da ganância era explícita.

– Não podemos apenas dar o dinheiro? – Uma delas propôs.

– Já disse que não. –Edith respondeu, lançando-lhe um olhar rígido.

–Tanto faz. Eu pago para alguém fazer o trabalho duro por mim. –Ela retrucou, elevando a voz para que todos soubessem a beleza de uma vida financeira estável.

– Todos os doces serão feitos aqui no colégio. Já passou da hora de aprenderem que não será pela vida toda que farão as coisas por você. Tragam a receita de seus doces semana que vem para começarmos a cozinhar.

Pela expressão da aluna, ela não ficara nada contente com a resposta de Edith. E imagino por quê. Chamá-la de criança ou mocinha é quase uma afronta. Até porque ela já é uma mulher independente aos doze anos, embora não sobreviva a uma semana sem o dinheiro dos pais. Como eu disse, nem todas são atraentes e interessantes como Polly.

***

Com muito custo e autocontrole, atravesso o espaçoso e amadeirado corredor, infestado de garotas. A tinta está sempre nova, os cartazes são criativos e os armários bem cuidados. Não há sujeira. A disciplina e a limpeza são quesitos indispensáveis no colégio. Mas é nessa hora que ele realmente ganha beleza. Infestado pelas garotas de saia xadrezes.

Mas tiro minha concentração delas. Se as garotas nunca quiseram nada comigo quando tinha eu essa idade, obviamente não irão querer nada agora.

– Professor Marcus! –Ouço a voz de Edith atrás de mim.

– Pois não?

– Bom, eu estive pensando... você sabe que eu sou a responsável pela viagem, porém não posso cuidar de tantas garotas sozinha. E o senhor viaja tanto... pensei que poderia vir conosco.

Surpreendo-me com o súbito convite.

– Eu? Acha mesmo uma boa ideia? – Pergunto confuso.

– Acho sim.

É real o fato de que eu viajo demais. Porém, nunca acompanhado. Não tenho amigos. Não tenho sequer uma vida social. E a solidão foi a melhor companhia que tive ao longo desses trinta e oito anos.

De repente sou tomado por uma suja imagem. Todas aquelas garotas, usando minúsculos biquínis coloridos, tipicamente brasileiros. Todas tomando banho na piscina de um hotel. E dentre elas está minha Polly. Posso vê-la nitidamente, usando um apertado biquíni azul-marinho de bolinhas.

E ela está do meu lado, estirada numa cadeira enquanto o Sol a chicoteia com seus raios. Ela está tomando um sorvete de chocolate com pedaços de morango. Ele está começando a derreter, depositando-se ao redor de seu umbigo.

Ela levanta os óculos escuros e me flagra fitando-a extasiado.

– Pode me ajudar aqui, professor? – Ela pede com segundas intenções.

Eu me levanto mais que depressa, e me perco cada vez mais neste devaneio particular, de modo que posso sentir o gosto de sorvete de chocolate e morando na boca quando Edith me traz de volta à realidade.

– E então? Vai ou não?

Edith pega o lugar de Pollyana. É notória a diferença entre as duas. O cabelo de Edith é também louro, embora esteja desfocado pelos fios brancos já aparentes. Estão sempre amarrados e tristes num rabo de cavalo baixo. Seus olhos são cinza e tristes, assim como seu cabelo. Pela primeira vez penso em Edith com doze anos, e talvez tenha sido outrora muito bonita, antes de a tristeza furtar sua beleza.

– Não, não é uma boa ideia. – Respondo de imediato.

Um semblante de desapontamento é bem marcante em seu rosto.

– Por que não? – Ela pergunta intrometida.

Você não gostaria de saber o motivo, respondo em pensamento.

– Estarei ocupado. Estou escrevendo um livro. – Minto, e me arrependo logo em seguida. Pelo brilho de curiosidade em seus olhos, não conseguirei me livrar dela nem tão cedo.

