Polly
19 Fugitivo
Notas iniciais
– Maldição. – Murmurei pela milésima vez, assim que me recuperei.
Com dificuldade eu me arrastei até a porta, mas já era tarde. Marcus havia ido embora. Sim, eu tinha absoluta certeza de que era ele. Nenhum ladrão deixaria a casa numa perfeita arrumação como estava agora. Não havia sinal algum de arrombamento, então a porta só poderia ter sido aberta por uma chave. E acima de tudo, não havia nada de valor naquela casa. Nem mesmo notebooks ou TVs super modernas.
Minha cabeça começava a latejar mais forte agora que a minha visão se recuperara. Levantei-me, mas ainda estava tonta. E eu sabia que o encontro repentino havia me detonado mais do que aquela queda.
Depois de todos esses anos eu o encontrara, e não estava preparada para isso. Só agora tive a ideia do perigo que correra. Minha arma estava dentro de uma mala, a poucos metros de onde ele esteve há poucos minutos. Se tivesse mais tempo para vasculhar, ele poderia ter me matado.
Ele sabe que estou o procurando. Não sei há quanto tempo, mas sabe. E agora está fugindo de mim. Eu havia me preparado por anos para esse encontro, e graças a um pequeno descuido tudo poderia ter sido em vão. A questão é que mesmo com o sucesso, tudo isso ainda poderia ser em vão? O que eu abriria mão para ter a minha vingança?
Todo aquele choque acarretou uma enchente de lágrimas que se misturaram ao sangue que escorria do meu rosto. Havia um pequeno espelho de moldura antiga de frente para mim, fazendo questão de denunciar a minha derrota.
Meu rosto estava vermelho e inchado, como sempre ficava quando caía em prantos. Um risco vermelho havia se formado acima da minha sobrancelha. Com certeza mais uma cicatriz. Meu cabelo parecia tão confuso quanto minha vida naquele momento.
Um relógio que ficava ao lado me gritou a hora. Eu tinha poucos minutos para pegar um ônibus e ir atrás da minha única pista sobre Marcus. Eu bem sabia que ele não estava longe de mim, estava mais perto do que nunca. Mas o último lugar para qual ele iria agora era para onde eu iria. Talvez se arriscasse vindo até aqui para me roubar a última pista, porém percebeu que tinha chegado tarde demais. Sei que ele está se preparando para me matar agora. Enterrar o seu passado para sempre. Aquele era o seu plano com Edith. Pela primeira vez sorri com a ideia de vê-la morta.
***
Olhando para o espelho do banheiro, limpei as feridas do meu rosto e improvisei um curativo. Pensei que havia fracassado, mas a verdade é que eu o havia surpreendido. Ele não contava com a morte de Edith, sua principal cúmplice e álibi desde sempre. E havia algo que para ele seria pior que tudo. Encontrar a mulher que eu havia me tornado.
Em sua mente, eu seria sempre a “sua Polly”. Uma garota ingênua de saia xadrez e cachos tão dourados e inocentes. Intocada, virgem. Somente sua. Mas é essa a imagem doentia que eu iria destruir. Uma tortura psicológica antes de acabar com ele para sempre.
Na cozinha, o porta-retratos onde a foto do feliz casal ficava estava despedaçado no chão. Talvez fosse isso que ele procurava, mas era tarde demais. Agora essa informação me pertencia. Embora soubesse que não o encontraria mais naquele lugar, afinal, Marcus sempre fora esperto. Mas algo me dizia que uma pista me esperava por lá.
Eu não podia mais demorar. Peguei as malas que já estavam prontas, e agora com a minha melhor amiga do lado eu me sentia mais protegida. Agarrei-a bem forte quando coloquei meus pés para fora de casa.
***
Quando peguei o ônibus, eu não sabia ao certo o que estava fazendo. Estava indo atrás de Marcus, ou fugindo dele? Pois ele não estaria lá, com toda a certeza. Entretanto, a curiosidade para saber onde ele se escondera durante todo esse tempo era enorme. Ele foi acolhido por uma família de fazendeiros, na certa amigos ou ex-funcionários do seu pai. Seriam essas pessoas tão ingênuas quanto Edith? Alguém saberia onde ele poderia estar agora?
