Polly

14 Memórias que ferem


Notas iniciais
Eu nem sei onde enfio minha cara de tanta vergonha por ter sumido. Eu peço perdão mesmo, e digo que vou mudar. Sabe aquelas metas de ano novo? Então, minha meta é escrever todo dia. Mesmo que seja um conto, ou desabafo. Eu escrevia, apagava, reescrevia, esperando pela perfeição que eu tinha em mente, mas eu demorei a perceber que só melhoraria se praticasse. E essa nota ficou enorme porque eu amo escrever mesmo, e eu senti que vocês deveriam saber! rsrs Esse capítulo serve para resolver coisas que a Polly deixou de lado por muito tempo. Eu espero de verdade que gostem e espero, não, eu não vou demorar a postar o próximo! Boa leitura!

Mal pude esperar para contar a Nina todas as novidades. Klaus era um pote de ouro, e eu precisava dividir com alguém que entendesse o seu valor. Quando cheguei a casa, Nina estava sentada no sofá com uma xícara de algo bastante quente, enquanto lia serenamente um livro de capa verde.

– Cuidou bem do meu bebê? – Ela disse, sem tirar os olhos do livro.

– Seu carro está bem.

Ela me lançou um olhar de desconfiança.

– Então você não corre riscos.

– Tenho novidades. – Eu disse, louca para lhe contar tudo.

Nina, que até então parecia absorta em sua leitura, olhou para mim como se já esperasse pela minha resposta.

– Fui ao nosso antigo colégio hoje. E descobri que Marcus tem um filho, e que ele está dando aulas!

Nina não parecia surpresa.

– Eu já sabia disso. – Ela diz friamente.

Tive vontade de bater em Nina naquele momento. Era de se esperar que ela sempre estivesse um passo a minha frente, mas ela deveria me ajudar. Então por que escondera isso de mim?

– Por que não me contou isso? Sabe quanto tempo teria me poupado?Droga! – Eu estava enfurecida.

– Exatamente por isso. Eu já previa a sua reação. E eu não confio nesse cara.

– E você acha que eu confio? Claro que não! Mas mesmo assim, você deveria ter me contado que o infeliz do Marcus tem um filho! Pelo menos eu não teria ficado pálida e estupefata ao conhecê-lo.

Nina repousou o livro e a xícara na mesa de centro e desviou toda a sua atenção para mim.

– Tem razão. Eu devia ter te avisado. Mas, não vejo que serventia ele teria para você. Já pesquisei sobre, e ele aparenta saber ainda menos do que nós.

– Pois algo me diz que ele deve saber de algo importante. Mas ele nem ao certo sabe ainda que é importante.

– Tem ideia do que acabou de me dizer? Você quer que o filho te ajude a encontrar o próprio pai, e depois matá-lo?

– Ainda não pensei bem a respeito.

Não ia admitir, mas aquele era o meu primeiro pensamento.

– Sempre inacreditável essa Polly. – Ela suspirou.

– Não entendo porque você não concorda comigo. Eu te conheço Nina, e você é tudo, menos sensível.

– Tem razão. Eu não dou a mínima para ele. Mas eu estou preocupada com você.

E mais uma vez aquele velho sermão se repetia.

– Eu sei me cuidar sozinha, Nina. – Retruquei.

– Não. Não sabe mesmo. E é por isso que eu estou aqui.

Eu não queria prolongar aquela conversa, porque eu sabia que Nina ganharia de mim com seus argumentos. Eu não tiraria a sua razão, ela era bem mais sábia que eu. Mas ela sabe que eu não vou desistir do meu plano. E que mal aquele professor de nome estranho e sangue ruim poderia me causar? Eu sou bem mais perigosa para ele, do que ele para mim.

– Agora você precisa dar um tempo com o Klaus e o seu plano. Sua tia está na cidade e ela quer te ver.

