Polly
8 Novas pistas
Notas iniciais
Desde aquele dia que Rachel apareceu em meu apartamento não descansei. Horas e horas, divididas entre encontrar o cara que havia feito isso com ela e tentar despistar a polícia de mim. Mas não andei muito competente, e durante um mês não consegui nenhuma coisa nem outra.
– Ainda não está muito convincente. – Disse a minha chefe quando entreguei o meu artigo.
Eu tinha percorrido todas as minhas cenas de crime, procurando por qualquer coisa que talvez eu tenha deixado escapar. Apenas a luva, mas isso não quer dizer que a polícia não poderia me encontrar. Também não havia testemunhas, salvo o simpático Francisco que me protegia. Talvez eu fosse mesmo boa nisso, afinal fui treinada por Ian. Ou talvez as pessoas não quisessem mesmo testemunhar. Não é todo mundo que tem pena de um estuprador.
– Vou revisá-lo. – Digo depois de um tempo para minha chefe.
– Faça isso.
Volto para minha mesa arrasada. Há um espelho me confrontando e parece denunciar o meu cansaço. Meu cabelo parece um emaranhado de confusões, assim como a minha mente. Tenho olheiras que fariam inveja a qualquer olho com insônia. Há uma mancha de café na minha blusa xadrez vermelha, e só agora eu percebo.
Escondo o espelho a fim de esquecer minha aparência e focar no meu trabalho. Ainda preciso despistar a polícia de mim. Embora que curiosamente Albert tenha me deixado em paz durante este cansativo mês. Agora é somente eu e o som de fundo do meu ambiente de trabalho.
No entanto, Rape me não fazia parte da trilha sonora do meu trabalho. Nem mesmo era toque do meu celular normal. Mas sim do meu celular especial. Destinado apenas às vítimas que eu protegia. Por isso estremeço ao ouvi-lo tocar novamente.
Hesitante, pego o celular na minha bolsa. Não conheço o número, o que me deixa ainda mais assustada. No entanto, movida pela curiosidade, decido atender.
– Alô?
– Pollyana?
É uma voz feminina e vacilante. Ela parece estar assustada, pois está respirando com dificuldade.
– Como conseguiu este número? –Pergunto antes de dizer quem eu sou.
– Disseram que você poderia me ajudar. Você é a Pollyana, não é?
– E quem é você?
– Amanda.
– Amanda, como conseguiu esse número? – Pergunto impaciente.
– É uma longa história. Prometo te contar, se você prometer me ajudar.
Amanda era uma garota bem esperta.
– Amanda, precisamos conversar.
– É o que estamos fazendo, não?
– Preciso conversar contigo pessoalmente. Sabe onde fica o Petit déjeuner Nah?
– Claro que sim.
– Então nos vemos lá às 16h00. – E desligo.
Parece que o destino quer testar até onde eu aguento. Nem ao menos resolvi o problema de Rachel e outro aparece. E essa Amanda misteriosa? Por que nenhuma das garotas a mencionou?
É o que eu vou descobrir.
***
O Petit déjeuner Nah é um dos meus lugares favoritos na cidade. Uma cafeteria toda num estilo confortável francês. As paredes são brancas, e com pinturas em negrito dos pontos turísticos da França. Há sempre uma música tocando bem baixo, e pãezinhos franceses em cada mesa.
Pela descrição que Amanda me deu sobre ela mesma, não tenho dúvidas de que é ela que me espera sentada abaixo de uma gravura da Torre Eiffel. Seus cabelos são ondulados e volumosos, um enorme mar negro. Seu corpo robusto está escondido num longo vestido verde e uma enorme jaqueta jeans.
– Amanda? – Digo ao me aproximar.
Ela me olha assustada. Tem grandes olhos castanhos e um batom vermelho demais.
– Pollyana. – Ela afirma um pouco decepcionada. Imagino que minha imagem cansada não seja o que ela esperava. – Sente-se. – Ela diz, apontando para a cadeira.
Enquanto eu sento, percebo que Amanda olha para todos os lados, como se procurasse um bicho papão para fugir.