A noite havia caído na paisagem de morros e araucárias que passavam na janela do ônibus. Provavelmente Marcus estaria se afastando ao máximo do meu destino. Mas eu estava seguindo as pistas, e eu podia sentir que encontraria algo importante por lá. Olhei para o meu relógio e ainda não se passava das sete. Eu não fazia ideia de como andar naquela cidade pequena, e não poderia chegar tarde demais.
Felizmente, o ônibus finalmente parou. O ponto de ônibus parecia deserto e eu esperava que algum táxi aparecesse para me salvar daquele frio congelante de agosto. Um taxi não apareceu, mas um carro misterioso sim. Por instinto tentei recusar, mas lembrei que ele não poderia fazer nada contra a minha amiga de pólvora ao alcance das minhas mãos.
– A moça quer que eu a leve até onde? – Uma mulher apareceu no banco do motorista. Suspirei aliviada.
– Para esta fazenda aqui. – Entreguei-lhe o endereço.
Entrei no carro e me permiti olhar o celular enquanto havia sinal. Klaus havia me ligado sete vezes, e várias mensagens. Ele não se cansava de perguntar para onde eu havia me metido e por que não me despedira dele. A última continha uma ordem que mais parecia uma ameaça. Eu sei que você está fugindo, e eu vou te encontrar.
Aos poucos a semelhança com o ar controlador do pai iam ganhando vida, e isso me fez estremecer. É melhor assim, repeti como um mantra.
Percebi que saíamos da cidade para o meio rural quando a facilidade das ruas de asfalto se foi e deu lugar a uma estrada de terra com várias pedras. Ainda bem que não chovia. A estrada vacilante durou o equivalente a uma vida, mas finalmente ela me deixou em frente a uma propriedade cercada.
Paguei-lhe o preço devido e abri a cerca. Havia um caminho iluminado por fracas luzes de um lampião, cercado por árvores que eu não podia identificar na escuridão e no sereno que deixava todo o caminho com um ar fantasmagórico. Encolhi-me com a minha bagagem, olhando para todos os lados e esperando o ataque vindo de alguma árvore.
Isso me fazia lembrar o bosque atrás do colégio... Os últimos momentos de Marcus comigo, Ian me salvando de toda aquela sujeira. Ah meu Deus, Ian! Eu havia prometido que contaria a ele todo o meu progresso, e mais uma vez o deixei de lado. Será que ele seria capaz de me perdoar pelo pecado de ser tão egoísta?
Tentei ao máximo afastar os pensamentos ruins e ainda estranhos ao meu coração. Comecei a avistar o enorme casarão e tive certeza de que aquela não era a casa de um antigo funcionário. Uma garota de cabelos louro-avermelhados estava a repousar numa rede. Parecia chorar e de repente aquilo atraiu toda a minha atenção.
Aproximei-me bem devagar, mas uma folha seca traiu o meu silêncio. A garota saiu correndo antes que eu pudesse ajudá-la.
– Anna! Quantas vezes eu já disse para não correres pela casa? O que foi agora? Um morcego te assustou?! – Disse uma voz feminina que vinha de dentro da casa.
Uma mulher robusta e vermelha me encontrou e rapidamente sua feição se alterou ao ver minhas malas.
– Uma hóspede! Perdão pelos modos da minha filha. Ela é um bicho do mato.
– Não ligo para isso. Eu pretendo ficar apenas por um tempo.
– Desculpe moça, mas é incomum recebermos uma pessoa a essa hora sem uma reserva antes.
Aquele era o início de uma pechincha. Droga, eu precisava vencer essa. Uma diária em um lugar como esse não era nada barato, e minha cota de pedir dinheiro emprestado à Nina estava para acabar.
– Na verdade, eu sou a indicação de alguém. Eu estava procurando por Marcus. Edith me contou que ele estava hospedado aqui.
A simples menção do seu nome foi a chave para tudo. O rosto da mulher robusta rapidamente se clareou num sorriso acolhedor.
– Então é conhecida de Edith e do amado Marcus? Por que não disse antes! Pode entrar, e te darei um bom desconto por novidades daqueles dois.
Ela me empurrou para dentro e pegou a minha bagagem. Tentou pegar a bolsa que continha a arma, mas eu a impedi. Depois daquele incidente na casa de Edith eu jamais a abandonaria novamente.
Quando entrei na enorme sala, não havia nenhum sinal de Anna. A sala continha uma enorme lareira e era maior que meu apartamento.