Mas é claro que minha tia Helena iria me procurar. Era a situação que ela estava esperando.

– Onde ela está?

– Onde mais ela poderia estar? Na casa dos seus pais, ora.

Era tudo parte do plano de tia Helena. Fazer com que eu finalmente contasse aos meus pais tudo que eu havia passado. Ela odiava ficar entre eu e eles, apesar de há muito tempo ser assim. Desde antes do ocorrido.

– Por que ela não vem aqui?

– Acho que você já sabe a resposta, Polly.

Cai na poltrona com a mente confusa. Eu estava de volta a cidade há alguns dias, e ainda não tinha visitado os meus pais. Não que eu os odiasse, mas queria adiar a situação constrangedora ao máximo.

– Como minha tia descobriu que eu estava de volta? Ela nem mora aqui.

– E desde quando você consegue esconder algo da sua tia? – Disse Nina, o que era verdade. Mas pelo seu olhar desconcertado eu podia sentir uma conspiração dela e de tia Helena.

Meu celular começa a vibrar no meu bolso. Já imagino ser tia Helena, mas não seria do seu feitio. Ela sabia me dar espaço quando necessário. Vi o nome Klaus na tela. Mas que nome esquisito.

Antes que eu pudesse atender, Nina pegou o celular da minha mão com uma rapidez surreal. Desligou imediatamente, e colocou as duas mãos na cintura. E lá estava Nina desapontada de novo.

– Nem adianta me olhar assim, Polly. Será que não percebe que esse cara só vai te trazer problemas?

– Muito pelo contrário, Nina. Ele vai me trazer respostas.

– Esquece o seu plano de vingança por um momento. Você tem coisas mais sérias para resolver.

– Você não está falando sério.

– Estou sim, Polly. É para o seu próprio bem.

Dei-me por vencida por um momento. Talvez não fosse tão vergonhoso visitar os meus pais depois de tanto tempo.

– Está bem. Como sempre, Nina tem toda a razão.

– Você precisa de família, Polly. Nunca se sabe por quanto tempo teremos uma.

Via-se no olhar de Nina o quanto aquilo era importante. Ela havia esperado muito por uma família que a adotasse. Tanto ela quanto Ian. Por um momento me senti uma estúpida por desdenhar a minha sorte na frente dela.

– Você é a minha família. Você e Ian. – Eu disse, depois de um tempo.

– Então você já praticou incesto. – Ela disse, rindo.

Permiti-me rir também. Jamais esqueceríamos aquela cena.

– Qual o motivo de galhofa? – Ouvi a voz de Ian penetrar na sala.

Ambas enrubescemos, e Ian seria um idiota se não entendesse o porquê.

– Não é nada. Polly está indo visitar os pais. – Boa saída, Nina.

Ian parecia feliz com a ideia.

– Quer uma carona? – Ele ofereceu.

– Obrigada, Ian. Mas você tem outras obrigações.

– Estou sempre disponível para você, Polly. – Ele sorriu para mim. – E eu sei o quanto você gosta de motos.

Sim, Ian sabia como melhorar o meu humor.

***

Correr pelas ruas com Ian e sua moto me trouxe boas memórias, e eu buscava as memórias agradáveis com a minha família. Mas eram tão poucas e tão vagas, que eu não fazia ideia do que falar com eles. Com o passar dos anos, quase não nos víamos.

Tudo começou quando eu consegui estudar no Bertha. Antes, nós morávamos no sítio dos meus avós. Edgar e Virgínia, os meus pais, eram um casal com graves problemas financeiros, e sempre me lembravam o quanto custava cuidar de um filho. Entendida da minha realidade, eu já sabia que eles nunca poderiam pagar a mensalidade do colégio. Mas eis que surge uma oportunidade e eu agarro com força.