– Um livro? Que ótimo! Por que não me contou? Sobre o que é? – Ela despeja uma enxurrada de perguntas.

– Eu... não tive a chance de conversar com a senhora a respeito. – Disfarço.

– Oh... bom, se não vai mesmo à viagem, talvez possamos nos encontrar numa cafeteria, e então o senhor me conta sobre seu livro.

Ela propõe com o sorrido faceiro. É aí que ela revela suas reais intenções.

Não consigo entender por que ela ainda insiste em me cortejar. Deus! Que destrutivo interesse ela possui nas piores raças de homem. Tomei cuidado para não me aproximar de ninguém, mas ela foi inevitável. Talvez, se fosse algumas décadas mais nova...

– É, talvez sim... –Respondo sem pensar, criando falsas esperanças. Como um belo exemplar da pior raça de homem faria.

***

Passo o dia inteiro tentando despistar Edith. Passo horas afinco na biblioteca até que o sinal toca. Nove horas. Toque de recolher. Não faz parte da rota até a saída, mas desvio meu destino para o corredor dos dormitórios. É aí que vejo meia dúzia de garotas de pijama saindo de um dos banheiros. Dentre elas ali está Pollyana, a única de pijama vermelho e curto de cetim. A noite é sempre fria aqui, mas ela não consegue dormir com muita roupa. Hábito interessante. Excitante até. Como sei disso? Digamos que certas conversas entre garotas podem ser mais interessantes do que imaginamos.

As outras garotas não parecem notar a minha presença, mas Pollyana faz algo surpreendente para mim. Ela acena em minha direção. Fico sem reação, e acho que isso a assustou um pouco.

Estaria me dando apenas boa noite? Ou na verdade sua intenção era fazer boa a minha noite? Ah... Polly... seria a melhor noite de minha existência!

– Professor? Ainda por aqui?

Viro-me e encontro o faxineiro da escola. Há quanto tempo ele estava ali? Este faxineiro limpa os mesmos corredores, e tenho certeza de que já ouviu muita coisa, de modo que não posso me ofender ao notar seu olhar suspeito.

– Eu já vou indo. – Respondo desconcertado. Ele parece rir.

– Já percebi que o professor não gosta de falar.

Algo que temos em comum, além do estranho hábito de observar doentiamente. Quase acredito que ele sofre do mesmo mal que o meu.

– Eu posso não falar muito, mas sou um grande observador. – Retruco, lançando-lhe o mesmo olhar desconfiado. É melhor que ele se mantenha bem longe daquelas garotas, principalmente de Polly.

Olho mais uma vez para o corredor, e já não a vejo. Perdi sua atenção enquanto observava. Mas não é isso que eu sempre faço?

Porém, agora neste corredor, depois de um claro convite da parte dela (assim pretendo acreditar), resolvo tomar uma atitude. O antigo desejo se torna incontrolável, a ponto de eu não conseguir me conter. Até que me dou conta do óbvio:

Observar já não é suficiente.

Notas finais
Acho que está bem óbvio qual será a próxima atitude de Marcus, não é? Espero que tenham gostado, e por favor não esqueçam de comentar.

*Só mais uma coisa que gostaria de deixar bem clara: vocês todos devem estar cientes das manifestações contra o estupro e tal. Todavia se alguém pensar que escolhi esse tema porque é o assunto atual, estará cometendo um equívoco. Primeiro porque o estupro existe desde os primórdios da Terra, e segundo porque tive a ideia da história bem antes da pesquisa vergonhosa sair. É claro que estou super a favor da campanha #eunãomereçoserestuprada. Escrever então será a minha forma de me manifestar, pois sei que muitas pessoas têm uma história parecida.
Enfim... tudo esclarecido. Espero contar com a sua presença no próximo capítulo. Se quiser saber quando atualizarei a história, é só acompanhá-la. Até a próxima!