– Chegastes na melhor hora. Estamos indo jantar. Meu marido está impaciente por comida. Aceita jantar?
Afirmo que sim com a cabeça, percebendo que não tenho nada no estômago.
– Pode deixar que eu carrego a sua bagagem depois, querida. Agora vamos para a mesa.
Deixo-me guiar até a ampla sala de estar. Há uma grande mesa de mogno e toda a sala é coberta por fotografias de um fazendeiro e uma criança com ar de medo. Há uma adega de vinhos em uma das paredes, e um homem está virado para ela. Ele parece escolher minuciosamente.
– Anna querida, venha comer.
De repente a garota reaparece e agora posso observá-la melhor. Seu rosto está vermelho e inchado por causa das lágrimas, e por isso tive a impressão de ser uma criança. Mas seu corpo começa a exibir os pequenos sinais da puberdade. Ela deve ter no máximo uns treze anos. Ela me observa com medo, e senta-se bem longe de mim.
– Desculpe, mas ela sempre foi muito tímida. Agora não consegue pronunciar nada, mas a doutora logo irá ajudá-la. Não é mesmo, querida? – A mãe a beija na testa, mas a garota se esquiva imediatamente.
– A mocinha ainda não me disse o seu nome. – Ela acusa docilmente.
– Amanda. – Minto, com medo de Polly ser conhecida.
– Meu nome é Dolores e esse é o meu marido, o antigo delegado...
Vendido.
Não posso conter minha expressão de surpresa ao encontrá-lo. O cúmplice. Aquele que ajudou Marcus e me desamparou quando eu mais precisava de justiça. Com certeza era ele. Um pouco mais gordo. Seu bigode de Hitler agora tinha vários pontos brancos e estava careca, mas com certeza era ele.
O delegado me olhou como se tivesse me reconhecido, e por um momento pensei que fosse o meu fim. Ele buscou os óculos dentro do bolso do roupão, e forçou para me ver melhor.
– Qual o seu nome, guria? – Ele perguntou, e por um momento um branco expulsou meu pseudônimo.
– O nome dela é Amanda. – Dolores respondeu por mim, lançando um olhar enciumado para o marido. – Conhece a guria?
– Seu rosto não me é estranho...
– Meu rosto é muito comum, senhor. – Eu murmuro, sentindo-me enrubescer. Não pareço ter afastado todas as suas suspeitas, mas Dolores é a melhor para afastar aquele assunto.
– Então Amanda, conte-nos o que a traz aqui.
– Eu vim atrás de Marcus... Para dar uma notícia pesadora.
– E o que a torna intima da família para transmitir essa notícia?
– Sou a namorada do filho dele. – Minto, e todos parecem surpresos.
– Mas Marcus e Edith não tinham filhos...
– Ele deixou um bastardo na Europa . E na certa o bastardo veio atrás do dinheiro do pai. – O delegado resmungou e eu me controlei para não atacá-lo naquela hora.
Ele não tem o direito de falar assim de Klaus! Eu gritei por dentro, e os meus olhos transmitiram todo o ódio que eu queria lhe dirigir naquele momento. Dolores percebera o conflito e tentou mais uma vez apaziguar a situação.
– Perdoe o meu marido, seu vocabulário não conhece elogios. Mas então me conte, que notícia triste é essa?
Então lhes contei sobre a morte de Edith, o velório, e a tentativa de Klaus de avisar o pai o que tinha acontecido. Inventei a história de que passávamos férias na casa de Edith, até que ela exagerou com os remédios e não suportou. Dolores foi a que mais se surpreendeu, e o cúmplice apenas queria saber o que acontecera com Marcus. Anna continuava inerte em suas lágrimas, agora secas. E algo em mim dizia para ajudá-la.
– É uma perda e tanto. Eu não conhecia Edith, mas Marcus a elogiava bastante enquanto esteve aqui. Dizia que não havia mulher no mundo mais protetora. – Dolores suspirou nostálgica.
– Desculpe a intromissão, mas o que Marcus fazia aqui?
– Ah... Ele e Edith não estavam muito bem. Acho que estava aqui para tirar uma folga das brigas. Talvez seja por isso que ela exagerou tanto nos remédios... Mas não, não pense que Marcus é um homem ruim. Ele ajudava a nossa pequena Anna com as questões do colégio. Ela estava se tornando uma artista nata! – Dolores era todo elogios, mas uma ideia terrível se apossava de minha mente agora.