A ideia de um colégio interno era aterrorizante, ainda mais para mim que adorava a liberdade e sonhava todos os dias por ela. Mas eu conhecia a reputação do Bertha, e também de suas viagens. Era a minha única chance no momento. Meus pais venderam o sítio e compraram a casa. Com o tempo, também abriram uma lanchonete, para ficar mais perto de mim. Nem um pouco econômicos, vejam só. A Polly de antes, que ainda mantinha um bom relacionamento com os pais e com as pessoas está tão distante que me esforço para recordar do que eu costumava ser.

Após o meu surto, tudo começou a mudar. Meus pais não receberam a noticia nem um pouco bem, e me assombraram durante semanas sobre o motivo do meu “show”. E eu simplesmente não poderia falar. Eu estava assustada, e eles me assustavam ainda mais. Eu sentia vergonha, e tinha medo da reação que eles poderiam ter. Eu tinha ainda mais medo que eles resolvessem ir atrás de Marcus e ele tentasse fazer algo contra eles. Eu estava carregada de culpa.

Eu saí do colégio, e me afastei deles. Com o tempo, eles também desistiram de entender o que se passava na minha mente. A lanchonete começou a andar mal, e meus pais se endividaram como era de praxe. E foi aí que minha tia Helena resolveu intervir.

Irmã mais velha da minha mãe, ela vivia sozinha em São Paulo. E por ser psicóloga meus pais acharam que seria uma boa ideia deixar que eu passasse um tempo com ela. Era a melhor coisa que poderia ter me acontecido, pois eu não suportava mais aquela cidade, e meus pais tinham problemas mais sérios para se preocupar. E a partir disso, eu os via cada vez menos. O pouco tempo que eu passava a visitá-los, eu treinava com Ian.

Eu me esforçava para tentar lembrar qual fora a última conversa que nós tivemos, mas ocupei minha mente com assuntos tão complexos que esqueci das simples e importantes coisas.

De repente senti o vento forte e gelado cessar, e a velocidade também. Nós havíamos chegado. Tirei o pequeno capacete para olhar a casa. Meu rosto estava congelado com o ar frio, e aquela era a hora mais quente da tarde.

– Quer que eu te acompanhe? – Ian se ofereceu mais uma vez.

–Obrigada, Ian. Mas eu só ficaria ainda mais nervosa. E você tem que voltar para Maya. Resolver as coisas do casamento lembra?

Ian sorria ao lembrar.

– Já está tudo resolvido. Será apenas uma cerimônia simples.

– Espero poder comparecer. – Eu disse, mas eu realmente não tinha certeza de nada.

Ian pareceu preocupado comigo no momento. Mas tão logo me envolveu em seus braços, e beijou minha testa. Deixei que ele me prendesse. Eu nunca sentiria medo do seu toque.

– Cuide-se, Polly. – Ele disse antes de sair.

Ian tampouco se foi e ouvi uma voz familiar me chamando. Antes de me virar já sabia que era Helena. Minha tia me abraçou bem forte. Havia um bom tempo que também não nos víamos.

– Eu estava começando a duvidar se você viria ou não. – Ela disse, com um sorriso largo.

– Uma hora eu iria aparecer, tia. Você sabe disso.

– Eu sei, mas eu estou feliz que tenha aparecido. Agora, vamos entrar? Você precisa me contar o que andou fazendo.

Se tia Helena soubesse metade das coisas perigosas que andei fazendo, nunca mais me deixaria sozinha.

A antiga casa onde morei parecia agora ainda mais antiga. O pequeno jardim estava úmido, o que prova o antigo hábito de minha mãe ao acordar cedo e cuidar das plantas. A tintura bege da fachada e da varanda estava condenada, e precisava de um retoque.

Quando entramos, senti um aroma de bolo vindo da cozinha. Eu estava nervosa, e com medo de assustar os meus pais.

– Está tudo bem, Polly. – Tia Helena sorriu para mim, adivinhando meus pensamentos.