– Como tem passado, Amanda? – Pergunto cinicamente.
– Com medo. – Ela responde sem sorrir. – Seus olhos dão medo.
– Não posso evitar. Mas estou aqui para ajudá-la, lembra? Então que tal começar me contando como me descobriu?
Ela respira fundo e fecha os olhos. Em seu rosto posso ver o quanto é doloroso lembrar-se de tudo.
– Bom, eu fui à delegacia prestar queixa, mas eles não puderam fazer nada por mim. Estavam ocupados demais procurando quem mata estupradores para se preocupar em pegá-los. – Ela diz com certa indignação.
– E então alguém falou sobre mim. Quem?
– Depois daquilo eu voltei diversas vezes à delegacia. Mas ninguém podia me ajudar. Até que uma moça, Carina. Acho que trabalhava por lá, perguntou se eu queria uma ajuda.
Carina foi a segunda vítima. Trabalhava como zeladora na delegacia, e observava tudo. Voltava sempre tarde, e um dia foi atacada por um maníaco que já fizera outras vítimas. Desde aquele dia ela sempre me ajuda com as garotas. Pois às vezes eu acabo falhando.
– Então imagino que seja de confiança. – Digo certa de que Carina nunca me colocaria numa furada.
– Ela ouviu a minha história e disse que poderia ser do meu interesse.
Do meu interesse?
O que Amanda sabia que poderia ser do meu interesse? Subitamente me pego pensando em Marcus e silenciosamente entro em pânico. E se ele me descobriu? E se ele estiver por perto? E se Amanda for apenas um aviso para mim? Ele poderia estar até aqui. Olho para todos os lados da mesma forma que Amanda fizera, buscando-o em todas as mesas.
– Polly? Você está bem? Ah meu Deus, você está tremendo! – Amanda pega as minhas mãos que devem estar geladas.
– Eu estou bem. – Minto.
– O que as senhoritas irão pedir? – Quase pulo para trás ao ouvir uma voz masculina. Mas é apenas um garçom com ar galante demais para o meu gosto.
– O que é menos caro? – Amanda pergunta segurando o cardápio com o peso do bolso.
– Pode escolher o que quiser Amanda. Eu pago. – Digo ligeiramente curiosa com sua situação financeira.
– É sério? Nossa! Valeu Polly! Eu estou morta de fome. Acho que vou pedir essa torta de maçã... Tarte Tatin.
– E a senhorita? Se quiser, podemos trazer um chá de camomila. – O garçom sugere, e pelo visto deixei bem claro meu desespero.
– Um chá de camomila então. – Tento disfarçar.
Agora que tenho certeza que Marcus não está na cafeteria, volto a interrogar Amanda.
– Você está bem? – Ela pergunta novamente.
– Estou sim. Agora me diz o que pode ser do meu interesse. – Digo curiosa.
– Eu não sei, eu... apenas contei o que aconteceu e ela pareceu muito interessada.
– Então conte.
Ela parecia hesitante. E eu sei bem por quê. Era a vergonha.
– Pode me contar Amanda. Não tem que sentir vergonha se a culpa não foi sua.
– Claro que foi a minha culpa! Eu fui tão burra ao confiar nele! – Ela ameaçou chorar.
Seu desespero rapidamente me contagia e sem que eu perceba uma lágrima brota dos meus olhos. Eu enxugo depressa e pego a sua mão.
– Olha, eu já senti vergonha. Tive medo de contar para alguém. Mas nada disso me ajudou. Hoje eu sei que não devo sentir vergonha do que eu passei, porque nada daquilo foi minha culpa. O problema é que estamos cientes do perigo, mas nunca imaginamos que um dia possa acontecer conosco.
Ela parece surpresa com o que acabei de falar.
– Você já...
– Sim. – Digo antes que ela diga a palavra. Amanda não parece fazer uso de eufemismos, então não quero ouvir aquela palavra dura novamente.
– Eu nunca imaginei. Quer dizer, você tem sido minha heroína nesses últimos dias.
Como ela não sabia disso? Não era bem óbvio?