Anna se esquiva de carícias, assim como eu. Tem medo de estranhos na escuridão, assim como eu, mesmo que eu tenha como me defender. Mas Anna não tem como se defender. Anna tem treze anos, eu tenho vinte e três. Anna se arrepia quando escuta o nome de Marcus. E mesmo depois de dez anos, eu também. Não... Não pode ser possível...
– Amanda querida, você está bem? – Dolores pergunta, e percebo que meu sangue fugiu do rosto. – Desculpe a indelicadeza, mas o que houve com o seu rosto?
É como se eu olhasse para o passado e me visse como uma garotinha, com cabelos separados num penteado infantil, com medo e se afastando dos pais, pois eles não podem entender, Marcus é o exemplo de professor... Por que ele desapareceu do nada...
As fotos. Aquela criança assustada em preto e branco é ele. Essa é a sua casa de infância.
– Desculpem-me, mas eu perdi o apetite. Se não se importam, eu gostaria de descansar. – Com dificuldade, eu retorno a minha sanidade.
– Tudo bem Amanda. Anna irá te mostrar o seu quarto. – Dolores responde, agora não tão calorosa.
Temerosa, Anna se levanta e me acompanha. Mas antes de sair, posso ouvi-lo murmurar bem baixinho
– Não confio nessa guria.
***
Olho para a garota ao meu lado. Eu preciso falar alguma coisa, preciso dizer que a entendo. Era o que eu queria ouvir na sua idade. Mas como? Como eu gostaria de ser psicóloga como a minha tia.
Ela abre a porta e me entrega as chaves.
– Quer entrar? Pode me ajudar com as malas. – Tento começar uma conversa, mas ela tenta se afastar ao máximo da porta.
O seu asco demonstra que aquele era o quarto de Marcus, e por um momento eu também não quero entrar. Mas decido e entro sozinha.
O quarto tem uma cama de dossel em mogno com uma colcha vermelha. Uma cortina branca esconde a janela. Há uma cômoda antiga, mas decido deixar minhas roupas dentro da mala. Há mais quadros com fotos antigas da família de Marcus, mas dessa vez uma foto de uma garota ao seu lado. Tento não olhar para todas aquelas fotos, e decido que preciso de um banho quente para pensar em tudo.
Quando a água quente chicoteia as minhas costas marcadas, eu deixo que minha mente se limpe de todas as impurezas. Mas não consigo tirar a imagem terrível. Tantas perguntas que eu gostaria de fazer. Por quanto tempo? Por que ela não buscou ajuda? Queria lhe mostrar que eu iria ajudá-la, acabando com ele.
Mas ao mesmo tempo uma culpa pesava sob a minha consciência. Se eu tivesse acabado com ele antes, ela não passaria por isso. Seria apenas uma menina inocente crescendo no interior. Mas agora ela fora apresentada a uma das piores formas de maldade do mundo.
Sai do banho e vesti um grosso casaco para fugir do frio. Eu precisava conversar com alguém. Eu me sentia sozinha e perdida, e apenas uma pessoa teria a palavra certa para me reconfortar. Peguei meu celular e disquei o número.
– Polly?
– Ian. –Suspirei aliviada em ouvir a sua voz.
– Você está bem? Aconteceu alguma coisa? – Ele parecia preocupado. Claro, eu finalmente tinha me lembrado dele.
– Eu não tenho certeza se estou...
– Polly o que está acontecendo?!
– Eu precisava ouvir a sua voz...
– Polly! Me diz logo o que houve ou eu vou atrás de você agora.
E calmamente, eu lhe expliquei o problema de Edith e o súbito encontro com Marcus. Como eu já esperava, Ian surtou comigo e parecia possesso.
– Como assim?! O que ele te fez?! Polly, você prometeu que iria me ligar se estivesse correndo perigo. Você prometeu!
– Desculpa Ian. Mas eu estou bem, eu juro! Eu estou bem perto, e eu preciso conseguir isso sozinha.
Seguiu-se um grande silêncio do outro lado da linha, e eu percebi que ele respirava fundo. Ian e seu temperamento explosivo sempre se acalmavam desse jeito.
– Eu nunca vou me perdoar se acontecer alguma coisa a você. Embora eu saiba que você pode muito bem se virar sozinha.