Atravessei o pequeno corredor e entrei na cozinha. Toda coberta por azulejos azuis, assim como eu me lembrava. Uma mulher de cabelos loiros e cacheados retirava um bolo do forno, e um homem mais alto e magro que ela, de cabelos pretos cacheados fazia um café. Meus pais.

– Tenho uma surpresa para vocês! – Cantarolou tia Helena.

Os dois se viraram imediatamente, primeiro olhando para minha tia, mas logo desviando o olhar para mim. Meu pai e minha mãe me fitaram pelo que pareceu uma eternidade, como se tentassem acreditar no que viam.

– Polly? – Meu pai cortou o silêncio.

– Oi, pai. – Eu disse envergonhada do meu próprio abandono.

Eu me aproximei lentamente dos dois. Eu esperava que eles me censurassem por passar tanto tempo longe, mas os dois não estavam preocupados com isso. Ambos me abraçaram bem forte.

­– Sentimos sua falta. – Era isso que realmente importava.

Nossa conversa adiada de muitos anos ainda parecia superficial. A última vez que havíamos nos falado foi quando decidi fazer jornalismo. Lembro-me de meu pai me censurando por aquela profissão não arrecadar dinheiro. Aquilo me encheu de ódio, como se eu pudesse sentir mais ódio naquela época. Mas vendo toda a dificuldade que tiveram, era de se esperar a sua reação. Eu havia sido muito dura com eles.

Mas tia Helena nos guiou a conversas leves. Contei que estava trabalhando num jornal, e preferi omitir o fato de que tinha me demitido. Queria que eles sentissem orgulho de mim, mas de qualquer jeito, aquela Polly não era o que eles esperavam. Para completar, disse que planejava escrever um livro. Eles tentaram parecer animados com a ideia.

O que eles pensariam se soubessem o que eu fazia? Que eu estava caçando o meu antigo professor e queria matá-lo, e que estava usando o próprio filho dele para achá-lo? Com certeza, não se sentiriam orgulhosos. Segurei bem a minha bolsa ao meu lado.

– Posso ver o meu quarto agora? – Pedi, a fim de me livrar daquela bolsa logo.

– Claro que pode, é o seu quarto! – Disse minha mãe, sorridente ao ter a filha de volta.

– Sempre enfiada no quarto. As pessoas nunca mudam! –Disse o meu pai, rindo.

Subi a escada para o meu quarto, e tive uma surpresa ao abrir a porta. Ele estava arrumado, um fato inédito naquele pequeno e frio cômodo. Com certeza, minha mãe se aproveitara da minha ausência para torná-lo impecável. Limpeza era a sua fonte de prazer.

No entanto, ela havia preservado minhas coisas do jeito que eu as deixara. As paredes brancas, e o papel de parede listrado no centro. Branco e vermelho, em homenagem ao meu colégio. Minha cama estava coberta por uma colcha branca, e em cima dela, minha manta de retalhos, que me dava as melhores noites de sono na infância. Uma pequena estante ficava acima da minha cama, cheia dos livros de aventura que eu adorava ler. Olhei para a quantidade absurda de fotos. Uma foto minha e de Nina, primeiro dia de aula no Bertha. Que felicidade ingênua eu estampava naquele sorriso.

Sentei-me na cama e pude ver, pendurado por um cabide na porta do armário, um conjunto de saia xadrez vermelha e blusa de manga com o emblema do colégio. Minha vontade era de rasgar aquela roupa, assim como as outras haviam ficado. O que me fez lembrar de uma coisa.

Abaixei até debaixo da cama. Havia uma tábua do assoalho que eu deixara solta. Levantei-a e peguei o pequeno baú que eu mantinha lá. Meu diário estava lá dentro. Era uma pequena agenda xadrez, com uma fivela de couro. Folheei as folhas amarelas com as mãos trêmulas. Naquelas folhas eu fui sincera comigo mesma, e desabafei tudo que eu nunca poderia contar a ninguém. Era estranho ler e ver o quanto eu parecia confiar em Marcus. E como ele destruiu tudo isso em apenas uma tarde.