– Por que não fazemos o seguinte: eu conto a minha história e você conta a sua. Combinado?
Ainda hesitante, Amanda confirmou com a cabeça.
Não era fácil contar mais uma vez essa história. Eu tinha acabado de conhecer Amanda e evidentemente não confiava nela. Mas mesmo assim eu queria ajudá-la (além de estar muito curiosa), eu precisava que ela confiasse em mim. E para isso, teria que deixar de lado minha desconfiança crônica.
E com calma, compartilhei com ela todas as minhas lembranças daquela maldita tarde, que continuavam vivas. Bem mais vivas que eu. Falei sobre Marcus. De como ele usou a desculpa dos biscoitos para me atrair para sua casa. Falei da minha fuga, mostrei minha cicatriz. Contei como ele parecia demorar a voltar, como se quisesse que eu fugisse, apenas para me atacar novamente. Contei da culpa, da vergonha, e do desleixo da polícia. Tentei suavizar toda a cena para não assustá-la, mas ela parecia transtornada mesmo assim.
– Nossa... – Ela levou a mão à boca.
Senti meu rosto corar. A quem eu estava querendo enganar? Toda vez que eu revivia essa cena eu me sentia suja e indigna. E a vergonha novamente dava as caras.
– Sinto muito. – Ela sussurrou com lágrimas nos olhos.
Nesse momento o garçom retornou com os nossos pedidos. Deu uma boa olhada para nós duas e apenas nos entregou. Uma interrogação no olhar. Amanda desviou o seu olhar e se empenhou a comer sua torta de maça com a fome de uma fera. Há quanto tempo ela não comia?
Não fiz nenhuma pergunta até ela terminar de comer. O que não levou muito tempo. Bebi um pouco do meu chá, mas ele não parecia fazer efeito.
– Muito obrigada pela torta, Polly. Mas eu tenho que ir.
Ela se levantou, mas eu a impedi bem a tempo fazendo-a voltar para a cadeira.
– Aonde pensas que vai? Tens muito a me contar ainda. – Disse.
Seu olhar parecia arrependido. Parecia pensar, ou ouvir uma voz distante. Eu sinceramente não fazia ideia do que se passava pela sua cabeça.
Um pouco relutante, ela cedeu e compartilhou comigo a sua história.
– Vim para São Paulo faz pouco tempo. Queria ser atriz. Mas não consegui nada, então acabei meio sozinha. Foi então que ele apareceu. Lembro que ele me pagou uma bebida. Tinha um nome engraçado a bebida: alguma coisa Lolita. Lembro também que as pessoas o chamavam de Humberto. Então eu bebi a bebida e apaguei. Acordei num quarto de motel.
Foi então que eu percebi o que poderia ser tão interessante para mim. Aquela era a história de Rachel. Incrível o fato de Amanda se lembrar de tantos detalhes, mesmo sendo claro que Humberto não era o nome real do cara. E eu sei bem de onde ele tirou esse pseudônimo.
– Amanda, você se lembra em qual bar e em qual motel ele te levou?
Ela afirmou envergonhada e me disse os nomes do local. Os mesmos de Rachel. Não tinha mais dúvidas. Tratava-se do mesmo cara.
Fui tomada pela excitação de ter novas pistas, mas logo uma profunda melancolia tomou conta de mim. Sentia-me agora duplamente culpada pelo que aconteceu a Amanda. Se eu tivesse pegado esse cara há alguns meses antes isso não teria acontecido.
– Eu vou pegar esse cara, Amanda. – Inconscientemente fiz a mesma promessa que fizera a Rachel.
– Tem mais. – Ela disse vasculhando os bolsos furados da jaqueta. – Ele deixou isso aqui no quarto.
Ela me entregou um celular de modelo antigo. Fazia sentido encontrar algo assim num motel. Mas geralmente era furtado depois pelas faxineiras. Por isso não tive dúvidas de que aquele era o celular dele, e agradeci aos céus por essa grande pista.
– Isso vai me ajudar bastante. – Pego o celular.