Havia um tom de tristeza em sua voz. E eu sabia quem era a causadora disso.
– Eu sempre vou precisar de você, Ian.
– Fico feliz que não tenha se esquecido de mim.
Eu pude sentir que um sorriso se formava em seu rosto.
– Mas não foi para falar sobre mim que eu liguei, foi sobre Anna.
– Que Anna?
– Uma garota de treze anos que também foi vítima de Marcus.
–Você tem certeza disso? Conversou com ela? Eu não acredito que esse monstro...
– Eu ainda não conversei com ela, ela está muito assustada. Mas eu sinto... Eu sei exatamente como ela se sente. Eu poderia ter evitado isso, eu...
– Polly, não foi sua culpa. – Ian disse calmamente. – Você precisava do seu tempo para se preparar, e agora você a melhor pessoa neste mundo para ajudá-la.
Eu respirei fundo e fui até a porta. Abri calmamente e fitei o corredor escuro, esperando algum vulto de coragem. Eu não sabia o que fazer, só conseguia pensar em Ian para me consolar naquele momento.
– Queria que você estivesse aqui. – Eu me peguei murmurando, sem ao certo saber por que estava dizendo aquelas coisas. Aquele não era o momento apropriado.
– Estarei aqui quando você resolver voltar. – Era perceptível o sentido ambíguo de suas palavras.
– Obrigada por tudo, Ian. Te amo.
Assim que desliguei percebi o conflito que eu havia criado com aquelas poucas palavras. Senti meu rosto corar com a confissão e minhas mãos trêmulas quase deixaram o celular cair. Ian estava retornando a ligação e eu não tinha coragem de aceitar. Não agora. Estava confusa, ele estava confuso, mas uma pessoa merecia muito mais a minha atenção do que aquele dilema.
Caminhei lentamente até a porta do seu quarto. Havia uma gravura com o seu nome na porta. Quase tão tensa quanto ela, bati a porta, a espera de uma resposta. O rosto pálido e cansado de Anna apareceu de soslaio e eu forcei um sorriso, buscando algum motivo para estar parada na porta do seu quarto àquela hora.
– Boa noite. – Sorri, mas não fui compreendida. – Eu... só queria saber se estava tudo bem. Péssimo começo, Polly.
Ela permaneceu imóvel me fitando com aqueles grandes olhos umedecidos. A única coisa que parecia se mexer era a sua mão, que tremia um papel em branco. Assim que o percebi, o papel caiu sob meus pés. Anna teve finalmente uma reação e tentou recuperar o papel, assustada, mas eu fui mais rápida que ela. Do outro lado havia um desenho.
– Então é uma artista? Isso é ótimo! Meus parabéns. – Eu disse antes de ver o desenho, pois quando ergui até a minha visão eu tive uma surpresa.
Anna de fato possuía talento, mas a visão daquele desenho era perturbadora. Uma garota estava amarrada, mas seu rosto estava coberto pelos cabelos que se misturavam às lagrimas. E uma sombra com um sorriso diabólico e olhos cor de âmbar a puxava para si, com as garras negras sobre os seus pequenos seios. Automaticamente fui atormentada pelas lembranças daquele terrível dia, mas bloqueei, pois Anna precisava de mim e dessa vez eu não iria falhar.
– Eu conheço esse monstro. – Eu murmurei para ela, enquanto sentia meus olhos queimarem. Ela negou raivosa, como se dissesse que ninguém o conhecia.
– Não estou mentindo. Eu sei o que Marcus é. Eu sei o que ele fez com você, porque ele fez o mesmo comigo há exatamente 10 anos atrás. – Ergui a minha mão para mostrar a minha cicatriz.
– Eu vim te ajudar. – Ela olhou para mim confusa. Seu rosto encharcado de lágrimas.
Mas lentamente ela abriu a porta para mim, e percebi que ela depositava confiança. Entrei lentamente em seu quarto. A parede era de um lilás inocente, e sua cama era coberta por uma manta xadrez, em contraste com as cortinas brancas esvoaçantes feito fantasmas. Tudo parecia normal para uma pequena garota de sua idade, se não fosse pelos inúmeros desenhos espalhados, todos como uma cópia do desenho que eu tinha em minhas mãos.