Como eu poderia ter esquecido essas páginas aqui? Era tão perigoso se meus pais tivessem achado. Lembrei-me da bolsa que trouxera comigo. Ela com certeza era o que tinha de mais perigoso naquele quarto. Tirei de dentro minha arma. Algo estranho de se trazer para a casa dos meus pais, mas eu deveria me sentir segura. Escondi-a dentro do meu criado-mudo, onde acreditava que ninguém veria. Mas antes disso, ouço a porta do meu quarto ranger.

Minha mãe estava parada com um pedaço de bolo e um olhar petrificado para minhas mãos. Senti meu coração saltar, como um garoto sendo pego com sua revista.

– Mãe, eu posso explicar! – Disse, escondendo a arma imediatamente.

– Polly, o que significa isso? Por que você tem uma arma? Você nem deveria ter uma! Sabe o quanto isso é perigoso? O que você tem na cabeça, guria?!

Na verdade, eu tinha não uma, mas várias. E eu só tinha vingança na cabeça agora.

– É para proteção, mãe. Apenas para proteção.

– Proteção? Isso tira vidas, Polly. Isso só traz caos.

– Meu pai manteve uma espingarda a vida toda, e eu nunca a vi o censurar por isso! – Eu não deveria explodir desse jeito.

– É um caso diferente, Polly. Ele caça animais.

Pelo menos eu matava criminosos, e não animais indefesos por diversão.

– Eu quero que você se livre disso, Polly. Seu pai não pode nem sonhar com isso.

Eu sou maior de idade, independente, não moro na casa dos meus pais, e minha mãe ainda se sentia no direito de mandar em mim.

– Você não vai entender, mãe. Eu não posso me livrar dela.

– Mas por que, Polly? Que medo é esse? Por que você está sempre fugindo?

Eu sentia meus olhos lacrimejarem agora. O que eu diria a minha mãe? Tudo aquilo que estava acumulado na minha mente? Aquilo não seria justo com ela. Eu não posso entrar na minha antiga casa só para roubar a paz deles.

Salva pelo gongo, meu telefone começa a vibrar. Era Klaus mais uma vez.

– É uma ligação importante, eu preciso ir. – Disse, saindo do quarto o mais rápido possível.

Corri para a sacada, e atendi finalmente as inúmeras ligações de Klaus. Eu precisava mantê-lo por perto.

–Oi, Klaus. – Eu disse enquanto secava minhas lágrimas.

– Finalmente me atendeu. Está tudo bem, Polly? Parece um pouco triste.

– Estou bem sim. Estou na casa dos meus pais.

– Ah sim. Espero que ainda não tenha desistido de encontrar o meu.

– De jeito nenhum, Klaus. – Senti uma pontada horrível no peito. Que tipo de pessoa eu estava me tornando?

– Eu queria vê-la hoje, mas você deve estar ocupada.

– Estou com alguns problemas agora, Klaus. Mas logo nos veremos novamente.

– Mal posso esperar. – Ele disse galante e desligou.

Respirei fundo o ar gelado que espancava a sacada, esperando que o vento me trouxesse algumas respostas. Dentro de meu antigo quarto, minha mãe esperava por respostas que eu nunca seria capaz de dar. Talvez eu nem devesse voltar ao meu quarto.

– O que houve querida? – Ouvi a voz da minha tia chegar a sacada.

Mas infelizmente para ela eu não poderia dizer.

– Preciso contar a verdade para minha mãe. Mas não sei como.

Vi seu semblante mudar rapidamente para um tom mais sério.

– Talvez você devesse esperar um pouco. Quer dizer, é tudo tão rápido.

– Mas e se for necessário contar a verdade agora?

– Bom, só não deixe que ela descubra sozinha. Lembre-se, Polly. A verdade aparece quando menos esperamos.