Amanda parece arrependida por algo. Imagino que a ideia de mandar matar alguém a assuste. Sinceramente isso também me assusta, mas tenho que terminar o que comecei. Estranhamente Amanda me abraça e eu instantaneamente recuo. Não que eu tenha nojo dela, mas essa é uma reação involuntária do medo. E ela também deveria agir assim.
– Perdão. – Ela diz com medo. – Eu não tive alternativa. Cuide-se, Polly.
Observo Amanda se afastar com pressa e não consigo entender por que. Mas não ligo para isso agora. Sem hesitar mando uma mensagem para Rachel.
Novas pistas. Estou perto de encontrar o cara. Esse pesadelo em breve terá o seu fim. E é bom se prepararem para conhecer Amanda. –P
Estou tão absorta nos meus futuros planos que não percebo o garçom chamar minha atenção. Deve ser a conta, assim penso.
– Um cara sinistro pagou a sua conta. – Ele diz para minha surpresa.
– Um cara? Como assim? Quem?
– Eu não conheço. Nunca o vi. Ele foi embora, mas antes pediu que eu te entregasse isso. – Ele me entregou uma caixa em formato de coração.
Subitamente caio na risada. Nunca fui fã de demonstrações extremamente românticas como essa. Nunca recebi e nunca me fizeram falta. Mas dessa vez eu estava curiosa com o conteúdo daquela caixa vermelha. Tinha um bilhete. Peguei e li com suspeita:
Está fazendo um ótimo trabalho, minha querida. Logo estaremos próximos novamente.
Desato os laços cor-de-rosa da caixa. Agora percebo que essas caixas são tradição aqui na cafeteria. Você escolhe o que quer que eles coloquem no recheio. Leva poucos minutos, e é um excelente pedido de desculpas para namorados que vacilaram.
Não consigo pensar em alguém que tenha feito isso por mim. Não sou próxima a ninguém por aqui. Mas quando abro a caixa e vejo aqueles biscoitos familiares não consigo pensar em outra pessoa.
***
A caixa com biscoitos jaz agora na lixeira. Mas sinto-me incapacitada de sair do lugar onde estou. O garçom decidiu não me perturbar mais. Deve sentir pena de mim. Eu sinto apenas medo. Em minha bolsa eu carrego minha inseparável arma e um spray de pimenta. Eu sei me defender. Não há motivos para ter medo. Já matei vários desses, por que dessa vez seria diferente?
Porque dessa vez era pessoal.
– Moça, eu sinto muito, mas temos que fechar agora. – O garçom volta.
Ele não entende. Tenho medo de cruzar a rua e me deparar com Marcus novamente. Há muito tempo venho nutrindo um desejo de me vingar. Eu merecia isso. Merecia ter paz e ter a certeza de que nunca mais ele poderia me fazer algum mal. Mas deixei essa ideia apenas como ideia, e ele resolveu agir antes de mim.
O garçom continua parado ao meu lado, esperando uma resposta. Confusa eu confirmo e me despeço. Somente quando saio vejo que a noite chegou, e um vento frio desce congelando o meu corpo. Agarro a minha bolsa como se agarrasse a minha vida e resolvo voltar para casa.
Mas vejo-o em todos os cantos. Em todos os rostos. Marcus está em todo o lugar. Mesmo assim, consigo chegar ao meu apartamento. Hesito antes de abri-lo, imaginando encontrá-lo a minha espera.
– Bonito apartamento. – Ele mentiria, pois tenho certeza que o estilo despojado do meu apartamento nunca agradaria o seu estilo clássico.
Exausta, encosto na porta do meu apartamento e deixo a cansaço me ganhar por completo, enquanto deslizo até o chão. Ridiculamente começo a chorar.
A quem quero enganar? Nunca me sentirei segura ao saber que Marcus continua livre para ir e vir. Fugi da minha amada região para os braços da minha tia. Mudei. Aprendi a me defender. Mas nunca esperei que ele pudesse vir atrás de mim. Eu quero paz. É tudo que eu quero.
Mas nunca vou ter enquanto ele continuar vivo.
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