Eu sei o que ela estava tentando fazer. Ela queria se livrar daquelas imagens e a arte era sua forma de expressão. Eu não possuía o mesmo talento, mas meus dias foram regados com desabafos escritos num diário, às vezes rasgando as folhas com o desespero da caneta, e borrando as palavras tenebrosas com lágrimas. Eu olhei um por um e sentei-me ao seu lado.
– Por quanto tempo? – Foi a primeira coisa que lhe perguntei. Anna apontou para cada desenho. Ao todo eram vinte.
Vinte vezes! Ele havia se superado dessa vez. Todas aquelas aulas particulares, ele tinha a confiança de todos! Eu queria abraçá-la e protegê-la de todos os males, mas eu sei que isso seria terrível agora.
– Ele também foi meu professor. Eu confiei nele e ele roubou minha inocência e a minha paz. Eu sei, eles não entendem. Não contei aos meus pais, pois tinha medo e vergonha. Só hoje percebi que errei. Eu nunca deveria sentir vergonha disso e você também não. – Arrisquei limpar uma lágrima do seu rosto.
Disse para mim mesma que o mais prudente seria esconder o fato de que o próprio pai dela havia o acobertado uma vez. Ela não precisava de mais esse choque de realidade. Com o pouco que sabia ela me encarava pedindo respostas.
– Eu estou aqui para te ajudar. Durante um bom tempo eu cresci aprendendo a me defender, e isso poderia ser bom para você também. Saber me defender trouxe de volta um pouco de paz, mas ainda não era suficiente.
Era imprudente lhe revelar aquilo. Mas Anna era uma garota tímida, e agora, traumatizada a ponto de não conseguir falar. Seu ódio por Marcus era grande, quiçá maior que o meu. Eu sentia que se confiasse nela era confiaria em mim.
– Vou te contar um segredo, pois eu sei que você não vai contar a ninguém. Eu aprendi vários truques de luta e agora tenho uma arma. Eu segui monstros iguais ao Marcus, para que pessoas que me importavam sentissem a paz de volta. Eu as ensinei como se defender. E agora eu farei isso por nós duas. Eu estou caçando-o, e talvez você possa me ajudar.
Pela primeira vez vi seus olhos brilharem. Um suspiro de alívio cortou um soluço do choro. Anna me olhava como se eu fosse sua única esperança. Ela levantou-se e arrancou todos os desenhos da parede e depositou em minhas mãos.
– Obrigada. – A palavra escapou tímida de seus lábios, quase com medo de ser uma palavra. Mas aquilo me encheu de esperança, pois eu conseguira ajudá-la um pouco.
– Eu que agradeço, querida. E eu não vou falhar dessa vez. Durma tranquila, pois agora você não está sozinha. – Eu sorri para ela e percebi que seu rosto se contraía, tentando corresponder.
***
Deixei que Anna descansasse, feliz ao saber que ela não mais adormeceria chorando ou desenhando monstros dentro do seu quarto. Voltei ao meu, que me enojava mais a cada minuto, e analisei minuciosamente cada pintura. Todas possuíam datas, e eu organizei desde o primeiro dia até o segundo. Foi-se seguindo um padrão até a data mais recente.
O último desenho era o único diferente. A sombra que representava Marcus, corria por um caminho de pedras, indiferente à garota. Desta vez ela se cobria, a face do medo e da vergonha. Olhei para os cantos do desenho, e bem distante havia uma placa com um coelho na toca. Bufei desapontada. O que aquilo queria dizer? Marcus estava indo se esconder? Mas onde era a sua toca? Ah Anna... Minha intuição dizia que ela sabia de tudo, mas ainda era cedo para conseguir dizer.
Desapontada com a minha falha descoberta, abri a gaveta do criado-mudo para guardar todos os seus desenhos. Talvez amanhã com mais calma eu encontrasse algo que tivesse deixado passar. Enquanto isso, retirava todas as coisas que atrapalhavam a gaveta. Foi quando me deparei com um planfleto.
Era um anúncio de várias pousadas. Entre elas, uma chamou minha atenção. O nome era pousada toca do coelho. Olhei para o desenho e para o panfleto, dentro do quarto do monstro, a pista perfeita. Só podia ser. Uma onda de adrenalina percorreu o meu corpo.
– Te encontrei. –Murmurei olhando para o nada, esperando que no mais tenebroso dos seus pesadelos ele pudesse me ouvir.
Fale com o autor