Aquilo não era reconfortante, mas tia Helena tinha razão. Eu deveria procurar o melhor eufemismo para explicar aquela situação, mas não havia eufemismos para explicar o que eu estava prestes a fazer. E foi quando eu buscava as melhores palavras que uma ideia absurda me veio a mente.

O meu diário.

– Que foi? Parece que viu um fantasma. – Helena também havia notado minha estupefação.

Não pude respondê-la, apenas sai correndo até o meu quarto antes que fosse tarde demais. Entretanto, aquele dia estava sendo o campeão de revelações constrangedoras. Como eu podia imaginar, minha mãe estava lendo o meu diário.

– Mãe... – Senti cada parte do meu rosto queimar.

Ela se virou e seus olhos estavam cheios de raiva e lágrimas.

– Polly? Isso é verdade?

Envergonhada, eu concordei, incapaz de olhar para ela.

– Meu Deus, Polly! Todos esses anos você foi capaz de esconder isso?! Por que não me contou? Por que não foi à polícia?!

– Não ia adiantar, mãe! A polícia não me ajudou. E eu tinha medo de que... de que ele pudesse fazer alguma coisa se eu contasse a você.

Agora não adiantava mais esconder nada. Meu diário desvendou os olhos cegos da minha mãe. Tudo porque eu era uma descuidada e havia deixado meu diário ali do seu lado.

– Por isso a arma?

– Exatamente por isso. – Eu disse tentando esconder o máximo possível das minhas reais intenções.

– Ah meu Deus, Polly. Venha cá.

Corri para os seus braços e deixei que ela chorasse. Olha o que eu havia causado a minha mãe. Ela realmente não merecia esse sofrimento.

– O coração de uma mãe nunca está preparado para um golpe desses.

– Eu sinto muito.

Ela afagou os meus cabelos.

– Não é a sua culpa, Polly. Por Deus. Esse monstro precisa pagar pelo que fez.

E ele irá, mãe. Se depender de mim e de minha arma ele vai.

– Você vai contar ao meu pai? – Eu perguntei, preocupada.

– É melhor não, Polly. Seu pai tem a saúde frágil. Não devemos aborrecê-lo. Para ele, será uma tragédia. Ele nunca se perdoaria por não ter te protegido como deveria ter feito.

Eu começava a achar que aquela tinha sido uma péssima ideia. Eu deveria ter deixado meus pais em sua paz e esquecimento. Mas agora que eu estava ali, queria sentir o cheiro de casa só por uma noite. Tirar uma folga de todo pandemônio.

– Eu posso dormir aqui hoje, mãe?

Ela secou as lágrimas e um sorriso fraco tentou brotar ali.

– Eu não deixaria você dormir em nenhum lugar hoje se não fosse aqui. – Ela disse, beijando minha testa.

Minha mãe se levantou lentamente, na certa a procura dos seus calmantes. Mas antes, parou entre a porta e o corredor.

– Apesar dessa revelação horrível, eu ainda quero que se livre daquela arma, Polly. Para o seu próprio bem.

Acontece que nem sempre os pais sabem o que é o melhor para os seus filhos.

Mas esqueci por um momento que do meu lado havia um criado mudo que escondia uma arma. Escondi o meu diário para não mais causar sofrimentos com as minhas memórias. Cobri-me com minha manta de retalhos e peguei um livro na minha estante. “Alice no país das maravilhas”, para fugir da realidade. Eu era apenas uma garota, só por um momento. Apenas uma garota. Mesmo que aquilo fosse durar por pouco tempo.

Notas finais
Não se enganem! Polly não irá desistir dos seus planos de vingança! Mas às vezes eu tenho a necessidade de mostrar a vocês que ela ainda é humana! rsrs Então o que acharam? Não esqueçam de comentar! xD Ah sim, um feliz natal atrasado e um feliz ano novo!